DEU NO X

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O JOVEM ESPANHOL

Carmencita Martínez, costureira, vivia em sua terra, Espanha. Bonita, mas infeliz, o marido alcoólatra, batia nela. Certo dia conheceu um brasileiro alegre, malandro; apaixonou-se. Combinaram, ela deixou o marido em Barcelona, fugiu de transatlântico para o Rio de Janeiro, levou o filho Alejandro de 12 anos. Durante a travessia do Oceano, outra decepção, flagrou seu novo amor abraçado com a camareira. Briga para lá, briga para lá, ficaram sem falar. Quando o transatlântico atracou na cidade de Maceió, Carmencita desceu para espreitar um pouco a cidade, quando conheceu as praias, ficou fascinada, retornou ao navio fez as malas, desceu para sempre, adotou a cidade nordestina como sua nova pátria. A fuga de Carmencita e seu filho aconteceu há 11 anos. Como excelente costureira, logo se adaptou. Hoje tem ótima clientela e vive com o filho num apartamento na praia de Ponta Verde.

Alejandro Martínez vinte três anos, mais de 1,80 metros de altura, corpo de atleta, cara bonita. Xodó das meninas na Faculdade de Direito.

Meses atrás, Alejandro iniciou, junto com colegas, a frequentar algumas aulas particulares de Direito Constitucional, matéria mais difícil da Faculdade e de todo o Brasil. Dora, a professora aposentada, cinquenta e poucos anos, senhora letrada, inteligente, de um bom humor notável. Dá essas aulas em seu apartamento para alunos da Faculdade, até para se ocupar, para se distrair. Tem ótimo salário de aposentada.

Dora foi muito poderosa nos bastidores da política. Nas brigas do poder ela metia a mão, elegantemente, protegendo seus partidários no emaranhado da corte. Seja no poder Executivo, Judiciário ou Legislativo, durante o mandato de seu amante governador, ela foi muito ouvida, teve poder de decisão. Esse poder conquistou pela inteligência, conhecimento de Direito, firmeza e posições tomadas, principalmente na cama.

A coroa tem ânsia de viver. O mais de meio século não deixou marcas na jovem alma. Corpo bem cuidado, bem moldado; com ajuda das academias e cirurgiões plásticos.

Mulher de muita leitura, gosta de fazer cursos, atualizar-se, aprender. Inventou esse curso de três meses, todas as quartas e sextas-feiras à noite. Os alunos são duas jovens e três rapazes. Alejandro a via como uma irmã mais velha, mas apreciava os decotes ousados dos vestidos de alegre professora.

Certa sexta-feira, terminando um trabalho em grupo; mais de duas horas de discussão numa mesa circular, deixaram a conclusão do trabalho para o outro dia, sábado às dez horas. Dora ofereceu um gostoso lanche: moqueca de siri mole, regado a vinho branco e uísque. Foi o ponto alto da noite. O grupo se divertiu até tarde, ouvindo boa música, papo alegre, inteligente. Alejandro dedilhando um violão, cantou: “Dora, rainha do frevo e do maracatu…”. Recebeu um beijo lambido no ouvido.

Dia seguinte logo cedo, Dora foi ao mercado comprou camarão e arabaiana. Ligou para todos os componentes do grupo, se desculpando, pedindo para adiar o trabalho para a quarta-feira. Não telefonou para Alejandro. Quando o espanhol, carregando livros e cadernos, embaixo do braço, pontualmente tocou a campainha, Dora abriu a porta do apartamento, com um largo sorriso e um bom-dia. Estava maravilhosa de vestido azul claro bem decotado, colado ao corpo, sapato alto. Alejandro estranhou quando sua amiga falou no trabalho adiado. Convidou-o para entrar, seria uma companhia agradável se ficasse para bebericar um pouco.

Sentaram-se na varanda com vista para a praia, o mar e as palhas dos coqueiros. O uísque rolou, bons tira-gostos, até Dora servir o peixe com camarão. Almoço divino.

Ao voltar para a varanda, tomaram licor. Eram três horas quando Dora colocou uma música suave, americana, iniciava: “Heaven I’am heaven…”, isso é, “Paraíso, estou no paraíso”. Alejandro deu-lhe a mão, saíram dançando, escorregando pela sala, ele cantava a canção em seu ouvido, puxava seu corpo com vigor, iniciaram uma seção de carinho e carícias. Beijaram-se. Ela sussurrou, pediu para ser levada ao quarto. Num impulso, colocou-a nos braços, empurrou a porta, entrou no quarto, soltando-a ternamente na cama. O resto é silêncio, como diria Shakespeare.

