VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A CONFUSÃO

Anos atrás, na Igreja Matriz de uma capital nordestina, o padre começou a celebrar a Missa das 7 horas da noite do domingo, falando mal da politicalha que assolava o País. Isso desagradou aos presentes, na sua maioria petistas. E seu vozeirão ecoou aos quatro cantos do templo:

– Irmãos, estamos hoje aqui, reunidos para falar dos “Fariseus”, esse povo mentiroso e corrupto, que está acabando com a economia do nosso País!

– Virgem Maria!!! Foi o murmúrio generalizado que ecoou na Igreja.

Os petistas saíram xingando o padre, e houve bate-boca na porta da Igreja. O prefeito, indignado, foi falar com o padre na Sacristia, ameaçando-o de requerer ao Bispo a sua remoção daquela Diocese, se ele continuasse a falar mal dos políticos, na hora do Sermão.

– Padre, pega leve! Os petistas são sindicalistas e funcionários públicos que ganham bem. Gastam na lojas, e, nos restaurantes e colaboram com a coleta da Igreja. Não agrida os políticos! Isto é uma ordem! Não ponha a Prefeitura em situação difícil!

Durante toda a semana, na cidade não se falou de outra coisa, senão do padre e do Sermão do domingo. Aquele zum-zum-zum todo deixou as pessoas curiosas, para saber como seria o sermão do domingo seguinte.

É bem verdade, que uma parte da cidade estava até satisfeita, pois, muitos moradores não morriam de amores pelos petistas.

Finalmente, chega o novo domingo, o prefeito vai à sacristia e recomenda:

– Padre, o senhor lembra da nossa conversa? Por favor, não arrume nenhuma encrenca hoje, certo?

Começa a missa e o padre chega ao sermão:

– Irmãos, estamos aqui reunidos hoje, para falar de uma pessoa da Bíblia: “Maria Madalena”. Aquela mulher, a prostituta que tentou seduzir Jesus, como essas ativistas desgraçadas, do sovaco cabeludo e mal cheirosas, vagabundas, mentirosas, corruptas e ladras que estão aqui.

O Padre mal acabou de falar, não deu outra!!! Pancadaria na igreja, atendimentos no Pronto-socorro da cidade, e o prefeito, novamente, foi ao encontro do padre:

– Padre, pelo amor de Deus! O senhor não me disse que ia pegar leve? Olha, eu também não morro de amores por esses petistas, eles são complicados, tem uns probleminhas, são ignorantes, prepotentes, não tem nenhuma ética etc, mas se o senhor não parar com isso, vou ter que pedir ao Bispo a sua retirada da paróquia.

Naquela semana, o zum-zum-zum foi maior ainda. O papo era só o sermão e ninguém perderia a missa do próximo domingo, nem por decreto! Na noite do domingo, a Igreja parecia final de Campeonato Brasileiro : Muita gente em pé, pois faltou lugar para sentar.

Antes da Missa, o prefeito entrou na sacristia, acompanhado pela polícia e, mais uma vez, advertiu o Padre:

– Padre, pegue leve, senão o senhor vai preso!

A igreja estava lotada. Todos querendo ver “o circo pegar fogo”. Quase não se conseguia respirar de tanta gente. Pessoas que há anos não pisavam na igreja, no domingo estavam lá, com terços e santinhos nas mãos, parecendo super devotas.

Quando o padre apareceu, houve uma tensão generalizada, com cochichos espalhados pelos quatro cantos.

Aparentemente calmo, o Padre começou a falar:

– Irmãos, estamos aqui reunidos hoje, para falar do momento mais importante da vida de Cristo: “a Santa Ceia”.

– Jesus, naquele momento disse aos apóstolos:

– Esta noite, um de vocês me trairá!

Então, João perguntou:

– Mestre, serei eu?

E Jesus respondeu:

– Não, João, não será você.

Então Pedro perguntou:

– Mestre, serei eu?

E Jesus respondeu:

– Não, Pedro, não será você.

E então, Judas, aquele desgraçado, vagabundo, mentiroso, corrupto e ladrão, que estava vestindo uma túnica toda vermelha, perguntou:

– Cumpanhêro, é eu?

-Tu o dizes! – Respondeu o Mestre.

E a pancadaria comeu solta … !

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ADORO QUINDIM

Uma das minhas iguarias preferidas é quindim. Aprendi a gostar com a minha saudosa mãe, dona Lia, que cozinhava muito bem e dava preferência às sobremesas que levassem coco.

O quindim é um doce, à base de açúcar, gemas e coco ralado. É de se comer, “até lamber os beiços.”

Além de gostar de quindim, minha mãe também gostava muito da canção “Os Quindins de Iaiá” (de 1941), que cantarolava, embalando o filho caçula, como se fosse uma canção de ninar.

Sem dúvida, foi dela que herdei a preferência por quindim, que conservo até hoje.

“Os Quindins de Iaiá”, da autoria de Ary Barroso (1903-Ubá-MG / 1964-Rio de Janeiro-RJ), fez muito sucesso na voz do autor, como também na voz de Carmen Miranda, Dorival Caymmi (1914–2008), Dominguinhos e outros excelentes intérpretes.

“Aquarela do Brasil”, também da autoria do grande compositor Ary Barroso, foi a música que consolidou o estilo samba-exaltação, e ajudou a elevar o gênero samba à categoria de símbolo musical nacional.

Filho do advogado João Evangelista Barroso e Angelina de Resende Barroso, Ary Barroso ficou órfão aos 6 anos de idade. Os pais foram vítimas da tuberculose.

Ary Barroso foi criado pela tia avó, a professora de piano Ritinha, que o introduziu na música. Com 12 anos de idade já trabalhava como pianista auxiliar no Cinema Ideal de Ubá (MG), acompanhando os filmes mudos. Com 15 anos, começou a compor.

Com 18 anos, recebeu uma herança do tio Sabino Barroso, ex-ministro da Fazenda, e partiu para estudar Direito no Rio de Janeiro. Morava numa pensão de luxo, frequentava os melhores restaurantes e comprava as melhores roupas.

Quando o dinheiro acabou, passou a tocar piano em cinemas e cabarés, para se sustentar. Acabou gostando da boemia carioca.

Em 1923, passou a tocar na orquestra do maestro Sebastião Cirino, na sala de espera do teatro Carlos Gomes.

Em 1926, iniciou o Curso de Direito, interrompido diversas vezes.

Em 1928, foi contratado pela orquestra do maestro Spina, de São Paulo, para uma temporada de oito meses em Santos e em Poços de Caldas.

Em 1929, Ary voltou para o Rio de Janeiro. De pensão em pensão, foi parar na Rua André Cavalcanti, 50. Gostou das acomodações e da filha da dona da pensão, Ivone Belfort de Arantes. A família não concordava com o casamento de Ivone com o pianista boêmio.

Depois de ganhar um concurso de música carnavalesca com a marchinha “Dá Nela”, Ary pode pagar as despesas, e com o diploma de bacharel em direito, conquistado em 26 de fevereiro de 1930, pode se casar com Ivone. Ainda morando na pensão, nasceram os filhos Flávio Rubens e Mariúzia.

