LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

ALEXANDRE GARCIA

COP 30 DESANDA: CHUVA NO INÍCIO, FOGO NO FIM E MAIS DESGASTE

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, reconduzido ao cargo com os votos de 45 senadores, denunciou o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o jornalista Paulo Figueiredo por coação no curso do processo. A denúncia foi aceita pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). O Figueiredo não deveria ser julgado pelo Supremo, ele não é deputado, não é senador, não é ministro, mas está lá. São esses milagres jurídicos que acontecem hoje.

Gonet disse que os dois “apresentaram-se como patrocinadores dessas sanções, como seus articuladores e como as únicas pessoas capazes de desativá-las” e “para a interrupção dos danos, objeto das ameaças, cobraram que não houvesse condenação criminal de Jair Bolsonaro na AP 2.668”.

Crime de coação com base em falas em rede social. O mais importante é que um dos atingidos pela perda do visto americano é o próprio procurador. Gonet está denunciando as pessoas que, segundo ele, seriam capazes de patrocinar e anular essa sanção, os donos das sanções.

Para o procurador-geral, foram essas pessoas que tiraram o visto dele. Se ele é a vítima, deveria se declarar impedido de denunciar. Todos os ministros que aceitaram a denúncia também foram sancionados com a perda de visto, ou seja, também são as vítimas e deveriam se declarar impedidos de julgar. Tudo é muito estranho.

Até o principal atingido, o ministro Alexandre de Moraes, que é alvo da Lei Magnitsky, aceitou a denúncia. A decisão da Turma foi unânime. Uma unanimidade com quatro ministros. Ao todo, o Supremo tem onze. É absurdo. O Brasil vive em um tribunal de exceção, que é proibido pela Constituição.

O presidente Lula está sentindo o desgaste do PT após a aprovação do projeto de lei antifacção na Câmara dos Deputados por 370 votos a 110. O governo não queria punir facções criminosas e pediu para a base votar contra o substitutivo apresentado pelo relator, Guilherme Derrite (PP-SP). Esse é o tamanho do governo: só 110 votos entre 513 deputados.

* * *

COP 30 termina em caos

Lula indicou o ex-ministro José Dirceu, o cérebro mais brilhante do PT, para reorganizar o partido. Ele pode buscar outra ideologia ou talvez uma nova doutrina, já que o partido está muito fisiológico. Depois que o PT assumiu o governo, foi contaminado pelo poder. O poder contamina.

Ele está preocupado com a eleição do ano que vem e tem cometido tantos erros. A COP 30, que começou com chuvarada, terminou com fogo. Foi uma sucessão de desastres. O jornal britânico The Telegraph disse que o evento foi “mergulhado no caos” devido ao incêndio registrado nesta quinta-feira (20). Um fiasco atrás do outro. O presidente do PT, Edinho Silva, que também é um petista histórico, é quem vai coordenar a sigla na eleição de 2026.

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Trump fez bem em sancionar divulgação do caso Epstein

O Itamar Franco fez isso quando era presidente do Brasil. Agora, Donald Trump está fazendo o mesmo nos Estados Unidos. Trump sancionou o projeto de lei que obriga a divulgação dos arquivos sobre Jeffrey Epstein. O presidente americano é alvo de fofoca envolvendo o caso.

As autoridades devem mostrar como Epstein morreu na prisão, em 2019, em um aparente suicídio. Tudo vai aparecer. O processo que está no Departamento de Justiça será aberto, incluindo os nomes dos envolvidos. Democratas e republicanos apoiaram esse projeto de lei, e Trump fez muito bem em sancioná-lo.

Além disso, ele não aceitou a proposta do ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, que propôs deixar o poder em dois anos. Trump disse não. A María Corina Machado, por sua vez, pediu que as forças de segurança venezuelanas baixem as armas quando for a hora. O Maduro, pelo jeito, já está rifado.

