VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A NOITE DE NATAL

A Noite de Natal é sagrada para todos os lares. Noite de encanto e mistério para as crianças e de terno e carinhoso desvelo para os pais.

Antigamente, os presentes para as crianças eram simples, limitando-se a bonecas para as meninas e carrinhos e jogos para os meninos.

Atualmente, os presentes são caríssimos, com vantagem disparada para os celulares e brinquedos eletrônicos.

Mergulhando no passado, encontramos a inocência das crianças, que sonhavam com presentes simples e de fácil aquisição por parte dos pais.

Antigamente, no profundo silêncio da noite, quando tudo repousava na calma e bem-estar do sono, nas belas cabecinhas infantis surgia, na véspera de Natal, a resplandecente imagem do Menino Jesus, que lhes sorria e lhes apontava os mais lindos e engraçados brinquedos. Eram bonitas bonecas, empertigados soldados, esquisitos palhaços, airosos cavalos com abundantes crinas; ruidosos tambores e estridentes cornetas. Tudo isso agradava às crianças, como também esplêndidos doces, caixas de confeitos e chocolates, latas de biscoitos e um mundo de desejadas guloseimas que fizeram a ventura dos nossos primeiros anos.

Os meninos colocavam embaixo das camas seus chinelos ou sapatos, pensando na grande surpresa da manhã seguinte. Os presentes sempre agradavam, pois eram dados por “Papai Noel”.

Reinava a inocência das crianças e o sono chegava logo cedo.

Diz uma antiga lenda:

“Tinha eu oito anos”, disse certo escritor, “e lembro-me que, na manhã do dia de Natal, depois de ter saltado apressadamente da cama para ver o que o Menino Jesus tinha posto no meu sapato, fui encontrar duas grossas moedas de dez tostões. O meu desapontamento foi terrível. Por que o Menino Jesus, que distribui por todas as chaminés tão bonitas lembranças, me daria um presente tão repugnante?

Instintivamente, me veio a ideia de que o meu pai , no intuito de desvanecer a minha fé em tal lenda, tivesse metido no meu sapato aquele repugnante dinheiro. Ele deve ter se sentido feliz, pois conseguiu realizar os seus desejos, já que da minha mente, a partir de então, desapareceu a visão do Menino Jesus tão nosso amigo, e, pela primeira vez, entrou na minha alma o veneno da dúvida.”

Essa lenda, na sua cândida invenção, encerra um drama familiar, onde havia um tesouro de afetos em jogo, brotados dos corações dos pais. Quantos sonhos destruídos na cabeça de uma criança que acreditava em Papai Noel!

No Natal, em alguns países, os meninos costumam arrumar presépios, que é o lugar onde nasceu Jesus, colocando-os numa paisagem que representa o país de Bethleem, por cujos caminhos surgem os Reis Magos, com incenso, ouro e mirra, em homenagem ao Deus Menino; pastores tocando flauta e uma multidão de homens e animais que bebem num pequenino lago, cavalos, cães e galinhas, figuras que dão vida à paisagem. O chão coberto de musgo verde aparece rodeado de montanhas nevadas (de farinha).

Este é um costume que vem da Idade Média, e que se tornou costume popular por São Francisco de Assis.

Em muitos países, há o hábito de se arrumar a árvore de Natal. Há sítios em que todas as famílias, sejam ricas ou pobres, arranjam o seu ramo de pinheiro e o enfeitam de brinquedos e luzes.

Escritores e poetas contam histórias interessantes sobre a origem desse costume. Falam -nos das belas coisas que aparecem na gelada e dura terra na noite de Natal, da Rosa de Jericó que se abriu debaixo dos pés da Virgem Maria, das árvores que se vestiram de linda folhagem e deliciosos frutos.

A comemoração do Natal é essencialmente familiar.

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PAIXÃO POR CAVALOS

O presidente brasileiro conhecido por sua paixão por cavalos foi João Figueiredo. Ele governou o Brasil de 1979 a 1985 e era famoso por sua frase: “Prefiro o cheiro de cavalo ao cheiro do povo”. Figueiredo era um grande entusiasta de cavalos e frequentemente participava de eventos equestres.

Num passado remoto, o único ser de quem Frederico, o Grande da Prússia gostava apaixonadamente era o seu cavalo, o mais formoso corcel que se possa imaginar, cavalo digno de um rei e tão inteligente que abrandou e conquistou o coração do monarca.

Um dia, em que o monarca estava muito aborrecido e atarefado, como sempre acontecia, o que não era raro, soube que o seu cavalo favorito estava doente.

