XICO COM X, BIZERRA COM I

NO CABARÉ DE MALU SANTINHA

Na última casa do lado direito da ponta da rua, no cabaré de Malu, a menos Santinha do lugar, a puta mais recente ali chegada parecia segurar um arco-íris junto ao colo. Tanto era o brilho de esperança no olhar verde daquela quase menina que cores várias sugeriam refletir-se em seu rostinho pálido, nem por isso menos gracioso. Recém-chegada das brenhas de um sertão distante, coxas fartas, generosas ancas, Iaiazinha viera em busca da vida que em seu lugarejo não havia. Encontrou tropeiros, coronéis e fazendeiros bêbados e sedentos do fugaz amor de uma menina-moça, corpo frágil, cabecinha de vento, que sonhava e se encantava com sonhos vãos, príncipes que não existiam e juras nunca cumpridas.

FALSOS SORRISOS

Homens vários vinham e iam, uns prometendo voltar, com um falso sorriso no canto da boca. Outros, apenas diziam adeus. Até que o tempo transformou a jovem menina em mulher feita, sem sonhos, sem esperança, sem nada. Já não despertava o interesse da clientela. A pequena Iaiá pensou em voltar aos confins do seu sertão distante. Não voltou. Continuou na última casa do lado direito da ponta da rua, no cabaré de Malu Santinha. Apenas não mais segurava um arco-íris junto ao colo.

JURAS MENTIROSAS

A tarefa agora era cumprida por putas mais recentes, meninas impregnadas de esperança tal qual a Iaiazinha que um dia encantou tropeiros, coronéis e fazendeiros, com todas as luzes aconchegadas junto a si. Hoje, ela já não ouve juras mentirosas tampouco acredita em raros e falsos sorrisos, em vãs promessas. Iaiazinha não mais carrega um arco-íris no colo e sequer sonha mais.
NOTA: Tanto Malu Santinha quanto Iaiazinha são nomes oriundos da imaginação do autor, pura ficção. Desnecessário dizer, pois, que qualquer semelhança com a vida verdadeira deverá ser considerada mera coincidência.

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PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO X

DEU NO JORNAL

DEU NO JORNAL

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

VIVA A LIBERDADE!

Neste domingo, 10 de dezembro de 2023, toma posse o novo presidente da Argentina, Javier Milei.

Se dependesse da chamada mídia tradicional, pelo menos a do Brasil, estaríamos todos certos de que o comando da Argentina estaria sendo entregue à extrema direita, ao autoritarismo, quiçá ao fascismo.

A informação descentralizada e distribuída (expressão que aprendi com o youtuber anarco-capitalista Peter Turguniev) impede que hoje em dia essa versão dos acontecimentos nos seja imposta. Os meios de comunicação tradicionais já não têm o monopólio da informação.

Uma breve busca no Google é suficiente para se verificar que Javier Milei foi professor de Economia e executivo de uma grande empresa argentina. Além das referências a sua atuação como membro de uma banda de rock cover dos Rolling Stones e goleiro de um time de futebol. Somente se tornaria político em 2021, quando se elegeu deputado, vindo a ser eleito Presidente da Argentina já em 2023, aos 53 anos de idade.

Uma busca um pouco mais refinada logo revela que Javier Milei é um libertário, e que o libertarianismo passa longe do fascismo, defendendo um Estado cada vez menor, até que se torne desnecessário.

Admito que fui um pouco além de buscas no Google. Desde que Milei foi o mais votado nas primárias argentinas – chamadas PASO, sigla que significa Primarias Abiertas Simultáneas y Obligatorias – incluí nos meus exercícios de espanhol a tarefa de assistir vídeos com entrevistas de Javier Milei, além de suas participações suas em programas da TV argentina. Queria saber o que falava aquela figura que tanto incomodava comentaristas políticos do Brasil.

Daí avancei para o acompanhamento de notícias sobre a eleição na Argentina. Acabei me inscrevendo no canal de notícias LA NACIÓN, que durante a campanha contou com a participação de vários comentaristas nitidamente contrários ao governo kirchnerista de Alberto Fernández.

Para minha grata surpresa, o que descobri acompanhando essa programação foi um Javier Milei que está bem além da aparência exótica – com aquele cabelo parecido com o do Guga Chacra – e do jeito temperamental, que encerra seus discursos com um palavrão.

Em cada um de seus pronunciamentos, vi um economista que assume claramente suas posições, em defesa da redução do Estado e da condução da Argentina ao crescimento e desenvolvimento econômico com o mínimo de intervenção estatal. Um político que tem convicções bem fundamentadas, concordemos ou não com elas.

