Toda semente plantada por um Poeta há de se transformar em frondosa árvore que frutifica sabores diversos, doces e saudáveis. Nem importa o tempo da gestação pela certeza da colheita num tempo de luz e paz.
Os versos se dependurarão na sombra dos sonetos, se juntarão às rimas, enfeitando pomares da ventura e alegrando o paladar dos homens de bem. Estrofes de um vento feliz se espalharão pelos ares.
Que passe o mal, que a cura não se demore, que os ventos sejam de felicidade plena. Os abraços reclamam e o sorrir precisa libertar-se de máscaras. O bem há de prevalecer. A gente merece ser feliz.
Que o vinho amargo seja derramado e a Paz vencedora vença o canhão, como digo no meu samba Léos, Vinas e Bernardos. Plantemos o Bem!
Minha cor preferida era o verde até Bernardo me confessar que sua cor predileta é o azul. Então vi como estava errado: claro que o azul é a cor mais bonita, muito mais bonita que o verde. A partir dessa constatação, minha cor preferida passou a ser o azul, não importa se o claro ou o escuro, se o marinho ou o da Pérsia, mas o azul, qualquer que seja o tom. Não há como discordar da sabedoria de Bernardo.
Meu barquinho azul hoje navega no mar tão azul quanto ele e as estrelas azuis povoam o azul do céu. E nós, eu e Bernardo, conseguimos vislumbrar barquinhos e estrelas ainda que o azul do céu e do mar não tenha a tonalidade do azul que desejamos. Nossos olhos veem o que queremos ver. Doce e singelamente.
Hoje, todos os meus lápis de cor são de uma cor só que eu não posso revelar. Ganha um presente azul quem descobrir a cor dos meus lápis azuis. São tão coloridos quanto os lápis azuis de Bernardo e os origamis que a avó, a mãe e a tia fazem para ele. Todos azuis. Viva o azul!
Conheço um cara de origem extremamente católica, criado dentro dos mais rigorosos preceitos da Igreja Católica Apostólica Romana, de família totalmente dedicada aos princípios religiosos. Criança, não perdia uma missa aos domingos. Foi coroinha e depois, para satisfazer a vontade da mãe que queria vê-lo Padre, ingressou no seminário. Nas duas atividades permaneceu por apenas 6 meses. Isso tudo juntado talvez seja o responsável por ele hoje detestar as igrejas, todas elas, não importa, evitando até botar os pés em suas calçadas.
Sua Fé é muito mais intensa: é íntima, é uma parceria com a natureza e com os valores do bem, é o perseguir a filosofia e os ensinamentos de Francisco, aquele de Assis, um Santo de e da Verdade que pregava a caridade como obrigação humana. É o fazer o bem sem olhar a quem e nunca desejar o mal ao semelhante.
A religião desse cara se sustenta em três pilares: a importância da família, a serenidade da música e a liturgia da palavra. E assim tem sido ao longo de sua vida. Nunca sentiu falta de altares e de estátuas, de homilias e de religiosos, de dogmas e outras enganações. Santos, estão lá por merecimento, não para atender ou intermediar pedidos de nós, terrenos errantes. Por isso, não lhes ‘enche o saco’. Sacerdotes, alguns ele até admira, como João Paulo II e um ou outro Lancelotti dos tempos atuais, bem diferentes dos Padres e Freis cantores.
E assim segue, religioso a seu modo, temente a um ser superior, um Deus em que acredita, e fazendo o que acha que deve ser feito, respeitando o próximo, em primeiro lugar. Esse é um cara do bem. Modéstia à parte, dá para desconfiar de quem estou falando?
