A Praia de Camurupim está localizada no litoral sul do Rio Grande do Norte, no município de Nísia Floresta, a cerca de 30km da capital, Natal. É uma das praias mais bonitas do Estado.
Pois bem. Andrea era ainda menina, e com a mãe aprendeu a fazer cocada de coco com leite condensado. Sua família possuía uma pousada na Praia de Camurupim. Logo as cocadas passaram a fazer parte das sobremesas da pousada, e se tornaram um sucesso. De sabor inesquecível, quem comesse daquelas cocadas, jamais esqueceria o sabor.
Na Praia de Camurupim, as cocadas tornaram-se conhecidas e preferidas pelos veranistas. Eram a principal sobremesa. O seu gosto permaneceu na lembrança da freguesia, mesmo depois que a pousada fechou.
O tempo passou, a pousada foi vendida, e há vários anos a família de Andrea é proprietária de um atelier, onde se faz consertos de roupas, num bairro nobre de Natal.
O pai já faleceu, mas ela e a mãe trabalham diariamente no atelier, com o auxílio de competentes costureiras. É o melhor atelier da cidade.
Por saudosismo e por gostar de cocada, uma vez por outra Andrea leva para o atelier, como lanche, uma “produção” caseira de cocadas, iguais àquelas que fazia com a mãe, quando era menina, na pousada da Praia de Camurupim.
Na verdade, Andrea nunca deixou de fazer cocada, uma das suas iguarias preferidas, e agora dos seus filhos.
Certo dia, presenteou uma cliente com duas cocadas, embaladas em plástico transparente e ornamentada com um lacinho de fita. Ao chegar em casa, a cliente, por ser diabética, repassou o presente ao casal de amigos que eram seus vizinhos.
A vizinha gostou muito e se emocionou, lembrando-se das cocadas que comia em Camurupim, nos veraneios da sua infância. Fez questão de pedir o endereço de Andrea. No dia seguinte, foi até lá, perguntar se aquelas cocadas haviam sido feitas pela mesma pessoa, que as fazia, décadas atrás, numa pousada da Praia de Camurupim, durante o veraneio.
A sua emoção foi grande, ao descobrir que Andrea do atelier, hoje casada e mãe de família, era a mesma pessoa que, ainda menina, ajudava a mãe a fazer aquelas cocadas maravilhosas e inesquecíveis.
As duas mulheres se abraçaram, emocionadas com o reencontro. De repente, as lembranças de uma infância feliz tomou conta delas.
Andrea chorou, ao se lembrar do pai, hoje falecido, e que, era o dono da Pousada de Camurupim. Era ele quem mais gostava das cocadas que a filha e a esposa faziam.
A língua portuguesa é muito rica, e possui expressões que remontam a personagens e fatos históricos, absorvidos pela sociedade e que tem se propagado através dos tempos.
Como exemplo, cito a secular expressão “Agora é tarde; Inês é morta”, hoje inserida na sabedoria popular e em composições brasileiras, como Dona da Casa (Antônio Carlos & Jocafi – 1998). Quase todas as pessoas sabem o seu significado, mas nem todas tem a curiosidade de saber sua origem.
Pois bem. É à Inês de Castro (1323 a 1355), que se refere esse jargão português.
Inês de Castro era a dama de companhia de Constança Manuel, esposa de Pedro I de Portugal, herdeiro da coroa portuguesa. Inês e Pedro I viveram uma grande paixão.
Logo a notícia do romance se espalhou pela corte, causando um grande desconforto à família real. O pai de Pedro I, o rei D. Afonso IV, ordenou o exílio de Inês de Castro no castelo de Albuquerque, na fronteira castelhana.
Mesmo assim, Inês e Pedro I continuaram amantes.
Apesar de casado, o então príncipe Pedro I manteve com Inês uma relação proibida, mas nem tão secreta, que gerou quatro filhos. Depois da morte da esposa oficial, a princesa de Castela Constança Manuel, Dom Pedro I, contrariando o pai, pôs fim ao exílio de Inês e a trouxe para a sua companhia, passando a viver com ela abertamente, o que gerou um escândalo na corte.
Álvaro Gonçalves, Pêro Coelho e Diogo Lopes Pacheco, conselheiros do rei Afonso IV, o pressionaram, no sentido de adotar uma atitude radical, com vista à execução de Inês. Temia-se pela perda da independência, pois os Castros pertenciam a uma poderosa família galega, que tudo faria para ver no trono um seu familiar. Em face dos argumentos utilizados pelos conselheiros, que exprimiam junto ao rei a vontade popular, D. Afonso IV autorizou a degolação de Inês de Castro, em 7 de Janeiro de 1355, conforme o testemunho documental Chronicon Conimbrigense.
Com a morte de D. Afonso IV, D. Pedro I foi declarado rei de Portugal.
Como autoridade real, declarou que se havia casado clandestinamente com Inês, com quem tivera quatro filhos.
Dessa forma, na condição de rei, D. Pedro I concedeu à falecida Inês de Castro, o título póstumo de rainha de Portugal. E de forma assombrosa, colocou o cadáver putrefato de Inês no trono, pôs uma coroa em sua cabeça e obrigou toda a corte a beijar-lhe a mão.
Mesmo assim, era impossível ao rei, exercer o reinado ao lado de uma rainha morta. Nada mais a traria de volta à vida.
Daí, surgiu a expressão “Agora é tarde; Inês é morta”, como uma coisa que não tem mais jeito.