Em 1932, Ary Barroso ingressou na Rádio Philips a convite de Renato Murse. Além de pianista, foi humorista, animador e locutor esportivo.

Em 1933, enfrentou uma grande crise pessoal, quando perdeu a esposa Ivone e a avó no mesmo ano.

Depois da Rádio Philips, Ary foi para a Mayrink Veiga, e de lá, em 1934 foi para a Cosmos, em São Paulo, época em que criou o programa “Hora H”. Exigia que os calouros cantassem apenas músicas brasileiras e que citassem o nome do compositor.

Carmem Miranda foi uma de suas principais intérpretes e também grande amiga, com quem passeava nas ruas do Rio. O sucesso de “Aquarela do Brasil” na voz da cantora, fez com que Ary Barroso se transformasse em compositor e arranjador de filmes de Hollywood.

Ary Barroso notabilizou-se pelas músicas “Aquarela do Brasil, “Na Baixa do Sapateiro”, “Os Quindins de Yaiá” “No Tabuleiro da Baiana” e outras.

Retratou em suas canções, muitos aspectos do cotidiano popular. O samba esteve presente na maior parte de suas músicas, mas também estiveram presentes o xote, o choro, o foxtrote e a marcha.

Foi convidado, em 1936, para ser locutor na Rádio Cruzeiro do Sul. Apesar de já ser um compositor de sucesso, a atividade de locutor e comentarista esportivo se tornaria uma marca registrada de sua carreira.

Seus programas de calouro ficaram famosos e em 1937 inovou com um sino, para eliminar os calouros na Rádio Cruzeiro do Sul, no Rio de Janeiro. Quando foi para a Rádio Tupi, instituiu o gongo.

Ary Barroso, portanto, foi o precursor do gongo, imitado em programas de calouros, na televisão, tipo “A Buzina do Chacrinha” do apresentador José Abelardo Barbosa de Medeiros, mais conhecido como Chacrinha (1917-1988), que muito divertiu os telespectadores brasileiros, com seus jargões engraçados.

Os quindins de Iaiá
Cumé, cumé, cumé?
Os quindins de Iaiá
Cumé, cumé, cumé?
Os quindins de Iaiá
Cumé?

Cumé que faz chorar
Os zóinho de Iaiá
Cumé, cumé, cumé?
Os zóinho de Iaiá
Cumé, cumé, cumé?
Os zóinho de Iaiá
Cumé?

Cumé que faz penar
O jeitão de Iaiá
Me dá, me dá
Uma dor
Me dá, me dá
Que não sei
Se é, se é
Se é ou não amor
Só sei que Iaiá tem umas coisas
Que as outras Iaiá não tem
O que é?

Os quindins de Iaiá
Os quindins de Iaiá
Os quindins de Iaiá
Os quindins de Iaiá

Tem tanta coisa de valor
Nesse mundo de Nosso Senhor
Tem a flor da meia-noite
Escondida nos canteiros
Tem música e beleza
Na voz dos boiadeiros
A prata da lua cheia
No leque dos coqueiros
O sorriso das crianças
A toada dos barqueiros
Mas juro por Virgem Maria
Que nada disso pode matar…
O quê?
Os quindins de Iaiá…

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“A MOÇA DO SONHO”

Há sonhos estranhos, que nos dão a impressão de termos feito uma viagem ao além, onde nos encontramos com uma pessoa que é a perfeição da beleza, e que nos atrai física e espiritualmente. Quanto mais longo é o sonho, maior o desapontamento (ou alívio), que sentimos quando despertamos.

Os gênios Chico Buarque (letra) e Edu Lobo (música), em parceria, compuseram a belíssima música “A Moça do Sonho”, que nos transporta a um universo de fantasia, em busca da perfeição da pessoa amada.

O encontro desses dois gênios resultou nessa belíssima composição, uma verdadeira obra prima.

O “eu lírico” fala da mulher dos sonhos do poeta, num desejo desesperado de que fosse tudo realidade.

Essa canção foi composta para a peça de teatro Cambaio (2001). O eu lírico ou eu poético é a voz que se expressa em uma poesia. Tal voz manifesta sentimentos, emoções, pensamentos e até opiniões. Portanto, tudo que é dito em uma poesia deve ser atribuído ao eu lírico, e não ao poeta.

Na composição “A Moça do Sonho”, o poeta, em sonho consegue visualizar a mulher que mora na sua imaginação. Mas, não dá para perceber nitidamente seus traços fisionômicos, o que lhe faz se arriscar a perguntar quem é ela. Mas, tomado de emoção, não consegue falar. Sua voz fraqueja.

“Entre escadas que fogem dos pés/ e relógios que rodam pra trás/ se eu pudesse encontrar meu amor/não voltava jamais.”(Diz o poeta)

Soprando o rosto da moça, com tristeza, verificou que ele se desfez em pó e sumiu.

Como numa magia, a moça voltou sussurrando uma canção. Ele resolveu novamente perguntar quem era ela, mas numa luminosidade que não lhe permitia enxergar bem, sentiu que ela fugia novamente, devagarinho.

Procurando evitar a fuga, a segurou. Ele a ouviu gemer, mas não sabia dizer se era por prazer ou dor. O vestido se desfez, desapareceu, mas o poeta não conseguiu vê-la nua.

No seu rosto, não identificou a mulher dos seus devaneios.

E o poeta ficou a imaginar, que seria bem melhor se vivêssemos os sonhos e não a realidade. Porque os sonhos são manifestações dos desejos, vontade daquilo que pretendemos viver. A realidade, muitas vezes, é cruel.

Seria muito bom, se houvesse um lugar, onde os sonhos tivessem a energia do que é verdadeiro.

Nesse lugar, a Moça do Sonhos seria a rainha que fascinaria o poeta todos os dias, com seu sorriso, seu rosto de beleza deslumbrante e seus gemidos de prazer. Lá teria uma cama, onde, quem sabe, a cada noite ele se fizesse presente nos seus sonhos.

Quando os sonhos desaparecem e se findam, o que fazer para revivê-los? Onde encontrá-los? Devia haver uma praça com ofertas, para que pudéssemos localizar aqueles sonhos que se foram, mas que ainda temos esperança de que ressurjam!

Nada evitará que continuemos nessa busca. Mas, se eles forem encontrados, não voltarão jamais a ser como antes.

A MOÇA DO SONHO Canção de Chico Buarque (Letra) e Edu Lobo (Música)

Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó

Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez

Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar

Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava jamais

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A HISTÓRIA DO “RI-RI”

A história do “ri-ri”, zíper, fecho-éclair ou simplesmente “fecho”, começou em 1893 na Exposição Mundial de Chicago, nos EUA, onde este objeto deslizante, usado para fechar e abrir roupas, foi apresentado pela primeira vez. Tratava-se de uma versão primitiva do objeto, com minúsculos ganchos e argolas, desenvolvida pelo engenheiro americano Whitcomb Judson. Cansado de abrir e fechar todos os dias os cordões dos seus sapatos, ele teve a ideia de criar um artefato rudimentar, composto de ganchos e furos. Porém, esse tipo de zíper não era muito eficiente: não fechava com facilidade e se abria em horas impróprias.

