XICO COM X, BIZERRA COM I

SAUDADE BOA (Estão de volta os abraços)

A saudade quase nunca é boa, ao contrário do que diz o verso de um Poeta. Mas ela pode ser menos ruim, sim, quando ainda for possível deixar de ser saudade para ser substituída por um desejado rever. Apenas essa possibilidade que está por vir altera o gosto e o sabor de uma saudade, tornando-a boa. Basta! Será a hora de se gritar, a plenos pulmões, que a distância ingrata não foi capaz de arrefecer o querer bem. Amigo é, e nunca deixará de ser, motivo para que a gente celebre a ventura da amizade. E o abraço sincero se faz mais necessário quando a saudade aumenta na mesma proporção da vontade do encontro que está por acontecer. E dá-se a beleza intensa do acaso, que não marca hora nem dia para a festa, para o afeto, o afago. É chegado o momento certo de dizer, como disse um dia o Poeta Maciel: isso vale um abraço, companheiro. Vale, sim, muito mais que apenas um abraço. Vale mil abraços acompanhados de sorrisos mil.

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Todos os Livros e a maioria dos Discos de autoria de XICO BIZERRA estão à disposição para compra através do email xicobizerra@forroboxote.com.br. Quem preferir, grande parte dos CDs está disponível nas plataformas digitais. Visite nosso site: www.forroboxote.com.br

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XICO COM X, BIZERRA COM I

ROMA OU GRAVATÁ: EIS A QUESTÃO

Roma, não! Vou à Gravatá.
Lá não tem Papa, mas tem bons papos.
O Francisco de lá é o Chico da Roberta
que nem argentino é e adora uma cerveja.
Tem também o Chicão, que cuida do jardim.
É lá que armo minha rede branquinha
de varandas da mesma cor.
E o melhor: não preciso de avião:
a estrada é no chão.

Não, não vou à Roma.
O Papa argentino que me perdoe.
Sou mais o friozinho do mais perto.
Aguardem-me as rãs, as flores e os passarinhos.
Nosso pé de manacá está lá, elegante,
Cortejado pela Pata-de-Elefante …

O vinho sempre está no ponto
a cada adeus do sol,
alegrando o arrebol.
A alegria vive por lá
(nem preciso convidá-la)
e a Paz mora ao lado.
O ipê já arroxeou suas flores
para me dar boas-vindas e adoçar minha chegada …
E o roxo dos ipês é muito mais bonito
que o vermelho da boina dos cardeais …
Gravatá é o meu Vaticano.
E é pra lá que eu vou.
Depois, se der tempo, eu vou a Roma …
Ou não!

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Dia 1º de junho, terça-feira, 19 horas, na PASSADISCO,  Rua da Hora, 385, Recife, lançamento de nosso SABIÁS, JARDINS E ARREBÓIS, juntamente com o FOGO NA PELE, do Grupo CASCABULHO

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SORVETE, DE CREME OU DE BAUNILHA?

A gente nem percebe, mas nossa vida é um eterno desfilar de decisões a serem tomadas. Café, com açúcar ou adoçante? Feijão, preto ou mulatinho? Filme, comédia ou drama? Eu, particularmente, me defronto com a maior das frequências com todas as dúvidas quando tenho que decidir, principalmente com relação à arte. A palavra mais adequada em um poema, o título de uma crônica, a repetição ou não de um refrão naquela música e por aí vai. Quando resolvo fazer um disco (ao invés de escrever um livro, a primeira das dúvidas) abatem-me, de princípio, dúvidas cruciais: 1. A escolha do repertório, que começa com um total de 40 a 50 canções que se reduzem, ao final, às 12 ou 15 que comporão o CD; 2. A ordem em que essas músicas serão inseridas no disco, com dificuldade maior para a escolha da primeira e da última faixa, para não ferir susceptibilidades ou cometer injustiças na escolha; 3. O nome do CD. Neste caso, fiz uma enquete nas redes sociais para decidir o título que deveria dar nome ao último CD (terminei atribuindo-lhe o título de SABIÁS. JARDINS e ARREBÓIS). Menos mal que, a exemplo do técnico de futebol que dispõe de excelentes jogadores, mais de um para cada posição, as dúvidas persistem quanto à escolha dos músicos que trabalharão no disco e dos cantores que interpretarão as canções: nesse quesito estamos tão bem servidos tecnicamente que a dúvida, apesar de cruel, é saborosa, pois qualquer que seja a escolha ela será a acertada. Como tem sido.

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Dia 26, quinta-feira, na PASSADISCO – Rua da Hora, 385, Recife, lançamento, com audição e autógrafos, do nosso SABIÁS, JARDINS E ARREBÓIS – a partir das 19 horas.

