VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

LÁGRIMAS DE UM JABUTI

Rosinha, uma jovem que ama os animais, ganhou de presente da mãe um bebê-jabuti, que vinha sendo criado em apartamento.

Com o passar do tempo, o jabuti começou a crescer muito, já atingindo 20 centímetros de diâmetro. O espaço em que era criado tornou-se pequeno e desconfortável para o seu desenvolvimento.

Uma prima de Rosinha, vendo a limitação do espaço em que o jabuti estava sendo criado, se prontificou a assumi-lo e foi feita a mudança do pequeno animal para a sua casa, onde há quintal, e onde ele teria mais espaço para se movimentar.

Mesmo com muita saudade do jabuti, Rosinha optou por transferi-lo para a casa da prima, onde ele teria melhor qualidade de vida, e mais espaço.

O que ninguém imaginava era que o jabuti fosse sofrer tanto com a mudança. Vivendo nesse habitat há quase três anos e convivendo diariamente sob os cuidados de Rosinha, que lhe tratava com muito carinho, nada lhe parecia melhor do que o ambiente onde vivia.

Ao perceber que estava sendo levado para outro ambiente, o jabuti encheu os olhos de lágrimas e chorou em silêncio, copiosamente, como choram os seres humanos. Esse fato constrangeu Rosinha, que também não sustentou as lágrimas e chorou o resto do dia.

Ninguém pode imaginar o apego que os animais tem aos seus donos, quando são tratados com amor.

Os animais sentem tanto uma separação, quanto os seres humanos.

Jabuti, jaboti (do tupi iaboti) ou jabutim é a designação vulgar, utilizada no Brasil, para duas espécies de répteis providos de carapaça, exclusivamente terrestres, nativos da América do Sul, do gênero Chelonoidis, da ordem dos quelônios, da família dos testusdinídeos. As duas espécies de jabuti distribuídas no Brasil são a Chelonoidis carbonaria (jabuti-piranga) e a Chelonoidis Chelonoidis denticulata (jabuti-tinga). A fêmea dos jabutis é chamada jabota. Seus parentes mais próximos (inclusive pertencentes ao mesmo gênero Chelonoidis) são a Tartaruga do Chaco (Chelonoidis chilensis, as vezes referida como Jabuti-argentino pelos brasileiros) e a Tartaruga-das galápagos (Chelonoidis nigra).

São encontradas duas espécies de jabuti no Brasil, com ampla distribuição:

Jabuti-piranga (Chelonoidis carbonaria; do tupi “jabuti vermelho”), distribuída em estados do Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil .

Jabuti-tingaJabuti-tinga (Chelonoidis denticulata; em tupi, jabuti branco ou claro), menos comum, distribuída em estados do Norte, Nordeste e Centro-oeste. Esta espécie prefere florestas tropicais densas, como a Mata Amazônica, porém raramente pode ser encontrada em áreas mais abertas.

São animais que possuem casco convexo — carapaça bem arqueada — e pernas grossas e adaptadas à vida terrestre. A carapaça é uma estrutura óssea formada pelas vértebras do tórax e pelas costelas. Funciona como uma caixa protetora na qual o animal se recolhe quando molestado. É revestido por escudos (placas) córneas. Os jabutis podem chegar aos 70 cm de comprimento aos 80 anos. Sua expectativa de vida é de 80 anos, porém, havendo registros de animais alcançando 100 anos.

A carapaça do jabuti é preta e possui um padrão em polígonos de centro amarelo e com desenhos em relevo. A cabeça e as patas retráteis são de um tom de preto fosco, com manchas vermelhas, ou amarelas, a depender da espécie. O plastrão é reto ou convexo nas fêmeas e côncavo nos machos, justamente para encaixarem nas fêmeas por ocasião da cópula.

Possuem hábitos diurnos e gregários (vivem em bandos) e passam o tempo em busca de alimento, podendo percorrer grandes distâncias. Eles são onívoros, e uma alimentação equilibrada deve ter folhas e legumes; frutas e proteína animal.

Em cativeiro os Jabutis podem ter sua dieta complementada por 50% de ração canina de boa qualidade. A ração pode ser umedecida com água para amolecer, o que é importante na alimentação de filhotes. O restante da dieta deve conter frutos variados (uvas, bananas, pera e maçã) e verduras (couve e almeirão). Também pode ser oferecido, ocasionalmente, carne moída crua e ovos cozidos. Por outro lado, nunca oferecer leite ou derivados, que não são digeridos pelo animal. É importante também um suprimento de cálcio, que pode ser fornecido pela farinha de osso. Os jabutis não possuem dentes. No lugar deles há uma placa óssea que funciona como uma lâmina. Os jabutis podem virar caso tentem cruzar algum obstáculo e é comum os machos virarem durante a cópula. Nesse caso, sem ter como se desvirar, o animal pode morrer. Os jabutis precisam de água fresca para viver, e não apenas a água dos alimentos. Por serem exclusivamente terrestres, e sem capacidade de nadar, a morte por afogamento infelizmente é muito comum.

O jabuti é considerado pela legislação como um animal silvestre. Por isso para tê-lo em domicílio, segundo a legislação brasileira, é preciso que seja oriundo de um criadouro e registrado junto ao órgão ambiental.

Até 2011 esse registro era realizado pelo IBAMA. Atualmente os órgãos estaduais de Meio Ambiente é que detêm a competência de registro dos criadouros comerciais de fauna silvestre.