A peça utilitária ficou conhecida como fecho-éclair, palavra vinda do francês Éclair, que significa relâmpago, e se refere ao nome da sociedade detentora do registro da marca — a Éclair Prestil SN. Em Portugal e no Brasil adotou-se a expressão “fecho-éclair”. Este nome predomina no Rio, ao contrário de São Paulo onde prevalece “zíper”.

A primeira participação deste utilitário na indústria do vestuário aconteceu durante a I Guerra Mundial, quando os uniformes dos soldados norte- americanos foram confeccionados com fecho-éclair nas calças.

Na II Guerra, o fecho-éclair foi usado em sacos de dormir, uniformes, malas e sacolas para transportar mortos.

O americanoWhitcomb L. Judson, em 1891, inventou o primeiro protótipo de fecho com ‘dentadura incluída’. O sueco Gideon Sundback pegou a idéia em 1913, e desenvolveu.

O fecho-éclair tem dentes plásticos ou metálicos, pelos quais corre o cursor, que tem aberturas em forma de um «Y». Pela parte de cima passam os dois trilhos separados, lado a lado, e dentro do cursor os dentes dos trilhos se engancham, para saírem por uma saída só, juntos, pelo lado oposto pelo qual entraram.

No Brasil, o maior fabricante desse objeto que ri, ao qual as costureiras do interior nordestino passaram a chamar de “ri-ri”, foi a YKK, (Yoshida Brasileira Indústria e Comércio), com sede no Japão e atuando em 44 países. Os outros fabricantes são: Linhas Correntes e Metalúrgica Ultra.

O fecho-éclair atual é um conjunto, que resulta de equipamentos modernos e matérias-primas mais resistentes e mais variadas, como os metais que compõe seus ganchos, que podem ser dourados, niquelados ou de plástico.

No interior nordestino, antigamente, os fechos de saias e vestidos eram chamados de “ri-ri”. Fecho-eclair e zíper é como eram chamados no Rio de Janeiro e São Paulo. Era um utilitário, usado apenas em confecções femininas. Toda saia ou vestido tinha um “ri-ri”, costurado numa fenda lateral ou nas costas, que variava de 20 a 35 centímetros. Tinha a finalidade de facilitar o vestimento da peça, na passagem pela cabeça. O nome está ligado ao som, provocado pelo seu fechamento ou abertura, quando as duas carreiras de dentinhos de metal deslizam sobre os trilhos que o compõem.

Antigamente, a braguilha (ou barguilha) das calças de homens eram abotoadas, ou seja, fechadas com botões. Somente com a moda de calças Jeans (Faroeste, Lee etc), feitas de tecidos bastante pesados, os botões foram substituídos pelo “ri-ri”, chamado agora, oficialmente de fecho-eclair ou zíper.

Enquanto as calças e bermudas com braguilha (ou barguilha) abotoadas nunca causaram danos físicos ao homem, o zíper lhe tem causado muitos “acidentes”. Já houve casos do homem ficar preso ao zíper, pela pele do membro sexual, no momento de vestir ou tirar a calça ou bermuda. Em alguns casos, houve até necessidade de socorro médico, e de pequena cirurgia, onde um pouco da pele precisou ser cortada.

Por preconceito, o “ri-ri”, zíper ou fecho-eclair demorou muito a ser aceito pelo homem, em suas calças e bermudas. O homem achava que aquilo era artefato para roupa de mulher. Mas terminou cedendo, uma vez que o modelo abotoado saiu de linha.

Até então, o vestuário, tanto masculino como feminino só usava botões e colchetes.

A calça LEE fez, na década de 5O, a união do zíper com jeans, quando lançou a calça jeans feminina.

Na década de 70, o zíper, finalmente, triunfou no setor do vestuário, entrando em contato com a alta costura.

André Courrèges , estilista francês (1923 – 2016), foi considerado um marco na trajetória desse fecho. Foi ele o primeiro a usá-lo como adorno em suas coleções. Nesse mesmo período, a necessidade de renovação da moda para atender as exigências de um público jovem cada vez mais comprador, fez do zíper o parceiro ideal das roupas, confeccionados em materiais plásticos e de cores vibrantes. Além da moda plástica e geométrica de Pierre Cardin, Rabanne e Mary Quant, este utilitário esteve também a serviço do vestuário dos Hippies e dos Astronautas, e de lá para cá, esteve sempre presente na maioria dos produtos confeccionados, quer no mundo da moda, quer no mundo dos produtos utilitários.

Atualmente, o zíper acompanha a moda. Algumas vezes está fechando, outras vezes está somente adornando os produtos lançados pela moda.

O zíper entrou no mundo da moda em 1935, pelas mãos da estilista Elza Schiaparelli.

Nesse período, o vestuário, tanto masculino como o feminino usava botões e colchetes.

A calça LEE fez, na década de 5O, a união do zíper com jeans, quando lançou a calça jeans feminina.

Na década de 70, o zíper, finalmente, triunfou no setor do vestuário, entrando em contato com a alta costura.

Atualmente, o ri-ri (zíper ou fecho-éclair) acompanha a moda. Algumas vezes está fechando, outras vezes está abrindo, mas sempre adornando os produtos em lançamento.

O “ri-ri” atual (zíper ou fecho-éclair) é um conjunto, que resulta de equipamentos modernos e matérias-primas mais resistentes, variadas e bonitas, com os metais que compõe seus ganchos em cor dourada, niquelados ou de plástico, servindo de bonitos adornos na confecção de roupas.

No interior nordestino, antigamente, os fechos de saias e vestidos eram chamados de “ri-ri”, porque as duas tirinhas com quadradinhos de metal ou plástico, ao se juntarem, lembravam um sorriso. A palavra pegou e o objeto tornou-se conhecido pelas costureiras, com esse nome. Por isso, a palavra “ri-ri” predomina até hoje, entre as pessoas mais antigas, no interior nordestino.

Toda saia ou vestido tinha um “ri-ri”, de lado ou na parte de trás, num comprimento de 20 a 35 centimetros, com a finalidade de facilitar o vestimento da peça, na passagem pela cabeça.

Dona Lia, minha saudosa mãe, costurava muito e muitas vezes eu, ainda menina, ia ao armarinho de Seu Zé Cirilo, em Nova-Cruz (RN), comprar “ri-ri”, retrós, carretel de linha, agulha de máquina e de mão, botões, conforme ela anotava numa folha de papel. O nome “ri-ri” nunca faltava.

A partir da moda de calças Jeans (Faroeste, Lee etc), feitas com tecido bastante pesado, os botões das braguilhas (ou barguilhas) de calças masculinas foram substituídos definitivamente pelos “ri-ris”, que passaram oficialmente a ser chamados de “zíper” ou “fecho-eclair”.

O zíper atual é um conjunto, que resulta de equipamentos modernos e matérias-primas mais resistentes, variadas e bonitas, com os metais que compõe seus ganchos, em cor dourada, niquelados ou de plástico, servindo de bonitos adornos na confecção de roupas.

