DEU NO X

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

DEU NO X

ALEXANDRE GARCIA

O TERREMOTO E O CHAVISMO: AS TRAGÉDIAS DA VENEZUELA E SEUS NÚMEROS DE MORTOS

Moradores caminham entre os escombros de prédios que desabaram devido aos terremotos, na cidade de Catia La Mar, no estado costeiro de La Guaira (Venezuela)

O terremoto na Venezuela já deixou cerca de 200 mortos e mais de 1.500 feridos. Um estrago muito grande. Isso mostra que os prédios não foram construídos para resistir a terremotos. Embora se saiba que há terremotos no Caribe, como aquele que ocorreu no Haiti, quando a nossa tropa brasileira de paz da ONU estava lá.

Agora, são lamentáveis essas mortes, mas ninguém se dá conta de que o regime bolivariano de Chávez e de Maduro matou, segundo relatório da Organização dos Estados Americanos, no mínimo 18 mil pessoas perseguidas politicamente, executadas sumariamente, sem passar pela Justiça. O relatório da OEA afirma que essas pessoas foram mortas extrajudicialmente. Aliás, os números mostram que Maduro matou mais do que Chávez.

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Salário mínimo

Bom, eu vi um levantamento do IBGE mostrando que o salário médio do brasileiro é muito baixo, muito baixo. O estranho é o desequilíbrio. O governo fala tanto em diferenças sociais, justiça social e equiparação, mas Brasília tem o maior salário médio do país. Segundo o IBGE, são R$ 6.845. A média brasileira mensal é de R$ 3.932. Quer dizer, Brasília, foco do Estado brasileiro e sede dos três Poderes da União, tem um salário médio de R$ 6.845. Quinze estados têm média salarial inferior à metade da registrada em Brasília.

O segundo lugar está com o Rio de Janeiro, e não com São Paulo: R$ 4.501, seguido por São Paulo, com R$ 4.423. Na outra ponta está Alagoas, com R$ 2.720. São R$ 54 milhões de assalariados em uma população de R$ 212 milhões. Quer dizer, praticamente apenas um quarto da população é assalariada.

Por outro lado, vejo dois brasileiros que são CEOs, ou seja, chefes de duas das maiores cervejarias do mundo: Rafael Oliveira, da Heineken, e Michel Doukeris, da AB InBev. Para assumir o cargo na Heineken, Rafael Oliveira recebeu uma remuneração muito superior à da mulher de Moraes. São praticamente as duas maiores cervejarias do mundo. Eles ganham muito dinheiro, mas não estão aqui no Brasil. São brasileiros que vão para o exterior para fazer a vida, porque aqui os impostos, a burocracia e o Estado atrapalham quem quer crescer e ter mais renda, o que significa mais distribuição, e não essa concentração em Brasília, que contraria um princípio do ex-ministro da Economia Paulo Guedes: “Mais Brasil e menos Brasília”.

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Amor à China

Gente, falando nisso, que união improvável e surpreendente: a CUT se uniu à Anfavea, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores. As duas entidades fizeram pressão, mas não adiantou. O governo renovou, por mais seis meses, os benefícios concedidos à chinesa BYD. Esses benefícios equivalem a 2 bilhões e 400 milhões de reais para trazer ao Brasil carros elétricos não montados. A montagem é feita na Bahia, mas os veículos chegam semimontados ou totalmente desmontados. O governo brasileiro gosta muito da China.

DEU NO JORNAL

DESTRUIÇÃO

Estarrecido com o nível baixo e o aparelhamento ideológico e partidário do Itamaraty, ex-chanceler muito admirado pelos diplomatas brasileiros desabafou:

“Destruíram uma bicentenária instituição de Estado…”

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Não destruiram apenas o Itamaraty, instituição antigamente respeitável.

Destruiram foi toda república brasileira.

Hoje somos apenas uma republiqueta banânica.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

DOM LUCIANO

Mais fatos que se deram na transição. De uma ditadura triste para a Democracia que desabrochava.

E começo logo dizendo que padres eram atores importantes, naquele tempo. Para uma ideia, no ministério (da Justiça), pedi para mapear quantos conflitos agrários havia no país. Eram, então, cerca de 2 mil. E quantos tinham poderes no meio? Todos. Em vez do MST, era a Igreja que atuava no campo. Precisava conversar com Dom Luciano Mendes de Almeida, secretário-geral e quem comandava a CNBB, sobre isso. Conto, aqui, como nos conhecemos.

Procurei dom Lamartine, queridíssimo amigo, nos Manguinhos. Era quem articulava tudo para dom Hélder. Pedi agendasse encontro com Dom Luciano para definir ações comuns entre Igreja e o ministério que iríamos assumir. Dias depois, avisou:

– Tudo certo. Disse quem você era. Está esperando. Mas se prepare que, quando acabar de falar, ele vai pedir para autorizar a entrada, no Brasil, de 81 padres vetados pelo Governo Militar.

