… e o homem um dia resolveu plantar palavras: cavou fundo a fenda, escolheu bem as sementes, viu-as germinar e depois regou as letras, adubando-as com vírgulas, pontos, circunflexas interrogações. Viu nascer sua planta: parido estava o livro, a florescer, vingado.
Colheu parágrafos tantos e os sorveu, regando páginas por ele mesmo plantadas. Não satisfeito, deu-as ao leitor, recomendando as lêsse como se bebe um bom vinho, lenta e pausadamente, acariciando cada linha, abraçando cada parágrafo, cheirando cada caule, respirando cada flor.
Depois, o merecido descanso, da mão, do homem. Pronta, restou sua obra, igual a ele próprio: jardim cheio de flores, de algumas exclamações e de muitas reticências … até o ponto final. Alguns enxergaram espinhos. Eles, os há. É da natureza da natureza. E dos livros. Nem só de leveza eles vivem, livros e natureza.
Igrejas e Quartéis tremem na base. Um reverendo que ladra raivoso e exala ódio mortal marca encontro com um Cabo da PM, um Coronel e um Diretor do Ministério da Saúde, ex-Sargento da Aeronáutica (não aquele da cocaína no avião presidencial). Discutem, em uma mesa de bar, a caótica situação da saúde no Brasil. Analisam propinas de milhões de dólares, ou, no vocabulário chulo de um General Ministro, ‘gordos Pixulecos’, seja lá o que isso for. Autoridades, preocupadas, vetam vacinas umas e tentam comprar vacinas outras a preços bem mais caros. Tudo a depender da ‘comissão’. Enquanto isso, o povo continua a morrer. Já são 700.000 covas não evitadas, 700.000 famílias vítimas do genocídio, 700.000 CPFs cancelados. Mas, melhor que cumprir seu papel de gestor da crise, é passear de moto ou de jetski, discursar no cercadinho. A segui-lo, um séquito de cegos e fanáticos, adorando pneus e invocando seres extra-terrestres. Só faltava o desfile de tanques de guerra e blindados. Não falta mais. No futuro, ele certamente não será lembrado pelas Motos mas, sim, pelos mortos. Afinal, é um Messias que não sabe fazer milagres, que não é coveiro, no seu próprio dizer. Além do que, instalado num Palácio do Terraplanalto repleto de rachadinhas, vizinho de mansões milionárias, ele é apenas um capitão que o exército não quis. E nada de cuidar dessa gripezinha tão inofensiva quanto uma crise de soluço, desde que tratada em hospital com oxigênio à vontade. Saúde de esportista. Pastores e pastadores, milicianos e charlatães riem. Ele, imorrível, imbroxável e incomível, jóias árabes no pescoço da mulher, caga para os que o investiga e desdenha daqueles que não conseguiram superar aquela ‘doencinha de maricas’, imitando alguém com falta de ar. E mascava chicletes de cloroquina enquanto passava a Boiada na Amazônia menor a cada dia. Vacina e propina: não fosse trágico, talvez fosse uma boa rima. Pra quem terá sido dirigido o ‘cotôco’ covidiano de Queiroga, em Nova Iorque? Mais sensato seria ter dado o dedo pra Papuda: seus amigos e chefes estão a caminho. Outros, lá já estão: o golpe falhou …
O ano acabou e passou ligeiro. Rapidinho, chegou o dia um de novo e o pano caiu para dar início a nova peça, a novo ato. O Teatro da vida aguarda. A importância maior, sabedoria incomparável, é fazer com que a cortina que se nos apresenta, ainda que seja chita, nos pareça a mais perfeita das sedas e com ela e seu colorido tenhamos a sabedoria de espalhar cores em torno de quem gostamos. E quando esse pano ameaçar desfiar, não permitamos que nossas costas fiquem desprotegidas, nuas, fazendo com que o resto continue a remendar os sentimentos que surgem ao longo dessa costura que é a vida. E então, o fio vivendo por um fio, findará o seu cio na prateleira dos anos felizes e das alegrias acumuladas. Aos fiapos que sobrarão, restará a missão de amarrar a solidão e alinhavar os desenganos. Seguir em frente é a receita, vestindo a alma com a melhor das roupas, costurada com a linha dos prazeres e com botões repletos de alegria. E aguardar o outro ano que vai chegar. Quanto ao ano findo, dizer da sorte de podermos dizer: Há Deus, Ano Velho.