No interior nordestino, antigamente, os fechos de saias e vestidos eram chamados de “ri-ri”, porque as duas tirinhas com quadradinhos de metal ou plástico, ao se juntarem, lembravam um sorriso. A palavra “ri-ri”, no interior nordestino pegou e o objeto tornou-se conhecido pelas costureiras, com esse nome. A palavra “ri-ri”, portanto, faz sentido. Zíper e fecho-eclair não eram palavras conhecidas no interior nordestino. Eram palavras de capital. Por isso, “ri-ri” predomina até hoje, na linguagem das pessoas antigas.

Toda saia ou vestido tinha um “ri-ri”, de lado ou na parte de trás, num comprimento de 20 a 35 centímetros, com a finalidade de facilitar o vestimento da peça, na passagem pela cabeça.

Tempos depois, as braguilhas (ou barguilhas) de calças e bermudas masculinas, que antes eram fechadas com botões, passaram a ser fechadas com “ri-ri”, a partir da moda de calças Jeans (Faroeste, Lee etc), tecido bastante pesado.

E os botões das braguilhas (ou barguilhas) de calças masculinas foram substituídos definitivamente pelos “ri-ris”, que passaram oficialmente a ser chamados de “zíper” ou “fecho-eclair”, nomes já usados nas capitais.

Entretanto, no interior nordestino, esse invento permanecerá sempre com o nome de “ri-ri”. Quando em Nova-Cruz, alguém se refere a ele como zíper ou fecho-éclair, já se sabe que é gente de fora, com outros hábitos e costumes.

Salve o “RI RI”!

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ANTA ESFOLADA

Nasci e me criei em Nova-Cruz (RN), às margens dos rios Curimataú e Bujari.

Faz parte da história de Nova-Cruz uma suposta lenda, que diz que, séculos atrás, no vale do Curimataú, habitava uma anta de espírito maligno, que assombrava os moradores e boiadeiros que por ali passavam. Com o propósito de retirar seu feitiço, um caçador resolveu prendê-la e esfolá-la viva. Contudo, ao receber o primeiro golpe, a anta deu um pulo, deixando sua pele nas mãos do seu algoz. Embrenhou-se na mata, assumindo a forma de um animal feroz e demoníaco, com dois chifres, tal qual o demônio. A partir desse dia, a anta esfolada passou a aterrorizar os moradores, correndo como um relâmpago, rodeando as casas, fedendo a enxofre e roncando alto.

O primeiro nome de Nova-Cruz foi Urtigal, devido ao matagal de urtigas que cercava o arruado, onde surgiria a futura cidade. Depois, o acontecimento nefasto da anta esfolada fez com que o povo passasse a chamar Urtigal de Anta Esfolada.

Numa 6ª feira 13, quando o mês era agosto, do ano 1813, a anta esfolada apareceu em Urtigal (antigo nome de Nova-Cruz-RN), dando pinotes e parecendo estar possuída pelo demônio. Cada testemunha da terrível aparição contava o fato, acrescentando detalhes fantasiosos e apavorantes. Foram muitas as narrativas mirabolantes sobre a anta maldita. As pessoas contavam a história, acrescentando detalhes fantásticos da possessão demoníaca do animal.

O boiadeiro Severino Bento chegou no Urtigal e contou que no caminho, uma anta esfolada e com chifres, se meteu no meio do gado e espantou as reses. Apareceu do nada, correndo e pulando, como se estivesse com o demônio no couro. E assim, provocou o estouro da boiada;

Tonhão contou que foi tomar banho na lagoa, e quando saiu da água viu um bicho parecido com uma anta, se estrebuchando nas cinzas de uma coivara. Bufava e fedia a enxofre. Assombrado, o homem chegou em casa numa carreira só, como se tivesse visto o próprio demônio;

Joaninha contou que estava deitada, quando ouviu um estrondo, que parecia um trovão. Olhando pelas frestas do telhado, viu um fogaréu se espalhando pelo Céu, soltando faíscas para todos os lados. Sentiu-se sufocar com um cheiro forte de enxofre e logo ouviu um tropel se aproximando. Saiu pra ver o que era e viu passar um homem a cavalo, segurando uma pele ensanguentada. O homem tinha dois chifres na testa!

O assunto correu de boca em boca, espalhando o terror.

Mesmo contra a vontade dos proprietários, o povo passou a chamar Urtigal de Anta Esfolada. E o nome pegou.

Em qualquer ambiente, quando alguém se referia ao Urtigal, as pessoas se benziam e acrescentavam que era o lugar onde apareceu a anta esfolada. Indignados com a atitude do povo, que passou a chamar Urtigal de Anta Esfolada, os proprietários se mudaram para a Serra do Pires, que depois passou a ser chamada de Serra de São Bento. Eles consideravam pejorativo o nome de Anta Esfolada, como um fator a mais para declínio de seus empreendimentos. E os proprietários continuaram a chamar a fazenda de Urtigal. Mas o povoado nascente passou a ser chamado definitivamente Anta Esfolada.

E o nome Anta Esfolada permaneceu, até que viessem para lá as primeiras missões de evangelização, dirigidas pelo Frei Serafim de Catânia.

Anos depois, os missionários que chegaram àquele povoado para evangelizar, se chocaram com a origem nefasta do seu nome, Anta Esfolada, e fizeram uma campanha para que aquele nome fosse mudado. Impressionados com a história demoníaca da anta esfolada, fizeram uma campanha para que o nome fosse trocado para NOVA-CRUZ. Para isso, encomendaram uma enorme cruz de madeira e fincaram ao solo, e também uma placa, onde em letras garrafais, estava escrito NOVA-CRUZ – RNUZ – RN. Os frades capuchinhos que lá estavam evangelizando em Missões, celebraram uma Missa no local, a que compareceram todos os moradores do lugarejo.

As Santas Missões em Anta Esfolada, praticamente começaram com a Missa da Meia Noite, na véspera de Natal.

Durante uma semana, todos os dias, ainda de madrugada, Frei Serafim deixava o leito e fazia uma caminhada pelo povoado. Uma multidão já o esperava para a procissão matinal. Um Coroinha tocando uma sineta, animava o povo, cantando o bendito Vinde Pais e Vinde Mães.

Às seis horas da manhã, no local onde seria construída a futura capela, Frei Serafim celebrava a Santa Missa. Era uma palhoça de folhas de sapé em frente do cruzeiro e do palanque. Só às oito horas, o frade tomava o café da manhã. Todas as vezes que os padres deixavam o local das para fazer as refeições na casa de Zeferino, uma pequena multidão os acompanhava.

Durante o dia, na latada, os missionários ouviam as demoradas confissões.

As crianças eram acolhidas por catequistas que levavam o grupo para a areia do rio, para os folguedos próprios da idade e, rezando em voz alta, aprendiam as orações básicas do catecismo.