Apesar da proibição, o jabuti é tradicionalmente criado como animal de estimação em diversas partes do país.

O Prêmio Jabuti é considerado o mais importante prêmio literário do Brasil.

Provérbios e ditos

No Brasil, há alguns provérbios populares acerca da figura do jabuti. Entre eles:

“Jabuti não pega ema”.
“Jabuti não sobe em árvore”.
“Jabuti quando tem pressa, aprende a voar”.

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A CAMINHONETE

Adamastor era um engraxate, que, na década de 60, atendia aos fregueses na Praça Padre João Maria, bairro da Cidade Alta, em Natal (RN). No final da tarde, guardava seus apetrechos no estabelecimento de um sapateiro “lambe-sola” (consertador de calçados), seu amigo Osvaldo, um homem fanático por Aluízio Alves, na época, governador do Estado. Convém salientar que Seu Osvaldo só usava camisa verde, símbolo do partido político do seu ídolo, e as paredes do seu minúsculo ponto comercial eram totalmente decoradas com fotos desse homem, que exerceu grande liderança política no Estado, durante muitos anos. Além disso, o sapateiro também mantinha na parede externa do seu estabelecimento de trabalho, onde também morava, uma grande bandeira verde, símbolo do partido de Aluízio Alves. Era uma figura folclórica.

Adamastor, à noite, ganhava dinheiro pastorando carro. Sua freguesia era constituída de frequentadores do Cine Nordeste, localizado na Rua João Pessoa, por sinal, bem perto da Praça Padre João Maria.

Antes disso, jantava um cachorro-quente “Sebosão”, enorme, que tinha tudo o que o diabo gosta: carne moída gordurosa, salsichão da pior qualidade, frango com muita graxa, vinagrete, e uma cobertura generosa de “ketchup” e maionese. Dentro de uma mochila, trazia sempre uma garrafa de pinga e um copo. Trazia também um depósito com água.

À noite, depois que se transformava em pastorador de carro, Adamastor aproveitava para tomar suas chamadas de cana, quando não havia ninguém olhando. Bebia moderadamente e nunca foi visto embriagado.

Adamastor já era uma figura conhecida na redondeza, e de muita confiança. Tinha seus fregueses cinéfilos, que deixavam seus carros estacionados perto do cinema, aos seus cuidados, e lhe pagavam bem. E ai dos malandros que se aproximassem dos carros que pastorava. Ele gritava, mandando-os “desarredar” imediatamente. Para demonstrar zelo, mantinha sempre nas mãos uma flanela molhada, com a qual tirava a poeira dos carros.

Certa noite, Dr. Mesquita, um advogado muito conhecido na cidade, confiou-lhe sua luxuosa e recém adquirida caminhonete, enquanto iria com a esposa ao “Cinema de Arte”, sessão das 21 horas, no Cine Nordeste.

Como o filme era de longa-metragem e só terminava à meia noite, Dr. Mesquita pediu ao pastorador que redobrasse o cuidado.

Nessa noite, Adamastor se excedeu na cachaça, e ficou ainda mais cuidadoso, principalmente com a caminhonete “zerinho” do doutor. Para se sentir mais seguro, resolveu providenciar um “cacete”, para usar contra qualquer malandro que tentasse bulir nos carros. Nesse tempo, ainda não havia assalto nem roubo de carro em Natal.

Depois que a sessão de cinema terminou, o advogado foi pegar seu veículo e notou que Adamastor estava muito nervoso, pois, quando o avistou, foi logo dizendo em voz alta:

– Graças a Deus, doutor, o senhor chegou!

E Dr. Mesquita perguntou:

– Está tudo bem, Adamastor? Aconteceu alguma coisa?

Então, o pastorador respondeu:

– Agora, tá tudo bem, doutor. Mas passei um susto danado! Tava tudo calmo e de uma hora pra outra apareceu um moleque taludo, querendo mexer no trinco da caminhonete do senhor. Parece até que eu tava adivinhando, pois já tava com a arma na mão. Dei uma grande surra de cacete no safado, mas ele conseguiu fugir correndo. Fiquei o resto do tempo “cubando” se ele voltava, mas o ladrão desapareceu de vez.

O “cacete” a que Adamastor se referiu foi, nada mais, nada menos, do que a antena da caminhonete de luxo, novíssima, do advogado, que ele continuava segurando.

Como a causa foi justa, Dr. Mesquita guardou a antena, agradeceu e deu uma nota graúda ao pastorador.

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A ERA DOS ESCÂNDALOS

Nosso País está fervendo de escândalos e perseguições. Estamos assistindo a uma réplica do Calvário de Jesus.

A cada dia que se passa, um ser humano é tratado como se humano não fosse, por tiranos desalmados e sem sentimento de caridade. Mas o mundo dá muitas voltas e quem planta o mal não pode colher o bem.

Conhecer a história é ter a certeza de que o amanhã nascerá sem erros. O hoje que olha o passado é o mesmo olhar que projeta o futuro. A roda viva gira mais rápido do que se espera. A maldade que se pratica retorna em dobro.

Gosto de catar pedaços de sonhos que encontro no caminho. Guardo-os na alma. Desses pedaços sou construída.

O tempo passou sem me avisar. Fiquei sentida.

Não espere que as pessoas adivinhem o que você pensa ou quer. Diga, fale, grite.

A telepatia não é um atributo humano.

“Erra o país que nega aos filhos o direito à memória” (Cézar Britto).

Perguntaram-me o preço de um presente que comprei. A resposta: o preço do meu gostar. O meu querer não se mede em valores.