Num acesso de fúria, sentindo a sua própria insignificância, por não poder salvar a vida do seu cavalo, apesar de ser um grande monarca, fez apregoar que aquele que lhe desse a notícia da morte do seu cavalo predileto seria enforcado.

Passaram-se alguns dias e o estado do nobre animal era sempre o mesmo, mas, numa manhã, quando os pajens faziam uma visita às cavalariças, encontraram o moço da estrebaria que lhes disse que o cavalo tinha morrido.

Quem se atreveria a dar a notícia ao rei? Quem ia correr o risco de ser enforcado?

Ali ficaram, conversando e discutindo vários planos até que chegou a hora de redigir o boletim para ser entregue à Sua Majestade. Naquele momento um dos escudeiros disse ao moço de estrebaria que não tivesse medo que ele próprio se ia apresentar ao rei.

“Olá!” disse o rei Frederico. Como está o cavalo?

“Senhor”, respondeu o escudeiro, “o cavalo continua no seu lugar. Está deitado e não se mexe. Não tem forças e não come. Também não bebe, não dorme, nem respira, nem…

“Então, exclamou impacientemente o rei, meu cavalo predileto morreu!!!…”

“Vossa Majestade disse a verdade”, respondeu tranquilamente o escudeiro.

A fala do Rei fez os empregados respirarem aliviados.

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A VOLÚPIA DA DESTRUIÇÃO

Nunca pensei que neste mundo, criado por Deus, houvesse tanto ódio enrustido, tanta falsidade e tanto fingimento. O ser humano se contaminou de ódio e da volúpia da destruição. Uma força satânica tenta destruir a humanidade.

A religião não consegue frear a maldade que o ser humano esconde na alma. Pessoas que só transparecem bondade, de repente expelem ódio e vomitam terríveis infâmias sobre seres humanos quase mortos, sem compaixão e desprovidas do sentimento de caridade.

Conheci pessoas que não exibiam religião, mas guardavam dentro de si o sentimento da caridade, e praticavam o bem, sendo incapazes de levantar uma infâmia contra alguém.

DR. LUIZ ANTÔNIO SOUTO DOS SANTOS LIMA, médico, tio da minha saudosa mãe, Lia Lima Pimentel Bezerra Souto, se dizia ateu, e foi um dos homens mais caridosos que Natal conheceu. No tempo em que só existia paciente particular ou indigente, esse santo ateu separava um dia da semana, no seu Consultório na Rua Gonçalves Leite, Cidade alta, para atender, exclusivamente, pessoas indigentes, paupérrimas, vindas de Nova-Cruz (RN), encaminhadas pela minha mãe. Dr. Luiz Antônio acompanhava o tratamento dos doentes e fornecia todos os remédios e tratamento, até a cura completa, quando era possível. Foi ele quem doou o primeiro aparelho de radioterapia ao Hospital do Câncer em Natal. Era irmão da poetisa Anna Lima, minha avó materna.

Não é o fato de se dizer religioso que influi na bondade humana. Há muitos “jazigos caiados” que se confundem na multidão.

Há muita gente que estufa o peito e se diz humano e caridoso, enquanto é capaz de vomitar infâmias sobre um moribundo que se encontra em leito de morte.

Pelo que tenho visto e ouvido, Cristo continua sendo crucificado todos os dias. Parece que o espírito do mal atua entre os políticos, que adoram o dinheiro.

Nunca pensei que Cristo continuasse diariamente morrendo na cruz, ofendido e humilhado, sendo crucificado todos os dias, e constantemente condenado à morte. Não imaginava que a humanidade fosse tão sádica, tão má e tão perversa.

O sentimento da caridade nos era pregado pela minha querida mãe, todos os dias. Antes de tudo, dizia ela, devemos ter caridade para com os nossos semelhantes. Infelizmente, nos dias atuais, esse sentimento desapareceu. É difícil, nos dias atuais, se encontrar pessoas caridosas e solidárias. A vaidade impera, a loucura pelo dinheiro é imensa, e o flagelo dos desvalidos não é visto pelos pobres de espírito.

A humanidade tornou-se indiferente ao sofrimento humano. Torce sempre pela Paixão de Cristo e não quer ver ninguém bem. Quando mais rico o homem, mais indiferente ao seu semelhante.

A humanidade torce sempre pela paixão de Cristo, e os maus se deliciam sempre com as dores dos outros.

Os abutres negros e emplumados disputam suas presas, com a ânsia louca de vê-las destruídas.

A volúpia da destruição é inerente a eles.

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O GALANTEIO

O antigo galanteio nada tem a ver com o moderno e despudorado Assédio sexual, definido no Art. 216 do Código Penal, como o ato de “Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente de sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função”.

