VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

COALHADA COM RAPADURA

Coalhada e rapadura

Numa das campanhas eleitorais para Governador do Estado, um conhecido deputado estadual, candidato à reeleição, após um comício numa cidade do interior, foi dormir em sua fazenda, que ficava a poucos quilômetros de distância. De manhã cedo, acordou com alguém batendo palmas no portão da sua propriedade. Era a esposa de um antigo eleitor, à procura de socorro para o marido, que, desde a noite anterior, encontrava-se passando mal. Segundo ela, durante o jantar, ele havia exagerado na coalhada com rapadura, e pouco tempo depois, começou a passar mal. Deitou-se com o estômago muito cheio e logo que adormeceu, começou a passar mal. Ainda não tinha parado de vomitar. Quanto mais remédio caseiro tomava, mais aumentava sua indisposição. Já estava perdendo as forças, muito pálido e suando frio.

Como se encontrava em plena campanha política, o deputado viu-se na obrigação de transportar o doente para Natal, no seu luxuoso carro, à procura de socorro médico. Mandou, então, que o colocassem deitado no banco de trás, muito bem forrado, com a cabeça no colo da esposa, e sentou-se no banco da frente, ao lado do motorista.

A violenta indisposição gástrica, realmente, havia derrubado o seu fiel eleitor, que agora estava passando por maus momentos. Após uma noite inteira de fermentação, a barriga do homem, cheia de gazes, parecia um zabumba.

O gesto de solidariedade do deputado, para ele, iria comover as pessoas da redondeza, e, com certeza, seria uma forma de angariar mais votos para a sua reeleição. Por isso, fez questão de acompanhar o doente a um pronto-socorro da capital do Estado.

Nessa época, as estradas eram de barro e esburacadas. Com os constantes solavancos do carro, o mal-estar do doente aumentou, ainda mais, durante a viagem. O pobre coitado sofria com os balanços e com os “embrulhos” no estômago. Não parava de vomitar.

Muito encabulado, mesmo trincando os dentes, não podia evitar que os salpicos dos resíduos estomacais atingissem as costas do deputado. A coisa foi ficando feia, e o deputado olhou para trás, visivelmente irritado, ao sentir sua camisa molhada de vômito. Estava bastante chateado e arrependido de estar transportando o doente na sua “Hilux”. Num dado momento, o parlamentar olhou para trás e resmungou um palavrão. O velho eleitor percebeu a sua irritação, e então, num humilde pedido de desculpa, balbuciou:

– Calma, “cumpade”…o soro sai, mas a “quaiada” fica…

O pior é que o mau cheiro de fezes se misturava com o de vômito azedo.

O paciente foi levado ao melhor Pronto Socorro de Natal, onde foi medicado, permanecendo internado até o dia seguinte.

O deputado não podia mais disfarçar sua ira. Entretanto, sabia que sua “generosidade” faria com que conseguisse mais votos.

Essa viagem deixou o deputado tão contrariado, que, para esquecê-la, trocou de carro na mesma semana, e fez uma jura de nunca mais fazer sua “Hilux” de ambulância, para eleitor nenhum.

A infecção intestinal, ou no português rasteiro, a “caganeira” é fator nivelador da igualdade humana, e ninguém está livre dela. Seja rico ou seja pobre, não importando a classe social, o homem sempre estará sujeito a esse tipo de constrangimento.

Mas o deputado não se lembrou disso.

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OS ÓCULOS

Toninho era um homem de quarenta anos, boêmio, poeta, namorador e escritor. Vivia apaixonado…Separado da mulher, tinha desistido de se amarrar novamente. Gostava de paixões violentas e aventuras amorosas complicadas.

Mulher casada safada, se fosse bonita e gostosa, era com ele mesmo. Bonitão e insinuante, era também devorador de livros. Um intelectual.

Nas suas andanças pelas portas dos comes e bebes dos bares da vida, conheceu Rosalinda, quando ela e o marido saboreavam um opíparo almoço, em um dos melhores restaurantes da cidade.

A mulher, loura, nova e bonita, dona de um corpo escultural, cravou-lhe os olhos verdes, e Toninho se sentiu fortemente atraído por ela. Flertaram descaradamente, e o marido, almoçando de cabeça baixa, nem ao menos percebeu a troca de olhares entre os dois. Em certo momento, aproveitando a ida do marido da beldade ao banheiro, o conquistador Toninho arranjou um jeito de passar pela mesa do casal. Discretamente, entregou à mulher o seu cartão de apresentação, com telefone e endereço. Ela o guardou imediatamente.

No dia seguinte, Rosalinda lhe telefonou e os dois combinaram um encontro. Tornaram-se amantes fervorosos, passando a frequentar motéis, sempre durante o dia, no horário em que o marido se encontrava no seu consultório.

O tempo passou, e o romance se estendeu por meses.

Muito coquete, Rosalinda traía o marido, desde o início de sua vida de casada. Ele, muito ingênuo, vivia para o trabalho. O homem levava mais chifres do que pano de toureiro. Suspeitava da traição da mulher, mas não queria acreditar, pois a amava loucamente. Era o chamado corno “cuscuz” (abafado).