Grande Lamartine. Por saber o que ocorreria passei, antes, no SNI. Para conversar com o ministro Ivan de Souza Mendes e acertar como iríamos trabalhar, naquele tempo novo que começava. Perguntou:

– Você tem sugestão?

– Sim. – Qual é?

– Cumprir a lei. – Para mim, está bem.

– Só tem um problema, ministro. É que, por ela, quem define a entrada de estrangeiros, no Brasil, não é o SNI, como vem sendo até agora. Mas o ministério da Justiça.

– Assim seja. Mas você vai precisar de mim.

Figura extraordinária, o ministro Ivan, a Democracia brasileira muito lhe deve. E tinha mesmo razão. Depois, encontramos uma forma de trabalhar juntos, no controle dos estrangeiros, com a colaboração da Interpol. Mas só em relação a crimes, drogas, por aí. Sem mais ideologia, no meio. Certo é que, depois, fui encontrar dom Luciano. Quando acabei de falar, e como preveniu dom Lamartine, voltou-se para uma escrivaninha, tirou de lá papel com 81 nomes e disse:

– Doutor, então comece por trazer meus padres.

Já consequência da conversa no SNI, escrevi nele:

– Ao DPMAF (órgão responsável por essa admissão). Autorizo a entrada, no país, dos religiosos abaixo indicados.

Assinei e fiz menção de pôr no bolso. Dom Luciano deu um bote (a descrição do gesto é fiel), ágil como um gato, pegou o papel da minha mão e perguntou:

– É para valer?

– Claro.

– Perdão, mas vou trocar. Essa lista era da ditadura, depois mando outra.

Semana seguinte recebi, com só 40 nomes, que os restantes estavam já noutros países. Concedemos vistos a todos. Palavra dada, palavra cumprida. Inclusive ao padre belga Joseph Comblin, apesar de enorme oposição do Itamaraty, por razões até hoje para mim pouco claras. O mesmo que, em 2011, morreu na cidade de Simões Filho (Bahia), com 88 anos, em paz.

A partir daí, ficamos cada vez mais próximos. Inclusive com almoços, todas as quartas, comida boa e caseira. Junto Dom Ivo Lorscheiter, com seu corpo de atleta. E sempre tomando Biss. Saudades desse tempo. Saudades do amigo Dom Luciano.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

MÁQUINA DE MOER POVO

O Brasil abriga uma enorme diversidade de seres hematófagos, exemplificados pelos morcegos. Embora os hematófagos possam atacar sob a luz do dia, eles preferem a penumbra, já que a escuridão dissimula suas aparições. O parasitismo, contudo, não é exclusividade dos animais. Alimentado pelo solo fértil da impunidade, cresce escandalosamente, em todos os níveis da política e das administrações públicas, o número de agentes infectados por essa prática.

Enquanto os morcegos debilitam um hospedeiro por vez, a sangria dos erários pelos agentes infectados promove a ruína coletiva — realidade que, desgraçadamente, precariza serviços básicos, a exemplo da saúde e da educação. O suor dos obreiros, que deveria ser o néctar a tonificar a colmeia, é desviado por zangões. Essa sangria, à míngua de soluções à vista, sem sequer um torniquete ou uma pinça hemostática, exprime a conformação exata de uma máquina de moer povo.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

NOITE DE SÃO JOÃO

A tarde se despede e a noite pede licença para chegar. A lua e as estrelas já brincam lá no céu, oferecendo à terra um cenário de alegria e paz.

É a noite de São João, e as fogueiras já estão acesas, para a alegria de crianças e adultos.

As lanternas acesas iluminam os terraços e as bandeirinhas coloridas ornamentam as ruas da pequena cidade de Nova-Cruz (RN), onde nasci e me criei.

A noite de São João, a mais alegre do ano, é esperada com euforia por crianças e adultos.

As donas de casa preparam uma mesa cheia de iguarias como canjica, pamonha, bolo de milho, pé-de-moleque e milho cozido, em louvor a São João, o primo de Jesus Cristo, filho de Santa Isabel .

A mãe de São João Batista é Santa Isabel. De acordo com a tradição cristã, ela era prima de Maria (mãe de Jesus) e esposa do sacerdote Zacarias. Considerada estéril e já em idade avançada, ela concebeu João milagrosamente, após o anúncio do anjo Gabriel.

É na noite de São João, que as moças casadoiras fazem adivinhações, para saberem o nome do rapaz com quem irão se casar. É tiro e queda. Uma adivinhação nunca deu errado.

Adivinhações de São João são brincadeiras clássicas, que animam os arraiais. Diversão típica da cultura nordestina.

Quando a resposta da adivinhação não vem, é mau sinal: Significa que a moça irá ficar no caritó, ou seja, donzela para o resto da vida.

