São duas crianças minhas Visão que o meu peito aquece Se meu pai me deu seu colo Meu neto em meu colo cresce No movimento da vida Um me serviu de guarida Do outro sou alicerce.
Se o neto de mim carece Vou usando o tempo meu Para lhe dar as lições Que um dia papai me deu E a vida segue assim: Um aprendendo de mim O que o outro já esqueceu.
A poetisa Constância Uchoa, caicoense de Mossoró, sempre muito inspirada e gastando o dom de usar as palavras como poucas pessoas, criou e me enviou há cerca de ano o seguinte mote:
“Quem se cobre de sonhos se descobre Muitas vezes coberto de ilusão.”
Por acaso ontem eu voltei a ter contato com os versos do mote, e desenvolvi duas glosas a partir deles.
E nelas eu disse bem assim:
Seu amor foi quimera, pouca chama, Assombrando um pouquinho, nada além Foi faísca apagada, fogo sem O poder de queimar lençois de cama. Acendeu labareda só da fama De ser mais que o calor na combustão Seu desejo é pavio de lampião Sem o gás alcançar, é fogo pobre “Quem se cobre de sonhos se descobre Muitas vezes coberto de ilusão.”
Foi um facho de luz a incomodar Prometendo esquentar, não esquentando Que jurou me abrasar, não abrasando… Se apagou muito antes de queimar. Seu amor foi somente um debochar, No desdém esfriando essa paixão, Num problema de amar, sem solução, No desejo de gozo em falso exprobre “Quem se cobre de sonhos se descobre Muitas vezes coberto de ilusão.”
Fui seu vizinho durante três anos. Tempos da fábrica de camisas.
Um dia de manhã, quando eu já havia falido literalmente, estava sozinho sentado no meio fio. Uma vontade imensa de chorar, pensando em minha Vigélia e nos quatro menores lá em casa. Um ainda de braços.
Feira por fazer, energia cortada, banco me ligando, ex-funcionários me pondo na justiça, cobranças e pensamentos desalinhados pelas tantas preocupações, dissabores, aperreios… Desespero!
Eu estava praticamente para enlouquecer de tristeza, de falta de ânimo e de desesperança. Não tinha ninguém a quem recorrer. Sentindo-me abandonado não apenas pelos amigos, mas também por Deus.
Tudo que eu via naquele momento de cabeça baixa, literalmente, era uma folha seca entre a minha alpercata e o paralelepípedo da rua.
Mas Deus não havia me esquecido.
De repente senti um toque em minha orelha. Um toque delicado, batendo compassada e carinhosamente.
Alguém havia deixado a porta aberta, enquanto voltou para pegar algo esquecido dentro de casa e Matheus saiu na frente. Se aproximou pelas minhas costas e fez o carinho.
Eu olhei para cima e o vi. Especialmente gigante. Um anjo sem asas, de carne, de osso, de sentimentos puros, tocando em minha orelha em contatos rápidos com a ponta de algum dedo.
Sério como se quisesse dizer em seu silêncio e olhar sereno “Deus me enviou para lhe dizer que você não está só.”
De fato. Deus havia enviado Matheus. Para mim. Enviou para nós.
Matheus!
Matheus cujo significado é “presente de Deus”.
Assim ficamos nos encarando. Eu chorando em silêncio, ele tocando minha orelha. Calado. Compreendendo e me auxiliando em minha dor. Alheio ao milagre se realizando.
Quando o levaram dali, de mim, entrei no prédio da fábrica e chorei tudo quanto podia chorar.
Mas agradeci a Deus por seu presente.
Os toques leves de Matheus em minha orelha haviam tirado toneladas dos meus ombros.
Deixaram apenas um riacho de lágrimas e um mar de esperança que dias melhores viriam. E vieram!
Essa lembrança sempre me enche os olhos.
Agora, vendo sua imagem e lembrando daquela manhã, me faço em riachos novamente. No entanto, hoje as lágrimas são de alegria e gratidão – por que não? – primeiramente a Deus, depois a Matheus.
Final da tarde de ontem, após uma passagem rápida no Sebo Vermelho e um aperto de mão caloroso no meu amigo Abimael, eu procurei um lugar no centro de Natal para merendar.
Partindo da larga avenida Rio Branco, fui entrando e saindo de ruas, vielas e becos, entre gritos de vendedores, pedintes e outras pessoas existentes e fazendo do centro de qualquer capital um ambiente, por si, atraente do ponto de vista humano em suas variedades, dificuldades, lutas, perseveranças e – por que não? – alegrias de viver.
Daí, nessa minha caminhada, fui me ver em uma rua sem trânsito de carros, muito mais um beco aberto que rua propriamente dita, com algumas lanchonetes bem arrumadinhas, limpas e organizadas.
Ante uma delas, a que escolhi e sentei para merendar, essa figura do vídeo acima me despertou a atenção.
Ora! Como eu aprecio o artista!