Os amigos já haviam tentado alertá-lo para os boatos maldosos que circulavam na cidade, sobre a suposta infidelidade da sua mulher, mas ele cortava o assunto, dizendo que isso tudo era inveja, por causa da beleza dela. Não se cansava de dizer que ela era uma santa.

O casal não tinha filhos, pois a mulher dizia que, por enquanto, não queria deformar seu belo corpo.

Num certo dia, o marido viajou para um congresso da área odontológica, em Fortaleza (CE). Avisou à esposa que somente estaria de volta no domingo pela manhã.

Feliz da vida, Rosalinda deu o sinal verde para que, no sábado, o namorado viesse encontrá-la em seu próprio apartamento. A farra foi grande. Foi um início de tarde maravilhoso, e tinha tudo para ser inesquecível. Os dois amantes não se cansavam de trocar carinhos, e o encontro prometia superar os anteriores. O sabor do fruto proibido contribuiu para isso. Afinal, eles usavam a própria cama onde Rosalinda e o esposo dormiam.

Mas a vida apronta grandes surpresas…

O marido de Rosalinda, sem “aviso prévio”, e pensando em agradá-la, antecipou sua volta para o sábado.

Quando menos esperavam, os amantes, quase exaustos da maratona amorosa, foram surpreendidos pelo barulho do carro do dono da casa entrando na garagem.

Apavorados, pularam da cama. Toninho vestiu a cueca, agarrou a calça e a camisa nos braços, e pulou a janela do quarto, correndo para o apartamento do vizinho, seu velho e conhecido amigo. Como era sábado, a rua estava deserta. Por sorte, o amigo ouviu sua voz e mandou que entrasse. Dentro do apartamento do vizinho, Toninho terminou de se vestir e, bastante nervoso, já se preparava para ir embora, quando pôs no rosto os óculos que trazia nas mãos. Notou, então, que aqueles óculos não eram os seus. Estava sem enxergar absolutamente nada, pois usava um grau muito mais forte´, chamado “fundo de garrafa”.

A ficha, então, caiu!!! Ele trocara seus óculos pelos óculos do marido da amante!!!

Apelou, então, para o amigo, e insistiu para que ele fosse ao apartamento do dentista traído, efetuar a troca. Velho conhecedor das peripécias amorosas do poeta, mesmo vendo a sua aflição, o amigo recusou-se a atendê-lo. Naquela hora, isso seria coisa de louco! Seria humanamente impossível!!!

Rindo muito, disse para o poeta que ele criasse juízo. Não aprovava suas loucuras, nem iria arriscar sua vida, se envolvendo num caso sórdido e leviano.
De repente, o dentista traído bateu na janela do vizinho, trazendo nas mãos os óculos do poeta e pedindo pelo amor de Deus que ele devolvesse os seus. Tinha percebido que o traidor, seminu, entrara no apartamento do vizinho, carregado de pertences, e com certeza havia, por equívoco, deixado os seus óculos “fundo de garrafa” e levado os dele.”

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A FORÇA DOS HÁBITOS

Os hábitos mudam e o modismo se renova constantemente.

Antigamente, quando se queria dizer que algum acontecimento social tinha sido muito bom, bastava segurar na ponta da orelha e dizer “foi daqui, ó!, da pontinha da orelha”, e estava proclamada a excelência do objeto indicado.

Com o simples gesto de segurar a pontinha da orelha, dava-se opinião sobre vinho, mulher, cavalo, culinária, versos, quadros, finalmente, tudo o que envolvesse a sensibilidade humana. Sem discussão ou polêmica. Segundo os estudiosos, em Portugal, o gesto de se pegar no lóbulo da orelha, em sinal de aprovação a alguma coisa, continua sendo usado, e faz parte da mímica tradicional de comunicação.

A sociedade sempre esteve em ebulição, com renovação de hábitos e lançamento de modas.

Muitas pessoas são escravas do modismo, enquanto outras são indiferentes ao mundo da moda e da futilidade.

A começar pelos cabelos multicoloridos, com vários comprimentos e estilos, adotados, preferencialmente, pelos jovens, o modismo está sempre presente. Uma hora são encaracolados, outra hora são trançados, outra hora com diferentes texturas, e por aí, vai o mundo girando, como uma roda viva do cotidiano.

Há alguns anos, caiu no gosto do povo brasileiro, principalmente dos nordestinos, a alimentação complementada com vários tipos de sementes, como chia, quinoa, linhaça, gergelim, semente de girassol, semente de jerimum, semente de maracujá e outras.

O modismo trouxe outras novidades e já não se fala tanto dos benefícios dessas sementes à saúde. Até o alpiste, alimento de passarinho, já foi introduzido na mesa do nordestino, misturado com água, como remédio milagroso para gota. O tempo passou e não se fala mais nisso, nem se conhece os “milagres” do alpiste. Continua sendo ótima alimentação para passarinhos.

Os costumes também sofreram mutação no tempo, no que se refere às crendices populares. Já não se fala em olho grande ou mau olhado, uma cisma centenária e verdadeira.

Não se diz mais que uma planta morreu por causa de olho grande, nem que um bebê adoeceu por causa de mau olhado. Mesmo assim, a maldade do ser humano continua existindo. Mas, ainda há valores que nos induzem a acreditar que tudo vai melhorar.