No campo moral, aproxima-se dos conservadores ao ser contra o aborto, mas o faz por ser a favor da vida, não por motivação religiosa. Também se alinha aos conservadores quanto à posse de armas, para defesa pessoal, mas se afasta na questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo: alega ser uma questão individual; as pessoas devem ter liberdade de escolha. Não consegui identificar o que pensa sobre a descriminalização das drogas.

Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de Milei citar, em suas entrevistas, livros de diversos autores. Por causa dele conheci obras como “La Batalla Cultural”, do também argentino Agustín Laje, “El economista callejero”, do chileno Axel Kaiser, e “A virtude do egoísmo”, da russo-americana Ayn Rand, dentre outros. Em uma entrevista a Alejandro Fantino, logo após eleito, Milei respondeu a uma das perguntas fazendo referência à ópera “Rigoletto”, do italiano Giuseppe Verdi. Ainda não vi a ópera, mas pretendo fazer isso em breve.

Ou seja, devo reconhecer que se trata de um indivíduo culto, cujo conhecimento vai além de teorias econômicas e práticas políticas. Um tanto exótico, excêntrico talvez, mas apoiado em convicções bem fundamentadas.

Do posto em que me encontro, sempre desejo o melhor para nossos vizinhos de toda a América do Sul, independentemente de quem são os seus governantes. Tenho especial carinho pela Argentina, não apenas por causa do bife ancho e dos vinhos de Mendoza. Na verdade, tenho uma playlist que ouço com frequência, na qual se reúnem Astor Piazzolla, Mercedes Sosa, Fito Paez, Vale Acevedo e Andrés Calamaro. Este último, para minha surpresa, declarou voto em Javier Milei.

Ficamos então na expectativa, para ver se o novo presidente terá sucesso na missão de tirar a Argentina da situação difícil em que se encontra, à beira de uma hiperinflação, com graves problemas econômicos e sociais.

Por enquanto, o que sei é que Javier Milei não é o louco de extrema direita que andaram pintando por aqui. Não, não é. Ao contrário, demonstra muita lucidez, inclusive quando elege a liberdade como valor maior a orientar suas atitudes.

E, convenhamos, foi uma grande sacada terminar os discursos dizendo: “¡Viva la libertad, carajo!”.

Este colunista fazendo cover do argentino Andres Calamaro

DEU NO JORNAL

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

“SAI UM PINGADO – COM PÃO E MANTEIGA!”

Café pingado servido no copo com pão e manteiga

Deitar cedo para dormir – por volta das 21/22 horas – para acordar cedo, também. Andar alguns quilômetros de ônibus ou de bicicleta para, em seguida, pegar o trem com destino à Central do Brasil.

É essa a rotina do trabalhador que mora na periferia do Rio de Janeiro. Quase sempre tendo como destino final o “Centro”. As linhas do trem podem ser Central-Santa Cruz, Central-Nova Iguaçu ou Central-Belford Roxo.

Linhas urbanas servidas por ônibus podem levar a Caxias ou Campo Grande e Santa Cruz, ou ainda, Nova Iguaçu, e também a Belford Roxo. Num determinado trecho, a via única é a Avenida Brasil com aderências em Bangu, Guadalupe ou na bifurcação com a Rodovia Washington Luiz.

Mas há quem, por residir em Niterói e bairros periféricos a essa cidade, utilize a travessia por lancha no itinerário Niterói-Rio até a Praça XV, ou, simplesmente utilize a Ponte Rio-Niterói, o que obrigará, também, a usar a Avenida Brasil a partir do Caju.

Quem trabalha no Rio de Janeiro, quase sempre faz a primeira refeição na própria cidade, e preferencialmente, próximo do local de trabalho. Essa primeira alimentação (“breakfeast”) é uma tradição “carioca”. Uma verdadeira deturpação do que possa ser um “café da manhã”.

Uma “carioquice”, por assim dizer.

– Sai um “pingado” com pão e manteiga! Esquenta na chapa, faz favor!

É assim que alguém pede o simples café com pão e manteiga (margarina), sem esquecer de “comprar a ficha” antes, ou pagar antecipado.

Mas, há também quem disponha de mais tempo para “forrar o estômago” ou porque terá outro compromisso no horário do almoço. Assim, terá que “pegar algo” mais caprichado para garantir o tranco até o final do dia.

Aí a pedida será um sanduíche de pernil suíno, passado na chapa quente e caprichado com cebola e tomate. Para “ajudar”, uma cervejinha Caracu ou Malzbier preta. É “café da manhã” se aproximando de um almoço.

Carioca ou não, quem trabalha no Rio de Janeiro não vive somente no “tranco”, tampouco na “malandragem” como imaginam muitos que visitam a Cidade Maravilhosa apenas para férias ou lazer turístico.

Para esses, a sexta-feira está grafada na agenda de qualquer um, como o início do lazer do fim de semana. Chopp com bolinhos de bacalhau – que ninguém é de ferro! – cervejinha gelada com direito a atendimento de Menina Verão, ou até “outras paradas”.