À tardinha, a multidão comparecia em peso para o grande acontecimento religioso. No palanque, Frei Alberto Cabral, com forte sotaque italiano, ensinava os benditos, especialmente um que se tornou o símbolo das missões dos frades capuchinhos do Nordeste:

“Abençoe esta missão
Virgem Mãe, Nossa Senhora
Dá-nos tua proteção
Oh! Senhora Imaculada!”

Depois, Frei Serafim da Catânia proferia o seu sermão.

Ele tinha o dom de cativar os afastados de Deus, que sentindo o apelo divino, desejavam mudar de vida e, assim, esperavam horas e horas na fila, para se confessar com ele. Os outros padres disponíveis para esse atendimento tinham as filas bem menores. Muitos, mesmo depois de ter se confessado, voltavam à fila de frei Serafim, atraídos pela sua inexplicável e cativante simpatia. E não ficava ninguém sem se confessar.

Muitos afirmavam, que ele perguntava por pecados escondidos e que tinha o poder de adivinhar o que tivesse acontecido na vida de quem estivesse falando.

Assim era a rotina das missões de Frei Serafim de Catânia, em Anta Esfolada.

O último dia das missões foi muito emocionante. Era o dia 31 de dezembro de 1846, o último dia do ano.

Depois do meio dia, o frade mandou chamar o povo para uma confissão comunitária. Sentados em torno dele, todos formavam um grupo todo especial.

O frade se dirigiu ao grupo dizendo que tanto Deus como o Demônio podiam agir no mundo através dos homens. E como um adivinho, começou a falar sobre o que tinha acontecido na vida daquelas pessoas, relatando fatos antigos. Falou da ação do Demônio no episódio da anta esfolada e da ação de Deus, livrando o povo daquela maldição.

Já estava escuro quando os frades acenderam uma grande fogueira junto do cruzeiro. Era a a última noite de missão, a despedida geral. Os índios se aproximaram trazendo dois anciãos. Um deles, Joaquim, pediu para ficar mais perto da fogueira e, inesperadamente, jogou no fogo um anel de couro ressequido. Era o couro da anta esfolada, a última lembrança de seu passado maldito, que devia ser definitivamente esquecido.

Os frades deram início aos trabalhos da missão. Nessa ocasião, Frei Serafim de Catânia olhando para a cruz iluminada pelas chamas falou para todos com voz forte:

– EM NOME DE DEUS, EU VOS ORDENO QUE ESTE LUGAR, DE HOJE EM DIANTE, SEJA CHAMADO DE NOVA-CRUZ!

O povo irrompeu com gritos de aplauso:

– NOVA-CRUZ! NOVA-CRUZ! NOVA-CRUZ!

E assim a terra da Anta Esfolada encontrava o seu nome definitivo. Ao final, Frei Serafim mandou que todos fossem para seus alojamentos e voltassem de madrugada para a Missa de Ano Novo que ele celebraria antes de viajar.

A Lei 609, de 12 de março de 1868, elevou a povoação de Nova-Cruz à categoria de Vila, mediante a transferência da sede municipal e paroquial de Serra de São Bento. A partir de então, Nova-Cruz passou a ser Sede de Paróquia, se desligando de São Bento.

Assim, Nova-Cruz passou a ser município legalmente constituído e sede paroquial, de direito, uma vez que, de fato, já o era desde 1855. O Padre João Alípio da Cunha, que era deputado da Assembleia Provincial, foi nomeado o primeiro vigário de Nova Cruz. Ficou muito feliz com a nomeação e preparou uma grande festa para a instalação da paróquia. Convidou o Frei Serafim de Catânia para presidir os festejos, o que atraiu grande número de pessoas, de todos os povoados da redondeza.

Os índios e os negros das comunidades de Baía da Traição e de Sibaúma, vieram para a festa e assim demonstraram seu contentamento com o progresso do povoado. Houve uma grande festa, para a instalação da paróquia.

Em 1871 foi criada a comarca de Nova-Cruz, com a nomeação do Dr. Jerônimo Américo Raposo da Câmara como o primeiro Juiz de Direito. No mesmo ano, também foi criada a comarca de Canguaretama, para onde tinha sido transferida a comarca de Vila Flor. Por esse tempo foi promulgada a Lei do Ventre Livre, que teve pequena repercussão em Nova-Cruz, dado o fato de que, praticamente, já tinha sido abolida a escravidão, pela alforria que Zeferino e o deputado João Mendes concederam a seus escravos.

Muitas famílias vieram morar em Nova-Cruz, atraídas pela feira, que todas as segundas-feiras reunia gente de toda a região, proporcionando grande movimento comercial.

Em 1872, quando o Padre Emídio Fernandes de Oliveira assumiu o cargo de vigário de Nova-Cruz, a vila participou do primeiro recenseamento feito no Brasil, ao mesmo tempo em que a população foi atingida pela epidemia de varíola, o que obrigava os contaminados a ficarem em regime de reclusão pelos matos, enrolados em folhas de bananeiras, para minorar o queimor das bexigas purulentas.

O casal de velhos, fundadores de Nova-Cruz, Zeferino e Araci, foi atingido pela peste de varíola.

Envoltos em folhas de bananeira, foram levados para uma antiga cabana junto do pé de barriguda. Ali não resistiram e morreram.

Foram enterrados no mesmo lugar.

Com o tempo, o pé de barriguda ficou sendo a referência para as romarias dos negros de Sibaúma e dos índios de Baía da Traição.

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A PRIMEIRA “FAKE NEWS” DA TERRA DA ANTA ESFOLADA

ENTRADA DE ANO NOVO – 1959/1960

No final de 1959, surgiu um boato em todo o Brasil de que um profeta havia preconizado que em 1960 os negros iriam virar macacos (sic). Os compositores imediatamente aproveitaram a deixa e fizeram o frevo-canção “Operação Macaco” (Sebastião Lopes/Nelson Ferreira). interprete Nerize Paiva. acompanhamento: Orquestra. nº da matriz. R-1099.

No interior nordestino, principalmente em Nova-Cruz, antiga Anta Esfolada, o boato se transformou em praga. As pessoas mais ingênuas tomaram isso ao pé da letra, e a notícia, de tão repetida, virou verdade, tal qual a atual “FAKE NEWS”

A festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição, pela primeira vez foi tensa, pois havia quem acreditasse nessa propagada profecia.

A barraca armada em frente à Matriz de Nossa Senhora da Conceição estava repleta de pessoas que aguardavam a chegada do Ano Novo. Notavam-se nas fisionomias de todos, tensão nervosa e medo, diante da perspectiva do cumprimento da profecia divulgada pela cidade. Havia pessoas nervosas, que acreditavam nos boatos negativos. Mesmo assim, a cidade estava repleta de nova-cruzenses, tanto da zona rural como da zona urbana. Essas pessoas invadiam a cidade, na véspera de Ano Novo, em busca de diversão, como passeios no Parque São Luiz, compras de iguarias regionais, incluindo alfenins e doces-secos. Tudo isso era vendido em barraquinhas armadas ao longo da Rua Grande, principal rua da cidade.

Havia também o serviço de alto-falante, onde os casais apaixonados pagavam para oferecer músicas significativas, verdadeiras declarações de amor aos parceiros.