Por enquanto, para as rezadeiras ou benzedeiras, como Dona Gina, não falta trabalho.

Pessoalmente, acredito que o olho grande e a inveja continuam existindo.

Mesmo assim, o dicionário Houaiss define “superstição” e “crendice”, como “a crença ou noção sem base na razão ou no conhecimento, que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas, a depositar confiança em coisas absurdas, sem nenhuma relação racional entre os fatos e as supostas causas a eles associados”. Ou seja, é acreditar em fatos ou relações sobrenaturais, fantásticas ou extraordinárias e que também não encontram apoio nas religiões ou no pensamento religioso.

As crendices e superstições são vestígios de um passado em que o ser humano tinha uma visão mágica do mundo, acreditando que diversos fatores sobrenaturais podiam interferir diretamente no seu dia-a-dia. Esse modo de pensar foi se transmitindo de geração a geração, em especial entre as camadas populares, que foram mantidas à margem da evolução do conhecimento científico.

Segundo o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo, “as superstições participam da própria essência intelectual humana e não há momento na história do mundo sem a sua inevitável presença. A elevação dos padrões de vida, o domínio da máquina, a cidade industrial ou tumultuosa em sua grandeza assombrosa, são outros tantos viveiros de superstições velhas, renovadas e readaptadas às necessidades modernas e técnicas”.

Portanto, não é preciso ser pobre nem ignorante para ser supersticioso. Como diz o ditado, “não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”. Então, por via das dúvidas, mesmo as pessoas mais instruídas podem apresentar certos comportamentos supersticiosos.

O cientista dinamarquês Niels Bohr (1885-1962), que ganhou o Prêmio Nobel de física, por superstição, mantinha uma ferradura pregada acima da porta de sua casa.

Por sua origem popular, as crendices e superstições também integram o Folclore de um povo.

São muitas as superstições e crendices do Folclore Brasileiro. Entre elas, acredita-se que dá azar passar debaixo de uma escada, quebrar um espelho ou cruzar com um gato preto na rua. Muita gente também teme as sextas-feiras que caem no dia 13, especialmente quando se trata do mês de agosto – que é “mês de desgosto” ou “mês de cachorro louco”.

“Em bruxas eu não acredito, mas que elas existem, existem.” (Miguel de Cervantes, 1547-1616)

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UMA BELA AÇÃO

Há muitos séculos, Androcles, um escravo romano, foi levado pelo seu dono ao norte da África. Como o amo era muito perverso, a vida do escravo era de maus tratos e sofrimento. Por isso, o negro resolveu fugir, mesmo sabendo que corria o risco de ser morto, caso fosse capturado. Fugiu, para ver se chegava à costa, e se dali poderia voltar a Roma. Esperou uma noite escura e sem lua para sair, secretamente, da casa do amo. Atravessou a cidade e saiu para o campo.

No meio da escuridão, apressou a marcha, mas, com a luz do dia, viu que, em lugar de ter fugido para a costa, havia caminhado até um solitário deserto. Estava abatido, cheio de fome e de sede. Descobriu a entrada de uma caverna na base de uma colina, penetrou naquele local escuro, deitou-se no chão e dormiu o sono dos justos. De repente, despertou-o um terrível rugido, e de um salto pôs-se em pé, vendo à entrada da caverna um enorme leão. Assombrado, Androcles viu que tinha dormido no covil daquela fera e entendeu logo que, dali, já não poderia sair, pois o animal impedia a passagem. Esperava, horrorizado, que a fera saltasse sobre ele e o matasse. Mas o leão não se movia.

Queixava-se e lambia uma pata, da qual corria sangue. Androcles esqueceu o seu terror e, vendo o sofrimento da fera, aproximou-se. O leão levantou a pata como que a pedir-lhe auxílio. Androcles viu que o leão tinha nela um enorme espinho, que já lhe produzira grande inflamação. Num rápido movimento, extraiu o espinho, deteve a marcha da inflamação e estancou o sangue.

Aliviado da sua dor, o leão saiu da caverna e daí a poucos minutos voltou com um coelho morto, que pôs junto de Androcles. O pobre escravo assou o coelho e comeu-o. Depois, o leão conduziu-o a um sítio onde brotava na terra um manancial de água fresca.

Durante três anos, o homem e a fera viveram juntos, sempre caçando e comendo o que caçavam. Durante a noite, o leão repousava, estendido ao lado do seu benfeitor e movia a cauda de um lado para o outro, como um cão ou um gato que se deita aos pés do dono e se sente feliz.

Finalmente, Androcles sentiu desejos de se comunicar com os seus semelhantes e deixou a caverna, sendo logo preso por uns soldados e mandado para Roma como escravo fugitivo.

Os antigos romanos não tinham piedade com os escravos que fugiam e eram capturados. Por essa razão, Androcles foi condenado a ser despedaçado pelas feras no primeiro dia de festa no circo, que tinha o nome de Coliseu.

Uma grande multidão correu a presenciar o triste espetáculo, e entre os espectadores via-se o próprio imperador de Roma, que tinha no Coliseu a sua cadeira imperial. Rodeado pelos seus senadores, dali contemplava a cruel festa.

