CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

SEGUE O BAILE

Não é mais surpresa ver, ouvir ou ler notícias sobre corrupção aqui no Brasil. Em outros países também existem corruptos, mas a diferença é que eles são punidos, algumas vezes com bastante rigor. O aproveitamento do dinheiro público vem de inúmeras formas diferentes e é fruto da ação de profissionais ditos “dignos” de confiança e ilibada reputação.

Como sou da área de educação, com experiência também em projetos de pesquisas, muito me chocou a notícia de que um pesquisador da Fiocruz – uma respeitada instituição no campo das pesquisas – simplesmente utilizou R$ 310 mil para viajar, juntamente com sua esposa, para França, Portugal e Estados Unidos. De onde vem o dinheiro? De um projeto na área de saúde indígena no qual esse professor é coordenador e a esposa, simplesmente, participa como integrante da equipe.

Sinceramente, fosse eu o presidente da instituição isso não passaria. Lembro de um problema semelhante no qual um professor – semideus – queria colocar a esposa na equipe de um projeto e eu não permiti. Ela até poderia ficar, mas sem receber nenhum tipo de bolsa. Lógico que esse cidadão subiu pelas tamancas, mas a esposa dele ficou fora. Dava apoio como uma espécie de secretária, sem receber um tostão por isso.

Um ponto que é importante esclarecer é que os projetos contemplam diárias e passagens, nacionais ou internacionais, para integrantes da equipe, desde que isso esteja no plano de trabalho. Pode ser, inclusive, que o referido professor esteja cumprindo alguma meta de alguma etapa do projeto, mas é estranho que ele e mulher tenham o mesmo interesse no objeto do projeto, com viagens para lugares comuns. Isso me lembra uma passagem de “O auto da compadecida” no qual Chicó dizia ter um cavalo bento que corria, o dia inteiro, atrás de um garrote e um boi e João Grilo pergunta diz: “como é possível Chicó? E os dois corriam juntos, era?”. “Não sei, só sei que foi assim!”.

Em meados da década passada, a Polícia Federal desencadeou uma operação chamada “Pós-doc” na qual descobriu desvios de recursos de projetos para conta pessoal de coordenadores de projetos. A coisa era simples: o coordenador colocava na equipe um aluno como bolsista, o crédito era realizado na conta do bolsista, mas o professor ficava com o dinheiro, ao estilo das famosas “rachadinhas” bem conhecidas nas câmaras legislativas desse país. O pior de tudo isso é que não há punição. O cara não é demitido, não tem suas verbas suspensas, nada. Segue o baile.

Confesso que estou me sentido igual a Kleber Bambam na luta contra Popó. Todos os dias eu levo socos diretos de esquerda no queixo, no baço, na alma. Não tem como recorrer ou a quem recorrer e muitos dizem “confiem na justiça divina!”… eu gostaria de ver essa gente pagando por aqui mesmo, para dar um belo ensinamento aos jovens. Tem aquela história de que “educai as crianças, para não punir os adultos”, mas Pitágoras, não sabia que haveria de ter um país chamado Brasil, onde o quadrado da hipotenusa pode ser furtada quando se fizer a soma dos quadrados dos catetos.

O que mais me choca, de verdade, é a leniência das pessoas, a concordância integral ou o simples desviar a vista das coisas que acontecem. As pessoas olham para outra direção para não ver as falcatruas, mas cobram posturas de honestidade, hombridade, dignidade, dos outros.

Ontem vi um vídeo no qual um repórter esportivo da globo – do canal a cabo – comentava que Robinho foi visto num churrasco no Santos, time no qual ele foi projetado. Dizia, esse repórter, que Robinho tinha levado ao filho para treinar no Santos e lá chegando estava rolando um churrasco e ele foi convidado. Após essa contextualização, o repórter rasgou o verbo contra a justiça lembrando que Robinho havia sido condenado a 9 anos de prisão e que a justiça espanhola havia solicitado extradição – a constituição federal não permite, mas não se surpreenda se o STF mudar de opinião – o fazer que ele cumpra a pena aqui. Salvo engano, dia 20/03 deve ter um desfecho disso.