Defender a liberdade implica em defender quem a defende.

A liberdade de perguntar deve apenas ter limite na liberdade de não responder.

Liberdades absolutamente iguais.

O que impede a Reforma Política: pensa-se mais nas próximas eleições do que nas próximas gerações. Nada mais óbvio.

Empresas não são o povo. Eleição não pode ser um investimento econômico. O Estado não pode ser um balcão de negócios.

O financiamento privado das campanhas eleitorais beneficia os homens de bens.

E afasta da política o homem de bem.

A liberdade de pensamento é direito personalíssimo, não cabendo aos tiranos tentar arrancar, sob tortura, os vários pensamentos e portas que a vida oferece ao ser humano.

O esquecimento alimenta a corrupção. O corrupto sabe que o seu escândalo particular logo será absolvido por um novo escândalo nacional. É o que vemos nos dias atuais.

Existir é a arte de fazer escolhas sobre todos e tudo, pois escolher é a tarefa que a vida nos impõe.

O desenvolvimento sustentável sem desenvolvimento social, não se sustenta. Nem se desenvolve.

Liberdade é sonhar, exprimir e agir. É querer mudar as coisas. É lutar para fazer o que se acha certo. É não ter medo de ousadia.

As utopias são irmãs gêmeas dos sonhos. Nascem todos os dias em que a vida pede atenção.

Qual o limite dos nossos sonhos? Sonhar é infinito. Não se acomoda ou se limita. Sejamos livres sonhadores.

Não nasci nordestina, por ordem do acaso. Parece até que já sabiam do gosto do meu gostar. E acertaram em cheio.

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O SAPO

Um neto de um conhecido político do Rio Grande do Norte se surpreendeu ao chegar ao seu gabinete em Brasília e encontrar na parede uma enorme tela que retratava um sapo barbado, de paletó e gravata.

Perguntou ao avô a razão daquela decoração na parede e o homem respondeu:

“A política é a arte de engolir sapos”. Eu, como político, tenho que me conscientizar disso, e saber que tenho de engolir sapos, sempre que estou aqui trabalhando. Por isto, mandei fazer esta tela.

Sapo é bicho esperto e astucioso. A vida dos sapos é intimamente relacionada com a água. A água é fundamental para sua reprodução e a umidade garante sua respiração cutânea.

A pele dos sapos é seca, glandular e vascularizada. Eles não possuem nenhum tipo de pelos ou escamas.

A pele fina permite as trocas gasosas, e respiração cutânea. Essa condição também impõe que os sapos habitem ambientes úmidos e sombreados. A exposição aos raios solares pode provocar o ressecamento da pele. Por isso, muitos sapos são ativos apenas durante a noite.

Normalmente as pessoas confundem rã, perereca e sapo, embora estes três animais, possuam muitas diferenças entre si, na morfologia, no “habitat” e no comportamento.

O que eles têm em comum é o fato de serem classificados como anuros, nome dado aos anfíbios que não possuem rabo.

Ao contrário do que muitos pensam, as rãs e pererecas não são as fêmeas dos sapos. Existe sapo macho e sapo fêmea, rã macho e rã fêmea, assim como perereca macho e perereca fêmea.

Os sapos apresentam uma pele mais seca e rugosa em relação a dos outros anuros. Além disso, preferem viver em terra firme e só procuram ambientes aquáticos quando vão se reproduzir.

As patas posteriores do sapo são mais curtas, assim eles não conseguem dar grandes saltos, como os das pererecas. Devido às glândulas que possui na região dorsal, quando o sapo sofre alguma pressão externa (como ser pisado, por exemplo), libera um veneno que pode irritar nossos olhos e as mucosas. Pode até cegar.

As rãs são as mais habilidosas entre esses três tipos de anuros. Seus membros posteriores mais longos ajudam no salto e na natação. Elas conseguem dar saltos de até 1,5 metro de comprimento e 70 centímetros de altura.

Vivem principalmente em lagoas e apresentam uma pele bem lisa e brilhante. Suas toxinas estão localizadas nas regiões das costas.

Ao contrário dos sapos e pererecas, as rãs são usadas para alimentação, pois possuem uma carne suave e nutritiva, que lembra vagamente a carne de frango.

Normalmente, as pererecas são menores que os sapos e rãs, tendo como característica os olhos esbugalhados, além de serem mais coloridas.

Não gostam de lagoas e preferem viver em árvores. Com pernas finas e longas, são capazes de grandes saltos e de fixarem-se nas superfícies, pois possuem discos nas pontas de seus dedos, que funcionam como ventosas e permitem essa fixação. Assim como as rãs, possuem uma pele bastante lisa.

São pertencentes a várias famílias. Muitas vezes, são encontradas em banheiros de casas, já que gostam de ambientes úmidos.

Pois bem. Certa vez, um fazendeiro rico levou para casa um sapo e entregou aos três filhos ainda meninos, para lhes servir de brinquedo. A alegria foi grande.

Os meninos brincaram muito com o sapo e depois passaram a maltratar o pobre animal indefeso.

Nesse tempo, os bichos podiam falar à vontade.

Apavorado, o sapo pediu que o soltassem, para que ele voltasse ao pântano, que é o seu “habitat”. e os meninos disseram que iriam matá-lo, jogando-o nos espinhos.

O sapo, desesperado, começou a tapear os meninos, dizendo:

– Espinho não fura meu couro! Ah, ah, ah…

Um deles sugeriu:

– Vamos queimar o sapo!!!

