JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

Eu desci do carro e as minhas botinas de couro, cansadas das ruelas apertadas dos lugares por onde andei, acariciaram o chão de paralelepípedos irregulares e a terra grossa unindo as pedras.

Foram quase trinta dias longos comendo pão sem sal longe do meu chão, cruzando as pedras frias e polidas de velhas cidades, sentindo o corpo boiar num mar de gentes estranhas, línguas rápidas e prédios altos demais, antigos demais e suas almas arcaicas, porém vibrantes. Mas ali, de frente à casa que me viu crescer, fachada de pedras, o mundo se ajeitou para mim em uma mistura de duas línguas: amor e pertencimento.

O vento do Seridó veio de pronto ao meu encontro, quente como hálito de forno de caieira, trazendo o cheiro do mato da minha terra e da poeira viva que faz dela única. Assanhou meus cabelos e afagou a minha alma.

Eu busquei olhar para as serras azuladas no horizonte, riscando o céu desbotado pelo mormaço e lembrei das águas paradas do Gargalheira. Também quis pensar em cada pedra bruta que não recebeu o batismo do aço pelas mãos humanas. Porque a Europa tem seus monumentos de mármore esculpidos por homens, os gênios da arte, imortalizados em suas belíssimas e visitadas obras. Mas, o Sertão… Ah! O meu sertão tem sua própria arquitetura de sobrevivência, cinzelada pelo sol e pelo tempo, logo, compreendi a precisão cirúrgica da beleza de cada jurema.

Eu tirei a camisa que ainda cheirava ao final de inverno no Velho Mundo e a joguei no banco do carro. Aquilo não me servia mais; era vestimenta de empréstimo para cobrir uma saudade mansa e passageira. Depois caminhei até o meio da rua, ante a casa de papai. Fechei os olhos para sentir cheiros, matar a saudade desse ar quente, e me lembrei daquela casa grande no sítio de um bom amigo, onde o reboco velho mostra os tijolos de barro cozido, legítimos testemunhos das agruras do tempo. Quando lá estive pela última vez divaguei sentado num banco de madeira, velho, carcomido pelos anos, pois bem, eu divaguei que cada fresta na parede parecia uma ruga no rosto de um parente.

Mamãe me avistou da cozinha, não com os olhos, mas com o coração. Gritou fazendo festa para o filho que não via havia quase cinquenta dias. Depois não disse palavra alguma, apenas abriu os braços com a naturalidade de quem recolhe o gado no fim da tarde, ou faz o prato do filho à mesa posta. Seu abraço tem o perfume puro de alecrim, e de café torrado na hora; é o único remédio capaz de curar a tontura de quem cruzou o grande oceano. De matar a saudade, seja ela do tamanho que for.

Nós nos sentamos na calçada, enquanto o sol começava a tombar, tingindo as nuvens do poente de um forte vermelho-sangue. Falei da imponência do Tejo e das belas igrejas de Roma, mas as palavras pareciam pequenas diante daquele silêncio sagrado que só no sertão se possui. Um silêncio preenchido pelo pio alegre de uma ave que eu, na hora, não consegui identificar.

Ali, vendo pessoas amigas, vizinhos queridos, saindo à rua para me ver, eu descalcei os sapatos. Senti a terra quente acolher meus pés, num batismo de retorno. Em cada abraço uma comunhão de amor. Porque o sertanejo pode até pisar nos tapetes finos da Europa, mas sua raiz permanece fincada na terra rachada do chão que lhe viu chorar pela primeira vez, ao lado das pessoas que lhe deram colo.

O Seridó tem uma força que nenhuma Europa consegue apagar.

Agora eu sei que fui ver o mundo, mas descobri que o mundo inteiro mora aqui.

No chão acariciado pelas solas das minhas botinas antigas.

No espaço amado onde mora a minha gente.

8 pensou em “CHÃO AMADO

  1. Poeta maior da Biblioteca Gigante chamada JBF, entendo seu amor pelo seu pedaço de chão. Confesso que euzinha de Nordeste nada entendo, pois minhas raízes sulinas e a paixão pelo frio não me permitem trocar o gelo pelo sol escaldante do seu torrão natal. Como diza minha vozinha (não o goleiro do Cabo Verde, mas a mãe de meu pai), o que é de gosto é regalo da vida.

    Do you want to build a snow? Por aqui o frio é tanto que parece que tô participando da live action de “Era do Gelo”.

    • Matilde, sinta-se convidada em vir ver de perto o meu chão. Não para compará-lo ao seu; porque cada um de nós ama sua própria terra com o que há de melhor e mais profundo no amor genuíno. Porém, como forma de entender o nosso bem-querer por uma terra que, teoricamente, pelas dificuldades que dizem nos impor, não deveria despertar esse amor apaixonado que nós temos por ela.
      Você se encantará aqui, no meu Rio Grande de cima, como eu me encantei pelo Rio Grande lá de baixo, quando por lá pisei.

      • Rio Grande de cima, onde impera um Jesus encantado pelo Rio Grande lá de baixo, onde nasceu euzinha Matildinha. Por estas e outras que acho que o Brasil de seria ser partido e suas cinco regiões seriam países maravilhosos, com os governantes que bem aprouvesse a cada um.
        Viver em um país continente faz com que se dilua a brasilidade, pois são territórios por demais diferentes em tudo: clima, vegetação, sotaques, tradições, alimentação e um vasto etcétera.. O que uma gaúcha tem em comum com ou potiguar? Absolutamente NADA. Nem o idioma nos une, pois um gaúcho e um potiguar nervosos falariam com uma rapidez que o outro precisaria de intérprete.
        Lanço aqui meu grito separatista: 5 regiões, cinco países. Adoraria turistar por cada um de tais maravilhosos países que se formassem.
        Beijão Jesus, meu querido jizuis di ritinha di miúdo (sou fãzoca).

        • Poderemos ir à prisão, você e eu, por essas nossas ideias.
          Mas, eu também defendo tal separação.
          “Imagine o Brasil ser dividido/ E o Nordeste ficar independente.” Eu ouço esses versos desde a minha adolescência.

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