Empurraram Androcles para a arena e meteram-lhe na mão uma lança, para que se defendesse da fera que o atacaria. De repente, entrou na arena um enorme leão, que estava sem se alimentar há vários dias, a fim de que se tornasse mais feroz. Apavorado, o escravo se viu sem qualquer esperança de sobrevivência. Naquela arena, num ato festivo para o imperador, os senadores e o povo em geral, sua vida iria chegar ao fim.

Estremeceu, quando o leão esfomeado saiu da jaula. A lança caiu-lhe das mãos, ao ver que o animal, aos saltos, se dirigia para ele. Mas, em vez de o atacar e o derrubar, o leão agitou amigavelmente a cauda e lambeu-lhe as mãos. Então, Androcles viu que o leão era o seu companheiro da caverna. Acariciou-o, inclinou-se sobre a sua cabeça e chorou copiosamente. Ninguém entendia o que estava acontecendo. Incrédulo e decepcionado diante daquela estranha cena, nunca vista na história do Coliseu, o imperador ordenou que se encerrasse a frustrada execução do escravo. O que deveria ter sido uma apoteose, terminou numa grande frustração para as pessoas ávidas por torturas e mortes.

Não obstante, o povo ficou maravilhado com aquela prodigiosa cena, e o imperador mandou chamar Androcles, pedindo-lhe a explicação para o que havia se passado ali.

De tal forma o encantou a narrativa do escravo, que lhe concedeu a liberdade e a dignidade de homem livre, e deu-lhe uma importante soma em dinheiro. Dias depois, Androcles era visto, passeando pelas ruas de Roma, sempre acompanhado pelo seu leão, que o seguia por todos os lugares, como se fosse um cão fiel.

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UMA VIAGEM ATRAPALHADA

Íamos, eu e minha filha Diana, em outubro de 2013, ao XXXIX CONGRESSO NACIONAL DOS PROCURADORES DE ESTADO, a ser realizado em Porto de Galinhas (PE), cujo tema era:

“O Advogado público, as funções da cidadania e os 25 anos da Constituição de 1988. Porto de Galinhas – PE- Outubro de 2013.”

Preferimos ir de táxi, pois tenho pavor a viajar de avião.

Sabendo disso, um casal amigo nosso, me vendeu a ideia de contratar para nos levar a Porto de Galinhas, um excelente taxista, Seu Radir, da amizade dos dois, que eram seus compadres. Apesar de eu não conhecer ainda o motorista, aceitei viajar com ele, para Porto de Galinhas.

Eles mesmos telefonaram para Seu Radir para que eu falasse com ele e o contratasse para a esperada viagem.

Acertados o preço e o horário, no sábado, às sete horas da manhã, estava o táxi de Seu Radir na porta do edifício em que moramos, para nos levar a Porto de Galinhas.

Muito educado, o motorista se desculpou porque o carro não era novo, mas o importante, para mim, é que ele tivesse experiência com estrada e fosse cuidadoso.

Colocamos a nossa bagagem na mala do veículo e nos sentamos no banco de trás, muito mal acomodadas, tendo entre nós uma grande ampola portando combustível (gás), o que nos assustou.

Não gostei de viajar ao lado dessa ampola de combustível. Tive medo que explodisse. Mas, diante das excelentes informações que nossos amigos nos tinham dado sobre o motorista, procurei me controlar. Iniciada a viagem, me benzi e fechei os olhos por alguns minutos, pedindo a Deus para fazermos uma ótima viagem. Quando abri os olhos, estranhei a estrada que estávamos trafegando, pois o motorista não estava seguindo pela: BR 101.

Perguntei:

– Por que o Senhor não está indo pela BR. 101?

Muito calmo, o motorista respondeu que estava indo pela estrada certa e tinha muita experiência em viagens. Disse que o caminho certo para GALINHOS, perto de Macau (RN), era o que ele estava fazendo.

Fiquei gelada de raiva.

Perguntei o que tinha a ver Porto de Galinhas em Pernambuco, com Galinhos (RN).

O homem mudou de cor. Havia confundido os dois lugares e já estava perto de Galinhos.

Pedi imediatamente para voltar a Natal, para eu contratar um outro motorista que nos levasse a Porto de Galinhas.

O taxista chorou e garantiu que já tinha ido diversas vezes a Porto de Galinhas.

Apenas, dessa vez, sem querer, tinha se equivocado, e entendeu que a nossa viagem seria para Galinhos (RN).

Fiquei furiosa e pedi para voltar para Natal, pois o trato que eu tinha feito com ele era para nos leva a Porto de Galinhas, em Pernambuco.

Realmente, eu o tinha contratado para nos levar a Porto de Galinhas (PE), para a abertura do Congresso de Procuradores do Estado, que seria á noite.

Ao ver o equívoco que havia cometido, o motorista implorou para que eu o desculpasse e permitisse que ele retornasse e seguisse viagem para Porto de Galinhas.

Como eu já tinha pago o hotel e a nossa inscrição, concordei em continuar a viagem com o mesmo taxista.

Superado o problema do equívoco, prosseguimos viagem para Porto de Galinhas, o que durou oito horas.

Depois de duas horas de viagem, pedi ao motorista que ligasse o som do carro e pusesse o CD novo de Chico Buarque que eu levava na bolsa. Ele suspirou e respondeu:

– Como seria bom que isso fosse um som, meu Deus! Mas, de som, só tem a tampa!