Sou sertão. Sertão que já pariu tanta poesia e verso e continua a inspirar quem conhece o sagrado terreno dessas terras. E daí saem cantigas e prosas a motivar os cabras e as cabrochas carentes de um abraço ou cafuné. É um tocador de fole numa esquina qualquer, um cego de feira ou um cantador versejando palavras, um poeta inspirado que bebe no bar a cachaça da alegria e tira gosto com pedaços de saudade, e assim mantém a claridade divina das coisas do interior, que não saem do nosso interior. Feliz de quem, como eu, teve a ventura de desabrochar no sertão e conhecer a luz do sol debaixo de um céu azul, que só se vê por lá. Anjos e Deuses haverão de cuidar sempre desse pedaço de chão. Chão em que vive o jumento amigo, injustiçado quando a ele se concede a falta de compreensão que lhe é culturalmente atribuída. Por isso, faço questão de destacar meu apreço pelo animal e a antipatia natural que tenho pelas ‘modernagens’ cibernéticas. Vai ver o problema é do USB – Usuário Super Burro. Viva o Sertão, o jumento e dane-se a máquina de fazer doido chamada computador, com seus imeios, zaps e facebooks.
Ele habita, como ave silenciosa e solitária, os céus do Porto em que acontecem chegadas e partidas. Assiste a alegrias e tristezas, lágrimas e sorrisos, ‘adeuses’ chorosos e bem-vindos apertos de mãos. É testemunha da bênção sentida da mãe que vê seu filho partir para outros chãos, sem nenhuma certeza da volta. Da mesma forma testemunha o abraço apertado do pai no filho pródigo que ao seu lar retorna. Do alto, sente o cheiro da saudade e se embriaga com o sabor dos sonhos bons que mora em cada um dos corações dos que por ali transitam, para buscar ou para deixar esperanças, desejos e vontades. No olho lacrimejado de alguém ele percebe um brilho diferente do que se observa no olho de quem mantém um sorriso que vai de canto a canto do rosto. É o riso e o pranto desenhando o momento de cada um. Ao final, destino definido, a vida seguirá e outras chegadas e partidas acontecerão no porto da vida. Do alto, como ave solitária e silenciosa, ele a tudo assiste. Lágrimas e sorrisos se sucederão e um Deus silencioso vela por nós.
O universo político de Gonzaga era incolor, totalmente desprovido de matiz ideológico. Discutível, dizem alguns. Não importa muito diante de seu baião, sua música, seu talento, uma bandeira desfraldada acima de qualquer regime dominante à sua época. Amizades e compromissos por ele assumidos durante a ditadura devem ser atribuídos à inconsistência de sua formação política e à vontade de, através de apoios pontuais, trazer ao seu chão progressos por ele desejados. Conseguiu. Nunca misturei essas querelas tão pequenas com a grandeza artística do Rei. Nem acho que se deva misturar. São coisas distintas, a meu modesto ver.
Transportando para os dias atuais, diante da imensidão da obra poética e literária de Chico Buarque, é de se perguntar: seu conceito diminui ou cresce ante o posicionamento político por ele adotado? Nem uma coisa nem outra. Lógico que não se pode desprezar a convicção ideológica do Buarque, homem de esquerda, defensor consciente e intransigente de pautas favoráveis ao povo brasileiro. Mas pouco importa a cor de seu coração partidário. Ele, por sua obra, é imenso e muito maior que qualquer discrepância de princípios. Como imenso seria se outra preferência tivesse seu poético coração. Francisco e Luiz, cabeças e pensamentos talvez conflitantes, diferentes entre si, são imensamente iguais no talento. Viva Chico, Viva Luiz, corações semelhantes, talentos similares.
No carnaval, Carlos esqueceu a verdade e rendeu-se à ilusão do carnaval, no que fez muito bem. Escondeu num lugar bem secreto a chave que nenhuma porta abre e engoliu em seco a palavra doce que nunca pronuncia. Apenas sentou-se na esquina do mundo esperando a utopia. A vida de fantasia, embora fugaz, é bem menos doída, sabia Carlos. Dói menos ver quase nada no bolso se há uma colombina a lhe alegrar o coração; é menos dolorida a barriga vazia se há uma esperançazinha qualquer a azular-lhe a alma. Fez muito bem Carlos em não ter ido para Minas em busca de sua lavra de ouro, de seu terno de vidro. Ficou por aqui, ladeiras e pontes a receber seus pés e suor porque a vida tem todo dia e aquela alegria só acontece três ou quatro dias por ano e vale a pena pensar que o riso seja a verdade, ainda que não. Aquilo tudo era festa, era carnaval, era folia. Isto, apenas a vida. A fantasia, qualquer que fosse, para Carlos sempre foi muito melhor que a realidade. Assim era feliz Carlos, por três ou quatro dias até a vida quarta-feirar-se e Carlos voltar a ser Carlos. Num é não, seu Drummond? Evoé!.