Quem não está bem é a Ucrânia. Nos últimos confrontos, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, não quis fazer o que Trump tinha sugerido. A Rússia tem mais capacidade de continuar guerreando. Zelensky foi à Espanha e à França pedir a venda de 100 aviões. Ele conseguiu garantir na Grécia o fornecimento de gás americano. A Ucrânia está recebendo gás americano e na COP 30 há quem não queira mais perfurar poços de petróleo ou de gás.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

UM BRANCALEONE CARIBENHO

Flávio Gordon

venezuela estados unidos flechas envenenadas

Venezuelanos prontos para resistir a um ataque norte-americano, segundo Nicolás Maduro

Como costumo dizer, o realismo mágico haveria mesmo de ter surgido na América Latina. Não é possível descrever a política latinoamericana – e, mais especificamente, as desventuras do que Hugo Chávez batizou de “socialismo do século 21” – sem recorrer a esse gênero literário tão regionalmente marcado. Vejam que espetáculo garcia-marquezista ou cortazariano não nos oferece o ora pacifista Nicolás Maduro, o narcoditador que canta Imagine e, com os olhos fitos, repete a palavra “peace” feito um alucinado.

Depois dos 4,5 milhões de milicianos convocados pelo regime chavista – uma cifra tão magicamente real quanto o número de filhos do coronel Aureliano Buendía –, Diosdado Cabello agora anuncia que “irmãos indígenas” ensinarão o uso de flechas envenenadas com curare, a “arma silenciosa” da selva. A cena tem tudo para entrar no romanceiro regional: um déspota que, incapaz de gerir um Estado, mobiliza mitologia e arcos rústicos contra porta-aviões. Para o azar da narcoditadura, a vida real lida com números, e eles não são indulgentes.

Comecemos pelo básico: dinheiro. Em 2024 os Estados Unidos gastaram quase US$ 1 trilhão em defesa – mais exatamente, US$ 997 bilhões –, total que supera em várias ordens de grandeza o orçamento militar venezuelano e equivalentes regionais; é mais de três vezes o gasto da segunda potência mundial. Orçamento não compra tudo, mas compra a logística, os sensores, as munições, a manutenção e a cadeia de combate que transformam exércitos em forças projetáveis.

Traduzindo orçamento em homens e plataformas: o Pentágono sustenta cerca de 1,3 milhão de militares em serviço ativo, além de mais de 700 mil reservistas – um aparato humano continuamente treinado, equipado e sustentado por uma indústria de defesa robusta e por bases globais. A comparação direta com a Venezuela é humilhante: estimativas confiáveis colocam as forças armadas venezuelanas em algo entre 100 mil a 150 mil efetivos ativos, com dezenas de milhares de guardas nacionais e paramilitares, e um inventário de equipamentos envelhecido ou limitado. A diferença de escala operacional é, em uma palavra, abissal. Fora da literatura mágico-realista, soldados espectrais não contam.

A disparidade material é ainda mais gráfica nas plataformas-chave. Os EUA operam 11 porta-aviões nucleares – centros móveis de projeção de poder capazes de levar dezenas de caças e milhares de tripulantes para qualquer oceano. A Venezuela, evidentemente, não tem nenhum porta-aviões e dispõe de uma marinha modesta, sem capacidade de projeção oceânica comparável. Num conflito hipotético de alta intensidade, um porta-aviões americano ao largo seria uma fábrica de destruição que, obviamente, nenhuma “flecha envenenada” poderia nem sequer vislumbrar alcançar. Sob a forma de passarinho, Chávez precisa vir contar isso ao seu discípulo.

No ar, a diferença de capacidade é igualmente esmagadora: os EUA mantêm milhares de aeronaves militares – caças furtivos, aviões de comando e controle, reabastecedores, AWACS – enquanto relatórios sobre a Venezuela apontam para poucas centenas de aeronaves, grande parte de padrão antigo ou em manutenção intermitente. Não é apenas uma questão de quantos aviões existem, mas de sensores, aviônicos, munições guiadas, reabastecimento em voo e integração de frota – tudo essencial para a superioridade aérea sustentada.

Mesmo nas forças blindadas e navais a foto é inequívoca: os EUA mantêm milhares de veículos blindados modernos, centenas de navios de guerra de superfície e submarinos nucleares; a Venezuela dispõe de algumas centenas de blindados, fragatas e poucos submarinos operacionais – muitos provenientes da era soviética ou adquiridos sem renovação tecnológica suficiente. Em termos práticos, isso significa que as forças venezuelanas, inclusive reforçadas por milícias, teriam mobilidade, proteção e potência de fogo limitadas frente a uma campanha moderna de interdição, superioridade aérea e bloqueio naval.