As senhoras católicas da cidade prestavam sua colaboração à Igreja, preparando iguarias, como perus assados, pasteis e outros salgados, e as garçonetes e garçons eram pessoas conhecidas, que também prestavam sua ajuda gratuita à paróquia.

Quando se aproximava a hora da passagem do ano, a banda de música da cidade, comandada pelo exímio maestro Tenente Freitas, de saudosa memória, executava emocionantes dobrados, e na passagem do ano tocava o Hino Nacional. Nessa hora, ouvia-se o pipocar de foguetões, o sino da Igreja repicava por alguns minutos, e as emoções explodiam entre as pessoas amigas e até inimigas. Em seguida, o Padre dava a Benção do Santíssimo da janela da Igreja, o que completava o clima de emoção. Era uma verdadeira apoteose!!!

Na passagem do ano de 1959 para 1960, notavam-se crianças em pânico, agarradas às saias de suas mães, apavoradas com a profecia de que negro iria virar macaco.

Dona Lia, minha saudosa mãe, atendia na barraca da Igreja, juntamente com outras senhoras da sociedade, despachando fatias de peru assado e salgadinhos variados, solicitados pelos ocupantes das mesas. De repente, ela percebeu que o filho caçula, Bernardo, de quatro anos, não se desgrudava de sua saia, e chegava a tremer de medo, observando a fisionomia das pessoas morenas ou negras da cidade. Apavorado, o menino temia que na passagem do ano, a barraca fosse invadida por gorilas, como nos filmes de Tarzan… Esperava que os negros da cidade se transformassem em macacos. Foi uma expectativa de terror. Não só as crianças, como também alguns adultos supersticiosos, temiam a anunciada transformação.

Os passeios em redor da barraca principal eram contínuos, por pessoas mais simples, que não podiam gastar dinheiro na barraca da Igreja. Havia leilão de prendas ofertadas pelas pessoas da cidade, que variavam de coisas simples, como frango assado, até animais vivos, bovinos e caprinos, ofertados por fazendeiros ricos da região, e que davam muito lucro à Paróquia.

A bem da verdade, as pessoas, principalmente as crianças, só se tranquilizaram no final da festa, quando constataram que nenhum negro tinha virado macaco. Nem tampouco tinha havido invasão de gorilas na festa da Padroeira de Nova-Cruz, Nossa Senhora da Conceição.

A crendice popular tem o condão de impressionar as pessoas, e essa passagem de ano marcou época em Nova-Cruz.

“A FAKE NEWS” deu origem a um grande sucesso carnavalesco, “OPERAÇÃO MACACO”, de autoria de Sebastião Lopes/Nelson Ferreira. Interprete: Nerize Paiva. Acompanhamento: Orquestra. nº da matriz. R-1099.

Isso aconteceu antes da época do politicamente incorreto. Hoje seria humanamente impossível, tamanha gozação.

Se fosse hoje, a “profecia” seria “FAKE NEWS”, e os autores da música “Operação Macaco” teriam sido punidos.

OPERAÇÃO MACACO

Dizem que em 60 nego vai virar macaco
Ora vejam só que grande confusão
Se for verdade essa Operação Macaco
Penca de banana vai custar um milhão.
Quem mata um gato tem sete anos de atraso
Tem nego como o diabo fazendo tchuí-tchuí
Se for verdade o que diz o profeta
O que seria de Pelé ou do Didi?
Nego é gente igual a gente
Muito preto existe pra ninguém botar defeito
Profeta toma jeito, cuidado com a negrada
Se ela te pega vai dizendo, me dê a papada!

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NAO TEM VAGA

Um casal chegou a um lugarejo, tarde da noite. Marido e mulher, estavam cansados da viagem. Ela, grávida, prestes a dar à luz, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde pudessem passar a noite. Uma hospedaria simples serviria, desde que não fosse cara.

Pensavam que seria fácil de encontrar. Mas, ao contrário do que esperavam, foi muito difícil. Na primeira hospedaria onde chegaram, encontraram como recepcionista um homem rude, que, ao vê-los, disse logo que não havia vaga. Na segunda, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e solicitou apresentação de documentos. A resposta do pretenso hóspede foi de que a pressa da viagem fizera com que esquecesse os documentos. Foi o suficiente para que o encarregado desse um não.

Disse o recepcionista, grosseiramente:

– Como pretende o senhor conseguir hospedagem, se não tem documentos? – disse. – Eu nem sei se o senhor teria como pagar a conta…

Humilhado, o viajante não disse nada. Tomou a mulher pelo braço e seguiu adiante. Na terceira hospedaria, mesmo havendo vaga, o encarregado resolveu dizer que estava lotado. Desconfiou do casal, ao ver a pobreza das roupas que os dois vestiam. Resolveu dar uma desculpa, para disfarçar a má vontade:

– As hospedarias simples, como esta, não recebem incentivo nenhum do governo. Já os grandes hotéis, recebem incentivos e os donos podem fazer reformas. Hospedam até delegações estrangeiras. Até hoje, não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente…já tinha melhorado de vida. O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?

O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém “nas altas esferas”.

– Pois, então, – disse o dono – fale para esse seu conhecido sobre esta hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez eu já possa lhe arranjar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.

O viajante agradeceu, lamentando a urgência do seu problema. Precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante.

Na hospedaria seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio.

– O disfarce está muito bom!

– Que disfarce? Perguntou o viajante.

– Essas roupas velhas que vocês estão usando, disse o gerente.

– Isso não é disfarce – disse o homem. São as roupas que nós temos. O gerente, então, percebeu o engano:

– Sinto muito – desculpou-se. – Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado.

O casal foi adiante. Na hospedaria seguinte, também não havia vaga, e o encarregado, metido a engraçado, disse:

– Ali perto há uma manjedoura. Por que não se hospedam lá? Não é muito confortável, mas, em compensação, não pagarão diária.

Para surpresa dele, o viajante achou a ideia boa e até agradeceu. Saíram.

Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando ao encarregado se não tinha chegado por lá um casal de viajantes, com a mulher prestes a dar à luz. E foi aí que o gerente começou a achar, que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes, já chegados a Belém de Nazaré.

A Estrela-Guia levou os Reis Magos Belchior, Gaspar e Baltazar, ao local onde Maria acabara de dar à luz.

Eles, então, ofereceram ao menino Jesus três presentes, com significados espirituais: Ouro, incenso e mirra.

Após isso, foram avisados por Deus, em um sonho, que não deveriam informar a Herodes o nascimento do Menino Jesus.

E assim, retornaram para sua terra por outro caminho.

Os Reis Magos Belchior, Gaspar e Baltazar eram astrólogos e sábios. Com base nas profecias e na astrologia, previram a vinda de Jesus e partiram em uma longa viagem, para dar as boas-vindas ao Messias (Salvador).

Em Mateus 2:11 é descrita essa passagem:

Ao entrarem na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Então abriram os seus tesouros e lhe deram presentes: ouro, incenso e mirra.

O ouro simboliza a realeza de Jesus.