O caso se trata de uma tragédia, história de final macabro, tal qual Romeu e Julieta, de William Shakespeare, com a diferença de que foi uma história real, que teve como palco as cidades de Coimbra e Alcobaça, em Portugal, enquanto Romeu e Julieta se trata de uma ficção.
O episódio ocupa as estâncias 118 a 135 do Canto III de Os Lusíadas, de Luís de Camões, publicado em 12 de março de 1572. O poema relata o assassinato de Inês de Castro, em 1355, pelos ministros do rei D. Afonso IV de Borgonha, pai de D. Pedro I, seu amante. É narrado, em sua maior parte, por Vasco da Gama, que conta a história de Portugal ao rei de Melinde.
O poeta seguiu parcialmente a História de Portugal, quando se referiu à paixão do príncipe herdeiro pela aia da sua mulher. E conta que, apesar das súplicas de D. Inês, as pressões dos conselheiros foram mais fortes, sobrepondo-se às razões de Estado ao direito à própria vida. Esta morte originou uma discórdia entre o príncipe e o rei, a quem Pedro I responsabilizou pela execução da amada.
Durante muito tempo, as relações entre ambos permaneceram em conflito, até à celebração do Instrumento do pacto de amnistia e concórdia, entre D. Afonso IV e seu filho D. Pedro I, após a grande intriga que houve entre os dois por causa da morte de D. Inês.
Depois da morte de D. Afonso IV, D. Pedro I subiu ao trono para vingar Inês, apesar de anteriormente ter jurado perdoar os conselheiros de seu pai.
Álvaro Gonçalves e Pêro Coelho, que se encontravam resguardados no reino vizinho, foram devolvidos a Portugal pelo rei de Castela, que fizera um pacto neste sentido com o rei português. D. Pedro I foi assistir ao massacre destes dois responsáveis pela execução de D. Inês, sujeitando-os a uma cruel morte, em que lhes foi arrancado o coração. Diferente destino teve Diogo Lopes Pacheco, que escapou à terrível vingança, por não se encontrar em casa nessa ocasião e ter fugido, logo que o avisaram do sucedido.
D. Pedro I pretendeu provar que casara, clandestinamente, com Inês de Castro, por temer o pai. Em Julho de 1360, prestou juramento e apresentou como testemunhas do acontecimento D. Gil, Bispo da Guarda, e Estêvão Lobato, um empregado do rei. No entanto, esta tardia declaração levantou muitas dúvidas relativamente à sua veracidade. Também não há a certeza moral da sua nulidade (bem ao contrário).
Luís de Camões descreveu o romance entre Inês de Castro e D. Pedro I, mesclando-o com passagens saídas de sua imaginação poética. Inicialmente, apresenta a linda donzela inserida num cenário idílico, onde há uma tranquilidade e beleza condizentes com o mútuo amor que unia o casal, como transparece nos seguintes versos:
“Estavas, linda Inês, posta em sossego, De teus anos colhendo doce fruto, Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a Fortuna não deixa durar muito, Nos saudosos campos do Mondego, De teus formosos olhos nunca enxuto, Aos montes ensinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas. (Canto III, est. 120)”
Em Nova-Cruz (RN), há décadas, entrando pelo século passado, o casal Dona Rita e Seu Nicanor recebeu um telegrama do Recife, comunicando que seu filho Zenilton, caminhoneiro, havia morrido num acidente de caminhão.
O clamor foi geral e a notícia se espalhou pela cidade, deixando a população arrasada. Todos lamentavam a morte do jovem rapaz.
Os pais e irmãos choravam desesperados, sem saber como se comunicar com a pessoa de Recife, que subscreveu o telegrama, pois o nome era desconhecido.
Nesse tempo, os meios de locomoção e comunicação eram limitados. O trem para Recife só partia às 3 horas da manhã. A família estava desnorteada, pois não tinha parentes em Recife e não sabia a quem se dirigir, para se inteirar dos detalhes do acidente, e saber se o corpo da vítima poderia ser trasladado para o sepultamento em Nova-Cruz.
O desespero tomou conta de todos, e ninguém sabia por onde começar, para providenciar o traslado do corpo do seu ente querido para Nova-Cruz.
O entra e sai na casa do casal era interminável e a solidariedade tomou conta da cidade.
Pois bem. No final da tarde, quando menos se esperava, estacionou um caminhão na frente da casa dos pais de Zenilton, e, como um fantasma, desceu da boleia a “própria vítima” do suposto acidente, bonzinho da Silva, intacto, sem entender porque havia tanta gente na casa dos seus pais, que era a sua própria casa.
Foi desmaio “a torto e a direito”, e nunca apareceu o responsável pelo telegrama. Havia mil suspeitos na cidade, rapazes astuciosos e baderneiros, capazes de forjarem qualquer coisa contra alguém, somente por maldade e para se divertir com o sofrimento alheio. Mas ninguém tinha provas de quem poderia ter sido, para poder acusar.
No final das contas, o suspeito principal terminou sendo o próprio Zenilton, que, depois de algum tempo, passou a dar ótimas risadas, quando alguém tocava no assunto do telegrama.
Seus pais, beirando os 60 anos, e sem acreditar que o filho estivesse vivo, demoraram a sair da prostração em que ficaram, com a notícia contida no telegrama.
É impressionante, como tem gente pra tudo neste mundo. E ainda sobra alguém pra tocar flauta.
Quase sempre, somos levados pelas aparências. Não somente pela aparência física, como por uma voz bonita, traquejo social, educação e cultura. A voz, então, é um fator que engana muito.