O artista jovem sem nome e sem sobrenome piscando em grandes painéis. O artista cujo palco é a rua, a praça, um beco! O artista quase invisível, se avistado, olhado e admirado não fosse por passantes. O artista sem espaço na grande mídia e sem direito real ao Real dos incentivos dos governos. O artista digno da real apreciação no Real de moedas e cédulas de pouco valor deixadas em sua “caixa da bondade”. O artista fazendo de sua arte a realidade do seu ganha pão honesto. O artista também, sem a vergonha de se mostrar artista. É a simplicidade desse artista que me enche especialmente os olhos!
Eu fui me aproximando para deixar cair na “caixa da bondade” a minha contribuição.
Depositada lá a quantia muito menor que a minha boa vontade, inquieto que sou, perguntei logo ao artista após lhe desejar boa tarde:
– Qual o seu nome?
– Pedro – ele respondeu quase comendo a minha última palavra.
– Pedro – eu repeti.
E novamente ele engoliu parte da minha voz para se corrigir.
– Pedro não! Beluga!
E rimos juntos apertando as mãos.
– Pedro é o homem. O artista. Beluga o personagem. A criação de Pedro – eu falei.
– Desse jeito – ele assentiu.
Voltei e sentei à mesa enquanto a minha Vigélia lá dentro fazia o pedido da merenda.
Fiquei observando aquele rapaz encantando crianças, rodopiando sobre seus patins, indo numa mesa, noutra, e transmitindo alegria para quem passava, quem estava sentado… Principalmente às crianças por perto.
Até o casal que brigara havia poucos minutos, pela demora da senhora em chegar ao lugar combinado, sorria esquecido das farpas trocadas.
E assim o meu final de tarde foi mais colorido e musical.
Beluga deixou minha alma em paz.
– Beluga, toca Czardas, de Vittorio Monti? – perguntei esperando a minha mulher terminar de merendar.
Pedro arregalou os olhos.
– Um pouco, senhor – ele me respondeu já arrumando novamente o violino, como se dissesse que para Czardas o instrumento deveria estar mais perto do rosto, alinhado ao coração. E completou: – Faz tempo que não toco.
Ajeitou-se todo quando eu perguntei se podia lhe filmar, dando permissão através da linguagem corporal.
Tocou um pouco, e eu gravei a metade.
Depois Pedro me confessaria:
– Estranhei alguém aqui conhecer Czardas pelo nome – e acrescentou: – Grata surpresa.
Nos despedimos com um “boa sorte” gritado por ele, e um “Deus te abençoe” como minha resposta.
Quem quiser ver Beluga introduzindo Czardas, assista ao vídeo abaixo:
Zé Brabo (foto), caboclo sincero, honesto, sertanejo trabalhador e sem papas na língua, cujo apelido escondia a pessoa mansa e cordial que era na verdade, um dia me deu um belo ensinamento.
Eu gostava de conversar com Seu Zé, pois ele tinha expressões engraçadas e as mantinha em uso em seu linguajar simples de sertanejo arretado. Era o sertanejo em seu fiel estilo sertanejo. Não se envergonhava de ser o que era, um sujeito autêntico e de raízes fincadas no solo da, digamos, impaciência com certas coisas, para não dizer ignorância. Afinal, seu Zé fazia o melhor ícone do tipo “pergunta imbecil, tolerância zero!”.
“Eu num fico de prosa com gente que não sabe conversar as sabenças do sertão, ou com sujeito metido a doutor”, me disse certa vez.
Mas com Zeca de Seu Aurino ele se superava. Ia dizendo certos nomes de doenças e seus sintomas e gostava de ouvir do amigo médico os nomes científicos. A cada nova palavra, que ele nem sempre conseguia repetir, Seu Zé perguntava “e é?”. Mas depois falava que era muito mais fácil dizer como ele dizia e pronunciava a forma popular do nome da patologia. “Infecção generalizada, e é? Num é mais fácil dizer macacoa, não?”.
Avaliando hoje em dia aquele seu jeitão, Seu Zé não era nada de nada ignorante, ele era muito sabido e, com sua forma de tratamento, atraía para si a admiração de todos!
Eu gostava de ficar lhe enchendo o saco até ele se chatear e me mandar ir caçar “nin de avião”, uma vez que comigo ele não chamava palavrões. No máximo ele dizia comigo “fela da gaita”, não obstante, em alguma distração chamar logo era de “fela da puta” mesmo. Mas duvido que tenha ocorrido uma vez sem um pedido de desculpas quando já nos despedíamos.
Pois bem, quando nos encontrávamos, e ele me perguntava como eu estava, queria sempre ouvir um “muito bem”. Outra resposta e ele soltava quase uma ladainha perguntando se eu estava com saúde, se ainda tinha mãe, se ainda tinha pai… essas coisas.
E como eu sabia que ele não gostava de receber outra resposta? Uma vez, avistando-o ali pelo coreto da praça, fui ao seu encontro e lhe cumprimentei:
– Como vai, Seu Zé?
– Muito bem – respondeu-me seco com o vozeirão rouco. – E você, esse menino, como está?
Eu inventei de responder, não sei o porquê, que ia tudo mais ou menos. Ora, ele arregalou os olhos, agitou-se e me ensinou:
– Menino! Mais ou menos é medida de cu!