Quem assumiu compromisso para algumas “horas extras” no trabalho, precisará se alimentar de forma mais leve, e, ao mesmo tempo, melhor.

A solução que muitos procuram, veio de Portugal, mas já ganhou tons e atrativos brasileiros ou alemães. É o famoso Caldo Verde! Não há quem prove e não vire escravo.

Mas, se em vez do Rio de Janeiro você estiver em São Luís (MA) ou em Belém (PA), ainda que não esteja se dirigindo ao trabalho, o “breakfeast” será outro. Mais regional, mais “pesado”, e que, com certeza, se adaptará mais ao consumidor local.

Falamos do açaí, para os paraenses que frequentam o Ver-o-Peso; ou da juçara, para os maranhenses, que frequentam a Feira da Praia Grande (Casa das Tulhas) ou o Mercado Central.

Em Belém (PA) ou em São Luís (MA), nem pense em se servir de açaí ou juçara sem o tradicional camarão seco salgado. Em Belém, usa-se a “tapioquinha”; em São Luís, usa-se a “farinha de puba”.

Juçara com farinha de puba e camarão salgado

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DOIS DOMINGOS

Em apenas uma semana, a América do Sul assistirá dois eventos que terão enorme influência em seu destino. Hoje, a posse de Javier Milei como presidente da Argentina. No próximo domingo, o Chile realizará um plebiscito para aprovar ou rejeitar o segundo projeto de uma nova constituição.

Os desafios que aguardam o presidente Milei são muitos, e ele certamente precisará mostrar resultados em pouco tempo. Uma parte de seus eleitores não votou por afinidade política ou ideológica, mas simplesmente por vontade de mudar e por rejeição ao governo atual. Esse tipo de eleitor não está disposto a um período de sacrifício em nome da reconstrução do país: ele quer um milagre, e logo.

O maior problema argentino é seu enorme déficit, causado por décadas de estatismo excessivo e uso generalizado do “cabide de emprego”. A fonte básica de recursos para cobrir esse déficit sempre foi a emissão de dinheiro, o que fez a Argentina conviver com crises periódicas de hiper-inflação. Milei precisa achar um caminho político para zerar esse déficit e interromper a emissão de dinheiro, de forma a conseguir uma moeda forte. Esse é o passo mais importante, e o mais difícil. Como ele será realizado (ou não), veremos a partir de amanhã. Em caso de sucesso, será um exemplo gigantesco para o mundo. Em caso de fracasso, será um argumento poderoso para os amantes do governo e inimigos da liberdade.

Nos últimos anos, enquanto a Argentina penava, seu vizinho Chile se meteu em uma novela constitucional. Em outubro de 2020 foi realizado um plebiscito que perguntou ao povo “Deseja uma nova constituição?”. O “sim” obteve 78% dos votos, mas apenas 51% dos eleitores compareceram. Como quem cala consente, no ano seguinte uma eleição escolheu 155 representantes encarregados de escrever a nova constituição. Depois de um ano, surgiu uma proposta com 387 artigos, que pretendia cobrir todos os temas da moda: igualdade de gênero, proteção ao meio ambiente, direitos dos povos indígenas, e naturalmente as promessas de que quase tudo (saúde, educação, moradia, segurança, etc) seria um “direito” fornecido gratuitamente pelo estado – mais especificamente, são enumerados 59 “direitos fundamentais”. Em setembro de 2022, a nova constituição foi rejeitada por 62% dos eleitores.

No início deste ano teve início a segunda tentativa. O congresso nomeou uma comissão de “especialistas” para elaborar um rascunho. Fez-se uma nova eleição para formar uma nova comissão para escrever, com base no tal rascunho, uma nova constituição. Ao contrário da primeira tentativa, onde os eleitores votavam diretamente nos candidatos, sem participação dos partidos, nesta nova eleição o voto era por lista fechada dos partidos. Os partidos de direita conquistaram mais de dois terços das cadeiras e em consequência fizeram tudo do seu jeito. Tendo sido feita por políticos, a nova proposta cria mais de vinte novos órgãos dentro do estado.

No próximo domingo o Chile colocará em plebiscito a nova proposta. As pesquisas indicam que será rejeitada como foi a primeira. Será um grande vexame, mas também poderá ser o começo de uma nova mentalidade. Alguns jornalistas já se atrevem a dizer que “uma parte do povo está começando a achar que mudar a constituição pode não ser o mais importante a fazer para resolver os problemas”. Daí a pensar que possa haver uma constituição que se limite a definir a estrutura do estado, sem ser uma lista de promessas mágicas, é um longo caminho. Mas talvez, porém, contudo, oxalá, quem sabe, a Argentina de Milei possa ser um bom exemplo.

DEU NO X