Tempos atrás, não se falava em assédio sexual, como hoje. O que havia era galanteio. As cantadas “sadias”, saudáveis, galanteios e elogios despretensiosos não eram crimes e podiam até envaidecer a alma feminina, aumentando-lhe a autoestima.

As propostas indecentes sempre existiram, sem que caracterizassem, de fato, crime de assédio sexual, como nos tempos atuais.

Pois bem. Dr. Minora, um conhecido advogado, recebeu em seu escritório uma senhora, bonita e insinuante, 50 anos, que queria contratá-lo para fazer o seu divórcio.

Depois de ouvir os motivos que estavam levando a cliente a pedir a separação, o advogado elogiou a sua beleza e comentou que existia homem idiota, que não enxergava a mulher que tinha ao seu lado.

Na verdade, o advogado era galanteador por natureza e não podia ver uma mulher bonita, que tentava conquistá-la, mesmo que fosse sua cliente.

Sentia um certo fascínio por mulheres casadas, em fase de separação. Sentiu-se atraído pela cliente e os elogios eram verdadeiros.

A mulher sentiu-se gratificada, pois vinha atravessando uma fase de desprezo do marido, que há meses não tinha com ela qualquer relacionamento conjugal. As palavras do advogado massagearam seu ego..

Ao sair do escritório, o Dr. Minora foi com um amigo, Dr. Rildo, também advogado, até o café mais próximo, onde fizeram um lanche e conversaram sobre sua nova cliente. Contou ao amigo os elogios que lhe tinha feito, e se justificou, dizendo que toda mulher gosta de receber elogios, principalmente quando já está entrando na idade madura.

De repente, de surpresa, a esposa do Dr. Minora chegou ao café e sentou-se para lanchar também, junto com o marido e o amigo. Muito bonita e elegante, Rosilda despertou a atenção de quem estava por perto, e o amigo do seu marido. não conseguia deixar de admirar a sua beleza. Teceu-lhe elogios e parabenizou Dr. Minora, pela bela mulher que ele tinha. Disse, ainda, que o Dr. Minora era um felizardo, por ter se casado com uma mulher tão bonita, elegante e simpática.

Ele sempre ouviu Dr. Minora dizer que um homem educado, quando está diante de uma mulher atraente, tem o dever de fazê-la sentir-se admirada. Isso massageia o ego feminino, pois a mulher gosta de elogios.

A indiferença do homem diante de uma mulher bem vestida, perfumada e elegante é humilhante para ela, principalmente quando se trata de uma mulher na idade madura. Vem logo o complexo de velhice, que é o pavor de todas as mulheres.

Baseado no que sempre ouvia o Dr. Minora dizer, o amigo se desmanchou em elogios à sua esposa, que ficou muito envaidecida.

Entretanto, Dr. Minora ficou sério e não gostou do excesso de elogios à sua esposa. Teve uma inesperada crise de ciúme. O amigo se justificou:

– Sempre escutei você dizer que o homem educado tem que elogiar as mulheres.

– É verdade. Mas a minha mulher está fora dessa lista. Somente eu, posso elogiar!!!

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O FACÍNORA

Homem temido por todos na aldeia, o facínora não teme ninguém, nem respeita a propriedade alheia.

Quase sempre, o facínora exibe comportamento antissocial, é manipulador, mentiroso e lhe falta empatia no trato para com as pessoas. Desrespeita as leis e o direto dos outros.

As ações de um facínora podem causar danos significativos à sociedade, incluindo violência, injustiça, abuso e violação dos direitos humanos, como sempre se vê.

A sociedade é refém das decisões do facínora, de sua maldade e prepotência. Ai de quem se insurgir contra ele. Chega ao ponto do ser humano achar que contra o facínora, só quem pode é Deus.

Facínoras muitas vezes enfrentam consequências legais por seus atos, pois suas ações podem resultar em danos irreparáveis às vítimas e à comunidade como um todo.

Geralmente, eles exibem comportamentos antissociais, e uma mente doentia, criativa e perigosa. São autossuficientes, megalomaníacos e narcisistas.

O seríssimo tema resultou no filme estadunidense “O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA” (1962), do gênero western, dirigido por John Ford, baseado num conto da escritora Dorothy M. Johnson. É considerado um dos melhores filmes de faroeste de todos os tempos, sendo aclamado tanto pela crítica quanto pelo público.

A obra é frequentemente analisada por sua profundidade temática e pela forma como redefine o gênero western, apresentando uma narrativa que questiona os mitos da fronteira americana (Wikipedia). Explora a transição do Velho Oeste para uma era de lei e ordem, com um elenco estrelado por James Stewart e e John Wayne.