E continuou:

– Esse carro (Corsa Classic) faz parte da “frota” de táxis de um conhecido vereador de Natal, e faz dois anos que o som quebrou-se. Ele diz ter levado o som para consertar, e até hoje não trouxe de volta.

Resultado: Fomos de Natal a Porto de Galinhas, sem, ao menos, um rádio para nos distrair, e com um precário ar condicionado.

Ainda bem que o encontro de Procuradores e o Congresso foram uma maravilha, e o show de encerramento com Alceu Valença compensou a viagem.

Como “castigo”, o tal vereador de Natal, dono da frota de táxis, nunca mais conseguiu se reeleger. Ainda se candidatou este ano, mas obteve pouquíssimos votos.

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“AS BREJEIRAS”

No interior nordestino, antigamente, o dia das eleições era um dia de festas, e muita comida nas casas dos candidatos, para alimentar os eleitores que vinham da zona rural. Era um dia divertido, apesar das brigas de rua, entre eleitores do PSD e UDN, com os “boca de urnas” tentando corromper os inocentes eleitores, que já sabiam em quem iriam votar e traziam as “chapas” para servirem de cola. Mas o perigo era a troca de chapas na boca de urna.

Em Nova – Cruz, cidade do interior do Rio Grande do Norte, se instalava um verdadeiro comitê, onde se trancavam conhecidos advogados venais, verdadeiros “medalhões”, vindos da capital, com a finalidade de fraudar as eleições. Eram títulos de eleitor tomados, chapas trocadas e no fim do dia, urnas adulteradas e “roubadas”. A polícia era obediente aos prefeitos e vereadores, e se limitava a prender cachaceiros, arruaceiros e fanáticos, que se agrediam na defesa de seus candidatos preferidos. Além dos eleitores vivos e ativos, também havia casos em que se flagrava pessoas com título eleitoral de pessoas já mortas, tentando votar.

Era um dia divertido, e a movimentação na cidade era grande. A animação e euforia eram maiores do que as que haviam nas festas de final de ano.

Eram comuns, nessas antigas eleições, o desaparecimento e a troca de urnas eleitorais, para o favorecimento de determinados candidatos. A apuração dos votos era lenta, manual e duvidosa, principalmente nas cidades do interior, como Nova – Cruz (RN), onde nasci e me criei.

Nas antigas eleições norte-rio-grandenses, era comum o desaparecimento de urnas eleitorais, após o encerramento da votação. Havia pessoas inescrupulosas e de “gabarito”, como certos advogados e latifundiários da capital, envolvidas nessas fraudes, mas, numa luta desigual; o que se sabia de verdadeiro, morria ali mesmo. A polícia nada podia fazer, diante da quadrilha de fiscais eleitorais, acobertados até a medula óssea, para pôr em prática as falcatruas planejadas para o dia das eleições.

Bem antes da era cibernética, as falcatruas marcavam a luta dos poderosos contra a pobreza. O que se sabia de fraudes morria ali mesmo. Triste de quem denunciasse. Ficava preso, sem pão e sem água, até que algum cristão se lembrasse de soltá-lo . Os conhecidos advogados e latifundiários do Rio Grande do Norte, responsáveis pela garantia dessas fraudes, eram protegidos pelo podres poderes que nunca deixaram de existir. A lei só punia ppp (preto, pobre e p…). Durante as eleições, só quem mandava na cidade eram os “podres poderes”. Os poderosos seriam capazes de destruir quem se opusesse contra eles e ficava tudo por isso mesmo.

Nessa época, o sistema eleitoral era precário e facilmente manipulável. Os fazendeiros ricos e cabos eleitorais compravam votos abertamente, ou negociavam os votos em troca de bens materiais, como dentaduras, óculos, pares de sapatos, cortes de tecidos, ou alimentos. Os “coronéis” alteravam votos e falsificavam títulos de eleitor, para que os eleitores pudessem votar várias vezes, em diversas seções, até mesmo com títulos de pessoas falecidas.

Um conhecido político e latifundiário de Natal, do PSD, era apontado como o principal mentor de fraudes eleitorais homéricas. Semianalfabeto, o homem era dono de um raciocínio rápido e maquiavélico. Dominava seu reduto eleitoral e seu apoio garantia a vitória de qualquer candidato. Seus adversários o acusavam de fazer fraudes nas votações e nos mapas eleitorais, conseguindo falsificar o resultado das urnas. Esse político tinha prestígio no Estado e também no âmbito federal. Liderava um grupo acostumado a fazer campanha política, eleição e apuração. Na época, não havia institutos de pesquisas, nem marqueteiros.

O medo das fraudes, na época apelidadas de “brejeiras” se espalhava tanto no partido da situação como da oposição.

Diz o folclore norte-rio-grandense, que o nome “brejeira”, caracterizando fraude eleitoral, surgiu numa eleição no município de São José de Campestre (RN). Nessa ocasião, o saudoso Deputado Djalma Marinho fora chamado para orientar o delegado do Partido, numa ocorrência, durante a contagem de votos. Ao subir os batentes da prefeitura, onde se realizava a apuração, o Deputado teria cumprimentado um matuto que se encontrava sentado num dos batentes da entrada da prefeitura, fumando um cigarro de palha (brejeiro ) e lhe teria perguntado:

– O que está acontecendo aqui?

