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A IMPECÁVEL RACIONALIDADE DE BARROSO

Francisco Razzo

ADPF 442 barroso Aborto

Luís Roberto Barroso, que deixou o cargo de ministro do STF no dia 17

Em meu livro Contra o Aborto, demonstrei que não se pode discutir esse tema sem colocar o nascituro no centro da questão. O que se vê com o voto do ministro Luís Roberto Barroso na ADPF 442 é a confirmação desse desaparecimento. O drama humano foi convertido em problema administrativo com toda a tecnicidade jurídica. O aborto, que sempre expôs a fronteira mais delicada entre a vida e o poder, é reduzido a planilha, protocolo e relatório. O embrião se apagou. No lugar dele, surgem expressões de limpeza técnica: “interrupção da gestação”, “questão de saúde pública”, “redução de riscos”.

A forma do voto já revela sua natureza: uma sessão virtual extraordinária, convocada às vésperas da aposentadoria. A decisão mais grave sobre a vida humana entra na pauta como despacho burocrático. O voto, breve e polido, é a imagem da racionalidade moderna em seu estágio mais avançado: limpa, eficiente, asséptica. Além de magistrado, Barroso é a personificação da lógica administrativa aplicada ao que há de mais decisivo na condição humana.

Sua linguagem é a do administrador. Em todo seu protagonismo de juiz da suprema corte, o aborto aparece como problema de eficiência, desigualdade social, custo-benefício, alinhamento com “democracias desenvolvidas”. Tudo soa neutro, científico, inevitável. O embrião está ali de passagem, quase um detalhe. Uma nota de rodapé. A mulher leva alguma vantagem quanto reduzida a vítima de um “infortúnio”. O Estado, por sua vez, é apresentado como gestor benevolente de um problema sanitário.

A pergunta central – que vida é essa que se interrompe? – desaparece. Já escrevi que qualquer discurso que ignore essa pergunta se torna imediatamente a favor do aborto, mesmo quando se apresenta como técnico.

Recorro aqui a Max Weber por descrever o traço mais perturbador da modernidade: a burocratização da vida. A razão moderna organiza-se por meio de técnicas, não de fins; por normas funcionais, não por verdades. Nesse horizonte, a tragédia não é enfrentada, é administrada. A racionalidade instrumental mede o mundo pela eficiência e, nesse processo, não se pergunta pelo sentido da maternidade ou da gestação. Barroso não ignora esse ocultamento. Ele o reproduz, com calma, convicção e naturalidade.

O voto é impecavelmente racional nesse sentido. Não nega explicitamente a vida do embrião, o que seria brutal. Faz algo pior: ignora-o. A neutralidade burocrática é o novo nome da omissão. E quando o Estado decide sobre a vida segundo esse critério, a maternidade se degrada em serviço público. A mãe e o filho, que deveriam estar unidos numa relação de cuidado, tornam-se variáveis de uma equação milimetricamente calculada.

Na perspectiva personalista que defendo, a pessoa jamais pode ser reduzida a conceito abstrato nem produto de cálculo utilitário. É fundamento relacional. Toda vida humana é a experiência de alguém; desde o início, expressão de uma relação. A maternidade não é poder, mas cuidado. Quando o Estado a transforma em objeto de protocolo, já não protege a mulher nem o filho. Administra riscos financeiros. Uma sociedade que autoriza eliminar os mais frágeis dos mais frágeis em nome da autonomia inaugura uma nova forma de poder: o poder administrativo da vida. Não é a biopolítica do cuidado nem a necropolítica da guerra. É a tecnocracia da existência – uma gestão que transforma o mistério da vida em objeto de cálculo, reduzindo maternidade a um “problema de saúde pública”, ou seja, gerenciamento técnico do Estado.

Não se trata de demonizar o ministro. Barroso não é um carrasco do imaginário criminal medieval. É pior: é o funcionário perfeito da modernidade. O que mais assusta em seu voto não é a crueldade, mas a indiferença. Nenhuma frase soa violenta; todas soam razoáveis. O resultado, contudo, é devastador. O embrião não fala, não vota, não comparece – porém, é ele quem sofre a consequência irreversível da decisão. A neutralidade que se apresenta como progresso é, no fundo, anestesia da consciência.