Depois dessa tarde de muito amor, os dois continuam se encontrando secretamente no mínimo duas vezes por semana no belo apartamento da coroa, que continua poderosa. Faz o que quer do jovem espanhol.

DEU NO JORNAL

LINGUAGEM NEUTRA

Nikolas Ferreira

Conveniente, não coerente: à véspera das eleições, a esquerda abandona a linguagem neutra por votos. Coerência segue supérflua

Nada como a aproximação de um ano eleitoral para fazer a esquerda “abandonar” as pautas inúteis que defende o tempo todo. Na última segunda-feira, 17, Lula sancionou a legislação que veta a utilização da “linguagem neutra” por órgãos públicos em todas as instâncias do país. Claro que isso não se trata de um reposicionamento, mas de pura conveniência política.

Para quem não se lembra, membros do governo Lula utilizaram linguagem neutra em diversas ocasiões. O “todes” foi citado por Janja Lula da Silva e por outros participantes em um evento relacionado ao Ministério da Cultura, pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, além de ter aparecido em cerimônias dos ministérios da Fazenda e dos Direitos Humanos. Ou seja, a imposição desse tipo de linguagem ocorreu repetidamente nos últimos anos.

Em 2024, Lula esteve no comício de campanha de Guilherme Boulos, candidato derrotado à prefeitura de São Paulo, e, durante a atração, ambos cometeram o absurdo de cantar o Hino Nacional em linguagem neutra, um total desrespeito a algo que simboliza a identidade e o orgulho nacional.

O episódio gerou tanta revolta que o psolista teve de excluir a publicação de suas redes sociais, mas a esquerda claramente não se importou. Em março deste ano, foi noticiado que o PT contratou a mesma empresa responsável pelo “hino neutre” para prestar serviços ao partido.

O mais irônico é que, para além das questões ideológicas e dos prejuízos educacionais que a linguagem neutra causa a uma educação já precária no Brasil, em 2023, ainda enquanto vereador, meu projeto de lei que veda o uso do “e” como gênero neutro em substituição às formas masculina e feminina, preservando a nossa língua portuguesa, foi aprovado com folga em Belo Horizonte.

Apesar do veto do então prefeito Fuad Noman, derrubamos a rejeição na Câmara e o PL foi promulgado. Como era de se esperar, a esquerda não aceitou uma decisão totalmente democrática e acionou o STF para derrubar a lei, que posteriormente foi declarada inconstitucional pelo Supremo. Curioso como, em momentos convenientes, a Constituição — tão desrespeitada atualmente — é lembrada para decisões específicas.

Pois bem, durante esse processo, a esquerda promoveu uma série de ataques contra mim, utilizando as mesmas acusações infundadas de sempre. Disseram que eu era transfóbico, que eu não respeitava a inclusão — como se isso fosse inclusão — e por aí vai.

Tanto Lula quanto seus aliados sabem que a grande maioria da população rejeita totalmente a linguagem neutra, que não é unânime nem mesmo entre os próprios progressistas.

Os mesmos que me atacaram agora estão calados, porque são obrigados a aceitar tudo o que o “chefe” diz e faz, ainda que não seja o que a esquerda realmente quer. Uma militante que vive me xingando e que elogiou o Hino Nacional cantado em linguagem neutra, após a decisão contrária de Lula, ressaltou a importância de seguir a norma culta da língua portuguesa e afirmou que a linguagem oficial não é lugar para experimentações. Pois é: isso é exatamente o que eu e praticamente toda a população pensamos, mas que gente como ela só tem coragem de admitir se estiver previsto na cartilha de quem dá as ordens.

Esse movimento revela uma característica comum nos militantes mais fanáticos: a completa submissão ao líder, não às ideias. Pensam de um jeito hoje, mas mudam instantaneamente quando a postura oficial da liderança muda. E fazem isso com a certeza de que ninguém cobrará coerência, afinal, o objetivo não é defender valores, mas proteger os seus a qualquer custo.

