O Sr. Eudes, ao meu lado na fotografia acima, é consultor de vendas como eu.
Apaixonado pelo Sertão, pelo sertanejo, pelo beradeiro e por doido. Nisso tudo combinamos nós dois.
Um bom contador de causos, Seu Eudes me narrou outro dia sobre um leilão em Santa Luzia, da Paraíba, sua terra natal.
No grito seria disputada uma galinha já torrada. E com acompanhamentos!
Na praça ante a igreja, sobre um tablado, o leiloeiro anunciou o prêmio para a atenção de quase uma centena de mesas e começou a pelejar a venda; na mão esquerda o microfone e na direita uma bandeija de papelão com o prêmio devidamente coberto por um pano de prato branquinho.
A disputa entre as mesas era contagiante e rapidinho o lance chegou aos duzentos reais. Isso quando o Real era moeda forte.
– Dou-lhe uma. Quem dá mais? – perguntava o leiloeiro se demorando e fazendo o clima, com a penosa torrada erguida sobre a cabeça. – Dou-lhe duas…
Já se preparava para fechar a parada no arremate do “dou-lhe três” quando um tal Janduí elevou a oferta com o grito cortando o burburinho entre as mesas:
– Duzentos e cinquenta! E é para o Padre Luiz!
Aumentada a oferta e o ruído de vozes entre as pessoas, o padre de sua mesa estufou o peito e abriu aquele sorriso. Que demorou pouco, é verdade, porque logo alguém cobriu o lance gritando “trezentos reais!”
Aí, nesse instante houve um silêncio no largo da praça.
O Padre Luiz voltou-se de tronco e cabeça para Janduí querendo ouvir a tréplica. Com tanta convicção Janduí dera o lance, que certamente não aceitaria perder a parada. Nessa hora que o padre se virou, Janduí pigarreou, ajeitou a voz e soltou um grito ainda mais alto:
– Está muito bom mesmo, que Padre Luiz não é raposa pra gostar de galinha.
E o padre foi dormir sem comer a cocó-ri-có.
Coisas do Sertão de Seu Eudes, do meu Sertão e do Sertão de todos nós.
Nas várias e várias noites em conversas nas redes armadas na latada fronteiriça da casa, com o silêncio noturno sendo quebrado pelo ranger do armador da rede em balanço impulsionado pelo “tacar” do pé na parede, João Buretama, meu avô materno costumava nos levar a viagens reais que, de tão espetaculares, nos levavam a imaginar serem anedotas (na linguagem atual, “narrativas”).
Nascido em Uruburetama, pequeno município da costa norte marítima do Ceará, Vovô dizia ter sido chamado pelo encantamento de algo inusitado que acontecera em Timbaúba, povoado vizinho de Queimadas, onde quase todos nascemos. Ali, Vovô conheceu Vovó, e com ela gerou duas filhas (Maria, a tão famosa “Tia Maria” dissertada várias vezes nos meus textos; e Jordina, minha eterna e encantada rainha).
Pois, no balançar das redes, Vovô contava que chegara no lugar por volta de 1908, fisgado pelo inusitado: a queda, considerada milagrosa, de um “corisco”.
“Corisco: pedra de raio, pedra de trovão ou pedra de thor é o nome que em Portugal se dá aos instrumentos de pedra pré-históricos, principalmente bifaces, aos cristais de rocha muitas vezes encontrados nas raízes das árvores, às cunhas de ferro e aos meteoritos”.
Aquele acontecimento incomum mexeu com o Estado e o país. Muitos imaginaram o início do fim do mundo e o povo de lugares distantes não tomou conhecimento por que ainda não existiam a televisão para mostrar as imagens, nem o Repórter Esso tinha representante na mídia cearense.
O “corisco” era uma pedra gigantesca que, se adonando do lugar, virou serra e ficou conhecida como “Serra da Pedra Encantada”. Uma pedra só, e, por isso, sem árvores. Em dias de sol quente produzia um calor insuportável.
Vovô continuava “se balançando na rede armada na latada”, falando como se papagaio fosse. Contava que, durante anos, muitos tentaram subir aquela serra. Mas não encontravam apoio que garantisse o que hoje a modernidade chama de “escalada” e denomina os afoitos de “raper”.
