CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Conselheiro Rosa e Silva

Durante a campanha para a eleição de Dantas Barreto contra Rosa e Silva, em Pernambuco, a coisa foi terrível, pois envolveu o então brioso Exército Nacional e sua Força Auxiliar, a Brigada Militar. Isso nos dias atuais seria espantoso.

Segundo notas da historiadora Dilva Frazão o Exército dava cobertura a Dantas Barreto e a polícia estadual era fiel a Rosa e Silva. A bala cantava solta na Capital e no interior, entrando na briga os “Coronéis Civis” que dominavam as maiores cidades do agreste e do sertão.

A fase do Coronelismo se iniciou com a criação da Guarda Nacional, quando os latifundiários aliados ao governo central recebiam o título de Coronel, para que exercessem o domínio em sua região.

Mas tudo isso não foi nada. O pior viria depois.

Se o valoroso soldado Dantas Barreto pudesse ver o que aconteceu no Recife para modernizar a cidade e homenagear sua memória, dando-lhe o nome de avenida e edificando um busto de sua figura emblemática, ficaria triste.

Constataria o tremendo “quebra-quebra” de velhos monumentos, que ocorreu, a fim de abrir os caminhos para o projeto de uma das mais importantes artérias do Centro da Capital: a Avenida Dantas Barreto. E certamente ficaria entristecido

Voltemos ao ano de 1940. Lá vem o jornalista Mário Melo com suas ferrenhas críticas, para evitar que o Recife continuasse a se deteriorar ainda mais na sua feição de cidade europeia, como se já não bastasse a demolição da Igreja do Corpo Santo, a fim de modernizar o porto.

Para se remodelar uma cidade velha – bem o sabemos – é necessário se deslocar algumas partes, mas no Recife não se poupou nem os templos históricos.

A marreta começou a cantar em 1952, quando para abrir o trecho da Praça da República até a Avenida Guararapes (na época ainda denominada Av. 10 de Novembro), excluiu-se primeiramente, o Pátio do Paraíso, fazendo-se desaparecer, inclusive, a Igreja do Paraíso.

Tendo a denominação antiga de Praça Barão de Lucena, derrubou-se o primeiro templo católico – a igreja – de comum acordo: Prefeitura e autoridades eclesiásticas locais – tudo para se iniciar o projeto da nova avenida.

Mas não seria esta a única demolição de templo católico na área central da cidade. Anos mais tarde viria a ser derrubado um símbolo da História da Escravidão: a Igreja dos Martírios, que fora destinada aos cidadãos pardos e pretos.

O templo foi demolido, “na marra”, em 1972, após haver motivado terrível briga entre o jornalista Mário Melo, o Prefeito Augusto Lucena e o SPHAN, demolição que ocorreu durante u’a madrugada, por máquinas de grande porte.

De prefeito em prefeito foi-se quebrando tudo quanto era edificação com o objeto de ser criada uma artéria cujo traçado se iniciava na Praça da República e se prolongaria até a Ponte de Afogados. Rasga-se-ia, em linha reta, a parte mais central da Capital: os bairros de Santo Antônio e São José até a ponte que liga esses bairros com Afogados.

Permaneceram apenas as Igrejas de Santo Antônio, a Nossa Senhora do Carmo e a Matriz de São José, esta um pouco fora do perímetro da futura avenida.

O projeto ficou empacado na Praça Sérgio Loreto; mas demoliu-se bom pedaço residencial do bairro de São José até a parte do lado esquerdo da Rua Imperial.

E depois dessa quebradeira a avenida não foi concluida. Hoje serve apenas para terminais de ônibus, ali ocorreu a construção de um monstrengo chamado “Camelódromo” e serve para desfiles de agremiações carnavalescas.

Voltemos à época em que a “Revolução de 1911” se iniciou.

Prevendo que não seria moleza ganhar uma eleição tão acidentada, onde as balas sibilaram e o Governo da Situação proibira comícios no interior, inclusive em Bom Conselho, Dantas Barreto sentiria o gosto ruim da vitória antes mesmo da posse. Ganhou de goleada e Pernambuco todo vibrou com a derrocada de Rosa e Silva.

O primeiro fato que causou grande apreensão, face à covardia do gesto, foi o despejo da Academia Pernambucana de Letras que funcionava no mesmo prédio do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, extirpado de sua sede na Praça Major Codeceira, 27 (atual Praça Joaquim Nabuco), lançando-se todos os móveis e arquivos na rua, durante u’a madrugada, dias antes do general diplomar-se governador.

O fato foi realizado por agentes públicos que cumpriram ordens do Prefeito Arquimedes de Oliveira, durante u’a madrugada, a mando do governador rosista, Herculano Bandeira, sob a justificativa de que a Prefeitura precisava do local.

Ultrajava-se, assim, a Lei Provincial nº1.430, de maio de 1879, que doara o imóvel àquelas instituições, realizando-se ato de puro vandalismo praticado por funcionários da Prefeitura. Certamente mero despeito, porque o governador eleito era membro da Academia Brasileira de Letras, Cadeira nº 27.

Obtive parte destas notas, de assentamentos de Dilva Frazão, Fátima Quintas e do excelente livro de João Alfredo dos Anjos: “A Revolução Pernambucana de 1911”.

Finalizo estas lembranças publicando breve prosa com um taxista que me indagou:

– Eu gostaria muito de saber quem foi essa tal de Rosa e Silva, porque se trata de uma rua em que frequentemente fico engarrafado.

Deixei claro que se tratava de um homem e não de u’a mulher. Foi ilustre personagem de nossa História, que além de ter sido senador e Vice-presidente da República, foi Conselheiro do Império e influenciou a governança do Estado durante quase 20 anos, período conhecido como o tempo da “Oligarquia Rosista”.

Em favor da História maior do nosso torrão não se pode esquecer pequenos fatos periféricos ocorridos à margem dos maiores acontecimentos, porque todos fazem parte das Histórias de Pernambuco.

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