O resultado é previsível: o debate público perde honestidade, as palavras deixam de refletir convicções e passam a apenas replicar ordens. A cada nova decisão, a cartilha ideológica se reescreve, e eles seguem obedecendo, mesmo que isso signifique contrariar o que defendiam com fervor poucos meses atrás. No fim, a grande verdade é simples: para a esquerda, coerência é supérflua. Vale tudo para manter as narrativas.

DEU NO X

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

MÁ EDUCAÇÃO

O Brasil, embora seja um dos países que mais gastam com educação (cerca de 5% do PIB, acima de Suíça e Coréia do Sul), está cada vez pior em tudo que diz respeito ao assunto. Quem quiser pode pegar os números de estudos internacionais como o PISA. Quem preferir, basta assistir à TV ou ler as redes sociais para constatar que o brasileiro médio é incapaz de acertar uma concordância, ignora mais da metade das conjugações verbais e não consegue compreender frases com construção mais complexa que o básico sujeito-verbo-predicado.

Um instituto chamado INAF (https://alfabetismofuncional.org.br/) estima que 30% dos brasileiros são analfabetos funcionais e outros 36% são semi-analfabetos. Pior que isso: entre os brasileiros com curso superior, analfabetos e semi-analfabetos somam 39%, e apenas 23% são considerados “proficientes”. Então é o caso de se perguntar: escola para quê?

Alguns dos problemas de nosso sistema de ensino são óbvios: gasta-se mais com três milhões de alunos de universidade do que com quarenta milhões de alunos do ensino fundamental; os burocratas de Brasília insistem em controlar e regulamentar cada detalhe das milhares de escolas pelo país; a família é vista como inimiga e não como parceira indispensável do processo de educar uma criança.

Os burocratas da educação brasileira mal disfarçam que no mundo com que eles sonham, crianças só iriam para casa para dormir. O mantra básico de todos eles é “mais verba!”, e entre as justificativas, sobressaem duas: as crianças devem ir para a escola cada vez mais jovens, e ficar lá cada vez mais tempo. Para quê? Para ensinar é que não é: o mundo acadêmico concorda que crianças com menos de sete anos são incapazes de raciocínios abstratos, o que torna impossível ensinar matemática, ciências ou mesmo gramática. Algumas crianças aprendem a ler aos quatro ou cinco anos, mas a capacidade de compreender e interpretar o que lêem demora mais.

Por outro lado, na hora de impôr modelos de comportamento, quanto mais cedo melhor. Frequentando creches desde alguns poucos meses de idade, ao chegar ao ensino fundamental as crianças já estão perfeitamente condicionadas a não ter individualidade, a se comportar como membros de um grupo homogêneo em que todos agem e pensam da mesma forma, e obedecem sem questionar a todos os rituais estabelecidos: fila para entrar, fila para sair, hora para comer, hora para brincar, hora para ir ao banheiro e, principalmente, jamais ser diferente dos outros.

Costuma-se falar da escola contrapondo os conceitos de “educar” e “ensinar”. Na minha opinião, o que a escola brasileira faz é adestrar, de forma muito parecida com o que se faz com cachorros e cavalos. A razão de ser de todo o sistema é impôr a todos um padrão de comportamento que atenda ao politicamente correto, desestimule o pensamento crítico e, acima de tudo, produza pessoas dóceis, obedientes e dependentes do governo. Escolas e universidades não são lugar para pensar: são lugares para repetir incessantemente o comportamento esperado. Aula de história? Decore o nome das batalhas da Guerra do Paraguai. Aula de geografia? Decore o nome dos afluentes do rio Amazonas. Aula de língua portuguesa e literatura brasileira? Decore o nome dos poetas parnasianos. Se decorar tudo direitinho, ganha de presente um diploma.

Já estamos pelo menos na terceira geração formada por esse modelo. O pai que frequentou durante anos uma escola que não ensinou nada, apenas exigiu que ele cumprisse o ritual de ficar X horas sentado na cadeira para acumular N créditos e conseguir um diploma, não vai questionar se seu filho está aprendendo ou não: ele vai aconselhar o filho a seguir o mesmo caminho e não reclamar.

