DEU NO JORNAL

A VELOCIDADE TAMBÉM FAZ DIFERENÇA NA POLÍTICA

Adriano Gianturco

velocidade regulacao uber aplicativos transporte.

Na maioria dos países, quando se pretendeu regular os aplicativos de transporte já era tarde demais: as pessoas tinham se acostumado com o serviço

Em política, fala-se muito em liberdade, igualdade, justiça, ideologia, interesse, negociação, e até em marketing, mas nunca se fala em velocidade. Nem sequer há grandes obras da teoria política que tratem desse assunto. Mas a velocidade importa, sim, também na política.

O grande Vilfredo Pareto explica como funciona a “circulação das elites” que dominam a política. Um fator importante é a velocidade dessa circulação: velocidade demais gera instabilidade, enquanto lentidão provoca estabilidade, mas também decadência. Um sistema político é equilibrado quando há renovação das elites – nem veloz demais, nem lenta demais. A velocidade é fundamental também para o conservadorismo, pois é notório que, mais que se opor às mudanças em si mesmas, os conservadores se opõem às mudanças muito rápidas e repentinas.

É empiricamente demostrado que, depois de uma crise, se a recuperação é lenta, os incumbentes perdem as eleições. De modo geral, em economia, quando os resultados de um governo são rápidos, o povo tende a confirmar o apoio; se os resultados demoram, o governo estanca.

Na área da segurança e da saúde, então, agir tarde demais pode ser fatal. Anos atrás, visitei a House of Commons britânica e ouvi um deputado reclamar do fato de que, na sua cidade, as ambulâncias estavam demorando 11 minutos em média para chegar.

A velocidade também importa no caso da regulação. Matt Ridley mostra que a regulação rápida e precipitada impediu que a energia nuclear se tornasse mais segura, que o arroz dourado salvasse mais vidas, e que vários medicamentos pudessem ser desenvolvidos mais rapidamente. Com o Uber e os aplicativos de transporte, pelo contrário, o Estado foi lento: quando se tentou regulamentá-los, muitas pessoas já conheciam e amavam o serviço e vários motoristas já tiravam seu ganha-pão dele, tornando mais difícil a restrição – normalmente, é o que ocorre na área digital, em que há muita inovação e avanços porque ela é mais rápida que a regulação estatal. Uma exceção à regra foi a Itália, mas a velocidade não veio do Estado, e sim dos taxistas: eles foram tão rápidos na reação e no lobismo que logo veio uma regulação rígida, que de fato quase inviabilizou o Uber.

Cerca de 20 anos atrás, eu estagiava no jornal La Stampa, em Turim; era noite e estávamos fechando o jornal quando, de repente, chegou a notícia de que o ministro do Desenvolvimento Econômico, Pier Luigi Bersani, havia aprovado um decreto (chamado “lençol”) com várias pequenas liberalizações. Depois, ele declarou que o fez rapidamente à noite porque, do contrário, teria havido lobismo demais e ele não teria tido sucesso.

Para a construção de infraestrutura, estradas, pontes, metrô, ferrovias etc., democracias atuais demoram mais que no passado, porque há muito mais regulação, necessidade de autorizações, licitações, audiências públicas etc., a ponto de alguns falarem em “vetocracia”. Por outro lado, regimes autoritários, como a China, fascinam alguns exatamente porque tudo é feito rapidamente, em poucas semanas, já que basta a vontade de um, ou de uns poucos.

O golpe de Estado é quase que por definição uma questão de velocidade: precisa ser rápido para não dar tempo à reação. O autogolpe de Alberto Fujimori no Peru, em 1992, deu certo, entre outros motivos, porque foi veloz; a tentativa de golpe contra Recep Tayyip Erdogan, na Turquia, em 2016, falhou justamente pela lentidão. Não por acaso, na obra The Dictator’s Handbook, o cientista político Bruce Bueno de Mesquita afirma que, para um ditador tomar o poder político, “a velocidade é essencial”. O mesmo ocorre na guerra, que é a “continuação da política com outros meios”, na famosa definição de Carl von Clausewitz: velocidade e surpresa são fundamentais, e ficou famosa a blitzkrieg (“guerra relâmpago”) de Hitler para tomar a Polônia e outras partes da Europa no início da Segunda Guerra Mundial. E, na diplomacia, a lentidão para se condenar algum absurdo internacional é tão significativa que fala por si – o caso mais recente é o de Daniel Ortega, que declarou explicitamente o fim das eleições na Nicarágua, e ainda assim o Itamaraty levou quatro longos dias para criticá-lo.

Como cidadãos, percebemos que, às vezes, o Estado é lento demais quando precisaria ser rápido, e rápido demais naquilo em que acaba atrapalhando. A importância da velocidade é um tema que merece aprofundamento na ciência política.

DEU NO JORNAL

CONFORME O REGULAMENTO

Coincidiu com a convenção nacional do PT, no último domingo (2), uma série de roubos, furtos e atos de violência em São Paulo.

Até um jornalista ficou ferido durante assalto na capital paulista.

* * *

Num é coincidência.

É consequência.

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

NASCEMOS PARA AMAR – Bocage

Nascemos para amar; a Humanidade
Vai, tarde ou cedo, aos laços da ternura.
Tu és doce atractivo, ó Formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão na alma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre:
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.

Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage, Setúbal, Portugal (1765-1805)

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO X

ALEXANDRE GARCIA

O BRASIL ESTÁ CHEIO DE CÚMPLICES DAS MENTIRAS DE ANTHONY FAUCI

anthony fauciAnthony Fauci escondeu efeito colateral grave da vacina que tomou contra a Covid

Esse diário do médico Anthony Fauci teve um efeito explosivo. Ele escreveu tudo em um computador do trabalho, salvou em servidor do governo, e aí foi fácil para as investigações do Senado encontrarem o material. Fauci foi convocado, precisou ir à Comissão de Segurança e Assuntos Governamentais do Senado, ficou em silêncio o tempo todo, mas revelaram tudo o que estava no diário. O que me chamou atenção foi o fato – que ele escondeu, mas estava no diário – de o próprio Fauci ter tido uma trombose pulmonar depois de ter tomado a vacina contra a Covid. O que se diz por aí – eu até procurei, mas não encontrei comprovação – é que, só em 2021 e 2022, as mortes de atletas jovens equivaleram ao registrado nos 50 anos anteriores.

E temos ouvido um barulhento silêncio aqui no Brasil sobre tudo isso. Pelo jeito, muita gente sentiu que também é responsável pelas coisas que Fauci pregou e que não eram necessárias: máscara, distanciamento, isolamento. Aqui no Brasil a Constituição foi totalmente desrespeitada: direito de ir e vir, direito de reunião, liberdade de expressão, vedação à censura, tudo foi ignorado. As pessoas eram censuradas só por falar em certas coisas; eu falava o óbvio, daquilo que eu via. Minha mulher é médica e estava curando; nenhuma paciente dela foi hospitalizada com Covid porque havia (e há) cura, e cura barata. Mas era proibido falar no tratamento, e a Polícia Federal chegou a ir à casa de pesquisadores como Flávio Cadegiani e Ricardo Zimerman, fora tantos outros médicos e médicas que foram calados.

Enquanto isso, toda hora um certo programa de televisão mostra (ou mostrava, não sei mais, faz mais de 20 anos que eu não assisto a televisão) que “descobriram agora uma raiz na Amazônia que cura o câncer”. Era amplamente noticiado, e não havia problema nenhum. Na medicina existe o que se chama de uso off label de medicamentos, quando se descobre um uso que não estava na bula. A ciência é assim: experimenta-se; se não deu certo, esquece; se deu certo, usa-se para salvar vidas.

Depois de tudo o que aconteceu no Senado americano, os estados de Louisiana, Flórida e Alabama estão se unindo para processar Fauci. Mas em 19 de janeiro de 2025, um dia antes de sair da presidência, Joe Biden assinou um perdão amplo e incondicional a Fauci por sua atuação desde 2014 no Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas. E, como assessor de saúde do presidente dos Estados Unidos, recebeu um perdão sem que estivesse respondendo a nenhum inquérito. Não sei como a Justiça vai resolver isso.

* * *

Ainda já juízes que sabem o que é imunidade parlamentar

Alexandre de Moraes perdeu uma causa judicial em São Paulo. A mulher dele, Viviane, e os filhos, componentes do escritório de advocacia que teve um contrato de R$ 129 milhões com o Daniel Vorcaro e o Banco Master, estavam processando o senador Alessandro Vieira, relator da CPI do Crime Organizado, pedindo indenização por danos morais. Ele havia dado uma entrevista no SBT na qual falava das ligações entre o Master e o PCC, além de algumas declarações sobre Moraes e Dias Toffoli. O juiz recusou. É óbvio: a Constituição, no artigo 53, diz que “deputados e senadores são invioláveis civil e penalmente por quaisquer palavras”. E Viviane Barci ainda terá de pagar R$ 2 mil em honorários advocatícios para o senador.

DEU NO JORNAL

NORMAL, NORMAL

O senador Jaques Wagner (PT-BA), amigão de Lula (PT), é alvo central da 9ª fase da Op. Compliance Zero, de junho, e passa a ser investigado pelos sinais de enriquecimento.

Intriga quem se interessa pelo tema como o petista carioca chegou na Bahia sem um tostão no bolso, virou sindicalista e na política declara fortuna de R$ 24,5 milhões.

O patrimônio que cresceu 631% em oito anos, com bens que vão de apartamento do exclusivo Corredor da Vitória, em Salvador, a terrenos de valor milionário.

Wagner é acusado de receber vantagens como apartamento adquirido com dinheiro da corretora Reag, suspeita de elo com o crime organizado.

Lula e seu governo protegeram Wagner, como indica a suspeita de vazamento da 9ª fase da operação Compliance Zero.

O crescimento patrimonial abrupto, bens não declarados e suspeitas de propina reforçam a desconfiança contra conhecidas práticas petistas.

* * *

Não há motivo para espantos.

Tudo dentro dos conformes.