Eu fiquei vendo a indignação e me perguntando: “como você não se indignou dessa forma quando votou num candidato corrupto?” Isso é apenas um pequeno exemplo de que a justiça, a dignidade, a coerência, são fatores alargados apenas quando temos interesse em algo. O resto é vala comum.

A PALAVRA DO EDITOR

VOLTAMOS!

Depois que a Vivo, nossa provedora, nos deixou dois dias fora do ar, voltamos agora há pouco, neste final de tarde, pra grande alegria dos viciados fubânicos.

Ufa!

Já estão no ar todas as colunas do dia e, aos poucos, iremos atualizando a fuxicaria das últimas horas.

Gratíssimo pela compreensão de todos vocês e tenham uma excelente noite de domingo!

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

CONDOREIROS

Nos Alpes do bom humor
Eu sou ave condoreira…
Alçando voos longíquos,
Vivendo sem ter besteira.
Quando caio me levanto,
Sigo em frente, enxugo o pranto
E depois sacudo a poeira.

Jr. Adelino

Eu sou da mesma maneira
Também me sinto um condor
Nas cordilheiras da vida
Voando com destemor
Sobre o reinado do ser
Ouvindo o povo dizer!
– Ô! Cabra véi sonhador!

Wellington Vicente

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Lota de Macedo Soares

Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, mais conhecida como Lota, nasceu 16/3/1910, em Paris, França. Arquiteta, paisagista e urbanista autodidata, fez do aterro do Flamengo um jardim -Parque do Flamengo-, consagrando o Rio de Janeiro como “Cidade Maravilhosa” na gestão do governo Carlos Lacerda, em 1960. A empreitada evitou a construção de 4 avenidas com prédios à beira-mar.

Filha de Adélia de Carvalho Costallat e José Eduardo de Macedo Soares, Tenente da Marinha baseado na Europa. A família retornou ao Brasil em 1912 e o pai fundou o jornal O Imparcial, precursor do Diário Carioca. Na década de 1920, devido as críticas que o jornal fazia ao governo, o pai teve que fugir para a Europa, onde Lota estudou até os 18 anos num colégio interno na Suíça, e retornaram ao Brasil. Na década de 1930, teve aulas de arquitetura com Carlos Leão e pintura com Candido Portinari na Universidade do Distrito Federal.

Era fã da corredora de carros Mariette Hélène Delange e chegou a participar de algumas corridas do Circuito da Gávea. Por esta época ficou conhecida no meio intelectual e artístico do Rio. Em meados de 1942, passou uma temporada em Nova Iorque e fez alguns cursos no Museu de Arte Contemporânea. De volta ao Rio, foi vizinha e amiga do futuro governador Carlos Lacerda e conheceu, em 1951, a poeta Elizabeth Bishop com quem viveu até 1967. Bishop é uma das poetas mais famosas dos EUA, que veio para o Brasil passar 2 semanas e ficou por mais de 20 anos. Segundo os críticos este período em que ficaram juntas, foi o mais produtivo da poeta, tornando-a vencedora do Prêmio Pulitzer em 1956.

Quando Lacerda assumiu o governo do recém-criado estado da Guanabara, em 1960, convidou Lota para trabalhar num projeto de remodelação ao longo da Praia do Flamengo. Sua proposta ampliou bastante o aterro; impediu a construção de prédios e criou a Fundação Parque do Flamengo, da qual foi designada presidente. Na eleição seguinte Lacerda não foi eleito e a pressão dos sucessores levou-a a pedir demissão. Mas o Parque já estava pronto e foi inaugurado em 17/10/1965, contando com 1.200.000 metros quadrados.

O Parque passou a ser chamado oficialmente de Parque Brigadeiro Eduardo Gomes (o trecho entre o Aeroporto e o Monumento aos Pracinhas) e de Parque Carlos Lacerda (área do Monumento aos Pracinhas até o Túnel do Pasmado). Lacerda formou um grupo de trabalho, sob o comando de Lota, visando a urbanização do aterro Glória-Flamengo a partir do desmonte do Morro de Santo Antonio. Ela montou a equipe contando com o arquiteto Affonso Reidy, que foi diretor do Departamento de Urbanismo na década de 1940 e alimentava a ideia de criação do Parque desde aquela época.

