A tarde se despede e a noite pede licença para chegar. A lua e as estrelas já brincam lá no céu, oferecendo à terra um cenário de alegria e paz.
É a noite de São João, e as fogueiras já estão acesas, para a alegria de crianças e adultos.
As lanternas acesas iluminam os terraços e as bandeirinhas coloridas ornamentam as ruas da pequena cidade de Nova-Cruz (RN), onde nasci e me criei.
A noite de São João, a mais alegre do ano, é esperada com euforia por crianças e adultos.
As donas de casa preparam uma mesa cheia de iguarias como canjica, pamonha, bolo de milho, pé-de-moleque e milho cozido, em louvor a São João, o primo de Jesus Cristo, filho de Santa Isabel .
A mãe de São João Batista é Santa Isabel. De acordo com a tradição cristã, ela era prima de Maria (mãe de Jesus) e esposa do sacerdote Zacarias. Considerada estéril e já em idade avançada, ela concebeu João milagrosamente, após o anúncio do anjo Gabriel.
É na noite de São João, que as moças casadoiras fazem adivinhações, para saberem o nome do rapaz com quem irão se casar. É tiro e queda. Uma adivinhação nunca deu errado.
Adivinhações de São João são brincadeiras clássicas, que animam os arraiais. Diversão típica da cultura nordestina.
Quando a resposta da adivinhação não vem, é mau sinal: Significa que a moça irá ficar no caritó, ou seja, donzela para o resto da vida.
Para acabar a tristeza, sempre houve casamentos na fogueira, batizados, e outros laços de amizade e “parentesco”, firmados em seu redor, que são válidos pela vida toda, de acordo com a Fé de cada pessoa.
Duas pessoas se posicionam de cada lado da fogueira, dão-se as mãos direitas e pronunciam estas palavras “cabalísticas”:
– SÃO JOÃO DISSE…
– SÃO PEDRO CONFIRMOU…
– QUE VOCÊ FOSSE MINHA MADRINHA, E VOCÊ FOSSE MINHA AFILHADA,
– QUE JESUS CRISTO MANDOU…
Trocam de lado e repetem as mesmas palavras, segurando-se as mesmas mãos.
Pronto. O vínculo estava lavrado para sempre. E esse vínculo ainda hoje é respeitado…
As músicas juninas, de Luiz Gonzaga, Zé Dantas, e outros grandes compositores nordestinos, eram cantadas e tocadas a noite toda, por cantores amadores, da nossa terra, acompanhadas por sanfona, zabumba e triângulo, destacando-se xote, forró, arrasta-pé, rancheira e até partes de quadrilhas, com todo o povo dançando no terreiro ou num galpão.
O povo todo, na maior alegria, passava a noite comendo iguarias à vontade, bebendo quentão ou ponche, dançando ou namorando, até raiar o dia.
Eram festas inesquecíveis, que enchiam de alegria adultos e crianças, com a queima de fogo leves, como chuveiros, traques de chumbo, “espanta-coió”, bombinhas inofensivas, enquanto os mais velhos soltavam lindos balões.
Essas festas permanecem em nossas lembranças e em nossos corações, como um marco de amor entre nós e a nossa querida NOVA-CRUZ (RN), a terra onde eu e meus cinco irmãos nascemos. Lá, eu vivi os melhores anos da minha vida, ao lado do nosso Porto Seguro, FRANCISCO BEZERRA SOUTO e LIA LIMA PIMENTEL BEZERRA, e gozando do aconchego dos nossos saudosos avós paternos, Seu Bezerra e Dona Júlia, e dos saudosos tios Paulo Bezerra, Nazinha, Edite e Eulina.
Ressalto aqui, na minha opinião, a música junina mais bonita do grande e saudoso Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, “Olha pro Céu”:
Violante, queres ser minha “madrinha de fogueira”? Se aceitares o convite….. pode começar a me abençoar! Minha bênção, MADRINHA!