DEU NO JORNAL

DEMOCRACIA, LIBERDADE E O EXEMPLO DOS ESTADOS UNIDOS

Editorial Gazeta do Povo

estados unidos 250 anos democracia

Norte-americanos desenharam instituições e uma Constituição com sistemas que impedem pessoas ou grupos de assumirem o poder absoluto

Neste fim de semana, os Estados Unidos comemoraram 250 anos de sua independência – em 4 de julho de 1776, a Declaração de Independência foi aceita de forma unânime pelo Segundo Congresso Continental, reunido na Filadélfia; a guerra de independência, que já estava em curso, ainda se estenderia por mais sete anos. Datas redondas sempre são dignas de recordação, mas há algo especial nestes 250 anos. Há nações bem mais antigas, mas nenhuma delas conseguiu o que os norte-americanos conseguiram: dois séculos e meio de perfeita regularidade democrática, sem golpes, nem ditadores a se intrometer em uma sequência de presidentes eleitos a partir de 1789, que só não completaram seus mandatos por morte ou renúncia; mesmo quando governantes foram assassinados, como Abraham Lincoln e John Kennedy, a sucessão se deu conforme a lei, com o vice-presidente assumindo, sem rupturas.

Isso só foi possível porque, desde o início, os norte-americanos acreditaram na força da democracia. Eles desenharam instituições e uma Constituição que perdura até hoje (com algumas poucas emendas), de forma a impedir que um homem ou um grupo deles se tornassem superpoderosos ou se eternizassem no poder – a 22.ª Emenda, que limita em dois os mandatos presidenciais exercidos por um indivíduo, foi a resposta aos quatro mandatos consecutivos de Franklin Roosevelt (todos devidamente conquistados nas urnas). O império da lei e o sistema de freios e contrapesos sempre se impuseram diante de qualquer tentação autocrática ao longo da história norte-americana, que não foi isenta de turbulências, das quais a maior foi a fratricida guerra civil entre 1861 e 1865.

As consequências da crença na democracia como o melhor sistema se revelaram de forma avassaladora na segunda metade do século passado, quando as nações que mais se desenvolveram economicamente foram aquelas do dito “mundo livre”. A União Soviética até chegou a se tornar uma superpotência econômica e militar, mas sucumbiu como todo o restante dos regimes comunistas do Leste Europeu, porque a prosperidade não se sustenta onde faltam a democracia e seu grande pilar, a liberdade. O desenvolvimento é feito para durar apenas em regimes onde as pessoas são livres para buscar seus interesses e desenvolver ao máximo seu potencial; dirigismos como o socialista podem até conseguir resultados de curto e médio prazo, mas estão condenados ao fracasso no longo prazo porque aleijam os indivíduos, submetendo-os aos caprichos da burocracia.

Eis, portanto, o grande valor da democracia: ela não é “a pior forma de governo, exceto por todas as outras”, como disse Winston Churchill em um discurso de 1947, no que talvez seja sua frase mais distorcida – o premiê britânico citava um desconhecido (real ou fictício), e em seguida mostrava que sua própria avaliação da democracia era bem mais positiva. A democracia é o império da liberdade, não apenas a de escolher seus governantes, mas também a de ser dono do seu destino e persegui-lo sem ser coagido, e a de buscar a excelência nos âmbitos pessoal, profissional e social. A liderança – ou no mínimo a proeminência – norte-americana em áreas como indústria, tecnologia, educação, entretenimento ou esporte se explica, em boa parte, por esse ambiente de liberdade que a democracia proporcionou aos cidadãos dos Estados Unidos nestes 250 anos.

Hoje, fala-se em uma certa “fadiga” da democracia. Não poucos observam com admiração a ascensão econômica e militar da ditadura chinesa, ignorando que ela é construída, ousamos dizer, sobre as mesmas bases frágeis do regime soviético, e que por isso tem prazo de validade, embora ainda não se possa vislumbrar hoje qual é esse prazo. Em outros casos, elogia-se regimes não abertamente ditatoriais, mas que chegam ao poder pelo voto e passam a suprimir liberdades ou enfraquecer instituições em nome de resultados efetivos em certas áreas ou da imposição de um ideário que se julga ser o correto. A democracia, de fato, não é fácil; ela exige diálogo, exige o debate de ideias para a implantação de um programa, exige compreender que ela não é a “ditadura da maioria”, exige que os governantes estejam dispostos a aceitar seus limites. Mas é só nela que as liberdades florescem, e com elas o desenvolvimento socioeconômico de uma sociedade. E, como diz Churchill em outro discurso, de 1944, “se isso é democracia, eu a saúdo. Eu a apoio. Eu trabalharia por ela”. Trabalhemos por ela também nós.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO X

DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO X

COMENTÁRIO DO LEITOR

COMPOSITOR

Comentário sobre a postagem DE MORAES & DOQUINHA

DECO:

De Morais – (José Duduca de Morais) foi um compositor extremamente produtivo, com cerca de 200 composições gravadas e recordes de venda na gravadora Odeon.