O matuto respondeu:

-Tão dizendo que fizeram “brejeira”, doutor…trocaram as urnas verdadeiras por urnas falsas…

O Deputado Djalma Marinho teria achado graça da expressão dita pelo matuto e passou a chamar fraude eleitoral de “brejeira”. Com o tempo, o nome pegou, e os políticos, por brincadeira, também adotaram a expressão “brejeira” quando se referiam às fraudes eleitorais. muito comuns no Rio Grande do Norte, tanto na capital como no interior.

A expressão nativa “brejeira” agradou ao Deputado Djalma Marinho e ficou sendo usada por ele, por brincadeira, quando se referia às fraudes eleitorais, com substituição de urnas autênticas por urnas com votação falsa. Brejeira, no Rio Grande do Norte passou a ser sinônimo de fraude eleitoral. Logo caiu na boca do povo. e tornou-se uma expressão conhecida . Brejeira, portanto, no folclore político norte-rio-grandense, significa fraude eleitoral.

O medo das brejeiras se espalhava entre as lideranças políticas da capital e do interior, atingindo tanto o partido da situação como da oposição.

Inúmeras fraudes eleitorais foram cometidas no Rio Grande do Norte. Mas o caso mais gritante ocorreu com um candidato a deputado estadual, em Natal, que aguardava com ansiedade a apuração, e constatou que a urna em que ele depositara seu voto não fora apurada. Simplesmente, a urna “sumiu”. Ele não teve nem o seu próprio voto, na seção em que votava.

Desesperado, encheu a cara de cachaça e chorou copiosamente numa mesa de bar, depois da apuração, e sua lamentação causava pena:

– Que o meu sogro e minha sogra não tenham votado em mim, eu desculpo…

– Que meus irmãos e cunhados não tenham votado em mim, eu desculpo…

– Que minha mulher não tenha votado em mim, é duro, mas eu desculpo…

– Mas, EU!!! Eu mesmo não ter votado em mim?!!! Isso eu morro e não aceito nunca!!!

Entretanto, a modernidade e segurança das urnas eletrônicas tornaram impraticáveis as antigas fraudes eleitorais.

Salve o progresso!

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PAIXÃO POR CAVALO

O último presidente militar do Brasil, JOÃO BATISTA FIGUEIREDO, em diversas ocasiões, chocou o País com seus posicionamentos controversos.

Extremamente carismático, o Presidente Figueiredo era uma simpatia e não escondia seus sentimentos. Não era homem de duas palavras. Gostava de externar seus pensamentos, e dizia abertamente que gostava mais do cheiro de animais do que que do cheiro de gente.

Em 1979, questionado por um garoto sobre o que faria se seu pai só ganhasse o salário mínimo, prontamente respondeu: “Eu daria um tiro na cuca”.

Praticante do hipismo, foi questionado uma vez sobre o “cheiro do povo” numa entrevista sobre a cavalaria. Sem dó, ele respondeu: “Eu prefiro o cheiro do cavalo”.

Seu governo foi marcado pela abertura controlada, a transição para um regime de eleições diretas. Quando questionado sobre a abertura, que ao mesmo tempo consolidava a estrutura de poder da Ditadura, mas tirava a centralidade dos militares, ele só gritou: “É para abrir mesmo. Quem quiser que não abra, eu prendo e arrebento”.

Por coincidência, a paixão por cavalo, que marcava o Presidente João Batista Figueiredo, aparece numa antiga fábula de Esopo.

Pois bem. O único ser de quem Frederico o Grande da Prússia gostava apaixonadamente era o seu cavalo, o mais formoso corcel que se possa imaginar, cavalo digno de um rei, e tão inteligente que abrandou e conquistou o coração do monarca.

Um dia em que ele estava muito aborrecido e atarefado, soube que o seu cavalo favorito estava doente.

Num acesso de furor, sentindo a sua própria insignificância, por não poder salvar a vida ao seu cavalo, apesar de ser um grande monarca, fez apregoar que aquele que lhe desse a notícia da morte do cavalo seria enforcado.

Passaram-se alguns dias e o estado do nobre animal era sempre o mesmo, mas uma manhã, quando os pajens faziam uma visita às cavalariças, encontraram o moço da estrebaria que lhes disse que o cavalo havia morrido. Quem se atreveria a dar a notícia ao rei? Quem iria correr o risco de ser enforcado?

Os escudeiros permaneceram conversando e discutindo vários planos, procurando uma forma de comunicar ao monarca a morte do seu cavalo favorito. Finalmente, chegou a hora de redigir o boletim para ser entregue ao rei, comunicando-lhe a morte do cavalo. Os escudeiros estavam em pânico, diante da ameaça previamente recebida do rei, de que aquele que lhe comunicasse a morte do seu cavalo seria enforcado.

Naquele momento, um dos escudeiros disse ao moço da estrebaria que não tivesse medo, pois ele próprio iria dar a notícia da morte do cavalo ao monarca. Iria enfrentar o rei.

Nesse momento, todos ficaram assustados com a inesperada visita do monarca.