O sapo fingiu ter gostado da ideia e vibrou:

– No fogo, eu me sinto em casa!

Os meninos gritaram:

–  Vamos jogar o sapo nas pedras!

O sapo respondeu: Pedra não mata sapo!

O menino maior, o mais malvado, disse:

– Vamos furar o sapo de faca!

O sapo respondeu:

– Faca não atravessa sapo!

Até que um dos meninos sugeriu:

– Vamos jogar o sapo dentro da lagoa!

Aí, o sapo se fingiu de triste e chorou copiosamente, desesperado, implorando:

– Me bote no fogo! Na água eu me afogo!!!

Esse truque do sapo salvou sua vida.

Os meninos, eufóricos, gritaram ao mesmo tempo:

– Vamos todos para a lagoa!!!

Pegaram o pobre do sapo por uma perna e jogaram no meio da lagoa. O sapo mergulhou e subiu à tona, eufórico, pois o remédio que precisava era aquele, depois de ter sido tão judiado pelos meninos. E começou a gritar:

– Eu sou bicho d’água! Eu sou bicho d’água!!!

E escapou são e salvo da maldade dos meninos.

Anos atrás, numa chácara em Pereiras (SP), estava eu com meu marido, minha sogra e um cunhado com a namorada. A moça era chilena e divorciada de um funcionário do alto escalão de Salvador Allende.

Estávamos no terraço da casa, quando ouvimos um grito de pavor vindo do banheiro, onde a namorada do cunhado estava tomando banho. De repente, surge a moça completamente nua, em pânico, tremendo de medo e gritando por socorro, com os olhos esbugalhados. Todos nós nos assustamos, pensando ter havido uma desgraça, como um assalto. Mais que depressa, minha sogra cobriu a moça com um lençol, e lhe deu água, sem ninguém entender o que tinha havido.

Finalmente, ela conseguiu falar:

– Uma rã!!! – Vi uma rã no banheiro!!!

Saí do terraço com meu marido, para rir no quintal. Nunca vi tanto fricote!!! Uma mulher altíssima e altiva, com experiência de vida, dar um escândalo desse por causa de uma inofensiva rã!!!

Nasci e me criei, na simplicidade do Agreste Nordestino, e me acostumei a conviver com sapos cururus enormes. Rãs e pererecas não fazem mal a ninguém.

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A ESPARRELA

Nasci e me criei ouvindo esse termo, “esparrela”, referindo-se a alguma coisa que não tinha dado certo para alguém. Quando alguém “quebrava a cara”, com uma decepção amorosa, ou era enganado, se dizia que aquela pessoa havia caído na esparrela. Acreditou nas palavras e promessas de um mentiroso enrolão.

Outra expressão também muito usada, quando alguém levava um calote em dinheiro, era “caiu no conto do vigário”.

Há duas versões da origem dessa expressão.

De acordo com a Wikipêndia, o termo “conto do vigário” teve origem no século XVIII, em Ouro Preto (MG), onde um vigário propôs uma história envolvendo uma imagem de Nossa Senhora entre duas paróquias: a de Pilar e a da Conceição, que queriam a mesma imagem de Nossa Senhora.

Um dos vigários propôs que amarrassem a santa num burro ali presente e o colocassem entre as duas igrejas. A igreja que o burro tomasse direção ficaria com a santa. Acontece que o burro era do vigário da igreja de Pilar e por isso se direcionou para lá, deixando o vigário vigarista com a imagem.

A outra versão do “Conto do Vigário” refere-se a um pequeno lavrador e negociante de gado, português, de nome Manuel Peres Vigário, que comprou e repassou notas falsas e terminou prestando contas à Justiça.

Manuel Peres Vigário teria existido em Portugal, sendo personagem do poeta Fernando Pessoa, em “Conto do Vigário”, escrito em 1929.

A ORIGEM DO “CONTO DO VIGÁRIO – Por Fernando Pessoa

Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.

Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa. Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: «Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.» «Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.

Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos negociantes de gado como ele a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se, se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem. Houve então a troca de outro olhar.

O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho. Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo – um recibo de bêbedo, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e «estando nós a jantar (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbedo…), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.

Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira… E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.

Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido.

Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário «nem eu estava tão bêbedo que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça foi mandado em paz.

O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.

Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade – nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.

(Segundo informação que se pensa fidedigna, o texto foi escrito por Fernando Pessoa e publicado pela primeira vez no diário Sol, Lisboa, ano I, nº 1, de 30/10/1926, com o título de «Um Grande Português». Foi publicado depois no Notícias Ilustrado, 2ª série, Lisboa, 18/08/1929, com o título de «A Origem do Conto do Vigário».)

Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da língua portuguesa e figura central do Modernismo português. Poeta lírico e nacionalista, cultivou uma poesia voltada aos temas tradicionais de Portugal e ao seu lirismo saudosista, que expressa reflexões sobre seu “eu profundo”, suas inquietações, sua solidão e seu tédio.

Foi vários poetas ao mesmo tempo, criou heterônimos – poetas com personalidades próprias que escreveram sua poesia e, com eles procurou detectar, sob vários ângulos os dramas do homem do seu tempo.

Há traduções de Fernando Pessoa e seus heterônimos em espanhol, francês, Inglês, alemão, Italiano, chinês etc.

Fernando Pessoa, que vivia em quartos alugados, conflituoso, sujeito a crises de depressão e alcoolismo, faleceu em Lisboa, Portugal, no dia 30 de novembro de 1935, vítima de cirrose hepática.

