DEU NO JORNAL

O ABANDONO DAS REFORMAS MICROECONÔMICAS

Editorial Gazeta do Povo

reformas microeconômicas

Ministério da Fazenda propôs um bom conjunto de reformas microeconômicas em 2023, mas apenas algumas delas seguiram adiante

O Brasil é um país atrasado, com baixa renda per capita, crescimento econômico pífio, elevada pobreza, problemas sociais graves, elevados índices de violência, corrupção endêmica incurável, portanto, longe de ser um país desenvolvido que os recursos naturais permitem ser. Esse diagnóstico é amplamente conhecido, e sobre ele não há discordância tanto internamente quanto no plano internacional. É justamente por dispor de importantes riquezas naturais e condições capazes de conduzir o país ao crescimento econômico e desenvolvimento, a fim de extirpar as mazelas sociais e melhorar significativamente o padrão médio de bem-estar social, que se torna incompreensível que o país continue chafurdando no atraso e sem perspectiva de sair dessa lamentável situação.

Uma das chagas mais perniciosas da política e da administração pública nacional é a incapacidade de levar adiante qualquer plano de recuperação e desenvolvimento, mesmo com tantos planos elaborados e anunciados – alguns até iniciados e, depois, abandonados e esquecidos. Em dezembro de 2004, segundo ano do primeiro governo Lula, ainda sob o voto de confiança dado pela sociedade, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, apresentou à nação um plano chamado “Reformas econômicas e crescimento de longo prazo”: 103 páginas com um bom diagnóstico e boas propostas para alavancar o crescimento e o desenvolvimento.

Naquele momento, Palocci contava com prestígio no parlamento e na sociedade, inclusive por não ter adotado as ideias e propostas estatizantes e intervencionistas defendidas pelo PT em seus documentos e declarações públicas desde a fundação do partido. Visto em retrospecto, aquele plano apresentava méritos que poderiam ter sido uma alavanca para o crescimento econômico e a elevação da renda por habitante, de forma a viabilizar avanços sociais propugnados pelo próprio partido. Mas, na sequência, entrou em cena um hábito típico da política brasileira: nada foi seguido, as políticas de governo nunca foram na direção proposta e o plano acabou morrendo no nascedouro, dando lugar a improvisos e retrocessos que continuam até hoje.

O Brasil nunca sofreu de falta de planos e medidas que, se implementadas, significariam avanços importantes; foi o caso das sete reformas propostas por Paulo Guedes, ministro da Economia de Jair Bolsonaro: 1. reforma da Previdência Social, pública e privada; 2. reforma tributária; 3. privatização de empresas estatais, incluindo serviços operacionais na infraestrutura; 4. revisão e redução dos subsídios fiscais, creditícios e monetários; 5. reforma administrativa, com diminuição da burocracia; 6. autonomia do Banco Central; e 7. ampliação da liberdade comercial, com maior abertura internacional. Dessas propostas, a que teve melhor andamento, foi aprovada e se consolidou foi a autonomia do Banco Central, odiada por Lula e seus adeptos.

Nesse contexto, vale mencionar também o plano de 13 medidas elaboradas no âmbito do Ministério da Fazenda como parte das reformas microeconômicas capitaneadas pelo secretário de Reformas Econômicas Marcos Barbosa Pinto, por ele anunciadas no dia 20 de abril de 2023: 1. garantia para parcerias público-privadas de entes subnacionais; 2. debêntures incentivadas para infraestruturas sociais e ambientais; 3. novo marco das garantias; 4. garantia com recursos previdenciários; 5. simplificação e desburocratização do crédito; 6. acesso a dados fiscais; 7. autorização de bancos e moeda digital; 8. regime de resolução bancária; 9. combate ao superendividamento e “mínimo existencial”; 10. proteção a investidores no mercado de capitais; 11. infraestruturas do mercado financeiro; 12. cooperativas de seguros; e 13. normas de seguro privado.