O incenso, usado nos templos, era um presente exclusivo aos sacerdotes, reforçando, assim, a divindade de Cristo.

A mirra é um composto usado no embalsamamento, e fazia referência ao sacrifício de Cristo e à sua Ressurreição.

E assim nasceu o Menino Jesus, aquele que veio, para ser o homem mais importante da humanidade!

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EVOCANDO “ONTEM AO LUAR”

“ANTOLOGIA DA CANÇÃO BRASILEIRA”, coletânea oferecida aos poetas, trovadores, musicistas e intelectuais brasileiros, pelo grande pesquisador Norte-Rio-Grandense, Gumercindo Saraiva, homenageou o poeta e compositor Catullo da Paixão Cearense, por ocasião do seu Centenário de Nascimento, a quem denominou de “o maior lapidador da Canção Brasileira” (1863 – 1963).

Catullo da Paixão Cearense nasceu a 8 de outubro de 1863, em São Luiz do Maranhão e faleceu no Rio de Janeiro a 10 de maio de 1946.

Na sua mocidade, sentindo a decadência da canção nacional, Catullo tornou-se um herói, desbravando de maneira patriótica os poemas mais sugestivos da literatura brasileira, notadamente de Castro Alves, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu e tantos outros poetas, cujas composições se integraram ao cancioneiro popular do nosso país e alcançaram destaque fora do Brasil.

Gumercindo Saraiva quis restaurar aquilo que estava prestes a desaparecer do “dossier” cultural brasileiro. E ele estava certo. A Modinha está adormecida, ofuscada pela música de baixa qualidade.

Heitor Villa-Lobos, o expoente máximo da música brasileira, célebre autor das “Bachianas Brasileiras”, encontrou na obra de Catullo da Paixão Cearense, não simples melodias, escritas de forma banal e inexpressiva, mas um manancial de talento. Por isso, certa vez, disse: “Na música, Catullo me foi mais útil que o próprio Ernesto Nazareth”.

A notável tradição e o majestoso cenário emocional encontrados na canção de Catullo, não foram mais estudados e permanecem no ostracismo, por falta de divulgação. Sua grandiosa obra está adormecida. Temos necessidade de uma biografia mais positiva, que reviva na alma do povo a presença de Catullo e a universalidade dos seus cantos.

O escritor Rocha Pombo, estudando a obra de Catullo, declarou: “Catullo é um grande poeta. A meu ver, tem ele na alma alguma coisa mais que a exuberante e entusiástica poesia do nosso povo; nos seus versos, nos seus cantos, fala a excelsa musa anônima e imortal da raça”.

Alberto de Oliveira, príncipe da poesia brasileira, no seu tempo, referindo-se a Catullo, cantou, em versos, com o coração, a grandeza do grande vate maranhense:

“Esse outro poeta és tu, com as tuas harmonias
Com o teu estro a vibrar nas cordas do violão
Fazendo ao que te escuta ir-se a imaginação,
Ir-se o espírito além, além…por além afora,
Ao bom tempo feliz, ao bom tempo de outrora,
Em que eu sei que cantava esse de nome igual
E gênio igual ao teu – Catullo, o provençal.”

Catullo estudou um pouco de música, chegando mesmo a tocar flauta de cinco chaves, mas encontrando dificuldades por falta de embocadura.

Seus companheiros dessa época foram o flautista Viriato, o compositor Calado, o regente e compositor Anacleto de Medeiros, Quincas Laranjeiras, Albano, Cadete e outros que não alcançaram projeção no ambiente da boemia dessa turma tão conhecida nos meios das serestas do Rio de Janeiro.

O nome de Catullo da Paixão Cearense não precisa mais de apresentação no cenário da modinha brasileira.

Poeta popular, violonista, violinista, musicista afamado, bardo do povo, o autor de “ONTEM AO LUAR”, jamais encontrou quem o substituísse, devido à sua sublime inspiração, facilidade de rima, aproveitando de maneira auspiciosa motivos palpitantes para perpetuar nos seus versos e na sua musicalidade a misteriosa germinação do seu talento, como a semente que fecundou na terra e na alma do povo brasileiro.

Catullo transformou o acompanhamento, dando-lhe modulações imprevistas; entrou nos salões , e obteve calorosos aplausos, revelando a verdadeira beleza do violão brasileiro, nele entronizando de novo, a nossa Modinha, que, lamentavelmente, estava ofuscada por músicas de baixa qualidade. Esse foi o seu maior título de glória, na sua época.

Catullo morreu, levando o segredo da espontaneidade, o segredo da rima cantante dos regatos, da inspiração misteriosa e cheia de brasilidade. Levou a beleza dos céus de nossa terra, o luar imenso das noites sertanejas vividas e sentidas nas serenatas do seu tempo, a graça e o sorriso das caboclas bonitas do Sertão, a paz bucólica dos campos e das fazendas.

O violão que era um instrumento desprestigiado, companheiro inseparável da boemia e badernas, foi reabilitado por Catullo, que o impôs nos salões, tornando-o um irmão do piano, do violoncelo e do violino.

Entre suas inúmeras e belíssimas canções, estão “ONTEM AO LUAR”, “SERTANEJA” e “LUAR DO SERTÃO”, que se eternizaram.

CATULO DA PAIXÃO CEARENSE

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ANTIGA LIÇÃO DE DIREITO

Era o primeiro dia de aula de um Curso de Direito. A alegria tomava conta da sala, onde os alunos já se sentiam futuros bacharéis.

Emocionados, respeitosamente, receberam de pé o elegante professor de Introdução ao Estudo do Direito, que os cumprimentou e mandou que todos se sentassem. Após observar demoradamente e com seriedade todos os alunos, o professor fixou o olhar num rapaz franzino, tímido e de óculos, que estava sentado na primeira fila, e em voz alta, perguntou-lhe o nome.

O rapaz respondeu:

– Meu nome é Francisco, professor.

Com voz estridente, o professor ordenou:

– Retire-se da sala de aula, e não volte mais, Francisco!

A turma mergulhou em silêncio sepulcral.

O aluno ficou perplexo, diante de tamanha brutalidade. Tinha certeza de que não fizera nada que justificasse sua expulsão da sala de aula. Apenas, respondera qual era o seu nome, conforme lhe fora perguntado. Humilhado, imediatamente, Francisco levantou-se, pegou sua pasta onde tinha lápis e papel, e se retirou.

A turma ficou assustada e indignada, diante da incabível grosseria do professor. Ninguém entendeu a razão da sua ira contra Francisco, que, da mesma forma dos outros alunos, apenas aguardava, atento, o início daquela que seria a primeira aula do Curso de Direito.

Todos perderam a voz. O silêncio continuou, até que o professor tossiu e começou a falar:

– Dando início à primeira aula do Curso de Direito, pergunto a vocês?

– Para que servem as leis?

Os alunos continuavam assustados, mas os mais desinibidos ousaram responder:

– As leis existem, para que se ponha ordem à sociedade em que vivemos.

– Não! – respondeu o professor.

– Para que seja possível a convivência humana! – disse outro aluno.

– Não! Contestou o professor.