Ele também ficou conhecido por ser o autor da famosa versão de “Oh! Minas Gerais” – uma Adaptação da Valsa Italiana Viene Sul Mare. (Oh, Minas Gerais! Quem te conhece não esquece jamais…Oh Minas Gerais!)

De Morais e Doquinha formaram uma icônica e tradicional dupla de música caipira brasileira, criada no ano de 1947 por sugestão do renomado cantor Francisco Alves.

O duo era composto por De Morais (responsável por tocar a viola/violão e compor) e Doquinha (intérprete vocal feminina), marcando época na era de ouro do rádio brasileiro.

DEU NO X

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CHÃO AMADO

Eu desci do carro e as minhas botinas de couro, cansadas das ruelas apertadas dos lugares por onde andei, acariciaram o chão de paralelepípedos irregulares e a terra grossa unindo as pedras.

Foram quase trinta dias longos comendo pão sem sal longe do meu chão, cruzando as pedras frias e polidas de velhas cidades, sentindo o corpo boiar num mar de gentes estranhas, línguas rápidas e prédios altos demais, antigos demais e suas almas arcaicas, porém vibrantes. Mas ali, de frente à casa que me viu crescer, fachada de pedras, o mundo se ajeitou para mim em uma mistura de duas línguas: amor e pertencimento.

O vento do Seridó veio de pronto ao meu encontro, quente como hálito de forno de caieira, trazendo o cheiro do mato da minha terra e da poeira viva que faz dela única. Assanhou meus cabelos e afagou a minha alma.

Eu busquei olhar para as serras azuladas no horizonte, riscando o céu desbotado pelo mormaço e lembrei das águas paradas do Gargalheira. Também quis pensar em cada pedra bruta que não recebeu o batismo do aço pelas mãos humanas. Porque a Europa tem seus monumentos de mármore esculpidos por homens, os gênios da arte, imortalizados em suas belíssimas e visitadas obras. Mas, o Sertão… Ah! O meu sertão tem sua própria arquitetura de sobrevivência, cinzelada pelo sol e pelo tempo, logo, compreendi a precisão cirúrgica da beleza de cada jurema.

Eu tirei a camisa que ainda cheirava ao final de inverno no Velho Mundo e a joguei no banco do carro. Aquilo não me servia mais; era vestimenta de empréstimo para cobrir uma saudade mansa e passageira. Depois caminhei até o meio da rua, ante a casa de papai. Fechei os olhos para sentir cheiros, matar a saudade desse ar quente, e me lembrei daquela casa grande no sítio de um bom amigo, onde o reboco velho mostra os tijolos de barro cozido, legítimos testemunhos das agruras do tempo. Quando lá estive pela última vez divaguei sentado num banco de madeira, velho, carcomido pelos anos, pois bem, eu divaguei que cada fresta na parede parecia uma ruga no rosto de um parente.

Mamãe me avistou da cozinha, não com os olhos, mas com o coração. Gritou fazendo festa para o filho que não via havia quase cinquenta dias. Depois não disse palavra alguma, apenas abriu os braços com a naturalidade de quem recolhe o gado no fim da tarde, ou faz o prato do filho à mesa posta. Seu abraço tem o perfume puro de alecrim, e de café torrado na hora; é o único remédio capaz de curar a tontura de quem cruzou o grande oceano. De matar a saudade, seja ela do tamanho que for.

Nós nos sentamos na calçada, enquanto o sol começava a tombar, tingindo as nuvens do poente de um forte vermelho-sangue. Falei da imponência do Tejo e das belas igrejas de Roma, mas as palavras pareciam pequenas diante daquele silêncio sagrado que só no sertão se possui. Um silêncio preenchido pelo pio alegre de uma ave que eu, na hora, não consegui identificar.

Ali, vendo pessoas amigas, vizinhos queridos, saindo à rua para me ver, eu descalcei os sapatos. Senti a terra quente acolher meus pés, num batismo de retorno. Em cada abraço uma comunhão de amor. Porque o sertanejo pode até pisar nos tapetes finos da Europa, mas sua raiz permanece fincada na terra rachada do chão que lhe viu chorar pela primeira vez, ao lado das pessoas que lhe deram colo.

O Seridó tem uma força que nenhuma Europa consegue apagar.

Agora eu sei que fui ver o mundo, mas descobri que o mundo inteiro mora aqui.

No chão acariciado pelas solas das minhas botinas antigas.

No espaço amado onde mora a minha gente.

DEU NO X