E eu lá ia pedir a fórmula da equação provando a sua tese? Preferi acreditar na sabença do velho sertanejo Zé Brabo. Se ele falou, estava falado.
O Alzheimer de Papai em par com os seus oitenta e quatro anos tem lhe tirado os prazeres da vida.
Já não joga futebol, craque de bola que foi; nem desfila pelas ruas do nosso Acary com o seu trombone de vara, ou marcando o compasso na tuba ou, ainda, por último atendendo as ordens médicas estalando os pratos, presente lá atrás na bateria da filarmônica; tampouco grita mais os leilões em benefício da padroeira de sua devoção; não “canta” mais um bingo, esperando entregar a melhor premiação para alguém mais necessitado…
Na verdade Papai tem esquecido o meu nome frequentemente, e aquele prazer de nos sentarmos à calçada para prosearmos sobre o passado tem ficado cada vez mais raro de memórias.
À medida que Papai vai saindo do nosso mundo, eu escolhi ir entrando no dele.
O dele!
Cada vez mais restrito de emoções, e se recheando dos vácuos em suas lembranças.
Puro paradoxo.
Papai vai virando garoto na mesma pressa e proporção que eu vou envelhecendo augurando ser para os meus aquilo que ele sempre foi para mim: um exemplo.
De uma coisa, no entanto, Papai não esquece: do seu “pão italiano” como sempre chamou panetone.
Nas nossas despedidas, quando eu lhe peço a bênção para voltar à capital Natal, tantas vezes ele não lembra o meu nome. Não esquece, porém, de pedir:
– Quando vier de novo, traga meu pão italiano – e completa – o amarelo!
Querendo dizer Bauducco.
Dessa vez eu trouxe o maior dos pães italianos amarelos para ele.
A sua alegria em abrir o pacotão (“ô, pacotão!”), seu sorriso infantil denunciando a felicidade, seu olhar de menino recebendo o presente esperado… Ah! Não tem dinheiro que pague.
E eu fico pensando que não há Alzheimer conseguindo separar o mundo de Papai do meu, ligados que são pelo sangue e por esse prazer que ele chama simplesmente “pão italiano amarelo” e eu sei na verdade se chamar divinamente Panetone Bauducco.
O poeta tabirense Marcílio Pá Seca Siqueira enviou:
Já dizia o poeta sertanejo Que no mesmo sertão ainda mora A saudade é cruel e dolorida Como a lágrima no rosto de quem chora Mas também é delgada e passageira Como o pingo da lágrima que se tora.
Este colunista, seridoense de Acary, no mesmo estilo lhe respondeu:
Se a saudade na gente se demora As areias do rosto viram um leito Para as águas correndo das cacimbas Cada olho vertendo um rio estreito E esses rios salgados divididos Lacrimejam enchendo o mar do peito.
Quem passar no castelo da saudade Dê lembrança ao amor que já foi meu.
recebi por WhatsApp, vindo da parte do meu amigo e poeta Marcílio Pá Seca Siqueira, de quem sou fã confesso, a seguinte glosa em décima:
Tinha um jarro com flores na janela Da casinha na beira da estrada Uma penca de rosa perfumada Num presente de amor que dei a ela Mas o tempo passou e a donzela No segundo seguinte me esqueceu Meu sorriso alegre entristeceu Nossa história findou bem na metade Quem passar no castelo da saudade Dê lembrança ao amor que já foi meu.
Aí, eu lhe respondi no mesmo estilo, seguindo o mote de domínio público:
O espelho de um velho camiseiro Tantas vezes foi nossa testemunha Do amor que do quarto se transpunha E ganhava as veredas do terreiro. Viajava depois o mundo inteiro Mas, voltava ao quarto onde nasceu Com o tempo cansou, parou, morreu Ante o espelho chorando essa maldade Quem passar no castelo da saudade Dê lembrança ao amor que já foi meu.
Jesus Cristo sem máquina de lavar Sem ter cândida, sem água, sem sabão Tem a fórmula secreta pra limpar Impurezas do corpo do cristão É só ter a coragem de pedir Que recebe de Deus o seu perdão
E lhe respondi no mesmo estilo:
Quem recebe de Deus o Seu perdão E por Ele se encontra abençoado Deve ser a Jesus agradecido Por viver em um mundo renovado Que o calvário da cruz não foi em vão Já que pode apagar qualquer pecado.
Não me venha pedir nenhum perdão Prometendo voltar ao nosso leito Penetrando de novo em meu peito Ocupando outra vez meu coração. Eu queria sair da solidão Esquecendo os seus dias de errada E dizer “volte a ser a namorada Com quem sempre sonhei um casamento Se você vacilou foi um momento E merece por mim ser perdoada”.
Não consigo, no entanto, dizer nada Nem fingir que não vivo magoado Olvidar o seu erro no passado Que deixou minha vida revirada. Sua carta eu trago bem guardada Na gaveta da minha ilusão Hoje enxergo você sem compaixão No instante que quase me fez morto Vá atrás de quem só lhe deu conforto Que eu não posso lhe dar sequer perdão.