O que mais distancia as pessoas, não é o dinheiro, mas a educação e o caráter.
Aí, vem o ditado popular: “Nem tudo que reluz é ouro.” Nem sempre um elogio é verdadeiro. Muitas vezes, por trás de um elogio açucarado, existe ironia e despeito.
Antigamente, quando não existia televisão nas cidades do interior, à noite, a distração era conversar nas calçadas, onde se reuniam amigas e amigos verdadeiros. Nesse tempo, em Nova-Cruz, não existia ladrão, salvo ladrão de galinha. Podia-se ficar nas calçadas até tarde, compadrio tranquilamente, sem medo de malfeitor. E as amizades eram verdadeiras.
Era um tempo bem melhor, pois a era cibernética era utopia, e tudo era verdadeiro. As amizades e conversas eram “olho no olho”, sem espaço para demagogia.
As conversas na calçada eram uma higiene mental maravilhosa, como se a calçada fosse um divã de relax. As conversas eram desabafos de problemas do dia a dia, comuns a quase todas as famílias.
A solidariedade humana era a marca maior da vizinhança. Todos formavam uma irmandade e o compadrio era comum. Padrinhos, madrinhas e afilhados completavam as famílias.
O calor humano e a certeza de amizades sinceras eram o marco maior de uma época distante. Ninguém precisava falar por telefone, que não existia, e, quando muito, em assuntos urgentes, a comunicação era por cartas e telegramas. Notícia de tragédia, era comunicada através do telégrafo da estação ferroviária.
Pois bem. “Pra não dizer que não falei de flores”, vou falar sobre uma linda borboleta, que adorava flores, e foi eleita “miss” de um belo jardim.
Pois bem. – Miss borboleta, todas as manhãs, pousava em cada flor de um jardim, com toda sua graça. Todos a cercavam, queriam apalpá-la e contemplar de perto o fulgor de suas asas. Muito ancha por se sentir querida, “miss” borboleta, distribuía carinhos e deixava-se apalpar, de mão em mão. Não imaginava que nos dedos delicados que a apalpavam, ia deixando aos poucos o pó de ouro de suas lindas asas. Assim, de mão em mão, as asas perderam aquele tom dourado maravilhoso, orgulho das borboletas.
Aos poucos, “miss” borboleta perdeu o brilho e o viço, tornando-se uma borboleta sem graça. Os admiradores sumiram e ninguém mais a cortejava.
É o reverso da medalha. A “miss” borboleta sentiu arrependimento tardio, por não ter percebido, a tempo, que quem a cortejava somente queria o pó de ouro de suas asas.
A história de “miss” borboleta é a mesma de muitas pessoas vaidosas, que terminam sendo vítimas de suas próprias ilusões.
“Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão.” (Artur da Távola – 1936 – 2008)
A música brasileira sempre foi muito diversificada e rica, a começar pelas Modinhas do século passado, que eram poemas musicados, cheios de lirismo, e que encantavam seresteiros e boêmios apaixonados.
As serenatas eram verdadeiras declarações de amor, em forma de música, nas noites escuras ou enluaradas, quando a era cibernética era uma utopia. Não havia violões elétricos, e no silêncio da noite, as serenatas eram aguardadas com ansiedade, pelos corações enamorados.
Em Nova-Cruz (RN), onde nasci e me criei, demorou muito a ter energia elétrica. O progresso custou muito a chegar. Os violões elétricos não existiam, o que aumentava ainda mais o romantismo das serenatas, nas noites de luar.
São lembranças que o tempo jamais apagará.
O lirismo de antigamente sumiu no tempo e no espaço.
A música atual tem como focos principais a harmonia e o ritmo. A poesia vem em último lugar.
É a evolução dos tempos.
Décadas atrás, entrando pelo século passado, havia composições musicais, principalmente carnavalescas, com letras hilárias, de insultos à mulher. Eram músicas de xingamento e desforra, em brigas de casais, por causas variadas e hilárias, onde, costumeiramente, quem pagava o pato era a figura da sogra.
Um detalhe interessante é que os xingamentos, naquela época, não baixavam o nível, como acontece em muitos forrós atuais, de brigas de casais, onde as palavras mais inocentes são “rapariga, “cachorra” e “mulher de cabaré “.
Dando um mergulho no passado, encontrei estas canções antigas, hilárias, verdadeiros recados com desaforos, entre marido e mulher:
“FAUSTINA” , da autoria de Wilson Batista (gravada por Jorge Veiga e também por Moreira da Silva), e “CALA A BOCA, ETELVINA .
* * *
Faustina, corre aqui depressa, Olha quem está no portão É minha sogra com as malas, Ela vem resolvida a morar no porão. Vai ser o diabo, vamos ter sururu com o vizinho. Não estou pra isto, eu vou dar o fora, Decididamente, eu vou morar sozinho. É minha sogra, mas tenha paciência. Não há quem possa com essa jararaca. Meu sogro foi de maca pra assistência, Com o corpo todo retalhado à faca. Mas comigo é diferente, Não tenho medo desta cara feia, Pego a pistola e desperdiço um pente, Ela descansa e eu vou pra cadeia.
* * *
Eu já vi que a minha sina É viver pra te aturar Cala a boca, Etelvina Sossega a língua ferina Apague a luz Que amanhã vou trabalhar Vou me levantar de manhã cedo Que eu tenho medo de perder o trem Deixa-me dormir, por caridade Pois o trem da Piedade Não espera por ninguém quando vem
Nascida em 5 de maio de 1917, em uma família pobre da cidade de Rio Claro (SP) Dalva de Oliveira era filha de um carpinteiro mulato chamado Mário de Paula Oliveira, conhecido como Mário Carioca, e da portuguesa Alice do Espírito Santo Oliveira.