E como o “dinheiro da educação” no Brasil é coisa de centenas de bilhões de reais por ano, há muita gente que tem todo o interesse do mundo em manter a coisa desse jeito. Já imaginaram se as pessoas descobrem que um jovem motivado pode aprender mais com um tablet ligado à internet do que com o professor funcionário público que dá a mesma aula faz vinte anos? Então aparece todo tipo de apelação e mentira para manter a farsa do jeito que está.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

VIA DE REGRA

José Inácio de Abreu e Lima

INSTRUMENTO LITERÁRIO – Há uns 20 anos, quando o jornalismo ainda não servia de instrumento para a compra e venda de notícias, os profissionais do ramo se esforçavam para apresentar seu trabalho nas folhas, sob a predominância do bom domínio da literatura e da verdade.

VIA DE REGRA – Antigo Editor dos meus primeiros livros implicava comigo ao ver expressões pouco usadas que pudessem dar a entender alguma conotação incômoda às interpretações. A exemplo: “via de regra” que poderia se entender como: vagina.

APLICAÇÕES LATINAS – Convivi com mestres do jornalismo e da literatura, durante meu longo estágio no Grêmio Cultural Joaquim Nabuco, dentre eles: Valter de Oliveira, Amílcar Dória Matos e Lelino Manzela, que faziam questão de aplicar palavras e frases pouco conhecidas, empoladas até, para demonstrar que eram cultos. O latim, então, “dava no meio da canela”!

VERNACULAR SIMPLESMENTE – Até quando, crescidos, compreenderam que a linguagem jornalística na literatura seria mais aceitável, porque fácil de entender seria. De tal forma que, do latim, entre outras palavras e expressões, fiquei bem lembrado de não abreviar o etcetera, palavrinha marota e pouco conhecida e bastante usada sob abreviação.

BREVES NOTÍCIAS – Sempre dei preferência às notícias breves, com palavras simples, porque atraem o leitor. Nestes dias venho assinalando noticiário desengavetado dos meus arquivos, publicando aqui, assuntos que estiveram entre meus escritos para o site da Cia. Editora de Pernambuco e no Diário de Pernambuco, entre agosto e novembro de 2003.

COMPARANDO ÉPOCAS – Recordemos: Visita do Presidente Luiz Inácio à Venezuela insinua que a refinaria de petróleo poderá vir a ser em Pernambuco e terá o nome do General Abreu e Lima. Já naqueles tempos havia muita proximidade com a turma bolivariana. Hummmm!

CHAVES FRIAS – Houve ampla propaganda em jornais, rádios e tv sobre a visita do Presidente daquele país amigo, sr. Hugo Rafael Chávez Frías, que esteve em Suape e anunciou, entre abraços e sorrisos, a parceria.

GOOGLE NOTÍCIA – No atual “Pai dos Burros”, o Google, tomamos conhecimento: “A Venezuela não tem mais participação na Refinaria Abreu e Lima. O acordo inicial de parceria, que previa participação da PDVSA (estatal venezuelana), nunca foi formalizado com um contrato definitivo”.

RABICHOLA SUJA – A Venezuela nunca realizou os investimentos necessários a fim de consolidar o compromisso. Em 2013, a estatal venezuelana abandonou o projeto, e a Petrobras amargou sozinha as despesas de construção.

GENERAL HISTÓRICO – O significado da homenagem tem razões indiscutíveis. Segundo várias fontes consultadas, José Inácio de Abreu e Lima nasceu no Recife, em 1794, foi jornalista, escritor e militar, incorporando-se ao exército de Simon Bolívar, com a patente de capitão, e participou das batalhas decisivas na luta de libertação de vários países, inclusive a Venezuela.

ILUSTRE SEPULTADO – Meu saudoso mestre, o historiador Flávio Guerra me informou que Abreu e Lima é o único brasileiro sepultado no cemitério dos ingleses, no Recife.

E na busca de minhas notas, encontrei: “Por conta de suas ideias de liberdade religiosa e devido ao fato de ser maçom, o bispo católico Dom Francisco Cardoso Aires não autorizou seu sepultamento no Cemitério Senhor Bom Jesus da Redenção, no bairro de Santo Amaro das Salinas, no Recife, sendo o General Abreu e Lima sepultado no Cemitério dos Ingleses, na mesma cidade, por deferência co Cônsul Geral daquele país.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

VALENTINA BENATTI – BLUMENAU-SC

Aconteceu em  Berlim do Pará:

Incêndio na COP30.

Faltou comida
Sobrou vexame
Faltou estrutura
Sobrou humilhação
Faltou papel higiênico
Sobrou incompetência

DEU NO X