O histórico das reformas microeconômicas sempre anunciadas e nunca executadas entra neste segundo semestre de 2026 diante de eventos que colocam o Brasil numa encruzilhada: ou o país dá uma guinada em sua letargia e atraso, começando por reformas políticas e reformas econômicas, de maneira a tomar o caminho das mudanças nos próximos quatro anos – que serão os últimos da terceira década do século 21 –, ou o país se definirá de vez como uma nação rica de recursos naturais e pobre e atrasada em termos econômicos e sociais.

O momento atual apresenta algumas características importantes para a definição do futuro nacional. A primeira são as eleições estaduais e federais em um cenário de polarização política e deterioração administrativa e moral das instituições. A segunda é uma realidade que pouco tem sido observada e debatida: o envelhecimento da população e também do capital físico, formado pela infraestrutura púbica de uso coletivo e infraestrutura produtiva privada, como empresas, plantas industriais, frota de veículos de carga e de passageiros, prédios comerciais, moradias, além de tantos outros bens e equipamentos de uso pessoal e empresarial. A campanha eleitoral deveria ser uma oportunidade para o levantamento e o debate dessas grandes questões nacionais tomando por base as muitas propostas que foram feitas, das quais se pode extrair ideias válidas até hoje.

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DEU NO JORNAL

RODRIGO CONSTANTINO

AGORA VAI? DEPOIS DE DUAS DÉCADAS NO PODER, LULA AINDA PROMETE MUDAR O BRASIL

Que povo conservador é esse que coloca o PT no comando da nação por duas décadas? É simplesmente impossível ser de direita e votar no Lula

Lula disse que vai mudar o Brasil. O PT está no poder desde 2003, com um breve intervalo de governo tampão de Michel Temer e quatro anos de Jair Bolsonaro. Lula mesmo está indo para seu quarto mandato se for reeleito. E seu mote de campanha é mudança? Agora vai? Até mesmo o editorial do Estadão, jornal tucano que gosta de se iludir com o “democrata” do PT, constatou:

Será a sétima eleição com Lula na cédula. Portanto, brasileiros estão cansados de saber quem ele é. Mas petista é imbatível na arte de engambelar: agora promete ‘fazer diferente’.

Ninguém pode alegar ignorância: todo mundo está careca de saber quem é Lula! Votar no petista depois de tudo que se conhece é desejar a destruição do país, é permitir que a ilusão vença a experiência, é não aprender com os erros passados.

Não obstante, Lula ainda é o favorito. Pode-se descontar o uso abusivo da máquina estatal, claro, mas ainda assim é espantoso que tanta gente esteja disposta a conceder mais quatro anos para esse desgoverno. O que isso nos diz sobre o brasileiro médio? Como encaixar na equação eleitoral qualquer fator ético?

Muitos gostam de repetir que o povo brasileiro é conservador, mas a realidade refuta essa tese. O povo brasileiro parece desprovido de filtro moral, isso sim. Que povo conservador é esse que coloca o PT no comando da nação por duas décadas? É simplesmente impossível ser de direita e votar no Lula.

Por conta do desgaste de um governo com resultados sofríveis, a eleição está bem polarizada, e o Centrão faz o que sempre fez: fica neutro aguardando a definição para saber de que lado do muro desce. O Centrão talvez seja quem melhor represente o eleitor médio, eis a triste verdade.

Nenhum escândalo parece alterar esse cenário. O caso Banco Master chegou ao berço do petismo na Bahia, enquanto o patrimônio de Jaques Wagner encosta em R$ 25 milhões. Sem contar os eleitores, ainda existe algum petista que não seja milionário? O caso do INSS entrou na casa de Lula, e seu filho Lulinha já é investigado em três inquéritos.

Sua “amiga” lobista mandou dinheiro para Marcola, assessor direto de Lula. Está tudo “em casa”, e os escândalos de corrupção voltaram com tudo quando o ladrão retornou à cena do crime, como diria seu próprio vice. Mas nada parece afetar o quadro eleitoral. O que isso diz sobre o Brasil?