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SEGREDOS, AMORES E SORRISOS

E assim levava a vida, bebendo segredos, sonhando amores e catando sorrisos nesse mundão de meu Deus. Achava mais desejos vazios que qualquer outra coisa. Era assim o dia-a-dia de Maria Flor nos cabarés escuros e enfumaçados. Mas não reclamava: era a sua vida, o destino não lhe dera outra opção. A cada segredo perdido, um sorriso achado em meio a tantos amores sonhados. Sorrisos que se iam com a mesma velocidade dos sussurros e gemidos que também iam e vinham. A fumaça e os copos, cheios e vazios, vazios e cheios, matavam a sede da angústia, aliviavam a dor da espera infinda por dias melhores que aqueles. Na mesa ao lado, Rosa e Margarida também vendiam carinhos aos homens do lugar, carentes de carícias. E entre segredos, amores e sorrisos, a orquestra tocava um bolero sob a sombra densa de um salão cheio de pouca cor, de tanta dor e de quase nenhuma luz. Um jardim em que habitava a tristeza das flores, das rosas e das margaridas.

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Dia 26.05, 19 horas, na PASSADISCO, aqui no Recife, lançamento de nosso SABIÁS, JARDINS E ARREBÓIS, juntamente com o FOGO NA PELE, do Grupo CASCABULHO

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SAUDADE DE NETO É A SAUDADE MAIOR QUE HÁ

Semana passada o meu neto caçula, Leonardo, completou seu primeiro aninho de vida. De todas os efeitos perversos provocadas pela Covid, excetuado o imenso sofrer pelas perdas definitivas, nenhum se compara à impossibilidade da convivência próxima e presencial com os entes queridos. Privar um avô de ver seus netos, de acarinhá-los, é uma tortura sem igual. Experimentei isso quando, amainada a pandemia e depois de longo tempo sem vê-los, abracei-os em afago triplicado, confirmei a ventura e a alegria de ser avô. Longe deles, um minuto vira uma década. Ao lado deles o dia passa rápido, a noite se avexa e o dia seguinte é logo ali. Assim mesmo é que as horas se diluem em minutos fugazes e passam sem que a gente perceba que a vida dura segundos apenas … E o minuto que se foi é um taco de tempo que não volta nunca mais. Quando menos se espera eles crescem e a gente percebe o tempo que perdeu em não ser criança com eles, quando podia. Que pena que a gente fique adulto.

PARA LEONARDO, VINÍCIUS e BERNARDO

Saudade maior que grande
A saudade que avô sente
Que machuca tanto a gente
Não tem remédio que abrande
Ainda que a gente mande
Passear na noite escura
Ela volta, não trás cura
Judiante, dói que só
Não existe dor maior
Que dum neto a lonjura

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O ESPELHO DA ALMA

A última vez que me vi estava com sono e muito assanhado. Além de cansado, claro. Espantei-me com o que vi. Não era um jovem que estava ali. Afinal de contas havia muito tempo desde que me deparei, pela primeira vez, com a luz do mundo. Passei água nos olhos, penteei os cabelos, mas ainda assim, insatisfeito com a imagem que me foi ofertada, quebrei o espelho e nunca mais quis me ver. Preferi assim para não mais me assistir tão assustado com esse mundo violento e cheio de desesperanças. As olheiras e rugas, lembro bem, estavam ali retratadas, testemunha ocular da maldade do tempo, das transformações estéticas por que passamos em nosso caminhar. Preferi não mais vê-las, por desnecessário ser. A idade pesa muito. Menos mal que a alma, que o velho espelho é incapaz de refletir, é leve, sem peso. Ou, melhor dizendo, ela terá o peso que nos encarregarmos de atribuir-lhe durante a vida. Além do que a alma não tem imagem que possa ser refletida em um espelho. Falta nenhuma, pois, me fará esse artefato adorado pelos narcisistas de plantão. Procurarei, cada vez mais, acreditar no que ouvia de vovô, quando comigo conversava em nossos encontros de fim de tarde: ‘os olhos são o espelho da alma’, dizia-me. Nunca entendi direito o que isto significa, mas ante a sabedoria de meu saudoso avô, acredito piamente na verdade de sua máxima. Seja o que isso queira dizer, espelhos, só os da alma.

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LAVANDO O CARRO E A ALMA

Lavar o carro numa manhã de segunda-feira, sol pegando fogo, num lava-jato que descobri à beira-mar de Candeias é ‘muito mais melhor que bom’. Se tiver cerveja, melhor ainda. E tem: o barzinho ao lado, de uma garçonete de meia-idade e abusada, está aberto. Que é que tem se a mulher que atende não seja simpática? Interessa muito mais a temperatura da galega suada, nem importa a marca. Aliás, dentre meus mais diversos defeitos, o paladar ruim para identificar sabor de cerveja é um deles. Tanto faz uma ou outra: se for gelada é saborosa, independentemente do que estiver escrito no rótulo. Enquanto a gente espera a finalização da lavagem, vai ingerindo o precioso líquido, sabendo dos benefícios que ele causa ao nosso corpo. Além de afinar o cabelo, como atesta meu cunhado Mané, ela lava e enxágua o peritônio sem contar que não há melhor remédio para calo no dedo mindinho do pé esquerdo e para unha encravada no dedão do cotôco … Saí de lá com o carro limpinho, corpo são e alma purificada. As pernas meio bambas, é bem verdade, a alegria aprumadíssima. Ainda bem que o lava-carro é na esquina aqui de casa e o pessoal da Lei Seca fica na outra esquina, um pouco mais adiante…

