XICO COM X, BIZERRA COM I

Zé quebrou o quinto metatarso do pé direito quando, ao carregar um saco de cimento, caiu-lhe o fardo do ombro. Ninguém o socorreu. Era apenas um operário da construção civil. Depois de horas lembraram-no da existência de um posto médico logo ali, a poucos quilômetros do prédio onde trabalhava. Teve que ir a pé, a um pé só. Não tinha dinheiro para o táxi e a ambulância solicitada não chegou. – Para que paguei imposto? – Por que descontei INSS? – perguntas que não encontravam resposta. Fila, burocracia, e, depois de sete horas de espera, o atendimento e a marcação da cirurgia para dali a 7 meses. Para depois da Copa do Mundo. Estávamos em 1970. Quando menino, Zé tentou estudar mas nunca passou do terceiro ano. Tinha que traballhar, desde cedo. Também nunca sonegou imposto: não tinha renda para tal. Terminou por carregar cimento e quebrar o pé. Pena que Zé não tinha aptidão para ser jogador de futebol … Zé vivia num tempo em que não havia SUS. Nem UPA. Nem governo. Em abundância, truculência, tortura, ditadura e desrespeito ao povo simples. Tempo de generais que cantavam, ironicamente, a pleno pulmões, ‘eu te amo, meu Brasil’.

11 pensou em “O QUINTO METATARSO

    • Carlos

      Em 70, já não era mais criança
      Quase adulto, já além da puberdade
      No peito, um monte de esperança
      Já lutava pela nossa liberdade …

      • Deveria ter a minha idade então. Tempo q se andava pelas ruas de qquer cidade com segurança, em qualquer hora do dia e da noite, vivia em barzinhos por Brasília, sede do governo, tempo onde haviam vagas nas escolas, vagas em hospitais. Estive na greve de 77 na UnB, onde fazia Eng. Mecânica e onde o pau cantou com força no lombo dos vagabundos que não queriam estudar, só fazer manifestação e tomar a vaga do Zé, o servente que quebrou o pé com saco de cimento. Eu aplaudia em pé as lapadas nos lombos. Me formei e tive todas as oportunidades boas num país maravilhoso. Me aposentei neste pais maravilhoso, certo de ter contribuido, e muito, para sua grandez. Agora, …”Abundância em truculência, tortura, ditadura e desrespeito ao povo simples” é o que vivemos hoje, se não estou enganado, com a quantidade enorme de presos políticos. Portanto, pare de escrever bosta.

  1. A crônica hoje seria diferente, mestre Xico. Com os sindicatos roubando os aposentados, com a cumplicidade do governo. O mesmo descaso. O mesmo não se importar com os brasileiros. Vôte. Merece uma música. Aproveite e faça. Seu devoto, José Paulo.

  2. A elegância do comentário um Zé Paulo não se encontra nas palavras desse tal Carlos, que nem sei de quem se trata (nem quero saber). Não o chamaria de imbecil – comentário que me faria a ele se igualar, mas, com todo o respeito, entendo o seu ponto de vista, seja por quais razões forem – as menos democráticas, creio. Por fim, ‘minhas bostas’, apenas devem lê-las quem delas gostar. Tem gente que gosta e delas se alimenta.

  3. Meu Carísssimo Dr José Paulo, Nobre JuristTriAcadêmico, por quem nutro o maior respeito e a mais destacada admiração,
    seu amigo pessoal, Millôr Fernandes, um dia disse, dentre tantas outras brilhantes frases: LIVRE PENSAR É SÓ PENSAR. Dele não poderia discordar. Seria burro se assim procedesse. Entendo seu comentário como um incentivo ao debate, onde se possa questionar ideias não comuns a duas pessoas que pensam diferente. A liberdade de expressão que defendemos nos permite a discordância e é muito bom que assim seja. Com o respeito e a elegância que permeiam, sempre, seus lúcidos escritos. Quanto à música, não a farei. Como concorrer com Gonzaguinha, Chico Buarque, Caetano e Gil, dentre outros gênios, que cantaram a cantam nossos desalentos. Não tenho competência. Tivesse-a, faria, sim.
    Não esqueça que há braços.
    XICO BIZERRA
    Aproveito para cumprimentar Dona Lectícia pela assunção à Diretoria da APL, justa e merecida.
    XICO

  4. Boa, Xico!
    Viver no país maravilhoso dos anos setenta era compartilhar da mesma situação do absorvente: O lugar que você estava era maravilhoso mas o momento era ruim.

  5. Discordo, veementemente, mestre Xico. Como concorrer com essa gente? Nisso tem razão. Sõ que se trata da razão inversa. É eles que não podem competir com você. Não estão à sua altura. Sou muito mais Xico Bizerra. Até o fim dos tempos, para sempre, amém.

  6. Ao Valter Ego,
    perfeita a comparação. Complementaria, dizendo: lugar maravilhoso, momento ruim, lugar maravilhoso … o momento ruim, dos Ustras e outros da espécie, passam em direção à Papuda. Menos mal. Abraço

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