Enquanto o povão fica sonhando com a nova chuva de picanha, a despesa trilionária com juros puxa o déficit nominal para 10% do PIB e a dívida bruta encosta em 100% do PIB. O triste é a quantidade de gente sem noção do perigo dessa dinâmica e com “soluções” bizarras, tipo “calote” ou corte de juros na marra, por voluntarismo político. A ignorância econômica é uma bênção para os governantes irresponsáveis, e mesmo na “direita” há quem prefira culpar o “mercado” ou o Banco Central, com discurso similar ao do PT. Há salvação?

Isso para não falar de Justiça! O segundo suspeito de tentar enviar 400 quilos de cocaína para a Europa pelo Aeroporto Internacional de SP foi solto. O rapper Oruam, que debocha da Justiça, teve seu pedido de prisão revogado. O Brasil sempre foi o paraíso dos bandidos, pois a impunidade campeia. Mas agora podemos falar em narcoestado mesmo, não há outra definição. E querem reeleger Lula?

É bem desanimador, convenhamos. Mas a esperança é a última que morre. Não podemos desistir. E é preciso torcer para que a maioria compreenda o que está em jogo e tenha senso de proporções. Não importa o que se pensa sobre o candidato do outro lado, se você gosta dele ou não, se acha que suas promessas de campanha são boas ou medíocres: do lado esquerdo é o Lula!

Aquele que criou o Foro de SP para “ensinar a esquerda a respeitar a democracia”, como ele mesmo disse, sendo que o Foro foi criado com Fidel Castro, o pior ditador que o continente já teve, com o intuito declarado de “resgatar na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu”, ou seja, o comunismo.

Lula promete mudar de vez o Brasil, depois de duas décadas no poder. Só se for para transformar o país numa Venezuela mesmo. Agora vai!

DEU NO X

PABLO LOPES - PEIXE NA ÁGUA

UMA DAS ORIGENS DO VITIMISMO, OU O OVO DA SERPENTE JURÍDICA

Caros generosos e parcos leitores, retomo aqui um fio de meada que deixei em meu último texto. Em frente.

“De boas intenções o inferno está cheio”. Esta frase, cujo autor desconheço, traz consigo a ideia de que não bastam intenções; é preciso agir. Contudo, costumo atribuir-lhe o sentido de que, embora bem-intencionadas, algumas ações trazem consigo o inferno.

As leis e decisões judiciais, sobretudo das cortes superiores, são as que mais se encaixam nesta definição, eis que costumam atingir a todos, o que facilita seu mau uso.

Neste passo, o Brasil é o locus ideal para a conversão de boas intenções em porta aberta aos domínios do tinhoso, dada a proverbial capacidade do brasileiro de fazer o pior uso possível das leis; ora encontrando brechas para contorná-las, ora abusando dos eventuais direitos que estas lhes conferem.

Faço esta introdução para tratar daquele que considero um dos nascedouros da atual divisão da sociedade; verdadeira chaga aberta em nosso povo, opondo brancos e negros em todas as suas variantes; heteros e homossexuais em todas as suas variantes, homens e mulheres etc.

Uma rápida contextualização: em 1989 foi aprovada a lei antirracismo, lei 7.716/89, de autoria do deputado Carlos Alberto Caó. Tal lei visava tipificar o racismo, dando cumprimento ao artigo 5° XLII, da Constituição Federal. Naquela época, o foco era coibir a discriminação praticada contra os negros. Para este texto, interessa destacar que tal crime passou a ser imprescritível e inafiançável. Não duvido que o deputado tivesse boas intenções, mas como já dito, o inferno abriga muitas delas.

Pois bem. Em 1996 chegou ao poder judiciário do Rio Grande do Sul uma ação criminal, pedindo a condenação de um sujeito chamado Siegfried Elwanger, um gaúcho descendente de alemães que editava publicações revisionistas, negando o holocausto de judeus e atribuindo a estes uma série acusações. Seu crime segundo o ministério público? Racismo!