Em 1935, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, em busca de uma vida melhor. Passou a frequentar o Cine Pátria, onde conheceu seu grande amor Herivelto Martins e passou a cantar em dueto com ele. Iniciaram um namoro e, um ano depois, alugaram uma casa e foram morar juntos. Dalva era solteira e Herivelto Martins ainda estava casado no civil com outra mulher. A união dos dois só se consolidou oficialmente em 1937, quando saiu o desquite dele. Eles se casaram somente no civil, pois ainda não havia divórcio no Brasil. O casamento foi comemorado em um ritual de Umbanda, na praia, já que esta era a religião de Herivelto, embora Dalva fosse católica.
A união gerou dois filhos: Os cantores Peri Oliveira Martins, o Pery Ribeiro, e Ubiratan Oliveira Martins. Em 1947, as constantes brigas, traições e crises violentas de ciúme e humilhações por parte de Herivelto, fizeram com que o casamento fosse por água abaixo.
Muito ciumento, injúrias e difamações contra Dalva, foram publicadas por Herivelto, no “Diário da Noite.”
Por ser cantora, sempre era discriminada e apontada como dona de uma moral duvidosa. Estes escândalos forjados fizeram com que ela perdesse a guarda dos filhos, maldade postulada por Herivelto Martins. O Conselho Tutelar determinou que as crianças fossem internadas em uma instituição, sob a alegação de que a mãe não tinha condições morais de conviver com os filhos. Isso fez com que ela entrasse em desespero e depressão, aumentando as brigas entre o casal. Os meninos só poderiam visitar os pais nos finais de semana e datas festivas, e só poderiam sair do Internato, definitivamente, com dezoito anos. Dalva lutou muito pela guarda dos filhos, mas não conseguiu e sofreu bastante com isso.
Em 1949, o casal oficializou a separação, se desquitando, já que ainda não havia divórcio no Brasil.
Depois da separação oficial do casal e o fim da primeira formação do Trio de Ouro, Herivelto e Dalva iniciaram uma discussão, inclusive através das composições que gravavam, fato muito explorado pelos jornais e revistas da época. Depois de uma pequena turnê na Venezuela, Herivelto saiu de casa, e tirou de Dalva a guarda dos filhos, e os mandou para um internato. Passou a publicar em todos os jornais que Dalva era prostituta e que promovia orgias dentro de casa, o que resultou nas mencionadas agressões mútuas através de músicas que iam sendo gravadas.
Em 1946, Herivelto passou a namorar a aeromoça Lurdes Nura Torelly, uma mulher desquitada, que tinha um filho do primeiro casamento. Ela vinha de uma família rica, sendo prima do conhecido comediante de alcunha Barão de Itararé. Em 1952, o casal passou a viver junto, tendo oficializado a união em 1978. Herivelto e Lurdes geraram três filhos: Fernando José (já falecido), Yaçanã Martins e Herivelto Filho, além dele criar o filho de Lurdes como seu. O casamento durou 38 anos, até a morte de Lurdes, em 1990.
Em 1950, Dalva de Oliveira retomou a carreira solo, lançando os sambas Tudo acabado (J. Piedade / Osvaldo Martins) e Olhos verdes (Vicente Paiva), e o samba-canção Ave Maria (Vicente Paiva / Jaime Redondo), sendo os dois últimos, grandes sucessos da cantora.
Em 1952, depois de se consagrar mais uma vez na música mundial e ter sido eleita “Rainha do Rádio” de 1951, Dalva de Oliveira resolveu excursionar pela Argentina, para conhecer o país e cantar em Buenos Aires. Nessa ocasião, conheceu Tito Climent, que se tornou primeiro seu amigo, depois seu empresário e mais tarde, seu segundo marido. Então, Dalva se mudou para Buenos Aires, indo morar na casa de Tito, antes da união oficial. Dalva não queria mais ter filhos por conta de sua carreira, que tomava muito seu tempo, mas sempre quis ter uma menina. Por isto, adotou uma criança em um orfanato de Buenos Aires, a quem batizou de Dalva Lúcia Oliveira Climent. Dalva e Tito, após dois anos morando juntos, casaram-se oficialmente em um cartório na Argentina, e viveram juntos por alguns anos. No começo, a união era muito feliz, e criavam a filha com muito amor.
Depois de mais de quatro anos de casamento, o casal passou a viver brigando, também por conta da carreira de Dalva, que vivia viajando, e de seus filhos, a quem constantemente ela visitava no Brasil. Isso desagradava o marido, que queria que ela esquecesse sua carreira e seu passado no Brasil, e vivesse exclusivamente para ele e a filha, mas ela não acatou essa imposição.
Dalva era uma mulher simples e querida por todos. Fazia amizade com facilidade, e o marido não gostava dessa popularidade. Por ele, ela seria mais chique e requintada, sempre em cima dos saltos. Essa grande diferença de temperamentos, resultou em brigas e humilhações dele para ela, e o amor que os unia se diluiu no tempo e no espaço. O casal se separou e Dalva voltou para o Rio de Janeiro com a filha. Meses depois, Tito entrou na justiça, pedindo a guarda da menina, e ela voltou com a filha para Buenos Aires, onde entrou com um processo contra o marido. Para acompanhar o processo até o fim, Dalva de Oliveira deixou sua carreira no Brasil e passou a morar com a filha em Buenos Aires, até a decretação da sentença do Juiz.