A equipe contou também com o paisagista Burle Marx e diversos engenheiros e arquitetos. Conta-se que ela era uma chefe durona e que Burle Marx chegou a chamá-la de prepotente e autoritária em entrevistas nos jornais. Lota e Bishop viveram juntas de 1951 a 1965. Dois anos após, Lota viajou a Nova Iorque para encontrar Bishop. No mesmo dia foi encontrada no sofá da sala com um vidro de antidepressivos na mão. Entrou em coma e faleceu pouco depois, em 25/9/1967.

Em 2008 Nadia Nogueira lançou o livro Invenções de si em histórias de amor: Lota-Bishop, pela editora Apicuri. Em 2011 Carmen L. Oliveira lançou o romance biográfico Flores raras e banalíssimas: a história de Lotta de Macedo Soares e Elizabeth Bishop, pela editora Rocco. Em 2013 o livro foi transposto para o cinema com o filme Flores raras, dirigido por Bruno Barreto, tendo Glória Pires no papel de Lota.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

SEMENTES QUARESMAIS

Das amizades que mantenho há décadas, a maioria delas muito fraternais, algumas delas são de personalidades que proclamam uma férrea incompatibilidade entre Ciência e Crença Religiosa, alguns dos amigos até se declarando ateus de carteirinha, embora portadores de uma ética comportamental solidária exemplar.

Um deles, entretanto, meio distanciado de tudo, manifestou recentemente interesse em conhecer melhor a caminhada do Homão da Galileia, pois O considera o maior revolucionário da Era Humana.

De Páscoa, já comuniquei a ele que não o presentearei com ovos, mas com algumas indicações de livros por mim considerados de honesta descrição da vida e das mensagens de Jesus, que buscou sempre se distanciar de erudições enfadonhas, também de proselitismos que apenas despertam o tédio dos racionais, em alguns instantes incompreensões grandiosas. Eis os textos por mim considerados sementeiros por derradeiro para quem possui uma curiosidade racional pelo Galileu:

– QUEM FOI JESUS? – UMA ANÁLISE HISTÓRICA E ECUMÊNICA, André Marinho, Bragança Paulista SP, Instituto Lachâtre, 2018, 312 p.

– JESUS, A VERDADEIRA HISTÓRIA, Jacques Duquesne, 3ª. edição, Geração Editorial, 2005, 306 p.

– RAZÃO X RELIGIÃO: O PRIMADO E OS PRIMATAS, Omar Ferri, Porto Alegre RS, Citadel, 2023, 288 p.

– JESUS: UMA BIOGRAFIA REVOLUCIONÁRIA. John Dominique Crossan, Rio de Janeiro, Imago, 1995, 220 p.

– QUEM MATOU JESUS? AS RAÍZES DO ANTISSEMITISMO NA HISTÓRIA EVANGÉLICA DA MORTE DE JESUS, John Dominique Crossan, Rio de Janeiro, Imago, 1995, 268 p.

Pelas leituras acima, pode-se esclarecer uma série de perguntas que obnubilam mentes pouco atentas. Algumas delas: De onde vem a autoridade da Bíblia? As pessoas que escreveram as Sagradas Escrituras foram efetivamente inspiradas pelo Espírito Santo? Por que tantas pessoas, ao longo dos séculos, reverenciam as Escrituras Sagradas, pautando sua caminhada terrestre por elas? Por que existem tantas traduções da Bíblia? Como a racionalidade superou ingenuidades e despropósitos, cavilações ingênuas e fundamentalismos despropositados, que apenas buscam arrancar trocados para usos exclusivamente mantenedores de oponências pessoais e institucionais? Por que muitas religiões instilam ódios e desavenças entre povos e nações?