E aí surge o golpe de cena: o “exército” anunciado por Maduro, um verdadeiro Exército de Brancaleone latinoamericano, pode ter algum apelo simbólico (folclore, povo armado, resistência popular), mas carece de substância técnica. Milícias urbanas e rurais podem criar atritos locais, insurgência assimétrica e dores de cabeça em ocupação prolongada – mas elas não substituem a infraestrutura capaz de defender um país contra ataque naval, aéreo ou cibernético de alta intensidade. Em termos estratégicos, as flechas com curare são, no máximo, ferramenta de intimidação teatral; no campo técnico, são irrelevantes contra sensores, blindagem e sistemas de defesa modernos.

Há também um aspecto logístico que põe a conversa em termos crus: guerra moderna é guerra de consumo – munição, combustível, manutenção de motores, peças sobressalentes, cadeias de ressuprimento – e isso custa dinheiro e infraestrutura que a Venezuela hoje não tem em escala. Um míssil de cruzeiro custa milhões; um lote de bombas guiadas é caro; a manutenção de um caça exigiria suporte técnico que se perde quando o Estado entra em crise. Fanfarronadas retóricas não alimentam pilotos, nem mantêm navios operacionais por longos períodos.

Por fim, o fator humano e institucional: treinar milícias com práticas ancestrais pode servir a dois propósitos: um símbolo de identidade e mobilização interna, e a tentativa de transformar fragmentos culturais em instrumentos bélicos. O problema é que a guerra contemporânea exige coordenação, comando, comunicações seguras e interoperabilidade – coisas que não se improvisam com arcos e folclore.

Em suma, o moribundo regime chavista – asfixiado por sanções, devastado pela miséria e moralmente derrotado na esfera internacional – pode ainda ser forte contra uma oposição esfomeada e desarmada, mas nunca contra as forças armadas da nação mais poderosa do mundo.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRES DO REPENTE

Diniz Vitorino Ferreira, Monteiro-PB (1940-2010)

Diniz Vitorino:

Vemos a lua, princesa sideral
Nos deixar encantados e perplexos
Inundando os céus brancos de reflexos
Como um disco dourado de cristal
Face cálida, altiva, lirial
Inspirando canções tenras de amor
Jovem virgem de corpo sedutor
Bem vestida num “robe” embranquecido
De mãos postas num templo colorido
Escutando os sermões do Criador.

Manoel Xudu Sobrinho:

Os astros louros do céu encantador
Quando um nasce brilhando, outro se some
E cada astro brilhante tem um nome
Um tamanho, uma forma, brilho e cor
Lacrimosos vertendo resplendor
Como corpos de pérolas enfeitados
Entre tronos de plumas bem sentados
Vigiando as fortunas majestosas
Que Deus guarda nas torres luminosas
Que flutuam nos paramos azulados.

Lourival Batista Patriota:

Entre o gosto e o desgosto,
o quadro é bem diferente,
ser moço é ser um sol nascente,
ser velho é ser um sol posto,
pelas rugas do meu rosto,
o que fui hoje não sou,
ontem estive, hoje não estou,
que o sol ao nascer fulgura,
mas ao se pôr deixa escura
a parte que iluminou.

* * *

Um cientista profundo
me perguntou certa vez:
se eu conhecia os três
desmantelos deste mundo.
Eu respondi num segundo
e  dei mais a explicação:
Doido, Mulher e Ladrão:
Doido não tem paciência,
Ladrão não tem consciência,
Mulher não tem coração.

* * *

O cantador repentista
em todo ponto de vista,
precisa ser um artista
de fina imaginação,
para dar capricho à arte
e ter nome em toda parte,
honrando o grande estandarte
dos oito pés de quadrão!

* * *

Dimas Batista Patriota:

Deus vê do céu bem visíveis
Nossos íntimos dilemas
Pra Ele não tem problemas
De soluções impossíveis
Desde que são infalíveis
Os atos do grande Ser
Todos têm que obedecer
Rico, pobre, bom ou mau
Não cai a folha de um pau
Sem nosso Deus não querer.