Dalva e Tito passaram a brigar muito pela guarda da criança, com brigas verbais e mútuas acusações, mas Tito acabou usando as mesmas provas que Herivelto utilizou: As notícias mentirosas em jornais a respeito da moral duvidosa da cantora. Muito triste e infeliz, Dalva, perdeu a guarda de sua filha e voltou sozinha para o Brasil.
Ela retomou sua carreira, fazendo mais sucesso do que nunca. Em 1963, já há alguns anos separada, a separação oficial finalmente foi deferida pelo juiz, já que casamento entre estrangeiros, na época, demorava muito a ser transformado em divórcio.
Dalva de Oliveira voltou a Buenos Aires para assinar os papéis e se divorciou de Tito, voltando logo em seguida para o Brasil. Seus pequenos momentos de felicidade ocorriam quando seus três filhos a visitavam nas férias escolares de Janeiro. Iam visitar a mãe no Rio de Janeiro, e passavam um mês com Dalva, em sua mansão. A cantora cancelava todos os shows do mês para ficar com eles. Seu desejo era poder viver com os três, sempre juntos, um sonho que não pôde realizar. Os anos se passaram. Dalva vivia sozinha em sua mansão, e já havia se acostumado com a solidão.
Para compensar a tristeza, passou a ter relacionamentos sem compromisso, e namoros rápidos, sem pretensão de casar novamente. Também não tinha tempo de dedicar-se a um relacionamento, pois viajava o mundo em turnês musicais. Estava concentrada em sua carreira e fazendo mais sucesso ainda, quando, sem estar à procura, ela conheceu Manuel Nuno Carpinteiro, um homem vinte anos mais jovem, por quem se apaixonou perdidamente, e com quem redescobriu o amor. Com poucos meses de namoro, ele foi morar na sua casa. Com alguns anos juntos, se casaram oficialmente. Este foi o seu terceiro e último marido. Ao assumir o namoro, foi alvo de muitos preconceitos, mas preferiu fazer o que seu coração pedia.
Em 19 de agosto de 1965, Dalva e Manuel, na época ainda namorados, sofreram um grave acidente de carro. Ele dirigia o veículo embriagado, e acredita-se que haviam discutido por causa de ciúme. Manuel perdeu o controle, atropelando e matando quatro pessoas. Dalva ficou em coma durante alguns dias, teve afundamento no maxilar esquerdo, bacia fraturada e ficou com uma marca na bochecha que, apesar de vários procedimentos cirúrgicos, não foi possível a recuperação total. Ao saber que Dalva estava bem e fora de perigo, Manuel assumiu a culpa pelo acidente, pois na verdade era ele que estava dirigindo. Dalva se desesperou ao saber que haviam morrido quatro pessoas, e que ela teria que pagar as indenizações aos familiares das vítimas. Isso contribuiu para o seu prejuízo patrimonial.
Dalva de Oliveira morreu em 30 de agosto de 1972, na casa de saúde Arnaldo de Morais em Copacabana, na presença de seus filhos, Pery Ribeiro, Bily e Gigi, vítima de uma hemorragia interna, causada por um câncer de esôfago. Seu corpo está enterrado no Cemitério Jardim da Saudade, na Cidade do Rio de Janeiro.
Herivelto Martins & Pery Ribeiro – Ave Maria no Morro
O império dos cornos é o paraíso dos homens ricos, poderosos e “fuderosos” (com a devida vênia). Quanto mais dinheiro eles tem, mais se interessam por mulheres burras, mas belas, cujos filhos “são políticos ou tarados” (viva Juca Chaves!).
Insinuantes e de beleza chocante, mesmo à base de silicone, botox, ou bisturi, a beleza marmórea das mulheres “plastificadas”, para certos homens, compensa o custo-benefício.
O avanço da cirurgia plástica faz da estética do corpo um milagre. É uma pena que, para melhorar a beleza da alma e do caráter, não exista plástica, cadeia ou escola rígida que dê jeito. Ladrão nasce, cresce e morre sendo ladrão.
O mau-caratismo é uma doença crônica, que se manifesta logo cedo. Não tem cura. E fascina aqueles que recebem as migalhas do poder.
Há aqueles que metem a mão na massa, se locupletam com o dinheiro público e se dão bem. Outros não tem a mesma sorte. Passam a vida bajulando os peixões, e, como sardinhas, pagam o pato, na hora “h”, por tudo de mal feito que os grandes praticam. Só recebem as migalhas e a fama de maus.
Os mais fracos são usados como “boi de piranha”, nas roubalheiras e falcatruas praticadas pelos poderosos.
Ver as sardinhas pagarem o pato pela desonestidade dos tubarões, é revoltante. São atos criminosos, que adoecem as pessoas providas de sentimento humano.
Pois bem. Completando a salada, juntei “alhos com bugalhos”, só pra contrariar os que se consideram “certinhos”.
Somente os iguais aceitam a maldade que está sendo praticada nas imorais CPIs, mostradas na mídia.
Enquanto os grandes se banqueteiam com lagosta e caviar, regados a vinhos caríssimos, gargalhando, como se estivessem assistindo ao desenrolar da comédia humana, os peixes miúdos são humilhados, tendo a saúde e a família abaladas
Os “Andersons” da vida representam o boi de piranha da expressão popular brasileira. Os inocentes pagam pelos pecadores, que assistem de camarote à comédia humana.