Após anos de tramitação, Siegfried foi absolvido em 1° grau. A sentença foi reformada em 2° grau, com condenação a cerca de 2 anos de prisão. Seus advogados impetraram, então, um Habeas Corpus junto STJ; negado, e outro no STF, com base em um argumento engenhoso: judeu não é raça, assim, o crime não seria racismo e, portanto, estaria prescrito.

O caso acabou sendo julgado pelo STF, em 2003 (HC 82.424) dando origem a uma interpretação, com repercussão geral, que abriu as portas do inferno para, de lá, saírem os demônios do vitimismo; do sectarismo e do abuso de supostos direitos. Explico:

Para não abusar da paciência dos generosos leitores, cumpre resumir que prevaleceu o entendimento de que, do ponto de vista biológico, não existem raças entre os seres humanos, mas para efeitos da lei, existe o racismo.

Se isto parece complicado, esclareço: É, sim, complicado. Mas o supremo, no afã de fazer justiça, criou o conceito de racismo sem raça. Neste sentido, venceu a ideia de que raça é uma construção social e, portanto, existe para os racistas, quando estes querem discriminar alguém.

Em resumo, qualquer grupo possuidor de algum traço comum; étnico, religioso, cultural ou qualquer outro, tradicionalmente discriminado, seria considerado raça para efeito de aplicação da lei. O Habeas Corpus foi negado, afastou-se a prescrição e abriu-se a possibilidade de punição para casos semelhantes. Quem quiser ler as 500 páginas dos votos, basta clicar aqui.

Adianto que os votos dos ministros são sólidos (naquela época ainda havia grandes juristas no supremo); houve a participação de especialistas na condição de amicus curiae e, na ausência de solução na biologia, buscaram auxílio na sociologia. Fizeram justiça, mas…, sempre tem um “mas” e conforme o antigo ditado, o diabo mora nos detalhes.

Ocorre que ao classificar qualquer ofensa, real ou imaginária, dirigida ao membro de qualquer grupo considerado minoria “perseguida”, como crime de racismo ou a ele equiparado, iniciou-se um processo de vitimização sem freios.

Não demorou e outros grupos buscaram ser tratados como “raça”, começando pelos LGBTs; hoje a homofobia é equiparada ao racismo. Outros grupos seguem na mesma direção. Já está faltando opressor para tanto oprimido…

Ficasse apenas na esfera criminal, com todos os absurdos que isso poderia causar, o efeito seria menos grave. Ocorre que, além de usarem a lei antirracismo contra seus inimigos reais e imaginários, estes grupos se viram no direito a algum tipo de reparação. Estava aberta a porteira para o abuso; o vitimismo; o coitadismo e a fragmentação social. A turma foi exigindo e conseguindo cotas em universidades; concursos públicos; partidos políticos e a porra toda. A ave da justiça botou um ovo de serpente.

Repito, a decisão suprema foi muito bem embasada e, a rigor, não pretendia este resultado, mas a complexidade jurídica a tornou inacessível ao povo, que entendeu apenas a parte do vitimismo e da reparação.

Para piorar, com o passar dos anos, este pensamento adentrou as universidades, que passaram a formar gerações de advogados militantes, que acreditam em tal divisão e se consideram reparadores históricos.

Estes profissionais já começaram a chegar no ministério público; na polícia judiciária e, ainda mais grave, nas cortes superiores. Ou seja, quem deveria coibir os abusos também é promotor do sectarismo.

Não vejo solução simples ou de curto prazo para isso; aliás não vejo solução alguma. A única coisa que resta aos que não se enxergam como vítimas é resistir e este tipo de discurso que, em geral, visa apenas buscar privilégios e fuga da responsabilidade pelo próprio destino.

Resistamos, pois, sem desculpas, remorsos ou cabeça baixa. E danem-se os vitimistas.

DEU NO X

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SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO