XICO COM X, BIZERRA COM I

O HOMEM QUE FAZIA VERSO

Eu vejo um homem triste, pelos cantos, voz muda, segurando a mão de uma mulher carrancuda a quem chamam solidão … De repente, ele fecha os olhos e, sorriso largo, passa a fazer versos brandos que alumiam o céu, de tão doces que são. O homem, agora poeta, tira o chapéu e de sua cabeça brotam luzes, e flores, e pássaros e cores. E sua alma também ri. A dama carrancuda solta-lhe a mão e, como se uma valsa ouvisse, rodopia no salão com um sorriso o seu rosto a estampar. Tristeza já não há. Eu vejo um homem alegre dançando uma valsa: notas sutis, passos gentis, segurando a mão de uma mulher também feliz a quem chamam alegria. . .

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A LAGARTIXA

Em algumas situações o viés obsceno do palavrão deixa de sê-lo para transformar-se na única e mais adequada forma de expressar uma indignação:

A Lagartixa (ou um Breve Romance Platônico Interrompido):

A lagartixa colhia sobejos
na parede de azulejos.
Por instantes cortejou um inseto,
imóvel, discreto, no alto, no teto.
Platonicamente, tentou subir.
Não conseguiu
e na parede lisa escorregou, caiu.
No chão, vendo que ele sumiu,
apenas vociferou:
– PU-TA-QUE-PA-RIU! …

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MEU AMIGO DE NOME ESQUISITO

Lançamento de meu primeiro Livro, na Passadisco. Consciente de que minha memória fisionômica não vale 1 centavo de Real, combinei com Fábio, dono da Loja, um recurso para neutralizar minha prosopagnosia (Valei-me, São Google). Para evitar o vexame provável de não lembrar o nome do adquirente, a cada livro vendido combinamos que ele anotaria o nome do comprador num papelzinho e esse lembrete seria colocado na página inicial do livro em que eu assinaria a dedicatória.

Um comprador recusou-se a informar seu nome alegando ser meu amigo pessoal há anos e, por isso, desnecessária a providência. Indiferente aos apelos de Fábio dirigiu-se à fila de autógrafos, livrinho na mão e deu-se o que você, meu caro leitor, deve estar imaginando. Branco total. O nome do meu amigo fugiu à lembrança e o papelzinho que deveria estar ali como auxilio não estava no lugar combinado. Tentei discretamente, utilizando-me de todas as artimanhas, descobrir o nome do meu amigo.

– Como devo dedicar? Perguntei-lhe, na esperança de que se revelasse o segredo do seu nome.

– Do jeito que você dedicar eu ficarei feliz – respondeu-me.

Outras tentativas fiz, em vão. Terminei por dedicar o livro de uma forma genérica e pouco elegante (Ao meu querido amigo, o abraço do Xico). Tão logo assinei a prosaica dedicatória, lembrei o nome do amigo. Não pegaria bem rasurar o autógrafo já concedido. Abracei-o, agradeci a presença e, com um sorriso amarelo, como forma de retratação, pronunciei seu nome lenta e vagarosamente: Hild – Gard.

No lançamento do Livro seguinte Hildgard estava lá e, desta vez, incrivelmente, lembrei seu nome. Agradeci aos deuses a não-presença de sua irmã, Edghilda, filha de dona Hilda e ‘seu’ Edgard. Ainda bem: eu não lembraria seu nome.

PS.: se alguém tiver interesse em adquirir o BREVIÁRIO LÍRICO DE UM AMOR MAIOR QUE IMENSO ou o ENCONTROS AO REDOR DO SONHO, enviarei com prazer. Basta um PIX no valor de $ 50 – para cada exemplar. Estará aí incluído o frete, o abraço e, claro, o autógrafo do autor. Contatos pelo imeio xicobizerra@gmail.com ou pelo ZAP.

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O QUADRADO RETANGULAR DA HIPOTENUSA REDONDA

Existe uma organização dita religiosa chamada IGREJA QUADRANGULAR DO TRIANGULO REDONDO. Como cristão, temente a Deus, declaro-me fiel da IGREJA TRIANGULAR DA RODA QUADRADA … Lá não tem Edir, Valdomiro, RR, Malafaia … Tem larápios menos conhecidos, mas tão ladrões quanto. Titicas do mesmo pinico.

Uma coisa é certa: para iludir os bestas e tomar dinheiro de otário, tem Pastor sabido mas que nunca assistiu uma aula de geometria na vida. Se bem que o crer dispensa conhecimento das propriedades dos espaços. Na cabeça desse povo a roda “trianguliza”, o triângulo vira reta, a reta fica perpendicular a um risco tronxo, desde que o dízimo dos fiéis se encaminhe para a conta dos vendilhões, comerciantes da fé.

Albert Einstein tinha uma ideia de Deus não vinculada a nenhuma igreja ou fé estabelecida. Não acreditava num Deus que premiasse os bons e castigasse os maus ou que prometesse a imortalidade. Mas ele acreditava num Deus que havia criado o universo, segundo o Google. A partir da declaração desse cara, que entendia um pouquinho de geometria, quem sou eu para duvidar dos ‘profetas’ desse paraíso do estelionato. O diabo é quem duvida…

O gênio que criou este circo colocou alguém no quadrado e descobriu que o triângulo fica perto do redondo. Acredito que esta seja a resposta do teorema. Então, concluo que a Terra deve ser plana, ou na forma de trapezoide, porque o triângulo não pode ser quadrado e o quadrângulo jamais será esférico, já que a esfera tem uma natureza propensa a ser retangular …

Exatamente por isso, já dizia Pitágoras, que dá-se o apelido de Hipotenusa ao lado mais longo de um triângulo retângulo, por ser oposto ao ângulo reto. Fácil deduzir, pois, que em qualquer triângulo retângulo “a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa.” Acho que desse teorema veio a inspiração para nomear essa Casa de Orações. A fé releva todos os conceitos geométricos de Pitágoras e Aristóteles. Aleluia! Amém!

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CINQUENTA E TANTAS POLEGADAS DE LISTAS

Minha TV pifou. Na sala, aquele monstrengo de cinquenta e tantas polegadas, apenas com som, sem imagem, feito igreja de crente. Uma listinha fina, várias listinhas, evoluindo para listas grandes, horizontais e verticais, e mais nada além do som. Pensei consertar. Fui desaconselhado por gente experiente por conta dos altos valores cobrados pelos especialistas. Desisti. Preferi doá-la a um sobrinho que está fazendo um curso de ‘consertador de televisão’. Iniciei nova batalha: compra de uma nova TV, tarefa ‘facilitada’ pela Internet na busca de preço, não fosse a Rede um campo minado de golpes. O jeito é ir ao shopping pesquisar, in loco, como nos velhos tempos. Uma novela. A bem da verdade, a não ser pelo futebol, não me faz tanta falta a TV. Lateja a violência nos Datenas da vida, são muitas Ludmilas para meus já cansados ouvidos, sobra a mesmice dos coloridos Hucks e Mions: sou do tempo dos Trapalhões em preto e branco. Mas um PSG x BAYERN pela Champions League ou um SERVETTE x LUDO pela Conference League, eu curto. A violência afastou-me dos estádios e fez-me aderir ao futebol pela TV. Na telinha, além de mais confortável, é mais barato e menos perigoso. Aliás, com a TV quebrada, ainda estou por saber quem ganhou o clássico do Azerbaijão, neste domingo, entre NEFTÇI BAKU x ZIRA FUTBOL. Alguém sabe? Ainda bem que há o celular: vi o SUMGAYT empatar com o TURAN em 0x0.

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O AMOR HÁ?

Quis saber sobre o Amor:

disse-me o tolo
em sua tolice doentia:
– não, não há!

rebateu o sábio
em sua sábia sabedoria:
– talvez haja!

concluiu o louco
em sua louca euforia:
O amor há!

e eu,
meio tolo,
sábio pouco,
muito louco,
neste pus-me a crer
por mais são me parecer o seu parecer …

O amor há!

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MEU BLOCO TOCA BLUES

Meu carnaval se dará no bloco dos ventos azuis da pequena Karawatã. Lá estarei empunhando o colorido e calmo estandarte do saboroso friozinho folião. A orquestra não entoará os frevos de liberdade poética que tanto aprecio e a troça do bem querer, com a ajuda e a aquiescência dos metais silenciosos, embalará minha preguiça numa rede branquinha na varanda da Casa 16. Confetes e serpentinas despencarão dos céus e enfeitarão nosso pé de manacá, enfeitiçado com o verde bonito da pata-de-elefante viçosa e balouçante em frente ao Jardim. À noite, ao invés dos clarins, acolherei o som plangente de uma guitarra tocando um blues saudoso, entre queijos e vinhos. Quando, enfim, a festa se quarta-feirar e a vida voltar ao normal, eu retorno à cidade grande. Evoé!

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SAUDADES DO EU MENINO

Meus sonhos, trato de sonhá-los com o maior gosto. Melhor que deixá-los amarrados com laços de fita, como faz Claribel, É assim que junto os pedaços de minh’alma. Ultimamente tenho encontrado meu eu menino quando durmo. Saudades afloram. Das tardes de sombra em que jogava futebol na rua de areia, capinzal à frente, com alvinegras vacas pastando, sem ligar o mínimo para o nosso jogo. Dos pênaltis que perdi por não tê-los batido e das mangas não provadas – tinha medo (ainda tenho) de altura, e sobre aquelas que caíam, os passarinhos eram mais rápidos que eu.

O amigo Tupã

Sonho com saudades de Tupã, cão fiel que meu pai criou até o dia em que, com um derradeiro latido, caiu no cacimbão e nunca mais voltou. Lembranças sonhadas do sol das manhãs que me via acordar todo mijado, mas sem qualquer sentimento de culpa. Era normal entre as crianças de minha idade. Do sabiá cantador que serenatava no pé de seriguela, no fundo do quintal, pertinho do cacimbão em que Tupã caiu. Do presépio iluminado que todo ano ajudava minha mãe a montar, reclamando da feiura do menino Jesus – sempre achei que o menino de verdade era mais bonito que aquele de louça. De minha coleção de selos e da lupa que usava para ver o Olho de Boi e o Rui Barbosa sem picote.