“Boi de piranha” é uma expressão popular brasileira, usada para se referir a um indivíduo que é escolhido para levar a culpa pelo erro de um grupo todo, envolvido em tramoia. É usada quando alguém leva sozinho a culpa de um infortúnio.”
Alguém é sempre o “boi de piranha”, quando há uma situação de conflito no alto escalão da política do nosso País.
Segundo o professor Ari Riboldi, “o boi de piranha é aquele que se submete ou é submetido a um sacrifício, para livrar outra pessoa de uma dificuldade ou da culpa”.
No seu livro O Bode Expiatório, o professor conta que a expressão surgiu da antiga necessidade de atravessar o gado em rio com piranhas. O boiadeiro deveria escolher um animal velho ou mais fraco, feri-lo e colocá-lo na água em local acima ou abaixo do ponto de travessia. O sangue atraía as piranhas, que, rapidamente, devoravam o boi que sangrava.
Enquanto as piranhas devoravam o boi escolhido, os demais passavam pelo rio e seguiam a caminhada sem dificuldade e com êxito total.
É o que o Brasil está assistindo agora, estarrecido, na desastrosa CPI, que a mídia tem mostrado. Uma vergonhosa desumanidade.
Os corifeus do mal estão provocando choques anafiláticos no organismo social do nosso país.
Falta ao sistema político atual a moral social, que norteava os antigos governantes como Getúlio Dorneles Vargas e Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil de 1951 a 1956, e responsável pela construção da nova capital, Brasília – DF.
O boi de piranha sempre existiu, inclusive na política brasileira.
Caixinha, Obrigado – Juca Chaves – Gravação de 1960
Ave da família dos corvídeos, o corvo é caracterizado pela sua plumagem preta e é encontrado em quase todos os continentes. Popularmente, o corvo é interpretado como o sinal místico de mau presságio, do agouro e do azar.
No entanto, também pode simbolizar algumas características positivas, como a sabedoria, a astúcia e a fertilidade, na literatura e demais artes, principalmente como tema central de histórias fantásticas e de terror.
O escritor estadunidense Edgar Allan Poe se imortalizou através do poema se sua autoria, O Corvo, (The Raven, no original em inglês), e se popularizou como um dos autores mais icônicos do romantismo sombrio.
Os corvos tem as seguintes peculiaridades, que os tornam animais misteriosos e macabros:
São necrófagos (comem cadáveres); imitam o tom de voz de alguns animais incluindo os humanos; são predominantemente pretos, a cor atribuída tradicionalmente às trevas e ao que é obscuro e maligno.
Apesar da conotação negativa atribuída ao corvo na maioria das culturas ocidentais, diversas mitologias antigas tinham esta ave como um símbolo de proteção, regeneração e de mensageiro de boas energias.
Devido ao seu tamanho, sociabilidade e suas habilidades defensivas, o corvo comum tem poucos predadores naturais. Predadores de seus ovos incluem corujas, martas e outros corvos.
Pois bem.- Contam os alfarrábios milenares, através de uma fábula, que, em uma determinada época, os homens, cansados das agruras da guerra e dos horrores da caserna, resolveram fazer um pacto de paz.
Não haveria mais guerras, e eles passariam a viver o reino da paz, com a política da boa vizinhança. Haveria controle sobre as ambições humanas, e todos seriam felizes.
A ideia mereceu os mais fortes aplausos do Olimpo e de todos os lugares.
Mas, como tudo na vida tem um “mas”, surgiu um protesto violento, e uma dissidência inesperada, naquela frente única de civismo e humanidade.
Os responsáveis pelo protesto eram os corvos, que ficaram indignados, ao saberem desse absurdo pacto de paz entre os humanos.
Houve inúmeros discursos de protesto, pois os corvos eram excelentes parlamentares. Fizeram narrativas, sustentando que o sentimento da guerra era inato ao homem, e que
ninguém mais do que eles, os corvos, entendiam desse assunto. Somente eles conheciam a delícia da guerra, coisa que fazia parte da natureza humana.
Gritavam indignados, que a paz levaria o homem à ociosidade, mãe de todos os vícios.
Diziam os corvos em seus discursos acirrados, que as vicissitudes das guerras fazem o homem forte, corajoso, apto para o trabalho e para a luta. Sem as guerras, o homem não poderia defender a Pátria ultrajada, nem poderia vingar a honra nacional conspurcada pelos inimigos. Deixaria de existir o mais belo sentimento do homem: o Amor à Pátria.
Esses eram os argumentos dos corvos, para defender as guerras.
E as narrativas dos corvos venceram. As guerras continuaram campeando.
O patriotismo dos corvos, entretanto, estava intrinsecamente ligado ao estômago. Quanto mais guerras, mais compensações eles teriam. Com as guerras, a cadeia alimentar dos corvos estaria garantida.
Os corvos fizeram a defesa das guerras, não por sentimento de patriotismo, mas por amor ao estômago, se é que corvo tem estômago.
Para os corvos, o tempo da guerra é o tempo das vacas gordas: é quando eles tem muito com que encher o papo.
Os cadáveres dos soldados insepultos oferecem aos corvos ricos banquetes.
Nos dias atuais, não falta quem, como os corvos, aferre-se com unhas e dentes, na defesa de uma ideia, falando em nome do patriotismo, da civilização e do civismo, quando,
na realidade, as causas que movem esse ardor quixotesco são interesses secundários: a maldita fome do “ouro” e a insaciável ambição das riquezas, que leva, muitas vezes o ser humano a cometer crimes.