Para acabar a tristeza, sempre houve casamentos na fogueira, batizados, e outros laços de amizade e “parentesco”, firmados em seu redor, que são válidos pela vida toda, de acordo com a Fé de cada pessoa.

Duas pessoas se posicionam de cada lado da fogueira, dão-se as mãos direitas e pronunciam estas palavras “cabalísticas”:

– SÃO JOÃO DISSE…

– SÃO PEDRO CONFIRMOU…

– QUE VOCÊ FOSSE MINHA MADRINHA, E VOCÊ FOSSE MINHA AFILHADA,

– QUE JESUS CRISTO MANDOU…

Trocam de lado e repetem as mesmas palavras, segurando-se as mesmas mãos.

Pronto. O vínculo estava lavrado para sempre. E esse vínculo ainda hoje é respeitado…

As músicas juninas, de Luiz Gonzaga, Zé Dantas, e outros grandes compositores nordestinos, eram cantadas e tocadas a noite toda, por cantores amadores, da nossa terra, acompanhadas por sanfona, zabumba e triângulo, destacando-se xote, forró, arrasta-pé, rancheira e até partes de quadrilhas, com todo o povo dançando no terreiro ou num galpão.

O povo todo, na maior alegria, passava a noite comendo iguarias à vontade, bebendo quentão ou ponche, dançando ou namorando, até raiar o dia.

Eram festas inesquecíveis, que enchiam de alegria adultos e crianças, com a queima de fogo leves, como chuveiros, traques de chumbo, “espanta-coió”, bombinhas inofensivas, enquanto os mais velhos soltavam lindos balões.

Essas festas permanecem em nossas lembranças e em nossos corações, como um marco de amor entre nós e a nossa querida NOVA-CRUZ (RN), a terra onde eu e meus cinco irmãos nascemos. Lá, eu vivi os melhores anos da minha vida, ao lado do nosso Porto Seguro, FRANCISCO BEZERRA SOUTO e LIA LIMA PIMENTEL BEZERRA, e gozando do aconchego dos nossos saudosos avós paternos, Seu Bezerra e Dona Júlia, e dos saudosos tios Paulo Bezerra, Nazinha, Edite e Eulina.

Ressalto aqui, na minha opinião, a música junina mais bonita do grande e saudoso Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, “Olha pro Céu”:

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

É PRECISO CONTINUAR RESPIRANDO

Quem costuma viajar de avião certamente conhece bem essa frase. Ela é ouvida sempre que a aeronave está taxiando, quando a tripulação transmite instruções de segurança aos passageiros: “Ponha a máscara primeiro em você, antes de ajudar crianças ou outras pessoas”.

Deveria ser óbvio, e talvez seja mesmo.

Afinal, estamos falando de máscaras de oxigênio que caem automaticamente diante dos passageiros, em caso de perda da pressão da cabine do avião.

Com os voos comerciais circulando por aí entre 35 e 40 mil pés de altitude, algo em torno de dez a doze mil metros, precisamos mesmo de uma cabine pressurizada para conseguir respirar satisfatoriamente. À medida que subimos, o ar fica rarefeito.

Mas, cada vez que ouço esse aviso, percebo que ele transmite algo que vai além das viagens de avião e da dificuldade para respirar (situação pela qual, felizmente, jamais passei!). Trata-se, na verdade, de uma advertência para a vida.

Vivemos cercados de pessoas que amamos e queremos ajudar. Filhos, pais, cônjuges, amigos. Muitas vezes, porém, ficamos tão concentrados nos problemas alheios que esquecemos de cuidar de nós mesmos. E então acontece algo curioso: na tentativa de salvar todo mundo, acabamos esgotando as próprias forças.

É aí que o aviso das máscaras nos mantém com os pés no chão, nos lembrando que, se queremos ajudar alguém, precisamos cuidar de nós mesmos primeiro.

Há algo de egoísmo nisso? Penso que sim. Mas é um egoísmo que tem a virtude de nos fazer reconhecer que não se pode oferecer serenidade aos outros quando não se está em paz consigo mesmo. E que, para servir de apoio, é preciso primeiro se manter de pé.

Há uma diferença importante entre tomar uma atitude pensando exclusivamente nos nossos próprios interesses e cuidar de si mesmo sem desconsiderar os outros. A primeira atitude nos isola; a segunda melhora a nossa qualidade de vida, sem prejuízo de estender a mão a quem precise.

Algo que talvez se possa chamar de “egoísmo solidário”. Parece paradoxal? Talvez. Mas isso não significa que seja inviável. E a beleza do fenômeno talvez esteja nesse aparente paradoxo.

O fato é que a orientação dada nos aviões é inquestionavelmente sábia. Porque, na cabine de uma aeronave ou nos desafios da vida, quem perde o próprio fôlego dificilmente conseguirá amparar outra pessoa.

Então, antes de ajudar alguém a respirar, certifique-se de que você mesmo continua respirando.