A biblioteca Nacional de Portugal, localizada em Lisboa, possui 99% do acervo pessoal de Fernando Pessoa, enquanto a Casa Fernando Pessoa guarda e preserva o espólio documental e a biblioteca que pertenceu ao escritor.

Fernando Pessoa, que vivia em quartos alugados, conflituoso, sujeito a crises de depressão e alcoolismo, faleceu em Lisboa, Portugal, em 30 de novembro de 1935, vítima de cirrose hepática.

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A DESILUSÃO

A desilusão é o sentimento de descrença que se apossa de alguém, depois de sofrer uma agressão injusta, ou receber pedradas de pessoas invejosas e más.

“Por inveja, Caim matou seu irmão Abel” – está na Bíblia.

A inveja é o sentimento mais sórdido e perigoso que povoa a humanidade. É capaz de provocar a destruição da alma de alguém. Traz danos irreparáveis à alma e torna irrespirável o ambiente em que agredido e agressor se encontrem.

Ao invés de esboçar alegria e gratidão, às vezes, quem foi ajudado estampa no olhar apenas revolta. É normal a pessoa que foi ajudada se afastar, passando a ser indiferente a quem o ajudou.

Diz a história que, certa vez, o filósofo chinês Confúcio recebeu uma pedrada, enquanto caminhava com seus discípulos. Um deles, disse que sabia de onde tinha vindo a pedrada, e apontou um nome. Imediatamente, Confúcio contestou:

– Não! Eu nunca fiz nada por esta pessoa.

Somente quem foi ajudado é capaz de retribuir a ajuda com pedradas…

Faz sentido…

Mudando o rumo desta prosa, e ainda sob o espírito junino, que acaba de findar, evoco a beleza da música MANÉ FOGUETEIRO, que Dona Lia, minha saudosa mãe, gostava de cantarolar:

Mané Fogueteiro era o Deus das crianças,
Na vila distante de Três Corações,
Nos dias de festa de festa fazia rodinhas,
soltava foguete,
soltava balões.

Mané Fogueteiro
gostava da Rosa,
cabocla mais linda
esse mundo não tem,
porém o pior é que o Zé Boticário,
gostava um bocado da Rosa também.

E um dia encontraram
Mané Fogueteiro,
com olhos vidrados,
de bruços no chão.
Um tiro certeiro varara-lhe o peito,
na volta da festa do Juca Romão.

Porém os que morrem de tiro conservam
a última cena
nos olhos sem luz:
um claro foguete de lágrimas frias,
alguém viu brilhando
em seus olhos azuis.

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ZÉ AREIA , O BARBEIRO DAS ROCAS

Um dos mais famosos boêmios potiguares, Zé Areia, (1900-1972) viveu na época da Segunda Guerra Mundial, e marcou época, não apenas pela vida de boêmio, como pelo arsenal de respostas malcriadas, que trazia na ponta da língua, pronto para se defender dos desafetos ou simples cidadãos anônimos, que, por acaso o incomodassem.

Havia quem mexesse com ele, somente para ouvir a resposta agressiva.

Foi o caso de um professor que o encontrou na porta do Café São Luiz, na Cidade Alta, e foi dizendo:

– Hoje eu estou doido para ver um corno!

Zé Areia o convidou:

– Entre aqui no café. Vou lhe mostrar o maior corno do mundo!

E em frente ao espelho, disse:

Veja ali! É aquele que está junto de mim!!!

Era o próprio professor.

Zé Areia nunca se preocupou muito com o seu conforto pessoal, vivendo modestamente. Sempre preferiu a vida de boêmio, sem se preocupar em acumular dinheiro.

Sua inteligência privilegiada, suas respostas na ponta da língua e sua simpatia, conquistavam a todos, e lhe facilitavam a venda de loterias ou rifas, desfilando com lindos carneiros, objetos dos sorteios.

Amigo de juventude de João Café Filho, qual não foi a sua alegria ao ver o amigo chegar à Presidência da República. Viajou para o Rio, na esperança de conseguir um bom emprego, conforme lhe havia sido prometido.

Ao chegar ao Palácio, foi atendido por um secretário, que não permitiu sua entrada, e ainda lhe transmitiu o recado de que o emprego disponível no momento era o de seringueiro na Amazônia.

Indignado, Zé Areia teria disparado, no ato:

– Meu amigo, você diga pra Café Filho que quem veio aqui foi o amigo dele Zé Areia, atrás do emprego que ele me prometeu, quando subisse na vida. Diga também, que ele se lembre de que, no Rio Grande do Norte, quem tira leite de pau é “bu…….!” Um emprego desse, eu não quero!!!

Certa tarde, melancólico, num botequim, Zé Areia contava sua desdita. Fora casado, tivera lar, esposa e filhos, mas a mulher não aguentara sua vida boêmia e as incertezas dos dias sem ter o que comer com os filhos. Certa madrugada, ao voltar para casa, não encontrou nem mulher, nem filhos, nem móveis. E Zé Areia confessou que ficou louco de aperreio, não por ela, mas pela saudade dos filhos.

Terminou localizando a nova moradia da ex-mulher. Agora, tida e mantida pelo Coronel Teodósio, conhecido chefe político, poderoso e rico.

Cheio de alegria, Zé Areia foi à procura dos filhos. Estava brincando com eles, quando salta dum cavalo o tal coronel Teodósio, rebenque na mão e falando grosso:

– Boa tarde, seu Areia!