Após a leitura dos livros acima citados e com a disseminação da IA – Inteligência Artificial pelas áreas mais civilizadas do mundo, apenas mais uma sugestão eu faria ao Zequinha: que buscasse entender a mensagem de Jesus de Nazaré para os tempos contemporâneos. Um livro que muito o auxiliaria nos propósitos pretendidos: HUMANAMENTE DEUS: UMA INTERPRETAÇÃO DO EVANGELHO E DA PESSOA DE JESUS PARA OS DIAS DE HOJE, Victor Azevedo, São Paulo, Planeta do Brasil (Academia), 2023, 144 p.

No mais, é perceber-se continuadamente uma metamorfose ambulante (Raul Seixas), sempre se questionando como alguém se torna aquilo que é (Nietzsche), buscando analisar razões e causas dos seus comportamentos, passados e cotidianos. Nunca deixando de dar razão ao balizamento de uma canção famosa: Quem sabe faz a hora, nunca espera acontecer.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM NEGÓCIO DA CHINA

Sr. Shin Lau e família

Desde menino que ouço mamãe dizer uma frase singular, quando achava que havia obtido uma solução satisfatória para algum problema ou cujo resultado financeiro lhe fosse favorável:

“Foi um negócio da China!”

Na Boa Vista, bairro do Recife onde vivi períodos da primeira infância, ficou em minha lembrança peculiaridades sobre procedimentos comerciais de uma família asiática.

Algumas vezes que fui com a “Secretária” Minervina à lavandaria de propriedade de uma família chinesa, situada na Rua Barão de São Borja, geralmente me chamava a atenção certos procedimentos deles, que para mim eram muito diferentes dos nossos.

Ali trabalhavam marido, mulher e filhas, geralmente todos calçando tamancos e vestindo roupas costuradas à mão, utilizando um tecido branco chamado “Madapolão”. Vestimentas bastante rudimentares.

Eram conceituados. Tanto no trato com os brasileiros – mesmos com as dificuldades vernaculares – quanto na eficiência dos serviços.

Lembro-me que no final da tarde o chinês aparecia montado numa bicicleta para entregar as roupas lavadas e engomadas, com cabides pendurados numa “arara” fixada no bagageiro.

Não se questionava em nenhuma das conversas que eu ouvia o motivo de sua transferência de um país tão longínquo e de costumes tão diferentes. E muito menos suas ideias políticas, como atualmente. Sentíamo-nos irmãos.

O fato é que os preços cobrados pela “Lavandaria do China” – conforme identificávamos seu estabelecimento – eram mais convidativos e ainda recebíamos à domicílio.

Adulto, procurei saber a causa do “ditado”, e utilizando notas do prof. Por Rainer Gonçalves de Sousa, que é Mestre em História, aqui retransmito, porque data da Antiguidade.

A expressão “Negócio da China” tem origem no contato comercial entre Ocidente e Oriente. Desde anos remotos, as atividades comerciais tiveram grande importância no desenvolvimento de determinadas civilizações e promovia rico intercâmbio entre culturas distantes.

Nos fins da Idade Média, a consolidação da burguesia europeia realizou a integração entre Ocidente e Oriente por meio de longas rotas marítimas que buscavam as cobiçadas especiarias oriundas desta região.

Até que a expansão marítimo-comercial ocorresse no início do período Moderno, a busca pelas sedas, temperos, ervas, óleos e perfumes orientais era o grande “negócio da China” para os mercadores daquela época.

Ainda hoje, a expressão “negócio da China” é usualmente utilizada quando alguém obtém algum tipo de acordo bastante vantajoso.

De fato, a concepção desse termo remonta o grande interesse que os comerciantes da Europa tinham em buscar as mercadorias oferecidas pelos chineses e outros povos asiáticos.

Chegando ao século XIX, essa expressão também ganhou força no momento em que a economia capitalista vivia um período de visível expansão. Nessa época, os britânicos cobiçavam a exploração do vasto mercado consumidor chinês, assim como o uso de suas matérias-primas e a grandiosa força de trabalho disponível.

Mamãe – nos anos 40 – costumava comentava que entregar roupas para lavar e engomar na lavandaria do sr. Chin Lau, era “um negócio da China”.