Glosas que fiz com o mote dado pelo poeta Dedé de Dedeca:
Quando Deus manda o inverno Manda junto a fartura
A seca acabou com tudo Matou homens e animais Causou muitos funerais Deixou o pobre desnudo O gado ficou ossudo Morreu a agricultura Para salvar nossa agrura E acabar com o inferno Quando Deus manda o inverno Manda junto a fartura.
As chuvas estão caindo Os açudes estão sangrando Os peixes estão tão pulando Nosso povo está sorrindo A fome está partindo Acabou-se a amargura A vida virou doçura Graça ao nosso Pai Eterno Quando Deus manda o inverno Manda junto a fartura.
* * *
Esta última eu fiz na chamada Glosa Clássica, na qual o primeiro verso do mote segue no quarto da poesia, e o segundo verso do mote, vai no décimo da poesia.
O maior amor paterno Eu sinto em meu coração Olhando para o Sertão Quando Deus manda o inverno. Por isso em versos externo A Sua eterna candura Faz cair de toda altura A chuva que nos encanta E em Sua bondade Santa Manda junto a fartura.
Há pouco no supermercado Supercop, loja da Av. Ayrton Senna, na Zona Sul de Natal, eu estava na fila do caixa rápido logo atrás de um senhor aparentando seus sessenta e cinco anos de idade.
Alto, agalegado e sardento, bermuda com bolsos cargo, camiseta sem mangas e sandálias de borracha. Trazia um boné desbotado na cabeça e um relógio de metal no braço.
Por a fila não se movimentar muito, talvez como ele quisesse, começou a se mostrar impaciente.
Coçava a cabeça, empurrava a cestinha das suas compras com a ponta de um pé e se virava para cá, para lá, quase num ritual de extrema inquietação.
Na fila ao lado, um pouco menor, havia algumas pessoas com carrinhos de pequenas feiras, mas em volumes superiores aos vinte itens da placa sinalizando o destino dos clientes aos caixas.
Foi justamente nessa fila que encostou uma jovem.
Branca, altura mediana, trazia os cabelos de um lado certamente cortados na lâmina dois de uma máquina, piercing no nariz, camiseta t-shirt preta rasgada e trazendo uma caveira na silk frontal. O short jeans terminava onde começava a sua virilha, rasgado e desfiado. Calçava uma rasteirinha de couro e trazia na mão uma latinha de cerveja, provavelmente aberta ali mesmo no supermercado.
Tanto quanto seu cabelo azulado tirado apenas de um lado e caindo no ombro pelo outro, chamava também a atenção por tatuagens cobrindo os dois braços e, até onde os olhos podiam bater direto em sua pele, descendo pelas coxas e canelas. Se as tinha nas costas eu não pude vê-las. O ângulo não me era favorável.
O senhor à minha frente logo se admirou quando a viu. E eu notei pela cara de admiração e os olhos arregalados sob as sobrancelhas levantadas, como se houvessem reagido a um susto.
E esse senhor não demonstrou o menor constrangimento em ficar a princípio totalmente virado para a jovem tatuada. Depois se virava, empurrava a cestinha no chão com um pé, e se voltava exclusivamente para observar a jovem.
Eu pensei de cá “isso vai dar em merda” porque, pelo canto do meu olho, acabei percebendo a moça impaciente e incomodada com o olhar do homem. Constrangida na verdade.
Não sei precisar o tempo, mas eu acho que uns três minutos depois, após várias viradas para trás do senhor, a jovem resolveu reclamar.
– O senhor perdeu algo em mim? – perguntou diretamente ao homem.
– Eu?! – respondeu com uma pergunta admirada o senhor.
– O senhor sim! Não tira os olhos de mim – respondeu a jovem, chamando a atenção das outras pessoas por um tom de voz acima do normal e bem irritado. Em seguida complementou elevando ainda mais esse tom: – O senhor está me assediando!
– Eu?! Ora mais ‘tá! Agora eu vi o cancro mesmo – respondeu o homem. E antes que a moça pudesse fazer nova reclamação, ele disparou sem pestanejar: – ‘Tou só olhando suas tatuagens. Se não queria mostrá-las tivesse tatuado só seu cu; então mostraria apenas para quem você se arreganhasse.
– O próximo! – gritou a senhora do caixa.
Quase ninguém ouviu seu grito. Uma gargalhada tomava conta das filas.
Sérios de verdade apenas o senhor nenhum pouco bruto e a jovem tatuada.
(Jesus de Ritinha de Miúdo, num domingo que começou alegre e embaraçoso para alguns).
Na formatura do meu filho Raul, há exatos quinze dias, anunciaram que o Hino Nacional seria cantado.
Meu caçula ao lado olhou para mim e soltou:
– Painho, ‘cê sabe cantar, né?
Eu respondi quase me amostrando, já com a voz levantada e peito estufado:
– Claro! Nos meus tempos de estudante éramos “obrigados a cantar”, sob a supervisão da General Almira, todas as quintas-feiras, na entrada do Grupo Escolar.
Alguns outros jovens presentes no evento me olharam meio desconfiados. Não sei se surpresos por eu falar com tanta convicção saber cantar algo tão comprido, ou por não fazerem a mínima ideia de quem fosse a General Dona Almira do Grupo Escolar.
E começou a execução.
Cantei do começo ao fim, sem erros. Inclusive fazendo direitinho a distinção de “em teu peito” e “no teu peito”; conhecimento exigido por Dona Terezinha Dantas, eterna professora de História. Mas, aí, já no Ginásio, sob o olhar atento da Diretora Hilda Frassinete.
Pois é, poucos sabem dessa diferença colocada lá propositadamente por Joaquim Osório Duque Estrada na belíssima poesia que é a letra, antes de Francisco Manoel da Silva jogá-la para os compassos da música.
Terminado o hino, meu caçula me deu aquele abraço.
E prometeu aprender para cantar também.
Se cantar o Hino Nacional sob o sol das treze horas no sertão acariense foi tortura para aquela criança que eu era; hoje aqueles momentos são uma deliciosa memória no homem que sou.
O dedo eu acho difícil Encontrá-lo, meu parceiro Ninguém sabe há muito tempo O seu real paradeiro Há que diga, no entanto Que o dedo desse santo Tá no cu do brasileiro.