Assustado, conta Zé Areia que só fez desengalhar o chapeu da galhada de chifres e respondeu, educadamente:

– Boa tarde, coronel Teodósio, Deus guarde Vossa Senhoria e suas excelentíssimas famílias!

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VIVAS PARA AS FESTAS JUNINAS!

Os festejos juninos, aqui em Natal, tiveram início no Dia dos Namorados, 12 de junho. À noite, todos os bares e restaurantes de Natal estiveram repletos de casais apaixonados, comemorando esse maravilhoso dia.

As festas juninas compreendem as celebrações de Santo Antônio (13/6), São João (23/6) e São Pedro (29/6).

Santo Antônio, na cultura popular, é considerado o santo casamenteiro. É quem abre as festas juninas. É dia de rezas fortes, com a intenção de se arranjar “pareia”. Santo Antônio é conhecido por trazer “pareia”, por gosto ou aos empurrões. Por isso, o dia dos Namorados é festejado em seu louvor.

As tradições juninas, no Brasil, datam de 1583. A fogueira, as quadrilhas, as roupas caipiras, os fogos e balões tem origem diversa.

A quadrilha teve origem na França (quadrille). Era uma dança com passos inspirados nos bailes da nobreza europeia, surgida nos salões da corte francesa.

Na época da colonização do Brasil, os portugueses trouxeram essa dança, onde os participantes obedecem a um marcador, que usa palavras afrancesadas, para indicar o movimento que devem fazer, tais como: “anavantur” (en avant tout), “anarriê” (en derrière), “avancê” (avancer), “balancê” (balancer), etc.).

As festas juninas são comemoradas em todo o Brasil, principalmente na região Nordeste, onde chegou através dos padres Jesuítas, com muito sucesso.

Como o Nordeste padece com a seca braba, o povo aproveita as festividades juninas para agradecer as chuvas que raramente caem na região, servindo para manter a agricultura.

A mistura do linguajar matuto com o francês deu origem ao “matutês”, com humor e sotaque do interior nordestino. Nesta dança, é preciso seguir os comandos e no final os casais participantes se despedem, acenando ao público.

Os fogos de artifício são originados da China, onde teria surgido a manipulação da pólvora para a fabricação de fogos. Há também quem diga que os fogos são uma forma de agradecer aos deuses pelas boas colheitas. Na crendice popular, os fogos são elementos de proteção, pois espantam os maus espíritos, além de servir para acordar São João com o barulho.

Os trajes de rendas e fitas, tradicionalmente usados pelas damas que dançam as quadrilhas, são características da Península Ibérica, muito usados em Portugal e na Espanha.

Os homens fazem opção por camisas coloridas, estampadas ou “Xadrez”.

Esses caracteres culturais foram, ao longo do tempo, se integrando aos aspectos culturais dos brasileiros, incluindo os indígenas, afro-brasileiros e imigrantes europeus, em todas as regiões do País.

O maior símbolo das festas juninas é a fogueira.

Conta a História que a fogueira tem raízes católicas. Deriva-se de uma promessa feita entre as primas Isabel e Maria, Mãe de Jesus. Isabel havia prometido a Maria mandar acender uma fogueira sobre um monte, para lhe avisar do nascimento do filho João Batista, e assim pedir a sua ajuda.

No Brasil, a fogueira foi muito bem aceita pelos índios, que já gostavam muito de dançar ao redor do fogo.

Há ainda quem considere a fogueira uma proteção contra os maus espíritos, que atrapalhavam a prosperidade das plantações.

Por fim, há aqueles que utilizam a fogueira apenas para se aquecer e unir as pessoas ao seu redor, já que a festa é realizada num mês frio.

As brasas da fogueira também são um exemplo dessas tradições: assim que se apagam, devem ser guardadas. Conservam, desse modo, um poder de talismã que garante uma vida longa a quem segue o ritual. Talvez por isso, algumas superstições dizem que faz mal brincar com fogo, urinar ou cuspir nas brasas ou arrumar a fogueira com os pés.

Em Nova-Cruz (RN), minha terra natal, crianças e adultos aguardavam com ansiedade que a fogueira fosse acesa. Se o fogo pegasse logo, era sinal de que no próximo São João, todos estariam vivos. Se não pegasse, era mal sinal. Por isso, quando a fogueira acendia logo, todos batiam palmas de felicidade!

Os balões coloridos enchiam de alegria o Céu estrelado das noites de São João. E o som das músicas de Luiz Gonzaga se ouvia no rádio à bateria.

A era cibernética ainda estava longe de acontecer.

A Internet era uma utopia; nem ao menos se sonhava com ela. Os sons estridentes também não eram ouvidos, nem em sonho.

Os sons barulhentos das atuais festas juninas, e a substituição dos antigos e românticos forrós de Luiz Gonzaga pelas músicas sertanejas e de vaquejada, e até pelo Funk, Rap e Axé, fazem com que os amantes da boa música sintam-se cada vez mais frustrados e saudosos das antigas festas juninas.

Apesar de Santo Antônio (13/06), São João (24/06) e São Pedro (29/06) cuja comemoração é na véspera, serem muito festejados, das três, a festa mais animada é a de São João, o primo de Jesus Cristo.

Mas, as três festas juntas dão ao mês de junho um sabor de milho verde, iguarias saborosas e uma alegria cheia de saudade dos tempos idos e vividos, quando as festas juninas eram puro lirismo, sonhos, adivinhações e fantasia.
Salve Santo Antônio, São João e São Pedro!