* * *

Fraqueza da humanidade
Alguém dirá, mas não é
Diz a tradição até
Jesus chorou de saudade
Seu coração de bondade
Da Virgem se despedia
Chorava olhando a Maria
Do Horto da Oliveira
A saudade é companheira
De quem não tem companhia.

* * *

Os carinhos de mãe estremecida
Os brinquedos do tempo de criança
O sorriso fugaz de uma esperança
A primeira ilusão de nossa vida
Um adeus que se dá por despedida
O desprezo que a gente não merece
O delírios da lágrima que desce
Nos momentos de angústia e de desgraça
Passa tudo na vida tudo passa
Mas nem tudo que a gente passa, esquece.

Pinto de Monteiro:

Se em janeiro não houver trovoada
Fevereiro não tem sinal de chuva
Não se vê a mudança da saúva
Carregando a família da morada
Só se ouve do povo é a zuada
Pai e mãe, noiva e noivo, genro e nora
Homem treme com a fome, o filho chora
Se arruma e vão tudo para o Rio
O carão que cantava em meu baixio
Teve medo da seca e foi embora.

* * *

Se for acocho de amor,
aceito e fico contente.
Se ela for carinhosa
e me arrochar novamente,
de nove para dez meses
o padre batiza gente!

DEU NO X

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A DOR DO SUICÍDIO (1ª PARTE)

Num texto de 26/04/1926 (sem título), Fernando Pessoa (por Álvaro de Campos) faz uma provocação instigante:

‒ Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! Que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria.

No caso dele não era verdade, que jamais pensou nisso. Embora tenham, alguns amigos, tentado sem sucesso. Como Raul Leal, homossexual que abandonou a advocacia para viver sua triste aventura existencial; e, em Madri, se jogou sob as rodas de um automóvel. Escapando, por perícia do motorista, sem mesmo ser atingido.

Em 25/09/1930, deu-se episódio curioso. Quando Pessoa tramou um suicídio no Mata-cães da Boca do Inferno (Cascais), do mago inglês Aleister Crowley ‒ considerado, pelos jornais de seu país, como O pior homem da Inglaterra. Com ajuda de muita gente: o médium londrino A.V. Peters; o amigo Augusto Ferreira Gomes (para quem fez o prefácio de seu Quinto Império); o cunhado Caetano Dias (casado com a irmã Teca), que lhe emprestou uma cigarreira, comprada em Zanzibar, dada como de Crowley; e, até, a Scotland Yard. Mas era só brincadeira.

Único amigo de Pessoa que chegou a se suicidar, fique o registro, foi o poeta Mário de Sá Carneiro. O mesmo que, na hora de se despedir da vida, no hoje Hotel des Artistes (em Montmartre), lhe deixou esse triste bilhete:

‒ Um grande, grande adeus de seu pobre Mário de Sá Carneiro, Paris, 16 abril 1916.

O mesmo Sá Carneiro deixou também, em Página dum suicida, esses belos versos:

‒ Serei um arrojado descobridor de mundos:
Colombo descobriu a América;
Vasco da Gama, a Índia;…
Eu descobrirei a Morte!…

No início de texto importante (Eutanásia, suicídio assistido, ortotanásia e questões paralelas), ainda inédito, o ministro do STJ (Marcelo Navarro) Ribeiro Dantas expõe:

‒ A tensão entre decidir sobre o próprio morrer e a sacralidade ou indisponibilidade da vida, percorre toda a discussão sobre a eutanásia (ato médico que põe fim à vida a pedido do paciente) e o suicídio assistido (quando o paciente, com suporte médico, autoadministra a substância letal). Mas o próprio suicídio, entendido como possibilidade de decidir quando e como morrer, também tem a ver com isso tudo.

Vale ainda lembrar, ao falar nesse tema, do livro Suicide, mode d’emploi (A bula do suicídio), de Claude Guillon. Apesar de vetado pela censura francesa, conseguimos comprar um exemplar nas livrarias. Paris, nesse campo, é um pouco do Recife. Para quem quiser, um bom guia. Ensina como falsificar uma receita médica, para comprar os remédios certos nas farmácias; permite escolher como se quer morrer ‒ rapidamente ou devagar, com sofrimento ou não, quanto vai custar. Interessante de ler. Sobretudo por quem não esteja pensando nisso.