O filme, lançado em 1962, conta a história do senador Ransom Stoddard (James Stwart), que retorna à cidade de Shinbone para o funeral de seu amigo Tom Doniphon (John Wayne). Durante sua visita, um repórter o entrevista e Stoddard relembra sua juventude, quando chegou à cidade como um advogado recém-formado, e se deparou com o pistoleiro Liberty Valance (Lee Marvin), que representava a lei do mais forte em um Oeste dominado pela violência. A narrativa é contada em um longo flashback, onde Stoddard tenta usar a lei para combater Valance, enquanto Doniphon acredita que a força é a única solução.

A história começa quando as pessoas estão preparando um funeral. Um senador dos Estados Unidos e sua esposa estão de volta à pequena cidade de Shinbone, num território do Oeste não identificado (provavelmente, o Colorado, com menções ao Rio Picketwire). O senador começa contar a um jornalista a razão de estar ali para o enterro. Na medida em que os fatos são relatados, aparecem as cenas em flashback.

Contando com antigos atores do cinema mudo, foi o último filme da atriz de seriados Helen Gibson, cujo nome não aparece nos créditos. Foi também o último filme do ator de Western Jack Perrim, igualmente não creditado, que atuou, ainda, em algumas séries de televisão. Assim como foi, também, o nome da atriz Doroty Phillips.

Stuart Holmes, outro ator da era muda, que atuava desde 1909, continuaria a trabalhar e fez seu último filme em 1964.

O senador é Ransom Stoddard, na sua juventude um advogado que acreditava na lei e na ordem, mas que se recusava a carregar um revólver. Ele era amigo de Tom Doniphon, um pistoleiro que via nas armas a melhor forma de fazer justiça.

Doniphon e Stoddard mantiveram um tenso relacionamento, pois ambos se interessavam por Hallie. Hallie acabou preferindo Stoddard, para desilusão de Doniphon. (O personagem de John Wayne chamou de “Pilgrim” seu rival amoroso interpretado por James Stewart, cerca de 23 vezes no filme. O termo acabou se tornando característico de Wayne, sendo continuamente imitado, porém só voltou a usá-lo em McLintock).

Quando o fora-da-lei Liberty Valance retornou faminto à cidade, causou desordem nos salões e restaurantes. Valance temia apenas um homem: Tom Doniphon. O bandido roubara e espancara Stoddard quando este chegara à cidade, obrigando-o a trabalhar no restaurante para pagar pela comida e estadia. Quando viu Stoddard, Valance o provocou, mas Tom intercedeu.

Valance continuou a aterrorizar a cidade. Stoddard decidiu fazer alguma coisa e acabou desafiando Valance para um duelo. Completamente desajeitado com uma arma, Stoddard era, porém, presa fácil para o bandoleiro.

Depois que deixou o bar para duelar com Ransom Stoddard, curiosamente Liberty Valance vencera uma rodada de pôquer com um par de “ases” e um par de “oitos”. (Esta é a famosa “Dead man’s hand” (mão do homem morto), chamada assim porque eram essas cartas que estavam na mão de Wild Bill Hickok, quando quando ele foi assassinado por Jack McCall em Deadwood, Dakota do Sul, em 2 de agosto de 1876).

Mas, quando chegou o duelo, coisas misteriosas e surpreendentes aconteceram. Ao final da narrativa para o jornalista Maxwell Scott, Stoddard revelou quem realmente matara Valance, e perguntou: “Vai usar essa história, Mr. Scott?”. A resposta foi a famosa frase: “This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend”. (“Este é o Oeste, senhor. Quando a lenda precede os fatos, publique-se a lenda”).

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A NOITE DE NÚPCIAS

A evolução dos costumes pôs fim ao tabu da sonhada “noite de núpcias”, quando oficialmente ocorria a primeira noite de amor entre o casal, iniciando-se a vida conjugal.

Pois bem. Rosina, moça mimada, muito bonita e rica, foi criada com liberdade, e logo cedo passou a frequentar as festas da alta sociedade carioca. Muito vaidosa, vestia-se com esmero, optando por roupas sensuais, decotadas e coladas ao corpo, que deixavam transparecer suas formas.

Educada no tumulto das rodas elegantes, cujas festas logo cedo passou a frequentar, Rosina tornou-se uma das moças mais cobiçadas da capital.

Convencida da sua beleza, trocava de namorado com frequência, até que, aos 24 anos, conheceu Edmundo, um advogado bem sucedido, que por ela se apaixonou, e, poucos meses depois, com ele se casou.