Viva a Cultura Nordestina!

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

EVOCANDO JUCA CHAVES

Adoro Circo. Sempre fui fã de Juca Chaves. O seu humor inteligente e ímpar, seus poemas musicados e românticos, além da veia irônica sempre presente em suas composições, fizeram dele, para mim, um dos maiores artistas brasileiros, dono de uma inteligência ímpar e de uma verve irônica imbatível.

A ironia é uma figura de linguagem que tem suas raízes no contexto cultural e na comunicação humana. Compreender o significado de ironia e sua aplicação é essencial para qualquer pessoa que deseje se aprofundar nos meandros da língua portuguesa, seja na literatura, na arte, ou mesmo nas interações cotidianas. A ironia pode ser definida de várias maneiras, mas, em essência, refere-se a uma discrepância entre o que é dito e o que realmente se quer dizer.

Juca Chaves, nome artístico de Jurandyr Chaves, nasceu no Rio de Janeiro, no dia 22 de outubro de 1938, filho de Clarita e de um austríaco, naturalizado brasileiro, que montou a primeira fábrica de plásticos no Brasil.

Juca Chaves cresceu ouvindo música erudita em sua casa. Ainda criança mudou-se com a família para o Jardim Europa em São Paulo. Interessado por música e poesia, com seis anos compôs “Hino aos Cachorros”.

Com sete anos, começou a estudar violão. Com 12 anos, compôs “Semente Bonitinha”, sua primeira modinha de amor dedicada a Neusa, que tinha apenas 10 anos.

Juca foi matriculado no curso de piano, mas depois de cinco aulas abandonou o curso porque, dizia ele: “a professora batia em minha mão e eu batia na mão dela”.

Com 13 anos, Juca reuniu uma coletânea de onze poesias em “Meus Primeiros Versos” que falavam do amor por musas diversas. Com 16 anos frequentava o Clube Pinheiros e foi alí que conheceu Ana Maria, sua mais famosa musa e para quem fez várias canções.

Junto com Lemos Brito e Ricardo Amaral, fundou a revista “Rua Augusta Chic” na qual escrevia crônicas e versos. Ingressou no Centro de Oratória Rui Barbosa recebendo o diploma de História e Composição da Música Brasileira em 1955.

Nessa época, começou a se revoltar com a sociedade e daí nasceu o espírito satírico que o acompanhou em todas as suas modinhas.

Com 19 anos, foi reprovado no curso científico. Seu pai colocou-o num banco para trabalhar, obrigando o poeta a cortar o cabelo o que o revoltou.

As brigas com o pai culminaram com a saída da casa, indo morar com sua avó. Para se sustentar passou a dar aulas de violão, “mas só para meninas”, dizia ele.

Com mais tempo livre, realizou seu primeiro recital no Teatro Leopoldo Fróes, patrocinado por jovens da alta sociedade.

Em 1960, Juca lançou, pela RGE, com arranjo de Simonetti, o LP intitulado “As Duas Faces de Juca Chaves”, no qual gravou “Por Quem Sonha Ana Maria?” feita para sua musa:

“Por Quem Sonha Ana Maria?

Na alameda da poesia
chora rimas o luar
Madrugada e Ana Maria
sonha sonhos cor do mar.
Por quem sonha Ana Maria
nessa noite de luar?…

Foi nessa época que Juca compôs a modinha “Presidente Bossa Nova” uma sátira inspirada no presidente Juscelino Kubitschek que foi gravada em 1961:

“Presidente Bossa Nova

Bossa nova mesmo é ser presidente
desta terra descoberta por Cabral
Para tanto basta ser, tão simplesmente,
simpático, risonho, original,
depois desfrutar da maravilha
de ser presidente do Brasil…”

A música ficou mais famosa depois que foi proibida pela censura.

Com um mandado de segurança, ele ganhou pela primeira vez, no Brasil, uma questão judicial com a censura.

Alguns dias depois, Juca conseguiu uma entrevista com o presidente e compareceu descalço ao encontro.

Daí para frente, diversas sátiras foram feitas com políticos, homens da sociedade, problemas urbanos etc., que continuavam incomodando muita gente.

Em 1962, Juca lançou a sátira “Caixinha Obrigado”, quando insistia em falar nas mazelas político – administrativas da época. A música causou polêmica e o autor teve que retirar da letra o nome de uma deputada.

“Caixinha, Obrigado

A mediocridade é um fato consumado
na sociedade
onde o ar é depravado.
Marido rico, burguesão despreocupado
que foi casado
com mulher burra, mas bela
o filho dela é político ou tarado.
Caixinha… obrigado!…”

Em 1963, Juca partiu para a Europa. Esteve em Portugal onde se consagrou como ídolo dos jovens.

Na Itália, começou tocando órgão numa igreja. Pouco depois estava tocando em cabarés. Apresentou-se na televisão e gravou oito compactos e um LP.

A música “Pequena Marcha Para um Grande Amor” foi um sucesso de vendas. Em 1969, retornou ao Brasil e começou a fazer shows pelo país.

“Pequena Marcha Para Um Grande Amor

A lua vai dormir encabulada
na passarela da madrugada.
Meus olhos vão sonhar sob a janela
dos olhos dela, dos olhos dela.
Meu amor de amor se esconde
se esconde aonde
o teu não vê
não vê porque
Meu amor não é segredo
morre de medo
do segredo
que é você.”