“Olá! – Disse o Rei Frederico. “Como está o meu cavalo?”

“Senhor, respondeu o escudeiro. – O cavalo continua no seu lugar. Está deitado e não se mexe. Não tem forças e não come. Também não bebe, não dorme, nem respira, nem…

“Então,” exclamou, impacientemente, o rei, “meu cavalo favorito morreu!!!…”

“Vossa Majestade disse a verdade, respondeu tranquilamente o escudeiro. “Vossa Majestade foi o primeiro a dizer que o seu cavalo tinha morrido.”

O rei lembrou-se da jura de enforcamento que tinha feito contra quem lhe comunicasse a morte do seu cavalo favorito, e empalideceu. Afinal, foi ele mesmo quem pronunciou as palavras fatais, sobre a morte de “puro sangue”, seu cavalo favorito.

E os empregados foram perdoados.

A FÁBULA E O SEU NARRADOR MAIS FAMOSO-ESOPO

Esopo (Nessebar, 620 a.C. – Delfos, 564 a.C.) foi um escritor da Grécia Antiga a quem são atribuídas várias fábulas populares. A ele se atribui a paternidade da fábula como gênero literário. Sua obra, que constitui as Fábulas de Esopo, serviu como inspiração para outros escritores ao longo dos séculos, como Fedro e La Fontaine.

A Fábula é uma narração com intuitos morais.

Segundo os historiadores, as fábulas são muito antigas e foram empregadas nos livros sagrados, onde aparecem sob a forma de parábolas.

As fábulas mais célebres foram escritas por um escravo chamado Esopo, que nasceu em Xanto e Idmo; este último emancipou-o. Esopo adotou um método mais claro e mais simples que o dos filósofos: Fez falar os animais e as coisas inanimadas, para dar lições aos homens.

Creso, rei de Lydia, chamou-o à sua corte, e encheu-o de benefícios. Esopo chegou a viajar pelo Egyto e Pérsia, e estava em Athenas, quando Pisistrato a avassalava, e ao ver o que os atenienses sofriam sob o jugo d’aquele tirano, compôs a fábula das rãs descontentes que pediam um rei. De volta à corte de Creso, este mandou-o a Delphos para fazer um sacrifício a Apolo: a fábula das rãs, das achas flutuantes sobre as águas, que de longe parecem alguma coisa e de perto nada são, desagradou aos seus habitantes e Esopo foi atirado do alto de uma rocha.

Toda a Grécia lastimou a sua morte e em Athenas erigiram-lhe uma estátua.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A HISTÓRIA SE REPETE

As Catilinárias são uma série de quatro discursos célebres de Cícero, (o Cônsul romano Marco Túlio Cícero), pronunciado em 63 a.C. Esses discursos são um ato de denúncia, contra a conspiração pretendida pelo senador Lúcio Sérgio Catilina, que logo de início destila:

“Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência? (…) Não vês que tua conspiração foi dominada pelos que a conhecem?”

O primeiro e o último destes discursos foram dirigidos ao Senado Romano; os outros dois foram proferidos diretamente ao povo romano. Os quatro foram compostos para denunciar explicitamente Lúcio Sérgio Catilina, no contexto da Segunda Conspiração Catilinária.

Falido financeiramente, Catilina, filho de família nobre, juntamente com seus seguidores subversivos, planejava derrubar o governo republicano para obter riquezas e poder. No entanto, após o confronto aberto por Cícero no senado, Catilina resolveu afastar-se, indo juntar-se a seu exército ilícito, para armar defesa.

Segundo registros históricos, após o quarto discurso, Catilina estava condenado à morte, mas recusou-se a entregar-se e foi morto em um campo de batalha no ano seguinte.

O modelo político de República passou a vigorar na antiga Roma, após a queda do último rei da dinastia etrusca que governou Roma durante 244 anos, chamado Tarquínio, o Soberbo, no ano de 509 a.C.

Cícero, que havia sido designado como um dos cônsules, no ano de 63 a.C., encarregou-se de desmascarar Catilina dentro do senado, por meio de discursos, os quais ficaram conhecidos até hoje por Catilinárias e são notáveis pela elegância de estilo e pela firmeza das acusações ciceronianas, com afluência de todos os homens de bem.

Marco Túlio Cícero, (3 de janeiro do ano 106 A.C), foi um dos mais importantes filósofos, e cônsul da Roma antiga.

Proveniente de uma cidade ao sul de Roma de nome Arpino, esse fato o discriminava, por não ser um romano tradicional.

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A INTOLERÂNCIA DO REI

Juliano, um orgulhoso Rei de uma belíssima cidade, almoçava tranquilamente, quando viu sobre a mesa uma pequena e inofensiva formiga, perto do seu prato.
Como se falasse ao mais humilde servo, exclamou:

– Como ousas, desprezível formiga, andar sobre a mesa de Juliano o Grande Rei?

A formiga, nem sequer tomou conhecimento das palavras reais, ocupada como estava, em carregar sobre as costas um minúsculo pedaço de pão. Um formigueiro inteiro a aguardava.

– Então, não paras? Não me obedeces? Pois, então, morrerás! – Falou o odioso Rei.