Mesmo não gostando dos hábitos da noiva, Edmundo aceitava o seu temperamento extrovertido e exibicionista, pois a paixão que ela lhe despertou era maior do que tudo. A sua intenção, no entanto, era modificar o temperamento da noiva, depois de casados. Coisa impossível de acontecer.

Edmundo marcou o casamento, apesar da sua decisão não ter sido vista com bons olhos pela sua família. Mas ele não deu ouvidos a ninguém. Era tão violenta sua paixão, que ele não queria enxergar o comportamento leviano de Rosina.

Trajando sempre os tecidos mais leves e transparentes, sugeridos por figurinos inadequados, os modelos que a jovem escolhia deixavam à mostra uma perna, o colo e as costas. Quanto ao resto do corpo, não havia quem não o adivinhasse, na transparência indiscreta do crepe da China, ou da seda que lhe modelavam sensualmente, os seios e quadris volumosos, e a cintura fina.

Um dia, foram os círculos elegantes surpreendidos com uma notícia sensacional: o Dr. Edmundo Filgueira, um dos advogados mais bem sucedidos da nova geração, havia pedido em casamento a belíssima senhorita Rosina Ferreira, filha do Dr. Peixoto Ferreira, um dos maiores juristas do Rio.

Realizado o casamento, em que Rosina se apresentou com um vestido de noiva mais sensual e provocante do que nunca, e com recepção no mais chique salão de festas da época, o casal seguiu para a lua de mel, hospedando-se no hotel mais badalado dos anos 60.

Ao adentrarem à alcova nupcial do hotel, os noivos exultavam de felicidade e desejo. Envolta, de leve, na seda finíssima de uma camisola transparente, ou melhor, na névoa imperceptível que a deixava nua, a recém-casada fazia lembrar as estátuas de mármore, como Anfitrite, veladas convencionalmente, para o momento da inauguração. Nem Anfitrite, com os pés mergulhados na espuma e vestida, apenas, pela bruma fugitiva do Arquipélago, não seria, talvez, mais nua, e mais bela!

Entreolhavam-se, os dois, na alcova silenciosa, ninho de ouro e seda, armado para um casal de pombos amorosos, quando o noivo se adiantou, e, sorrindo, anunciou à moça, tomando-lhe, carinhosamente, as mãos geladas e brancas:

– Sabes, meu amor, que te preparei uma surpresa?

– Surpresa? Qual? – indagou a noiva, demonstrando curiosidade e aflição.

O noivo suspendeu os travesseiros da cama, e tirando daí um vestido para a noite, comprido até o tornozelo, e composto, com mangas longas, trabalhado em seda branca e opaca, com o decote alto, pediu:

– É para que me faças também uma surpresa, dando-me uma sensação inédita nesta noite de núpcias.

E entregando-lhe o vestido, falou:

– É que eu nunca te vi vestida com uma roupa composta!… Nua, já vi demais!!!

Desapontada, Rosina atendeu ao marido e foram felizes para sempre.

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FAVELA

FAVELA era o nome dado a uma comunidade construída para moradia de pessoas menos favorecidas, no Rio de Janeiro. O nome era simplesmente FAVELA. Depois, criaram-se outras comunidades, acrescentando ao nome favela outro adjetivo.

A origem da palavra “favela” remonta à história do Brasil, especialmente à Guerra de Canudos, no final do século XIX. O termo é derivado da planta “favela”, que crescia abundantemente nas regiões áridas do Nordeste Brasileiro. A partir de 1920, o nome passou a ser utilizado para se referir a conjuntos habitacionais informais, surgindo quando ex-escravos e migrantes rurais se instalaram em morros e encostas das grandes cidades brasileiras.

As primeiras favelas no Brasil surgiram no final do século XIX, principalmente depois da Guerra de Canudos, com a formação do Morro da Providência, no Rio de Janeiro.

O conflito resultou no retorno de cerca de 10 mil soldados ao Rio de Janeiro, que se instalaram em uma área já habitada por ex-escravos. A falta de moradia adequada levou à formação de uma comunidade informal.

A urbanização desordenada e a falta de políticas habitacionais adequadas contribuíram para o crescimento das favelas. Muitas pessoas migraram do campo para as cidades em busca de trabalho, mas sem recursos para alugar ou comprar casas, acabaram ocupando terrenos baldios e áreas de risco.

As favelas, como o Morro da Providência, representam um fenômeno complexo que resulta de uma combinação de fatores históricos, sociais e econômicos. O processo de favelização continua a ser um tema relevante no Brasil, refletindo as lutas por moradia e direitos urbanos até os dias de hoje.

As favelas são uma expressão da desigualdade social, refletindo a exclusão de grupos mais pobres da sociedade urbana. A falta de infraestrutura e serviços básicos são característica marcantes dessas comunidades.