Estamos vivendo a era dos corvos, e do seu verdadeiro “patriotismo”.
Soneto do tempo do Ronca, encontrei “Amor Materno”, da autoria do poeta pernambucano Cyridião Durval (03.03.1860 – 17.10.1895), num caderno de poesias, escrito com a letra da minha saudosa mãe.
Com certeza, esse soneto, anos depois, deve ter servido de inspiração ao compositor e cantor Antônio Vicente Filipe Celestino (Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1894 – São Paulo, 23 de agosto de 1968 ), ao compor a canção “Coração Materno”.
Isaura, a mais cruel de todas as perdidas, Entre os braços de Fausto, o mísero rapaz, Disse um dia a sorrir: — “quem ama tudo faz, Exijo deste amor as provas decididas.”
Pede tudo, mulher, se queres destruídas As dúvidas que tens: ordena e então verás Se tenho amor ou não; de tudo sou capaz, Por ti arrancarei milhões, milhões de vidas!…
E a Dalila, soltando estridula risada, Disse a Fausto: — “pois bem, se tu não temes nada, Quero de tua mãe tragar o coração.
E o louco o foi buscar… De volta, no caminho Tropeçou e caiu… disseram-lhe baixinho: “Magoaste-te, meu filho?… Aceita o perdão.”
Cyridião Durval nasceu no dia 3 de março de 1860 em Tatuamanha, então distrito de Porto de Pedras, Alagoas. Filho de Rogério José de Santana e Teotônia Durval de Santana, teve os seguintes irmãos: Hermillo Durval, Manoel Durval, Fernandina Durval e Maria Durval Moreira, esposa de Manoel Moreira e Silva. Sua avó materna era Maria do Carmo Durval.
Foi na bela e aprazível Tatuamunha que aprendeu as primeiras letras com a ajuda de um professor público. Percebendo que o filho tinha gosto pelo estudo, seus pais o internaram em Recife, no Colégio Santo Amaro.
Depois foi transferido para o Ginásio Provincial, onde terminou o curso de humanidades em 1881 e diplomou-se em Direito pela Faculdade de Recife em 1885. Teve como colegas Martins Júnior, Clóvis Bevilacqua, Arthur Orlando, Porto Carneiro, Phaelante da Camara e outros.
Cyridião Durval faleceu no dia 17 de agosto de 1895, com apenas 35 anos de idade.
Por sua vez, Antônio Vicente Filipe Celestino, conhecido como Vicente Celestino (Rio de janeiro, 12 de setembro de 1894 – São Paulo 23 de agosto de 1968) foi um famoso compositor e cantor brasileiro, filho de imigrantes italianos, autor de inúmeras canções, entre as quais, “Coração Materno”, que, segundo ele, baseava-se numa lenda que teria mais de cinco séculos.
O tema do soneto “Amor Materno” (Cyridião Durval) e da canção Coração Materno (Vicente Celestino) é o mesmo. Ambos falam de um nefasto matricídio.
A gravação original de “Coração Materno” ocorreu na gravadora Victor, em 18 de março de 1937. Segundo os estudiosos do assunto, essa música, na época em que foi lançada, fez um sucesso estrondoso no rádio brasileiro.
Em 1951, Vicente Celestino e sua esposa Gilda Abreu lançaram o filme “Coração Materno”, estrelado por eles mesmos, e baseado na famosa música. O sucesso do filme foi bem menor do que o da canção.
Os antigos circos que percorriam o interior nordestino, com espetáculo de palco e picadeiro, cuja 2ª parte era uma encenação de uma peça de teatro, levavam a plateia às lágrimas, ao encenar a peça “Coração Materno”.
A música “Coração Materno”, de Vicente Celestino, sempre foi respeitada, até que surgiu no Brasil, o movimento musical Tropicália, comandado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros, que destruíram e ridicularizaram composições antigas de respeitáveis compositores, tentando reinventar a música brasileira.
Era a época da Tropicália, movimento de protesto, deflagrado pelos artistas da MPB, contra a situação política do País.
As músicas de protesto e o deboche imperavam entre os compositores de vanguarda. Revolta, censura, prisão, perseguição aos artistas de esquerda, tudo concorria para que os compositores e cantores revoltados com a censura se opusessem a tudo que prezasse pela ordem e costumes.
O cantor e compositor Caetano Veloso, na época com 26 anos, vindo do interior da Bahia, gravou “Coração Materno”, de Vicente Celestino”, num deboche gritante, segunda música do disco coletivo-manifesto Tropicália ou Panis et circencis, que pode ser visto como sua primeira grande performance vocal. Apesar de compor canções inteligentes e ter uma voz agradável, o artista, com sua veia irônica e visivelmente debochada, simulou uma homenagem ao respeitável cantor e compositor Vicente Celestino, que se sentiu humilhado ao assistir ao ensaio geral do show da Tropicália, onde se encenava uma cena bíblica com Gilberto Gil representando Jesus Cristo e a multiplicação dos pães feita com bananas.
Caetano Veloso gravou “Coração Materno”, em tom satírico, com barulho exagerado de baterias, guitarras e distorções, inserindo essa canção no álbum manifesto do movimento Tropicália. E prepararam um espetáculo tropicalista, dirigido por José Celso Martinez Correa, com vistas a se tornar um programa de TV.
Convidado pelos tropicalistas, para participar do show, Vicente Celestino foi antes assistir ao ensaio geral e ficou indignado: “Um Cristo negro eu ainda admito, mas bananas no lugar dos pães já é um desrespeito”. O Cristo era Gilberto Gil.