Dizendo isto, ergueu o braço para esmagá-la, mas, com tal brutalidade que, ao levantá-lo, derrubou uma terrina de sopa quente. Furioso, pôs-se a procurar a formiga, para efetuar sua vingança imediatamente.

Não a encontrando, e dominado pela ira, virou a mesa, espalhando sobre o chão todas as iguarias, na tentativa de atingir a pobre formiguinha.

Atraídos pelo barulho, todos os criados tentaram contê-lo, mas o rei, furioso, atirou sobre eles um enorme castiçal. Este, porém, atingiu uma cortina, inflamando-a. Deu-se início a um grande incêndio, que, em segundos, se alastrou por todo o palácio real.

Tentaram extinguir o fogo, mas ele se propagou rapidamente, uma vez que a sala era forrada com tapetes persas e veludos da Turquia.

Em uma hora, todo o palácio estava em chamas. Como houvesse uma grande ventania, o fogo tomou conta dos prédios vizinhos.

Uma cidade inimiga sabendo do ocorrido, mobilizou seu exército, o qual, depois de um pequeno cerco, dominou a cidade de Juliano, o Grande Rei. O povo só pensava em fugir do incêndio que tudo devorava e destruía.

Enlouquecido, o rei tentava escapar, sob delírios, esbravejando impropérios contra a pobre formiga, e jurando matá-la.

Depois de algumas horas, o incêndio ainda ardia, e o povo enlouquecido fugia da cidade.

O rei conseguiu sobreviver, mas perdeu o juízo (que nunca teve), e seu palácio banhado a ouro.

O Rei enlouqueceu e tornou-se um mendigo.

Ao lhe perguntarem a causa da sua desgraça, laconicamente, ele respondia:

– Uma formiga…uma formiga destruiu todo o meu império!

Ninguém acreditava…

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LOUVADO SEJA

Louvado Seja era o apelido de um pedinte de Nova- Cruz, que sofria de um distúrbio nervoso, que o impulsionava a dar constantes carreiras, involuntariamente, com pequenos intervalos. Seu apelido foi motivado pela louvação que dizia ao pedir uma esmola: LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! E vinha a resposta das pessoas que lhe davam esmolas: PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Esse homem provocava medo às crianças, que, se estivessem na calçada, entravam em casa ligeiro, ao ouvirem a louvação do pedinte. O medo era consequência de boatos que se espalharam pela cidade, de que o pedinte tinha um “encosto”, ou mau espírito, que o empurrava o tempo todo e o fazia correr em disparada. Diziam que isso era obra do demônio. As pessoas ingênuas e céticas acreditavam que isso fosse verdade.

De longe, ouvia-se a voz do pedinte, quase gritando:

“Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo! “

Assustados, os meninos corriam para casa.

Louvado seja chegava às portas correndo, recebia as esmolas que punha numa sacola de pano, que trazia pendurada ao ombro, e saia correndo, repetindo o costumeiro jargão, em agradecimento: “Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Deus lhe pague”!

As crianças tinham pavor a ele, inclusive eu. Minha avó paterna, dona Júlia, nunca deixou de lhe dar uma esmola, nem tinha medo dele. Eu, que vivia muito na casa dela, que era vizinha à nossa, quando o avistava, tremia de medo e entrava correndo na nossa casa, pelo quintal, e me agarrava na saia da minha mãe. Ela me abraçava e tentava me explicar que Louvado Seja não fazia mal a ninguém e que o problema dele era uma doença.

Nova-Cruz, nessa época, era uma cidade muito atrasada, e, praticamente, sem assistência médica.

Minha mãe, Lia Pimentel, possuía um livro comprado em Natal, chamado “Medicina do Lar”, que fazia referência a esses sintomas como sendo próprios da “doença de São Guido” ou São Vito, doença que causa movimentos espasmódicos incontroláveis nos membros inferiores.

Ela relacionou essa informação à doença de Louvado Seja. Mas não comentou com ninguém, pois não era médica nem tinha certeza de que aquela informação fosse verdadeira. O fato é que Louvado Seja padeceu a vida toda desse mal, e nunca fez um exame médico. Era tido como um homem dominado por uma entidade espiritual, ou encosto. O estranho é que, mentalmente, era são.

Ainda hoje me lembro de Louvado Seja, e sinto medo. As carreiras rápidas, constantes e incontroláveis, e sua voz grossa me faziam tremer de medo. A louvação que ele fazia ao pedir esmolas soava tétrica aos meus ouvidos de criança. Tinha a aparência de um boneco movido a cordas. Apesar dos impulsos ou empurrões que, supostamente, levava do “espírito” que incorporava, Louvado Seja nunca foi visto caindo. Deus o protegia.

O caso mais hilário, apesar de triste, foi a carreira que, involuntariamente, Louvado Seja deu no entregador de pão de Nova-Cruz, seu Anízio, que, segurando o cesto de pão na cabeça, viu-se obrigado a descer a ladeira da rua Alberto Maranhão em disparada, sentindo-se perseguido por um suposto malfeitor, que corria em seu encalço.

Quando Louvado Seja conseguiu parar, seu Anízio já estava caído ao chão, no meio dos pães, que iria vender em diversas casas. Os pães quentinhos se espalharam pela areia, tornando-se imprestáveis para serem entregues à freguesia do patrão.