Por outro lado, o lirismo aproveitou a favela, e um número considerável de poetas teve nela a inspiração de belos poemas musicados, que ainda hoje enriquecem o nosso cancioneiro.

Muitas composições romantizaram e ainda romantizam as favelas.

O termo Favela está presente na música brasileira desde a primeira ocupação clandestina dos morros cariocas, sendo cantado pelos mais diferentes pontos de vista, que resultaram nos estereótipos de favela que conhecemos hoje. (ZALUAR; ALVITO, 2004). Após um século de história, tanto preconceito e estigma não retratam mais sua verdadeira face (SILVA; BARBOSA, 2005). A música deu voz às favelas, e hoje o tema fala por si mesmo.

Favela – Francisco Alves

Favela oi, favela,
Favela que guardo no meu coração
Ao recordar com saudade
A minha felicidade
Favela dos sonhos de amor
E do samba-canção.
{Bis}

Hoje tão longe de ti
Se vejo a lua surgir
Eu relembro a batucada
E começo a chorar
Favela das noites de samba
Berço dourado dos bambas
Favela é tudo que eu posso falar.

Favela oi…{Bis}

Minha favela querida
Onde eu senti minha vida
Presa a um romance de amor
Numa doce ilusão
E uma saudade bem rara
Na distância que nos separa
Eu guardo de ti esta recordação.

Favela oi, …{Bis}

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O BOM E O BOMBOM

O tempo é inexorável, e com ele se vão nossas ilusões e sonhos não realizados.

Os dissabores e mágoas também se vão e ficam sem sentido.

Às vezes, um “espírito de porco” consegue destruir ilusões e plantar a semente do mal. Não há como se tapar o sol com a peneira. O troféu do mal existe e quem o conquista pode bater no peito e dizer: Consegui puxar o tapete e atrapalhar a vida de alguém. No final, somente as amizades verdadeiras resistem ao espírito do mal.

“Quem é bom, já nasce feito”, diz o ditado. Mas, quem é mal piora a cada dia que se passa. Mesmo assim, há pessoas tão boas, que não enxergam a maldade.

Fazer o bem sem olhar a quem, é bíblico. Mas se a caridade for propagada, passa a ser exibicionismo.

“Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á.” (Sermão da Montanha – MT 5.1-2)

Ajudar alguém, eventualmente, é uma coisa. Mas assumir os problemas dos outros, é outra. Há pessoas que não passam sem ter problemas. E quando não tem, arranjam. Depois, querem que os outros resolvam.

Ninguém tem obrigação de assumir os problemas de ninguém. É aí que está a diferença entre ser bom e ser bombom.

Os invejosos não pensam nas pedras que você encontrou pelos caminhos até chegar onde chegou. Nem na dor que você sentiu, ao machucar seus pés nas pedras. Nem nas lágrimas que você derramou, ao ver seus sonhos desfeitos.

Pois bem.

Seu Jorge, dono de uma pequena fazenda, e sua esposa Efigênia moravam numa cidade do interior nordestino. O casal tinha dois filhos. Muito caridosos, marido e mulher combinavam em tudo e viviam em harmonia. A casa deles estava sempre de portas abertas aos necessitados, como se não tivessem chaves nem tramelas.

Era comum, ao amanhecer o dia, pessoas famintas se encontrarem à sua porta, pedindo o café da manhã. Na hora do almoço, a cena se repetia. Os pobres ficavam na calçada, à espera de comida. O casal não negava um prato de alimento a ninguém, ou uma ajuda em dinheiro, para um remédio ou outra coisa necessária.

Com o passar do tempo, oportunistas passaram a se aproveitar da bondade do casal. Na hora das refeições, sempre chegavam alguns desconhecidos, com conversa mole, praticamente se convidando para almoçar ou jantar. Pediam até dormida.

Até pessoas empregadas, mas sem escrúpulos, tentavam tirar proveito do casal, usando de ardil para conseguir dinheiro “emprestado”, o que terminava em calote.

Com a hospitalidade típica do nordestino, o casal tinha prazer em hospedar, em sua casa, pessoas amigas e parentes.

O fazendeiro ajudava aos necessitados, sem alarde, simplesmente, pelo espírito de caridade. Não era político nem cabo eleitoral.

Entretanto, pessoas sovinas e invejosas, que dão adeus de mão fechada, e são incapazes de dar uma esmola, achavam pouco o que ele fazia e instigavam os pobres para que lhe pedissem muito mais. Diziam que o fazendeiro era muito rico e o que ele dava aos necessitados, para ele, não representava nada. Achavam que ele devia ajudar muito mais.

