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DEU NO JORNAL

UMA REELEIÇÃO DE R$ 140 BILHÕES

Editorial Gazeta do Povo

“Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”, disse em 2013 a então presidente Dilma Rousseff. Ela sabia do que falava, pois para se reeleger em 2014 fez o Banco Central (que à época não tinha a autonomia que tem hoje) segurar os juros e a Petrobras represar o preço dos combustíveis para não acelerar a inflação. Venceu, e logo na sequência o Brasil viveu a maior crise econômica de sua história, que nem a pandemia de Covid-19 conseguiu igualar. Pois Lula, que patina nas pesquisas de intenção de voto, caminha para repetir o roteiro de seu “poste”, gastando o que há tempos não tem em medidas eleitoreiras que já somam R$ 140 bilhões, segundo levantamento do banco BTG Pactual divulgado pelo jornal O Estado de S.Paulo.

Várias das medidas têm consequências fiscais diretas, seja em custo direto para o governo – como os subsídios para o gás e a energia elétrica; o recente subsídio à gasolina não entrou na conta do BTG –, seja em dinheiro que a União deixará de arrecadar, no caso da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, a medida mais “cara” do pacote, com renúncia de R$ 31 bilhões, ainda que parcialmente compensada pelo aumento em outros impostos (o fim da “taxa das blusinhas”, assinado na semana passada, também não está no levantamento). Muitas outras, no entanto, têm o chamado “caráter parafiscal”, ou seja, sem resultado direto no Orçamento da União, mas que nem por isso podem ser consideradas inofensivas.

Por trás de programas como o “Desenrola 2.0”, as facilidades para o consignado ou os programas de crédito para a aquisição de caminhões está um velho princípio do terraplanismo econômico lulopetista: o consumo desenfreado como forma de manter a economia aquecida e garantir números melhores para o PIB no fim do ano. Na reunião ministerial de dezembro do ano passado, Lula deixou isso muito claro: “não tem macroeconomia, não tem câmbio: se tiver dinheiro na mão do povo, está resolvido o nosso problema”. No entanto, como o “dinheiro na mão do povo” não está se refletindo em melhoria nas intenções de voto, a solução é seguir aumentando a dose até se observar algum resultado.

Lula pode até desprezar a macroeconomia, mas ela não perdoa: quando há estímulo ao consumo, com mais dinheiro em circulação e sem aumento correspondente na produtividade, o resultado é pressão inflacionária. O IPCA acumulado dos últimos 12 meses voltou a subir e está em 4,39%, muito perto do limite máximo de tolerância do regime de metas de inflação, que é de 4,5% para uma meta de 3%. No Boletim Focus desta segunda-feira, a expectativa para o IPCA cheio de 2026 é de 4,92%. Isso atrapalha muito – se não impedir de vez – qualquer processo de afrouxamento monetário que o Banco Central pretenda realizar, baixando a Selic. Os comunicados e atas do Copom reconhecem que a guerra no Oriente Médio tem sua parcela de culpa no repique inflacionário, mas não ignoram a irresponsabilidade fiscal do governo Lula.

A dívida pública, como proporção do PIB, disparou nos quatro anos deste terceiro mandato de Lula, o que também deixará sua marca em forma de pressão sobre os juros; este ano deve registrar novo déficit primário, mesmo com todas as acrobacias contábeis que retiram gastos do cálculo da meta fiscal. A essa altura, só uma guinada muito radical na política fiscal pode evitar uma crise nos moldes da de 2015-16, ainda que ela não venha de imediato, como veio no caso de Dilma Rousseff. Se a oposição vencer em outubro, terá o ônus de implantar medidas impopulares para consertar o estrago feito pelo petismo; mas, se Lula for reeleito, não terá “herança maldita” alheia nenhuma para culpar quando a bomba que armou explodir no próprio colo.

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DEU NO JORNAL

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

O NOSSO FORRÓ

Já não se vê nos salões
Nosso forró genuíno
Clamo ao povo nordestino
Honrar nossas tradições.
Não aceite imitações
Ouça Petrúcio e Dió
Flávio lá de Bodocó
Gonzagão e Marinez;
Estão querendo de vez
Sepultar nosso forró.