Nunca é tarde para voltar a ser criança, brincar. O tempo gosta da brincadeira de pega-pega comigo e quase sempre vence a disputa. Eu nunca soube jogar direito esse jogo. Mas insisto em jogar. Quem sabe um dia eu vença a disputa e consiga perenizar o tempo feliz e fazer com que as mazelas do tempo ruim não se demorem por aqui, na ânsia de me pegar. O lado bom é quando num descuido, a gente pega a felicidade e ela se pendura no ponteiro das horas, aquele que anda mais devagarzinho, quase parando. Mas isso nem sempre acontece: ela é teimosa e, às vezes, acha de se amontar no dos segundos, aquele que corre veloz e cumpre seu ciclo rapidamente. E vai embora tão rapidamente quanto chegou. Mas bom mesmo, sem igual, é quando a felicidade se aboleta de preguiça no ponteiro do relógio sem corda e as horas param, não avançam e a felicidade, então plena, faz-se estática, duradoura e permanece marcando, por um bom tempo, um tempo bom. Ainda existem aqueles relógios em que se dá corda?
Que bom que haja o acaso e que ele seja companheiro inseparável do desconhecido, da surpresa. Melhor ainda quando esse acaso é generoso e nos reserva coisas boas, para que, guardadas em nossas gavetas afetivas, possibilite futuras lembranças melhores ainda. É como a ilusão de um filme bom. Que a lua continue sendo a estrela principal, a protagonista do bem nesse cinema de céus azuis e borboletas multicoloridas. Que os pássaros continuem a fazer a trilha sonora desse seriado de mistério e que sirva para aproximar, cada vez mais, as pessoas, com elas dividindo a felicidade com que fomos premiados. Assim, nossa missão de Paz estará cumprida. Será um belo filme com final feliz. Colorido ou preto e branco, não importa. Igual aos que assistia, quando criança, no Cine Cassino, do Crato, que, acho, nem existe mais. A felicidade, sim, continua a nos espreitar, como o Gordo e o Magro que habitava meus sonhos infantis … Que volte Carlitos e que se abram as cortinas!
Acordei querendo ser passarinho. Outra vez. Mas não fui capaz. Tentei de novo, há dois minutos, não mais, pela última vez e soltei-me a cantar. Mas ninguém ouviu. Estavam todos preocupados com a Bolsa de Valores, com a Ucrânia, com Trump e com o que está por vir. Meu canto era mais desimportante que o ditador americano ou a malvadeza dos tiranos. E eu que só queria sair a voar, que nem um curió, brincar de beijar, tal qual o beija-flor … Lembrei-me que há dois mil anos quem foi passarinho, de tanto cantar o bem, teve as asas espetadas numa cruz e ali ficou. De nada adiantou ter voado sementes e gorjeado colinas. A comparação apenas deu-me a dimensão do quanto sou pretensioso. Voei, então, dez mil anos atrás: foi quando descobri-me dinossauro, que não sabia voar. Tampouco, cantar. Mas, teimoso, vou continuar tentando, caminhando e cantando, buscando o abraço. Passarinho serei. Só peço que não me cortem as asas. Não tenho vocação para dinossauro … Nem me destinem a uma gaiola. Nunca fiz nada de mal. Fiz, isto sim, até uma cantiga, (e não é porque é minha, não, mas é bonita que só), que estará em breve nas plataformas musicais, e diz assim:
DE JARDIM EM JARDIM
Vou pedir a Deus Pra ser passarinho Sair do meu ninho Brincar de voar De jardim em jardim Cantando o amor Todo tempo, enfim, É tempo de flor
Vou pedir a Deus Pra ser colibri Viver a sorrir Brincar de beijar De Jardim em jardim De flor em flor Todo tempo, enfim, É tempo de amor
E ser Sabiá, cantar e cantar Pra te alegrar, te fazer sonhar Pra me alegrar, me fazer sonhar E ser Sabiá, cantar e cantar Me fazer sonhar, pra me alegrar Pra te alegrar, te fazer sonhar Me fazer sonhar