Neste ano que está acabando e nos outros que estão por vir, junto todas as utopias e almejo:
– que o horizonte corra para trás tantos passos quantos eu der para a frente, de forma que eu nunca pare de caminhar;
– que todos os Generais aprendam a ficar quietos e se tornem apenas soldados, sem aspirações outras que não a de servir à Pátria;
– que haja boas injeções em dose suficiente para vacinar todos os homens maus, tornando-os do bem;
– que a Pasárgada de Bandeira e o Altemburgo de Guilherme sejam cidades vizinhas uma da outra e bem próximas a mim e se pareçam com o Brasil que sonho;
– que eu tenha a elegância e a sabedoria necessárias para poder discordar do meu vizinho sem prejuízo do respeito e amizade que deve permear a relação entre os homens;
– que tenhamos todos um 2026 bom, solidário e fraterno, dias felizes com sobra de abraços para todos.
– aos meus amigos desejo um ano vovo repleto de Paz e Harmonia. Aos que de mim não gostam, continuem sem gostar. Ainda assim, a eles também desejo um venturoso ano.
Xico Bizerra, com o beneplácito de Dulce Maria, Mariana, Clécio, João Paulo, Renata, Bernardo, Vinícius e Leonardo.
… esse tal de Flavinho é gente muito boa. Será um bom Presidente. Será? Descendente de europeu, acho, pela cor da pele e dos ‘zói’. Cidadão do bem. Um exemplo de que tem algo a ver com hereditariedade, o caráter e a formação moral das pessoas. Mas ele é bonzinho. Problema é que o povo é que nem as manicures de Itabaiana: tem a língua quase do tamanho de um trem daqueles bem grande, da Great Western Railway of Brazil, de que fala o Poeta Quirino. Tudo isso, essa malandragem, esse jogo de cintura, tudo, tudim, ele aprendeu na casa da mãe. E daí? Quê que vocês têm a ver com a vida e a mansão do cabra. Saibam que chocolate sempre foi um produto que vende muito o ano todo e que o lucro é quase o mesmo de uma ‘lavanderia’, por exemplo. Aliás, sobre a mansão, nem é essas ‘mansão’ toda: dizem que as paredes são cheias de rachadinhas, frágeis como se de chocolate fossem. Ele, como mais velho, é exemplo pros outros irmãos, que seguem a mesma cartilha. Um outro, deixou a câmara, onde era deputado, e foi viver na Disneylândia, a lamber botas de um galego que por lá mora. Um Pateta. Não lembram as 700.000 vidas sumidas na COVID por falta de vacina, quando o chefe ria e se divertia imitando quem estava sem fôlego. Aliás, ele não era coveiro. Familiazinha unida e criativa. Só não se entenderam muito na hora de decidir onde usar a máscara, se no rosto ou … bem, deixa pra lá. Da madrasta eu nem falo. Que fale a Polícia e seu maquiador. E esse tal de Chico Buarque, que eles tanto abominam, sabe nada. Vive, pra cima e pra baixo dizendo que essa gripezinha VAI PASSAR. Azar deles, o AMANHÃ SERÁ OUTRO DIA e o amanhã já é hoje. Pra completar, só falta agora arranjar o motorista: o mano fujão já contratou o jipe, o soldado e o cabo. Acho que o Queirós sabe dirigir. O Malafaia deve ter carteira de motorista. Talvez o maquiador da madrasta também tenha. Ou ela própria, que vive a desfilar, com jóias árabes a adornar-lhe o pescoço … Te cuida, Alexandre! Cuidado, meu povo, que inveja mata. E se ela não matar por conta própria vem as ‘miliça’ e bota no teu furico, sem dó ou piedade. Vide o exemplo de Marielle. Vôte! Vade retro, Senador! O choro é livre, da Papuda ao Balneário de Camboriú, passando pelos States e pelo Rio de Janeiro. Tá Okei?
Zé quebrou o quinto metatarso do pé direito quando, ao carregar um saco de cimento, caiu-lhe o fardo do ombro. Ninguém o socorreu. Era apenas um operário da construção civil. Depois de horas lembraram-no da existência de um posto médico logo ali, a poucos quilômetros do prédio onde trabalhava. Teve que ir a pé, a um pé só. Não tinha dinheiro para o táxi e a ambulância solicitada não chegou. – Para que paguei imposto? – Por que descontei INSS? – perguntas que não encontravam resposta. Fila, burocracia, e, depois de sete horas de espera, o atendimento e a marcação da cirurgia para dali a 7 meses. Para depois da Copa do Mundo. Estávamos em 1970. Quando menino, Zé tentou estudar mas nunca passou do terceiro ano. Tinha que traballhar, desde cedo. Também nunca sonegou imposto: não tinha renda para tal. Terminou por carregar cimento e quebrar o pé. Pena que Zé não tinha aptidão para ser jogador de futebol … Zé vivia num tempo em que não havia SUS. Nem UPA. Nem governo. Em abundância, truculência, tortura, ditadura e desrespeito ao povo simples. Tempo de generais que cantavam, ironicamente, a pleno pulmões, ‘eu te amo, meu Brasil’.