Faz pouco, nesse campo, tivemos uma perda importante. Do grande poeta Antônio Cícero, confrade querido na Academia Brasileira de Letras, que cometeu suicídio assistido na Suíça. E deixou, para os amigos, uma carta pungente. Seguem trechos:

‒ Encontro-me na Suíça, prestes a praticar eutanásia. O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer. Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi… Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação… A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas – senão a coisa – mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico até com vergonha de reencontrá-los… Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade. Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços!

A respeito, bom lembrar novamente o ministro Ribeiro Dantas:

‒ Causar a morte de alguém — ainda que por compaixão e a pedido expresso do paciente ‒ é crime (art. 114 do Código Penal Suíço). Pena: até 3 anos de prisão ou multa. Mas o suicídio assistido é permitido em determinadas condições. Prestar auxílio para que a própria pessoa ponha fim à própria vida não é punível quando o ajudante não age por motivo egoísta (art. 115 do Código Penal).

Ao longo da vida, tive experiências pessoais dolorosas. Como a de Annie, na cidadezinha de Gilze (Holanda), que fez dito suicídio assistido; quando seu irmão e escritor Harrie Lemmens, outro amigo próximo, lhe perguntou

‒ Você está em paz?

Ela, sorrindo,

‒ Mais que isso, aliviada.

Ou o amigo Aguinaldo Lyra, colega de classe no colégio Nóbrega; depois, holandês e alto funcionário do governo, que também fez suicídio assistido. Ligou para mim poucos dias antes, em 29/10/2018, para se despedir. Perguntei

– Como vai ser?

– Até quarta, me despeço de parentes e amigos, entre eles você. Quinta, mulher e filhos. Sexta de manhã, só a mulher. No começo da tarde chegarão médico da família, enfermeiro, juiz, tabelião. E às 16 horas, na cama, tomarei uma injeção. Não sentirei dor, assim prometeram.

– Adeus, Aguinaldo, breve nos encontraremos em algum lugar.

Fim do telefonema. Fiquei paralisado. Tudo iria acontecer na sexta, 2 de novembro – Dia de Finados no Brasil, por artes do Destino. Ao meio-dia daqui. Maria Lectícia mandou rezar, nessa hora, missa para ele. Lembrei versos de Pessoa (Álvaro de Campos, Dois excertos de odes) “Vem, dolorosa/ Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes/ Sabor de água sobre os lábios dos cansados”. Que essa mão fresca torne mais doce a sua partida, querido amigo. Descanse em paz.

Lembro também conversa com Nehemias Gueiros (presidente da OAB Federal). Na Embaixada do Brasil, em Londres, para comemorar o primeiro título na Fórmula 1 de Emerson Fittipaldi (19772). Com o piloto presente, claro. Lá estávamos a convite do embaixador Sérgio Correia da Costa e sua mulher (da época), Zazi, neta de Oswaldo Aranha. E nem pedimos explicações, a Nehemias, por ter sido redator do Ato Institucional número 2, em 27/10/1965, sacralizando a Ditadura Militar. Sem chances porque falava só na mulher que acabara de falecer, tentando suicídio por três vezes, e nos contou

‒ Sabem o que doeu de verdade?

‒ Não.

‒ No hospital em que estava internada para tentar se recuperar, quando eu falava no futuro, que iríamos ficar bem, ela respondia “E você ainda não percebeu que já basta? Que não quero mais?”

P.S. Continua da próxima semana.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ ALVES FERREIRA – SÃO PAULO-SP

Olá!

E lá vai nosso “Bessias”, agora não como estafeta, mas para ser “pau mandado” à quem deveria entregar a mensagem.

Antes, exigia-se notável saber jurídico, obras publicadas, lastro que superior a média identificasse o escolhido…pelo menos assim consta na hoje esquecida constituição.

Agora, basta ser um mensageiro, um servo fiel e devotado.

Será aceito, pois a tal sabatina é apenas uma encenação.

E, teremos, mais e mais desmandos, conveniências e total desrespeito às regras constitucionais.

Sou velho, talvez não venha a ver mudanças…, mas, durante algum tempo só teremos “imbecilidades ”…agora sim, vindas de um legitimo “bessias”…

Inté!