Para não dizer que falo apenas como católico, recorro a Habermas. Em sua ética do discurso, a justiça exige que os afetados estejam incluídos, mesmo quando não têm voz. Esse é o princípio mínimo em contextos morais complexos. O Estado não precisa criminalizar a mulher que decidiu abortar. Porém, o Estado deve proteger a vida que não pode se defender. Essa é a medida mínima de uma democracia humanista. Ela deve incluir a vida mesmo em suas extremas expressões.

O voto de Barroso, ao adotar a linguagem da eficiência, abdica de sua principal responsabilidade: garantir que ninguém seja excluído da comunidade moral.

Há aqui um sintoma do que já escrevi em outras ocasiões: a modernidade cumpriu sua promessa de eliminar o sofrimento, eliminando quem sofre. Decidimos o que é humano por relatórios, tratamos a compaixão como política pública, publicamos sentenças limpas, sem vestígio de dor e consciência. O aborto tornou-se símbolo desse processo: um ato limpo, eficiente, sem sujeito. O ministro apresenta isso como avanço civilizatório, quando na verdade é apenas a imagem madura de uma civilização caminha serenamente em direção ao precipício.

PENINHA - DICA MUSICAL

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COMENTÁRIO DO LEITOR

QUE PRAZER !

Comentário sobre a postagem QUINTUPLICOU !!!

Fernando Gehr:

Os meus cães – são dois machos e uma fêmea -, ficam eufóricos quando eu abro a porta do carro e digo:

– Vamos passear?

Como então os jumentos acima referidos não ficariam?

Ainda mais di avinhão, di gratis e ainda levando uns bons trocos a título de diárias?

Ah, que prazer bancar essa cambada vias impostos escorchantes!

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RODRIGO CONSTANTINO

A SACROSSANTA URNA

Fux diverge de Moraes, cita injustiças sobre 8/1 e vota para absolver núcleo 4

Fux divergiu de Moraes, citou “injustiças” nos julgamentos do 8/1 e lamentou críticas baseadas apenas em um “rasgo de militância política”

O ministro Luiz Fux lavou a alma do brasileiro uma vez mais em seu voto nesta terça, absolvendo todos do núcleo 4, ou “núcleo da desinformação”. Como “desinformar” não é crime no Brasil, absolver todos era a única postura aceitável de um juiz. Fux disse certas verdades na cara de seus pares. Ainda que óbvias, em tempos sombrios dizer o óbvio é um ato de coragem.

Fux pediu também para sair da primeira turma. Deve ter cansado de conviver com colegas tão ativistas, dispostos a tudo para pegar Bolsonaro e seu entorno. Esperamos apenas que Fux não pegue um avião tão cedo…

Mas o que gostaria de destacar aqui é a resposta que Fux deu a Alexandre Moraes sobre as urnas eletrônicas. O ministro lembrou que, em 2014, o PSDB, partido do próprio Moraes, entrou com pedido no TSE para fazer uma auditoria nas urnas, e o tribunal, “sabiamente”, concedeu. Os auditores, depois, alegaram que era impossível auditar as urnas.

A lembrança de Fux derruba a narrativa tosca de Moraes sobre a “sacrossanta” urna. Segundo o Moraes de hoje, “atacar” a urna não é liberdade de expressão, mas sim crime. Ele só não aponta qual ou onde isso está definido, claro. Em qualquer democracia, afinal, questionar ou criticar o processo eleitoral é parte inerente do regime de liberdade.

No passado recente, vários “atacaram” as urnas, muitos pela esquerda. Lula, Ciro Gomes, Requião, Flávio Dino e tantos outros já criticaram nosso processo eleitoral opaco, que é uma jabuticaba: basicamente só o Brasil utiliza um modelo tão centralizador e sem voto impresso. Países bem mais desenvolvidos rejeitam tal modelo, e a Corte Suprema da Alemanha rechaça esse método por inviabilizar o escrutínio público do voto.

No Brasil alexandrino, porém, virou crime desconfiar das urnas e externar isso. O PL recebeu multa milionária, com o número de Bolsonaro (R$ 22 milhões) para dar requintes de sadismo, só por contestar o resultado e pedir auditoria. Somos obrigados a sentir orgulho nacional da caixinha “sacrossanta”.

O tema virou tabu. E Moraes já alertou: 2026 vem aí e é melhor ninguém se “engraçar”: fiquemos todos em absoluto silêncio diante da urna mágica. É compreensível Fux querer sair da primeira turma, não é mesmo?

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