Deus sempre me presenteou com parceiros do mais alto nível. Não vou citá-los para não cometer a omissão injusta de alguns nomes mas devo registrar aqueles mais frequentes: Dominguinhos (12 músicas) Maria Dapaz (43 músicas), Braulio Medeiros (40 músicas), Leninho de Bodocó (38 músicas), além das parcerias póstumas, que muito me orgulham: Luiz Gonzaga, Accioly Neto e Pedro Sertanejo. Iara, minha mais nova parceira, é mais uma desse time. Ela também é Cratense como eu. Nasceu no pé da serra do Araripe e hoje, mora na Arábia Saudita, tendo adotado o sobrenome do marido muçulmano. Ela agora é Iara Al-Shalah. Conheci-a ainda adolescente, no Crato, filha da melhor tapioqueira da região do Cariri cearense, dona Adelaide. Não quis seguir a profissão da mãe, preferindo, desde novinha, a música, notadamente o Samba. E música da boa (até porque se assim não fosse ela não seria minha parceira). Intuitiva, cria melodias encima de letras que lhe encaminho. Assim nasceu nossa parceria. Ela prefere o anonimato em decorrência de suas atuais convicções religiosas. Talento raro, fala em voltar ao Brasil para reencontrar a mãe e seu único irmão, Julinho, que mora no Rio de Janeiro e faz parte da bateria da Escola de Samba da Mangueira. Assim é minha mais nova parceira. Fizemos um repertório de 16 músicas (sambas, bossa nova, sambas-canção e até um samba de breque. Faltou um samba-enredo, mas vai sair!) e em breve o mundo conhecerá o talento de Iara de Adelaide. Vamos conhecer alguns de seus Sambas? Chamei-os de FORROBOSAMBA pela interseção que fiz entre o samba tradicional e o forró, utilizando a sanfona onde os ‘puristas’ usariam instrumentos de sopro. No mais, contei com a competência de músicos do mais grandioso gabarito, comandados pela regência e violão 7 cordas do Mestre Jorge Simas e pela sanfona bem tocada de Luizinho de Serra. Querem mais? Ouçam nossos FORROBOSAMBAS. Muito em breve entraremos em estúdio e o mundo conhecerá o talento de Iara Al-Shalah, nas plataformas. SALAMALEICO!
Vivia a apregoar as façanhas da Internet até que seu telefone, não tão smart, tampouco eficaz e atemporal como anunciado na propaganda, ficou sem conexão. Com a paciência indisponível e o pensamento fora da área de cobertura resolveu interligar-se com a realidade. Deletou seu celular, com carregador e tudo, na primeira lixeira da rua. Sequer tirou a bateria ou a capinha que fazia questão de usar. De nada adiantou: hoje, saudoso do wi-fi e deprimido pela ausência do Zap, junta dinheiro para comprar um IPhone.
Senhor Tempo, desculpe-me ser tão indiscreto mas eu queria saber: será correto esse teu tanto correr? Por que és tão teimoso e veloz? Precisas desse avexar? Se ouvisses minha voz irias mais a vagar, devagar e divagando. Não há por que se apressar. Se apresse não: A pressa, dizem, Não gosta da perfeição …
Sento-me à beira da estrada para conversar com as pedras e trocar ideias com tantas folhas caídas à sua margem. Pequenos grilos cantam canções que só eles sabem cantar. Poucos, como eu, as entendem. Borboletas cirandeiam alegres e felizes, colorindo o céu azul, embotado por manchas brancas que alguns chamam de nuvem. Fico a enxergar grandeza nas pequenices que vejo. Um vento sussurra que a chuva está por chegar e me apresso em busca de proteção. Desisto. Faz tempo que não vejo a chuva cair e estou com saudades. Deixarei que os seus pingos me contem segredos guardados no infinito e só revelados a quem, como eu, não teme futuros e vive presentes. O peito nu é minha camisa e os cabelos, brancos, compridos e assanhados, meu chapéu. Chuva finda, peito aberto, corpo molhado, despeço-me das amigas pedras, abraço as folhas e sigo o caminho rumo às alegrias vindouras. Acompanha-me sorridente um raio de sol pós-chuva, se encaminhando para compor o primeiro arco-íris do dia. Ele, o astro-mor, já brilhante no alto, me deseja um bom dia e eu sigo. Feliz e agradecido, acompanhado pelo canto bonito de uma sabiá que se achegou ao meu sonho. Sou feliz. A dúvida é saber se mereço tanto…