Contrariado, Vicente Celestino voltou ao seu hotel em São Paulo e neste mesmo dia, coincidência ou não, faleceu, de um ataque cardíaco.
Caetano afirma em suas memórias ter ouvido a canção na infância e gostado muito, no que conheceu e sofreu o “patrulhamento do gosto”.
Questionado sobre a origem de sua inspiração, em sua biografia, O hóspede das tempestades, Vicente Celestino afirmou ter escrito a letra a partir de uma lenda medieval. Mas as palavras, os detalhes, a narrativa e os estados latentes, no entanto, são seus e não uma mera adaptação.
Resgatada pelos tropicalistas, a canção adquiriu força potencial e anárquica, e, literalmente, matou o autor.
O desrespeito a Vicente Celestino foi gritante. Mesmo um ouvinte que houvesse adquirido o álbum em 1968, ocasião do seu lançamento, vendo no encarte a previsão de uma versão de “Coração Materno”, mesmo conhecendo os tropicalistas, não esperava o exagerado barulho com baterias e guitarras, e distorções absolutas de melodia, num verdadeiro achincalhamento, ultrapassando o limite da paciência de um ouvinte tradicional.
Mas, Caetano explicou a sua versão de “Coração Materno” como sendo totalmente tropicalista. A execução da canção, ele considerou tecnicamente impecável. “A contravenção do arranjo de cordas mencionada se deve a sutis humores esquizofrênicos que atravessam a orquestração e que na original inexistem – pelo caráter adulatório, típico dos arranjos comerciais, adotado por esta.”
De acordo com a crítica, o canto de Vicente Celestino é másculo, heroico, voz de tenor, arrebatado em expressividade, mostrando o sotaque rústico do europeu abrasileirado. Já o canto de Caetano é, sobretudo, andrógino, macio e pausado. Traz a dicção que conhecemos como urbana ou “correta”, pronunciando as palavras com lentidão, exatidão e contenção.
A pseudo-apropriação tropicalista destruiu a música de Vicente Celestino e feriu sua autoestima.
Vicente Celestino, em fato bruto e sintomático, falece em agosto de 1968, aos 74 anos, no exato dia em que faria uma apresentação com os tropicalistas.
Zé de Rosa não era de reclamar. Era muito econômico e vivia dentro das “quatro linhas” do dinheiro do seu salário de ferroviário. Família grande, com esposa e cinco filhos, aguardava com ansiedade o décimo terceiro.
Quando saía o pagamento, esse dinheiro já tinha destino certo. Junto com a esposa Elza, os dois compravam calçados novos, para eles e os filhos, e cortes de tecidos para que ela, que era costureira, confeccionasse as roupas que eles vestiriam nas festas de natal e final de ano.
Do dinheiro do décimo-terceiro, não sobrava um “tostão”. Além de calçados e tecidos, Zé ainda gastava com presentinhos de Natal, que costumava dar a alguns familiares.
Não tinha para onde correr. Terminava o final de ano “liso, leso e louco”.
Fazia tudo para não dever a banco. Conseguia esse propósito, com muito sacrifício, até o final de novembro.
Quando entrava dezembro, tudo se desmantelava novamente, por causa das “despesas natalinas”, que desequilibravam suas poucas finanças.
Zé de Rosa era mais um pobre brasileiro “da Silva”, assalariado, que via tocha todo final de ano. Só entrava o ano novo devendo muito. Já estava ficando careca e não conseguia se aprumar.
A luta contra o consumismo, o delírio provocado pelas propagandas da televisão, e a tentação do pagamento em “parcelinhas”, oferecidas pelo cartão de crédito, que se arrastaria durante todos os meses do ano seguinte, levavam Zé de Rosa a um dilema: “Dever ou não dever.” E a roda-viva, de compras de final de ano, levava Zé de Rosa à depressão.
Mal entrava o novo ano, vinham as obrigações com IPTU, matrícula dos filhos em colégios, e material escolar.
Desesperado, no ano que passou, resolveu fazer uma lista de compras prioritárias, para as crianças pobres da sua própria casa: seus filhos.
Se continuasse dando “festas” à família toda, como costumava fazer, mesmo tendo recebido o décimo- terceiro, seria obrigado a contrair dívidas para pagar em parcelinhas.
Resolveu encarar a esposa e abrir o jogo. Teriam de conter os gastos. Afinal, eles tinham cinco filhos para sustentar. Aliás, esta cena acontecia todos os anos, religiosamente.
Ao entrar o novo ano, Zé de Rosa sempre “caía na real”. Observava que o custo-benefício dessas festas de final de ano não compensava. Materialmente, só tinha prejuízo. Como ele aniversariava uma semana depois do Natal, nessa noite, todos se justificavam, dizendo que só lhe dariam a lembrança de Natal no seu aniversário.
Lógico que o mais importante não era a troca de presentes e sim o calor humano, que toma conta das pessoas na mágica Noite de Natal. Mas ele não podia mais “abarcar o mundo com as mãos”. A situação financeira dele estava “russa”. E, mais uma vez, entregou os pontos.
Como sempre acontecia, tentou convencer a família de todos passarem as festas de fim de ano numa praia. E os costumeiros presentes passariam a ser distribuídos somente nos respectivos aniversários.
A ideia não foi aceita. Todos protestaram, indignados, e terminou havendo a reunião do Natal em sua casa, do mesmo jeito. E a harmonia da família reunida, como sempre acontecia, compensou qualquer preocupação com parcelinhas.