Jenipapo e Gibis

Saudades da colheita de jenipapo, fruta que eu tanto detestava, mas que adorava colher, segurando a mão de minha avó materna, lá na serra do Araripe num sol quente de dar dó … Dos meus gibis, Super-Homem, Capitão América, Tarzan. Das carteiras de cigarro vazias, dinheiro vivo pra nós na troca por bolinhas de gude: Continental, Hollywood e a mais valiosa delas, Marlboro. Onde estão? Saudade enorme do chaveiro que ganhei, presente do meu pai, do Brasil 58, campeão nas ‘oropa’, comprado nas Casas Parente, de Fortaleza (eu sabia a escalação, nomes completos, de Gilmar dos Santos Neves até Mário Jorge Lobo Zagalo) … Acordo feliz com meus sonhos. Melhor que deixá-los viajar, a exemplo do que faz Helena, que vai para estação de trem vê-los partir, lencinho na mão, para acenar-lhes um adeus.

(Claribel e Helena são personagens de Eduardo Galeano, in O LIVRO DOS ABRAÇOS)

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Todos os Livros e a maioria dos Discos de autoria de XICO BIZERRA estão à disposição para compra através do email xicobizerra@gmail.com. Quem preferir, grande parte dos CDs está disponível nas plataformas digitais. 

Nossos CDs estão nas plataformas virtuais e, em formato físico, na Loja Passadisco do Recife.

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DA SÉRIE “DECÁLOGOS DESCARTÁVEIS DE TÃO TOLOS QUE SÃO”

Decálogo 3: NOVE HISTORINHAS DE GENTE QUE MORA LONGE E DE UM CABRA QUE MORA PERTO

1. Strawny Kolneter, triste e infeliz por ser feia, fazia, sem saber, a felicidade de suas amigas um pouco menos feias que ela.

2. Suzan Betesfield deu aos pobres, acreditando estar emprestando a Deus. Está grávida e hoje chora de barriga cheia.

3. Standslaw Recroweski, deixou de beber não por recomendação médica mas porque sempre fazia uma tempestade em copo de whisky.

4. Denis Dumont Wrigth era um piloto promissor. Em seu breve currículo constam 17 decolagens e 16 pousos …

5. Dr. Andreas Carson Collins, Médico, nunca enganou um desenganado. Contava-lhes sempre a verdade …

6. Ferdinand Capuelli, cego, a quem todos respeitavam seus pontos de vista …

7. Henri Costfauld aposentou-se como Corretor de Imóveis, com a coluna comprometida, dores insuportáveis nos quartos e outras dependências …

8. John Evarist Reuples, de tanto engolir sapos na vida foi parar na mesa de operação …

9. Delbrucy Perdges, Alvi-rubro roxo, questionava se a voz do povo é a voz de Deus. Queria saber em que arquibancada torceria Deus num Sport x SCruz

10. Zé da Silva não acreditava em Deus. Alegava nunca ter ouvido um baião feito por ele.

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DA SÉRIE “DECÁLOGOS DESCARTÁVEIS DE TÃO TOLOS QUE SÃO”

DECÁLOGO 2: 10 DITADOS MENTIROSOS

1 – Cada macaco em seu galho – Fiel ao ditado, o macaquinho morreu virgem por não ter pulado para o galho bem próximo em que saracoteava a macaquinha traquina, louca por uma ‘traquinagem’.

2 – É dando que se recebe – A filha da manicure acreditou, deu e recebeu, depois de 9 meses, uma menininha linda chamada Soraya.

3 – Quem tem boca vai à Roma – O fogão lá de casa tem 6 bocas e nunca foi além da cozinha de nossa casa lá no bairro de Nazaré, em Fortaleza.

4 – Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé -. A montanha continuará à espera de Maomé, no mesmo lugarzinho de sempre. Maomé, se quiser, que vá lá que montanha, além de preguiçosa, nunca soube ir a lugar nenhum.

5 – Devagar se vai ao longe – E o menino foi, devagar, como recomendado pela avó. O problema é que o longe é muito longe e, devagarzinho, nunca se chega ao destino final. O neto, hoje adulto e já avô, anda não chegou sequer ao meio do caminho e já está morrendo de cansaço.

6 – Depois da tempestade vem a bonança – Normalmente, acompanhada de uma gripe da bexiga. E nesses tempos de Zica, longe de mim, tempestade.

7 – Diz-me com quem andas e te direi quem és – Jesus andava com Judas Iscariotes. De Jesus, todos falam bem. Do seu companheiro de andanças, não.

8 – Em casa de ferreiro, espeto de pau – Na casa do ferreiro, o espeto é de ferro, que é o que sobra naquela casa. Talvez na casa do marceneiro, o espeto seja de pau.

9 – Cautela e caldo de galinha não fazem mal à ninguém – Disse isso à galinha e ela discordou.

10 – Quem não deve, não teme – Dizia minha avó. Quem deve, treme, digo eu, de medo, dependendo do credor.

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