Juca criou o “Circus Sdruws” (S de snob, D de divino Dener, R de ralé, U de wonderful, W de Water-closed e S de souvenir), que instalou no Rio de Janeiro nas proximidades da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde apresentava o show “Menestrel Maldito”.

O humorista costumava contar a seguinte história sobre o Sdruws, perto do qual ficava uma favela.

Juca convidara para o circo políticos, empresários e também pessoal da alta-sociedade carioca, e antes da primeira apresentação resolveu reunir os líderes da favela para lhes falar com franqueza, indo direto ao assunto: “Vim aqui para saber como vai ficar o negócio do roubo!” – Uma mulher baixinha, morena, (líder da favela), foi logo respondendo com firmeza: “Olha aqui seu Juca, nós entendemos a sua preocupação e lhe agradecemos pela sinceridade, mas pode o senhor ficar tranquilo, porque a nossa comunidade já se garantiu, e pediu proteção à polícia!”.

Juca foi um crítico da Ditadura Militar, da grande imprensa e do próprio mercado fonográfico. Chegou a ser exilado em Portugal na década de 1970, mas, ao incomodar o regime ditatorial vigente no País com suas sátiras, que ganhavam espaço nas rádios e televisão locais, transferiu-se para a Itália.

De volta ao Brasil, apresentou programas de televisão. Na década de 1980, lançou sua gravadora independente, a Sdruws Records. O bordão mais famoso do “menestrel”, como gostava de ser chamado, era: “Vá ao meu show e ajude o Juquinha a comprar o seu caviar”.

Em 2003, outro sucesso de Juca Chaves nos anos 70 – a canção “Take me Back to Piauí” – foi editado na coletânea “Brazilian Beats Volume 4” da gravadora britânica Mr. Bongo, especializada em música popular brasileira.

Em 2006, lançou-se candidato a senador na Bahia pelo PSDC, ficando em 4º lugar, com 19.603 votos (0,35% do total). Suas propagandas em formato de poesias distinguiam-no dos demais candidatos.

Em 2015, lançou a música “Adeus em ritmo de Lava Jato“, referenciando as investigações de corrupção em curso na época e posicionando-se de forma crítica ao então governo do Partido dos Trabalhadores.

Juca Chaves residia na Bahia, com sua esposa Yara Chaves desde 1975 e teve duas filhas adotivas, Maria Morena e Maria Clara.

Juca Chaves faleceu em Salvador, Bahia, no dia 25 de março de 2023, em consequência de problemas respiratórios.

No ano de 2024, a canção “Take me Back to Piauí” foi tema de cena clássica do filme “Ainda estou aqui“, de Walter Salles, ganhador do Oscar de Melhor Filme Internacional. A música embala a família de Rubens e Eunice Paiva em uma dança envolvente, regada a risadas e coreografias, momentos antes do desaparecimento de Rubens e sua morte pela Ditadura Militar.

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“DO TEMPO DO ONÇA”

No Nordeste brasileiro, ainda hoje se usa uma expressão popular, quando se quer dizer que alguma coisa é muito antiga e ultrapassada: “Do tempo do Onça”. Quando havia honestidade.

O “Onça” foi um apelido dado a um governador da capitania do Rio de Janeiro, no sec. XVIII. O mandatário era conhecido por sua honestidade e rigor no cumprimento da lei, o que contrariava os desonestos, acostumados a mamar nas tetas da Nação.

De acordo com o que a mídia nos mostra, quem quiser, nos dias de hoje, encontrar um governante honesto, terá o mesmo trabalho de quem procura encontrar uma agulha num palheiro.

Pois bem. “Onça”, como ficou conhecido o governador do Rio, que cultuava a honestidade e detestava ladrão, colocou ordem no “galinheiro da casa”, e por isso era considerado pelos desonestos, como um homem intolerável, doido e idiota.

O governador “Onça” fez com que os recursos da Coroa fossem gastos de forma eficiente e transparente; fez uma devassa no transporte do ouro de Minas ao Rio; trouxe segurança à população e tomou medidas enérgicas contra todo tipo de malandros, ladrões, desordeiros, arruaceiros e esquerdopatas que infestavam o Rio de Janeiro.

O “Onça” também era implacável com os ladrões de “colarinho branco”. Sua honestidade lhe causou muitos problemas na vida política. Ele acabou com as mamatas e governou de forma honesta e rígida, o que desagradou a elite local, acostumada aos “favores” do governo.

Como ele não apoiava vagabundos e malandros, e era intolerante à desonestidade independente de classe ou posição social, acabou por ganhar esse apelido de “Onça”, o animal mais temido da época.

Os atritos políticos fizeram com que o “Onça” terminasse sendo destituído do cargo de governador.

Como se vê, ser honesto, já no século XVIII, era uma coisa complicada na política nacional. O “Onça” foi um exemplo de como é possível, e ao mesmo tempo difícil, governar com honestidade e probidade, sem usar de medidas extremas de restrição à liberdade de ir e vir. Por isso, “Onça” era admirado pela banda decente da população, mesmo sem escapar da crítica daqueles que consideram idiotas e burras as pessoas honestas.

O “Onça” se chamava Luís Vahia Monteiro. Governou o Rio de Janeiro de 10/05/1725 a 22/04/1732. Também foi apelidado de “virgem no bordel”.

Quase 300 anos depois, ser honesto ainda causa polêmica!

Frase do governador Luís Vahia Monteiro, em carta ao rei D. João V.

“Senhor, nesta terra todos roubam. Só eu não roubo.”

Deve ter sido o homem mais honesto do País…