Isso chegou aos ouvidos do casal, que ficou indignado com a maldade humana.

Para completar sua indignação, o fazendeiro escutou, na cidade, uns malandros combinando para irem almoçar na Fazenda Regalia, na casa de “Zé Besta”. Essa fazenda era, exatamente, a dele.

Depois de uma conversa confidencial com o padre da Paróquia, pedindo orientação de como deveria agir para se livrar dos aproveitadores, o casal ouviu este conselho:

– Ajudar às pessoas necessitadas é exercer a caridade. Vocês são verdadeiros cristãos. Dar comida a quem não tem condições de se manter, é uma gesto sublime. Mas não se deixem explorar por pessoas más, verdadeiros golpistas.

O homem tem obrigação de ser bom. Mas não tem obrigação de ser bombom. Quem se faz de mel, as abelhas comem.

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A FEIRA DA MINHA ALDEIA

Décadas atrás, entrando pelo século passado, a pequena cidade de Nova-Cruz (RN) era paupérrima, “sem água e sem luz” e não dispunha de consultórios médicos, ambulatórios nem hospitais.

A mortalidade infantil era absurda. A criança adoecia à tarde e antes de amanhecer o dia estava morta. Não havia assistência médica nenhuma, e, consequentemente, não havia plantão médico.

Chá de canela era o “remédio” que os curiosos indicavam para os bebês, quando de repente ficavam febris, pálidos e choramingando. Foi assim que vi um irmãozinho meu, Galdino, morrer, no dia em que completou sete meses de idade, ao sofrer uma convulsão pela madrugada. Tinha amolecido à noitinha, ficou febril e foi “medicado” por um conhecido charlatão da cidade, que, em sua casa, consultava o povo da roça, dia de feira. O remédio por ele indicado foi chá de canela, achando que deveria ser uma gripezinha.

Nunca esqueci o desespero da minha mãe naquela madrugada, gritando desolada, sem querer acreditar que a criança estava morta. Meu pai, também desesperado, tentava acalmá-la, mas era em vão. Eu tinha pouco mais de quatro anos. Nunca esqueci essa terrível cena, numa madrugada escura e fria.

Pela manhã, a casa se encheu de gente. À tarde, houve o enterro de Galdininho (como minha mãe o chamava), com a presença de familiares da minha mãe, que moravam em Natal. Essas coisas tristes da vida, a gente nunca esquece…

Pois bem. A feira municipal de Nova-Cruz era na 2ª feira. Era considerada a maior feira da região agreste. Começava pela madrugada e se estendia até o final da tarde.

Do balcão da bodega do nosso pai, assistíamos a um verdadeiro espetáculo de cultura popular: As cantigas dos cegos, pedindo esmolas, e insultando uns aos outros, defendendo seus direitos àquele ponto. Era uma verdadeira festa do Cordel. Os desafios eram hilários e maliciosos.

A feira era um verdadeiro encontro ou reencontro de almas. Era um dia divertido, com meu pai, minha mãe e todos os filhos no balcão da venda. Em frente, havia duas barracas que vendiam cocorotes (de coco), bolo branco (hoje chamado “bolo da moça”) e doce americano (geleia de coco). Nunca me esqueci do gosto dos cocorotes. Tudo era uma gostosura.

Mais adiante, chegava um vendedor ambulante, com uma mala cheia de óculos de grau para vender, e formava-se uma fila de pretensos “clientes”, para comprar óculos, cujo grau lhes permitisse ler as letrinhas da caixinha de fósforo “MARCA OLHO”. Esse era o teste para aprovação do grau.

A precariedade da vida em Nova-Cruz forçava o povo a dar preferência aos óculos vendidos pelo ambulante, na feira livre. Além do mais, se o problema fosse apenas “vista curta”, seria mais cômodo e mais em conta comprar os óculos já prontos na feira, do que ter que viajar a Natal, somente para esse fim. Os compradores de óculos ficavam satisfeitos quando enxergavam perfeitamente as letrinhas da caixinha de fósforos “Marca Olho”. Era o sinal de que o grau era aquele.

De Nova-Cruz a Natal são 110km. Entretanto, naquela época (60/70), em estrada de barro, a viagem de ônibus levava de 4 a 5 horas. Durante o inverno, o atoleiro era grande. Por isso, tanto os feirantes da zona rural, como os moradores da zona urbana, eram acostumados a comprar óculos de grau na feira, já prontos. A aprovação dos óculos era 100%, e ninguém reclamava. Meu saudoso tio Paulo Bezerra, por comodidade, também só comprava óculos de grau na feira, e se dava muito bem.