Escute um xote de Pinto
Azulão e mestre Zinho
Santana e Jorge de Altinho,
Não deixe o forro extinto.
Ouça um Côco de Jacinto
Desses que levanta o pó
Escute João Mossoró
Em todo dia do mês;
Estão querendo de vez
Sepultar nosso forró

Na sua festa junina
Se quiser um clima bom
Convide o mestre Marrom
Com zabumba e concertina.
Pelos salões de Campina
Quero ver um ritmo só
E Deda abrindo o gogó
Cantando com altivez.
Estão querendo de vez
Sepultar nosso forró.

Quero um São João genuíno
Sem sertanejo e axé
Tocando Flavio José
Para o povo nordestino.
Na poeira um dançarino
Dançando “qui nem jiló”
E o contratante sem dó
Pagando bem os cachês;
Estão querendo de vez
Sepultar nosso forró.

COMENTÁRIO DO LEITOR

ESTÃO ESPUMANDO

Comentário sobre a postagem A APRECIAÇÃO DO CANHOTO

Luci Oliva:

Para esse imbecil o cachaceiro não faz nada de errado.

Para ele roubar aposentados, dar dinheiro do povo para ditadores, fazer negócios escusos com bandidos, falir correios, petrobras, eletrobras é certo.

Eita jumentada do inferno.

Estão espumando com a convocação de Neymar pois o cachaceiro pediu que não fosse convocado.

Ancelloti ainda não virou jumento para chupar saco e fazer o que agrada a corrupto cachaceiro.

RODRIGO CONSTANTINO

O SENHOR DAS MOSCAS E O CHAMADO DA TRIBO

Jack, o líder tribal de O Senhor das Moscas, era no fundo um covarde. Cercou-se de outros covardes que precisavam agir em bando e punir qualquer dissidência

Vi este fim de semana com meu filho a nova série da BBC “O Senhor das Moscas”, baseada no livro homônimo de William Golding, que li faz algum tempo. A série foi bem fiel ao livro, pelo que me recordo. E a moral da história segue intacta: cuidado com a natureza humana! Ela precisa ser domesticada, o homem deve ser civilizado, mas a besta que vive em seu interior estará sempre lá, pronta para assumir o controle.

Após a queda de um avião, um grupo de garotos fica preso em uma ilha tropical no Oceano Pacífico, no início da década de 1950. Ralph, um menino bom, tenta liderar os garotos, com a ajuda do “intelectual” Piggy, que sugere regras para manter a ordem. No entanto, Jack inicia uma rebelião, e a sociedade improvisada que eles formaram começa a desmoronar. O tribalismo fala mais alto. Comentei sobre o livro em meu Esquerda Caviar:

O mal existe. O ser humano, ao contrário do que quer acreditar a esquerda caviar, não nasce bonzinho, mas com inclinação para a prática da violência. Nelson Rodrigues resumiu com perfeição: “Se é verdade que um menino está isento do bem e do mal, então é um pequenino canalha”.

Em “O senhor das moscas”, William Golding retrata com realismo essa natureza humana, presente na mais tenra idade. Qualquer pai sabe que seu filho, desde muito cedo, gosta de apelar ao uso da força para obter aquilo que deseja. Civilizar é impor limites a esse impulso natural, que sempre, no entanto, estará lá, latente, como uma besta à espreita, aguardando uma oportunidade para emergir com total energia.

Quem não quer se dar ao trabalho de ler, ao menos veja o filme “O anjo malvado”, com Macaulay Culkin, de 1993. É ficção, claro, mas retrata algo factível: uma criança pode ser, no fundo e desde cedo, um pequeno monstrinho, capaz das maiores atrocidades. Mas a esquerda caviar politicamente correta não aceita isso, não quer encarar a maldade existente nos seres humanos.

Ou seja, não nascemos “puros” ou “bons”, tampouco a culpa de nossa violência é da “sociedade”, que é formada, pasmem!, pelos próprios seres humanos que supostamente nasceram bons. Colocar a culpa da violência numa abstração como a sociedade é retirá-la de indivíduos de carne e osso, responsáveis por suas atitudes.