Para que as pessoas paguem pelos erros cometidos!

– Não!

E o professor continuou a falar, indignado:

– Será que, entre tantos alunos, nenhum sabe dar uma resposta correta?

Até que, timidamente, uma aluna respondeu:

– Para que haja Justiça!

O professor, eufórico, respondeu:

– SIM!!! Até que enfim!!! É isso mesmo!!! … Para que haja Justiça!

– E para que serve a Justiça? – Perguntou o professor, com hostilidade.

Todos começaram a se irritar com a atitude grosseira do professor. Mesmo assim, continuaram dando suas respostas:

– Para preservar os direitos humanos…

– Certo! E o que mais? – perguntou o professor.

Os alunos continuaram respondendo:

– Para separar o joio do trigo! Para distinguir o certo do errado! Para premiar aquele que fez o bem e punir aquele que fez o mal!

O professor vibrou:

– Muito bem! Mas, me respondam: Agi certo, ao expulsar Francisco da sala de aula?

– Não! – a resposta dos alunos foi uníssona.

O professor insistiu na pergunta:

– Podem me dizer se cometi uma injustiça com Francisco?

Todos os alunos responderam:

– Sim!!!

O professor, então, retrucou:

– E por que ninguém protestou diante da injustiça que eu fiz?!!!.Para que queremos leis e regras, se não dispomos da coragem necessária para praticá-las?

– Cada um de vocês tem a obrigação de reclamar, quando presenciar uma injustiça. Todos. Não voltem a ficar calados, nunca mais!

– Vão chamar Francisco! – disse o professor com voz austera, olhando fixamente para todos os alunos.

Acabrunhado, Francisco relutou em voltar. Foi preciso que os outros alunos fossem chamá-lo, acompanhados do professor, que o abraçou e lhe pediu desculpas, por tê-lo usado como exemplo do que vem a ser uma injustiça.

Naquele dia, os alunos do Curso de Direito receberam a mais importante lição que poderiam receber:

“O DIREITO NÃO SE NEGOCIA”.

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MALDADE SEM LIMITE

Charles não era príncipe, não era rico nem filho de político. Um rapaz simples, tímido e pobre, “gente que a gente não vê, porque é quase nada”. Era mais bonito do que certos príncipes.

Nos contos de fadas, todos os príncipes são bonitos.

Depois de adultos, entendemos que isso não existe. Pelo menos, os príncipes que as revistas mostram são feios pra burro.

Charles tinha o raciocínio rápido, o que é sinal de inteligência. Seu grande defeito, na opinião de dona Matilde, sua mãe, era ser honesto e não saber mentir. Jamais poderia ser político. Charles nem mentia nem deixava ninguém mentir na sua frente. Desmentia em cima da bucha e Isso incomodava muita gente. Charles nasceu no interior nordestino, se acostumou com a pobreza, mas não com a miséria. Sua mãe o incentivava a frequentar a escola e aprender a ler, para trabalhar em loja ou em fábrica. Charles tinha bons sentimentos. Não maltratava animais, nem pessoas. Respeitava a todos.

Desde cedo, a mãe de Charles percebeu que ele era diferente dos outros filhos, nos gostos e temperamento. Detestava mentiras, mesmo que fossem por conveniência. Só dizia a verdade. A verdade “verdadeira”. Não a verdade por conveniência. Dona Matilde não cansava de aconselhar o filho, dizendo-lhe sempre que nem toda verdade deveria ser dita. E ele passou a engolir em seco, procurando abafar suas palavras.

Ele se tornou antipatizado e antissocial.

Entre outras esquisitices, Charles pensava livremente e por conta própria. Ainda adolescente, dizia tudo o que lhe vinha à cabeça, e passou a ser visto como um contestador do regime de governo. A mãe combateu esse seu costume, mas de pouco adiantou.

Os professores se indignavam, porque ele perguntava demais. Tinha ideias próprias e contestava o que ouvia nas aulas, principalmente de História.

Um parente o aconselhou a se tornar bacharel em Direito, tentando convencê-lo:

“-Bacharel é o princípio de tudo! Seja bacharel, e você terá tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo ser subserviente e adulador, você chegará a deputado ou ministro.”

Indignado, Charles protestou e disse que só tinha vontade de trabalhar, e jamais seria puxa-saco de político.

O intolerável parente insistiu:

-“ Trabalhando, sem ser bacharel, você vai ser um Zé-ninguém; um empregado medíocre. Vai trabalhar para os outros, quando podia trabalhar para você mesmo.”

Charles respondeu:

-Eu discordo de você, e assunto encerrado!

Charles arranjou um emprego de balconista numa loja, mas foi logo despedido, sem explicação. Mudou de emprego várias vezes, mas destoava de todos os empregados. Por trás dos seus óculos pesados, de “fundo de garrafa”, era cumpridor dos seus deveres. Chegava antes da hora, e era sempre o último a sair.

De poucas palavras, Charles era introvertido. Não falava de sua vida pessoal e não conseguia fazer amigos.

A fama de Charles era gostar muito de trabalhar. Sempre ia além das ordens que recebia do patrão. Isso, os colegas de trabalho não suportavam, e o xingavam de bajulador. Faziam a cabeça do chefe contra ele, até que fosse despedido.

Sua dedicação ao trabalho despertava a ira dos colegas.

Desiludido com a maldade humana, Charles chegou à conclusão de que só vence na vida quem diz sim a tudo e a todos. Contestar não adiantava, pois, na vida, quem anda na linha, “o trem pega”.

O caminho que faz mais sucesso na convivência humana é o da bajulação. E esse caminho, ele jamais percorreria. Entretanto, nunca viu, em sua vida, ninguém prosperar, agindo como ele. Por mais que se esforçasse no trabalho, não galgava nenhum lugar de destaque. Enquanto isso, os bajuladores e desonestos alcançavam os “postos” mais altos.

Charles entrou em depressão, sentindo-se um homem fracassado.

A saúde lhe faltou e ele se fechou em casa, para desespero de sua mãe. A depressão o levou com ele, e com todos os antidepressivos de uma só vez.

Assim como o Alfredo de que falou o poeta Vinícius de Moraes, Charles também era gente que a gente não via, porque era quase nada.

Um homem chamado Alfredo – Canção de Toquinho e Vinicius de Moraes

O meu vizinho do lado
Se matou de solidão
Ligou o gás, o coitado
O último gás do bujão

Porque ninguém o queria
Ninguém lhe dava atenção
Porque ninguém mais lhe abria
As portas do coração

Levou com ele seu louro
E um gato de estimação

Há tanta gente sozinha
Que a gente mal adivinha
Gente sem vez para amar
Gente sem mão para dar
Gente que basta um olhar, quase nada

Gente com os olhos no chão
Sempre pedindo perdão
Gente que a gente não vê
Porque é quase nada

Eu sempre o cumprimentava
Porque parecia bom
Um homem por trás dos óculos
Como diria Drummond

Num velho papel de embrulho
Deixou um bilhete seu
Dizendo que se matava
De cansado de viver

E embaixo, assinado Alfredo
Mas ninguém sabe de quê