Aos poucos o vento trouxe a poeira e o sereno noturno produziu limo. A ação da Natureza começou a mudar o “corisco” que ficou conhecido em definitivo como “Pedra Encantada”.
Descobriu-se, anos depois, que algumas aves procuravam as rachaduras que o tempo impôs a pedra para se acasalarem e reproduzirem sem o incômodo humano. Durante mais tantos anos, foi descoberto que, a preferência das aves pelo lugar onde se reproduziam, era por conta do reinado de uma águia, cuja espécie estava em extinção e resolvera escolher a Pedra Encantada como última morada. Ali, a águia era a rainha e as outras espécies se transformaram em súditos que voavam e voavam em busca de alimento para os filhotes e para a águia-rainha.
A águia que virou rainha da Serra da Pedra Encantada
Sem visitantes, a Serra da Pedra Encantada reinava absoluta na Timbaúba. Era, naquele tempo, a única atração “turística” do lugar, e alguns coronéis da época até contratavam fotógrafos lambe-lambe para fotografias que, nada mais eram que as atuais “selfies”!
Com o passar dos tempos, a sabedoria popular e os mestres do povoado concluíram que aquela era a maior atração do lugar. Resolveram construir cercas no pé da serra e espalharam a mentira de que todas as árvores que rodeavam a serra, também eram sagradas – ainda que nem a Diocese cearense ou o Vaticano tivessem produzido a famosa fumaça branca.
Mas, a atração maior estava por vir. E acabou chegando em meados dos anos da década de 30.
As aves que se reproduziam nas frestas da pedra e voavam de lugares distantes para trazer alimento para a águia-rainha, acabaram trazendo, também, algumas sementes como alimento para os filhotes. As sementes nem todas eram engolidas pelos filhotes. As que escapavam caíam entre as pedras e, ainda que chovesse muito pouco ou quase nada, acabavam se reproduzindo em flores.
Flores nascidas entre pedras
Eis que, o simples fato de que aquela pedra gigantesca era a principal “atração turística” da Timbaúba, embora não gerasse qualquer tipo de arrecadação que pudesse melhorar a infraestrutura do lugar, quem poderia afirmar com segurança que, no futuro, aquele simples povoado pudesse vir a ser mais um “Horizonte” para a economia e o turismo cearense?
Pois assim aconteceu: com a ajuda das aves que se reproduziam em períodos férteis naquela pedra, as sementes que escapavam de serem engolidas pelos filhotes se reproduziam. E, foi a partir desse momento que, da pedra encantada começaram a nascer flores. A pedra de onde nasciam flores. A notícia correu o Estado e o mundo, com Timbaúba ganhando, finalmente e de forma merecida, a ostentação de lugar que tinha o privilégio de ter a Serra da Pedra Encantada.
A floração vicejante da Pedra Encantada
Repentinamente o cântico de uma cigarra se fez ouvir por conta do silêncio reinante chamou a atenção – até por que não se ouvia mais o rangido do armador enferrujado produzido pelo balançar da rede.
Levantei e olhei Vovô dormindo feito um bebê. Concluí que aquela estória toda ele contara em sonho.
Ganhou o espaço a declaração da ministra da saúde sobre o caso de pessoas transplantadas que receberam órgãos de pessoas soropositivas. De certa forma a gente se espanta, mas relaxa quando a se lembra que estamos no Brasil. As coisas que acontecem por aqui não parecem obra do acaso, parecem mesmo é ser fruto da incompetência dos nossos gestores, da complacência do nosso judiciário e da cumplicidade absurda dos eleitores. Acredito, piamente, que o Hino Nacional precisa ser reescrito, atualizado, posto que aquele verso “verás que um filho teu não foge à luta” deve ser trocado por “verás que um filho teu não vai à luta”.