Também na feira de Nova-Cruz, costumava estar presente um homem vestido com uma bata branca, com pose de doutor, que ali armava uma pequena banca e sobre ela mantinha uma garrafada, que continha um ácido para “tirar” sinais da pele. Nessa época, não se falava em carcinoma. A fila de pessoas que pagavam para tirar sinais era grande. Nunca se soube de um insucesso de um desses “procedimentos cirúrgicos”. Hoje, esse homem seria preso por charlatanismo, mas, naquela época, era a salvação do povo que tinha problemas com sinais. Meus tios Paulo Bezerra e Eulina Bezerra chegaram a tirar alguns sinais com ele e os “procedimentos” foram muito bem sucedidos.

Essas lembranças fazem parte da minha saudade. Volto à minha infância e juventude. Essa feira, na minha vida, foi muito mais do que uma simples feira. Ela faz parte das mais belas recordações de Nova-Cruz, com cenários inesquecíveis, que guardo na memória e no coração.

Ave, Nova-Cruz!

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

COISAS DA VIDA

Certas atitudes de pessoas que nadam em dinheiro, quase sempre, mostram a pequenez da alma que elas carregam consigo.

Há pessoas muito ricas, mas pobres de espírito. O que elas possuem é apenas o dinheiro. Às vezes, essas pessoas fazem questão de um real e não ajudam a ninguém.

Não é regra geral, mas há certos ricos que fazem questão de “quinhentos réis furados”, sendo incapazes de dar uma gorjeta a um empregado, ou ajudar a alguém. São capazes de desistir de uma compra, por falta de troco de um real.

Essa mesquinharia sempre existiu, desde a época remota em que dinheiro era dinheiro mesmo, não se fazendo representar por cartões de crédito, comandados por “maquininhas.”

Tenho traumas de infância, e um deles foi ter assistido um dos homens mais ricos de Nova-Cruz, político e grande fazendeiro, numa segunda feira de grande movimento, voltar à venda do meu pai, e exigir dele cinco cruzeiros, pois havia lhe comprado um saco de açúcar e depois, no armazém de outro comerciante concorrente, encontrou o mesmo produto por cinco cruzeiros a menos. Sem questionar, mas com a testa franzida de vergonha e indignação, meu pai abriu a gaveta do dinheiro e deu ao riquíssimo fazendeiro os cinco cruzeiros reivindicados.

Com raríssimas exceções, em Nova-Cruz, os políticos ricos oprimiam os cidadãos decentes e bravos trabalhadores, prejudicando sua ascensão na vida. Somente nas campanhas politicas para eleição ou reeleição, os comerciantes honestos eram altamente “considerados”.

Meu pai foi prejudicado pela saúde, sendo acometido por trombose aos 60 anos, e sofreu muitas injustiças, ao ter seu estabelecimento comercial parcialmente demolido por determinação do prefeito da época, o que acabou culminando com o agravamento da sua enfermidade.

A venda do meu pai era a menina dos olhos dele, tão importante quanto a residência da família. Desde os 14 anos, ele foi balconista dessa venda, que depois se tornou sua, quando o antigo dono, já bastante idoso resolveu parar de trabalhar, vendendo-lhe o estabelecimento comercial, num negócio “de pai para filho”. Meu pai doou sua juventude a esse estabelecimento comercial, pois ali trabalhou durante toda a sua vida, afastando-se por doença. Com trinta anos, tornou-se o dono, e foi com essa venda que ele manteve a nossa família, nossos estudos, tornando os filhos pessoas íntegras, verdadeiros cidadãos de bem.

Ele centralizava todas as atividades da venda, e nós, os cinco filhos, éramos ajudantes dele, nos dias de feira. Somente nossa mãe partilhava o dia a dia com ele na venda, pela manhã e à tarde.

Quando a fatalidade atingiu meu pai com a trombose (1972), meu irmão Adriano, o primogênito, já se encontrava na Petrobrás, após aprovação em concurso público. O caçula, Bernardo Celestino, cursava Medicina em Natal, e eu já estava casada, morando em natal, restando em Nova-Cruz Valéria, casada, e Ana Maria. Em suma, no núcleo familiar, não havia ninguém com capacidade de assumir o posto do meu pai à frente do nosso estabelecimento comercial.

A incapacidade laboral do meu pai progrediu e o estabelecimento comercial encerrou suas atividades.

Ele passou a viver com uma pequena aposentadoria do INPS, e pequenos aluguéis de 3 ou quatro casas.

Assim se passaram 12 anos, vindo Francisco Bezerra Souto a óbito em 24 de dezembro de 1984, na Noite de Natal mais triste de nossas vidas.