Civilizar o homem, porém, não é tarefa trivial. Afinal, o “chamado da tribo” é muito forte. O que nos remete ao excelente livro de Mario Vargas Llosa justamente com esse título, que resume as ideias de grandes pensadores como Adam Smith, Ortega y Gasset, Hayek, Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Revel. O denominador comum que Vargas Llosa encontrou nesses autores é sua rejeição ao tribalismo, um chamado natural, uma vez que se trata de uma paixão atávica essa busca por pertencimento a um grupo coeso.

O liberal clássico luta contra o coletivismo tribal desde sempre, e não é trivial compreender as vantagens de um sistema mais impessoal como o livre mercado, calcado em regras isonômicas, pois não é algo intuitivo. A tendência natural é defender a “coisa nossa”, que leva ao patrimonialismo, que enxerga no estado uma extensão da família ou do seu grupo. O “nós contra eles” é tentador demais para ser ignorado por abstrações.

Sou grande admirador de Vargas Llosa, não só do romancista, mas também do liberal em política. Mas vale ressaltar as diferenças essenciais: enquanto ele adota uma visão de um liberalismo mais progressista e cosmopolita, às vezes quase flertando com uma social-democracia ao estilo tucano, eu me considero um liberal com viés conservador, justamente por rejeitar a visão racionalista demais dos que ignoram o legado e a importância das tradições morais e religiosas, além do saudável patriotismo – que jamais deve ser confundido com o nacionalismo tacanho e ufanista.

Em que pesem diferenças importantes, o que nos une é mais forte: Vargas Llosa absorveu desses pensadores liberais a humildade necessária para não cair em tentações utópicas revolucionárias, preferindo sempre o gradualismo reformista e a democracia que, com todos os seus defeitos, tem como maior virtude evitar justamente o derramamento de sangue em trocas violentas de grupos no poder.

Sua aversão ao coletivismo é por mim compartilhada. Com Sir Karl Popper, talvez sua maior influência, o escritor peruano rejeita a irracionalidade do ser humano primitivo “que descansa no fundo mais secreto de todos os civilizados, que nunca superaram totalmente a saudade daquele mundo tradicional – a tribo – em que o homem ainda era parte inseparável da coletividade, subordinado ao feiticeiro ou ao cacique todo-poderosos que tomavam todas as decisões por ele, e nela se sentia seguro, livre de responsabilidades, submetido, como o animal de manada, no rebanho, ou o ser humano em uma turma ou torcida, adormecido entre os que falavam a mesma língua, adoravam os mesmos deuses e praticavam os mesmos costumes, e odiando o outro, o diferente, que podia ser responsabilizado por todas as calamidades que assolavam a tribo”.

Em Tribe: On Homecoming and Belonging, Sebastian Junger, correspondente de guerra, mostra como muitos militares acabaram sentindo falta dos anos de batalha, pois ali, apesar de toda a dor e violência, havia ao menos um sentimento forte de pertencimento a algo maior. Não por acaso virtudes – e vícios – destacam-se em momentos como estes. A coragem que desperta em alguns, com um propósito de “bando”, é algo heroico e conhecido. Numa tribo, estamos dispostos a dividir mais, compartilhar, algo que as sociedades modernas impessoais dificultam – e o estado é péssimo substituto para isso. Não quer dizer, naturalmente, que seja desejável retornar ao tribalismo. Mas é recomendável assumir que algo se perdeu no processo, que existe uma troca aqui, que o progresso civilizacional traz um custo.

Por fim, retorno à humildade, característica fundamental do liberalismo. Vargas Llosa resume bem: “Entre os liberais, como demonstram aqueles que figuram nestas páginas, com muita frequência há mais discrepâncias que coincidências. O liberalismo é uma doutrina que não tem respostas para tudo, como pretende o marxismo, e admite em seu seio a divergência e a crítica, a partir de um corpo pequeno, mas inequívoco, de convicções”.

Jack, o líder tribal de O Senhor das Moscas, era no fundo um covarde. Cercou-se de outros covardes que precisavam agir em bando e punir qualquer dissidência. Chegaram a matar Simon a pauladas, e Piggy veio a óbito depois também. O tribalismo não permite contestação, divergência ou racionalidade. Pode ser catalisado para se transformar numa eficiente máquina de guerra, mas jamais para construir uma civilização que mereça tal nome.

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