Nos idos dos anos de 1980, quando a AIDS se propagou intensamente pelo mundo, o Brasil despontou com uma campanha importante que serviu de modelo para vários países, principalmente, países africanos onde a gravidade foi maior. Naquela ocasião, grupos de riscos foram atingidos maciçamente, dentre eles os hemofílicos. A hemofilia é uma doença hereditária, atinge somente homens (quer dizer….), que se caracteriza pela dificuldade de coagulação do sangue e o sangue contaminado por HIV atingiu boa parte de pessoas, dentre estes alguns famosos como Henfil (o cartunista), Chico Mário e Betinho, seus irmãos.
Ter AIDS era ter uma sentença de morte. Pessoas famosas foram contaminadas, morreram jovens atores. Até que descobriram que um coquetel antiviral não cura, mas impede o vírus se propagar no organismo. A AIDS é controlada. Pessoas soropositivo buscam ter uma vida normal, tomando seu AZT uma vez por dia (creio!) e seguindo em frente.
A questão de doação de sangue passou a ter um controle mais rígido. Desenvolveram uma sorologia importante que investiga não apenas o HIV, mas também diversos tipos de hepatite e outras patologias. No caso da doação de órgãos isso também é praxe. Um controle severo como, de fato, deveria ser. Mas, eis que a ministra da saúde admite, publicamente, que há transplantados com órgãos doados por soropositivos. Quem falhou? Acho que essa é a pergunta imediata que devemos responder. Vamos abrir uma investigação. O Ministério Público do Rio de Janeiro já está se movendo nessa direção. Vamos aguardar.
O que é estranho nisso é que o laboratório fornecedor dos órgãos é de propriedade de um primo do ex-secretário de saúde do Rio de Janeiro. Recebeu R$ 19,6 milhões e sabe o que mais interessante? Não foi através de um processo licitatório, mas mediante um processo chamado TAC – Termo de acerto de contas. Nesse tipo de processo, o estado reconhece que te deve e manda te pagar. Pronto. Simples e eficaz para propagação dessa tão famigerada corrupção. O cara entrega o produto que quiser. Não há uma vistoria prévia para saber se o produto, ou serviço, atende as condições de uso. Pague-se. Obviamente, a compra fica superfaturada e parte do pagamento é entregue às pessoas diretamente interessadas.
Há casos criminosos nisso tudo. Primeiro, cabe lembrar os remédios chamados BO (bom para otários) que eram vendidos nas farmácias antigamente. Foi preciso uma CPI para acabar com esse tipo de comércio, mas basta você chegar numa farmácia que você verá diversas ofertas de tudo que não serve para nada. Depois foram as pílulas de farinha. Muitas mulheres tomavam anticoncepcional e, apesar disso, engravidaram. Como? Fizeram uma análise nas pílulas de um laboratório e descobriram que eram de farinha. Simples assim.
Na cidade de Caruaru, agreste pernambucano, a capital do forró, 30 pacientes que faziam hemodiálise faleceram porque o soro que tomava tinha água contaminada. Escândalo total. Sabe quantas pessoas foram presas por isso? Nenhuma!
Quem de nós não vê propaganda de remédios miraculosos na televisão, na mídia de modo geral? O que chega para mim de sugestões para tomar isso ou aquilo não é brincadeira. Um dia desses vi o resumo de uma entrevista que um médico deu num podcast falando nos 5 medicamentos que pessoas com mais de 60 anos não deve deixar de tomar. Dentre eles a creatina. Pois bem. A Associação Brasileiras de Empresas de Produtos Nutricionais avaliou 88 marcas de creatina que são vendidas no mercado e as empresas entraram na justiça solicitando que o laudo não fosse divulgado. Foi divulgado e 18 empresas foram consideradas impróprias. Veja bem: a pessoa compra um troço com a intenção de manter a saúde e ingere uma desgraça que acaba com a saúde.
É mais ou menos assim o caso dos transplantados. Fez o transplante porque o rim não funcionava mais e recebeu o rim de soropositivo, que foi adquirido de um laboratório cujo dono é primo do secretário de saúde. Os transplantados vão precisar de todo tipo de apoio e o dono do laboratório … bem, duvido muito que ele seja incomodado pela justiça. Pode até ser denunciado, mas vai recorrer da sentença o quanto puder até que ele chegue no STF e algum ministro faça um voto dizendo que a culpa é do paciente, posto que se tivesse uma vida regrada não iria precisar de um rim.