E a expressão “conhecidas práticas petistas”, que fecha essa nota aí de cima, resume tudo.

Isto sem falar da expressão “elo com o crime organizado”…

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

SALAMANCA

Pouca gente sabe que os atuais campeões mundiais de futebol também são os fundadores da ciência econômica. Estou falando da Espanha, claro, mais especificamente dos chamados Escolásticos de Salamanca. Em um mundo onde o governo se esforça para que ninguém entenda a economia, é normal que eles sejam desconhecidos. Vamos conhecê-los?

Salamanca é uma cidade distante 240 km de Madrid, próxima à fronteira com Portugal, na parte sul do que um dia foi o reino de León. Tem hoje 145.000 habitantes e é sede de uma das mais antigas universidades do mundo ocidental, fundada em 1218. Foi a primeira universidade da Europa a ter uma mulher como professora, Luisa de Medrano.

Entre os séculos 16 e 17, a universidade de Salamanca viveu um período de grande produção intelectual, com obras importantes nos campos da filosofia, teologia e direito, e também em um campo que ainda não tinha nome, mas que viria a ser chamado de economia. Em outras palavras, podemos dizer que os primeiros fundamentos da ciência econômica surgiram em Salamanca.

Diego de Covarrúbias escreveu sobre a subjetividade do valor, conceito que seria fundamental séculos depois para a chamada Escola Austríaca, e fez um estudo sobre a evolução dos preços e a perda de valor da moeda da época, o maravedi, incluindo dados estatísticos; pode-se dizer que foi a primeira obra a tratar da inflação, ainda que não a chame por esse nome.

“O valor de uma coisa não depende de sua natureza objetiva, mas da opinião subjetiva dos homens, mesmo que tal opinião seja tola”

Jerônimo Castillo de Bovadilla analisou a importância da liberdade de mercado para a formação dos preços, e disse:

“Os preços dos produtos baixarão com a abundância e a concorrência dos vendedores”

Juan de Lugo e Juan de Salas estudaram a possibilidade de se determinar um “preço justo” para as mercadorias e concluíram que isso é impossível, devido à enorme quantidade de circunstâncias específicas que existem em cada transação de compra e venda.

Martín de Azpilcueta Navarro observou que a abundância de ouro e prata vindos da América havia feito os preços subirem na Espanha, e elaborou as primeiras teorias relacionando valor e escassez. Navarro resumiu magistralmente o fenômeno da inflação:

“Em países onde há mais dinheiro, tudo é mais caro”

Mas o meu autor preferido da Escola de Salamanca é Juan de Mariana. Em 1598, ele publicou De rege et regis institutione (Sobre o rei e a instituição real), onde analisa a contraposição entre os direitos dos cidadãos e os direitos dos governantes. De acordo com Mariana, qualquer cidadão pode justificadamente matar um rei que crie impostos sem o consentimento das pessoas, confisque a propriedade dos indivíduos ou impeça a reunião de um parlamento democrático. A idéia é que roubar é errado, e quem rouba dos outros não deixa de ser ladrão só porque é rei.

Mariana também escreveu De monetae mutatione (Sobre a alteração da moeda). Nesse livro, Mariana questiona se o rei é dono da propriedade de seus vassalos ou cidadãos, e chega à conclusão de que ele não é. Partindo disso, Mariana deduz que o rei não pode cobrar impostos sem o consentimento da população, já que impostos são simplesmente uma apropriação de parte da riqueza de um indivíduo. Para que tal apropriação seja legítima, ambas as partes têm que estar de acordo. Da mesma maneira, o rei também não pode criar monopólios estatais, já que eles seriam simplesmente um meio disfarçado de se coletar impostos.

O ponto central do livro, como indica o título, é sobre a inflação, ou alteração da moeda. Na época, o dinheiro era metálico, e era prática comum os governantes derreterem as moedas de ouro ou prata, acrescentar outros metais como cobre ou zinco, e com o volume aumentado cunhar novas moedas em quantidade maior (hoje os governos fazem a mesma coisa simplesmente imprimindo mais cédulas de papel). Mariana constata que ao fazer o dinheiro que está em posse das pessoas valer menos do que valia, a inflação equivale a um imposto, e acusa:

“… esse novo tributo resultante de um metal desvalorizado [..] é algo ilícito e maléfico”

O livro também traz conselhos que poderiam ser diretamente aplicados aos nossos dias:

“não há reino no mundo com tantos prêmios, comissões, pensões, benefícios e cargos; se eles todos fossem distribuídos de maneira ordeira, haveria uma necessidade menor de se retirar recursos adicionais do tesouro público ou de outros impostos.”

A opinião dos poderosos da época sobre a obra de Juan de Mariana foi a mesma dos poderosos de hoje, e ele foi preso por um ano e meio logo após a publicação do livro.

Embora estudiosos modernos tenham resgatado os ensinamentos dos escolásticos, adaptando-os para o mundo moderno, a triste verdade é que políticos do mundo inteiro preferem ignorar a ciência econômica e ao invés disso propagar dogmas que só servem para glorificar os governos grandes e justificar impostos cada vez mais altos.

DEU NO JORNAL