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RESTOS DA FESTA

Tinha um resto de festa nos jardins do condomínio. Uma sobra de música ainda soava nos meus insones ouvidos. Lagartixas corriam para todos os lados comendo os farelos que sobraram e rãs, alegres e saltitantes, brincavam no friozinho de Gravatá, na grama orvalhada da madrugada do sábado. A noite que se foi deve ter sido muito alegre para aqueles que participaram da festa. O que comemoravam? O aniversário de alguém ou o anúncio do noivado da mocinha da casa 23, que alguns já davam como improvável depois de 9 anos de namoro? Só sei que pedaços de bolo e copos plásticos sujos de bebida se misturavam às plantas denunciando a festa que houve. Que bom que tenha havido algo a comemorar em tempos tão escassos de festejos e tão repletos de males, sanitários e políticos. Ao aniversariante, se é isso que se comemorava, só posso desejar muitos anos de vida pela frente. Ao casal de recém-noivos, se esta tiver sido a motivação da festa, que o casório não demore tanto tempo quanto o namoro demorou daqui até o casamento. A mim, desejo apenas que novamente não me convidem para a próxima festa e que, desta vez, os restos da festa sejam recolhidos antes que a madrugada seguinte chegue. Para minha alegria e tristeza das lagartixas. Quanto às rãs, elas continuarão alegres e saltitantes independente de ter havido aniversários ou noivados nos jardins repletos de orvalho. Um sapo bonachão repousa e cochila à borda da piscina, indiferente a tudo que ocorrera na noite anterior.

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MARIAZINHA VAI CASAR

Pelo tom de voz percebo a aflição do meu amigo José, ao telefone, 5 horas da manhã: – Mariazinha vai casar, disse-me. O que deveria ser motivo de alegria converteu-se em sentimento totalmente adverso. Imaginei a possibilidade de o futuro genro, por algum motivo, não desfrutar da simpatia de meu amigo. Não era essa a questão. Ao contrário, o noivo era um bom rapaz e tinha boas intenções, revelou-me. A questão era mais séria e envolvia o oneroso custo do casamento: convite, bolo, festa, local da recepção, aluguel do carro que levará a noiva, maquiagem, cabelereiro, banda que animará os convivas do evento. E o principal e mais caro: o vestido de noiva a ser usado uma única vez. Por certo não sobraria dinheiro sequer para adquirir a florzinha que o pai da noiva costuma usar e seria aplicada na lapela do mesmo paletó utilizado em seu próprio casamento, há vinte anos, apertado e meio furta-cor. Era o jeito. Não sobrara dinheiro nem para o terno do filho menor, Zezinho e para o vestido novo e longo de Dona Maria, sua esposa. Mas Mariazinha estava se casando e merecia todo aquele sacrifício. Como conforto, meu amigo só tem Mariazinha como filha. Zezinho, irmão mais novo, quando for casar, o pai da escolhida que se vire para bancar a festa. E sua noiva talvez até use esse mesmo vestido que vestirá Mariazinha, sua cunhada, irmã de Zezinho. O carro, José troca depois.

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TOMAI E BEBEI

A história revelada ao mundo nem sempre corresponde aos eventos realmente acontecidos. Prevalece, sempre, a visão do vencedor em detrimento da versão dos que perderam. Conta-se (fato omitido por Borges Hermida e outros historiadores didáticos brasileiros) que durante a primeira missa, um índio, incomodado com o olhar insistente e lascivo de um padre – ajudante do bispo Sardinha, dirigido à sua Índia, bela e despida, matou-o com golpes de crueldade excessiva. Depois, procurou o sacristão para confessar seu hediondo crime mas terminou com ele trocando seu belo cocar de penas coloridas por uma garrafa de licor de jenipapo, sorvido de um único gole. Dizem as más línguas que desse episódio resultou a simpatia de nossos habitantes primitivos pela bebida alcóolica produzida pela fermentação de açúcares contidos em frutas, grãos ou caules como, no nosso caso, a cana-de-açúcar. Em função da descoberta então surgida saíram a plantar cana-de-açúcar em todo pedaço de chão, contribuindo, dessa maneira, para a expansão econômica de nosso País. À parte o procedimento condenável do índio ciumento, louve-se a visão empresarial de seu povo e o empreendedorismo daquela coletividade indígena ao perceber o potencial econômico que a cachaça agregaria ao nosso território. Sem esquecer a alegria e felicidade que ela proporciona a quem dela se utiliza para tornar a vida mais amena e feliz. Fala-se, até, que o Bispo Sardinha, em suas celebrações, entornava um cálice repleto daquele licor de jenipapo, generosamente dosado com nosso etanol, extraído da mais qualificada cana de açúcar local, ao invés do bom e tradicional vinho português. Desde aquela época, já não se discutia questão de gosto. Principalmente de um Bispo, líder religioso daquela gente de um Brasil antigo.

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