CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O LEILÃO

O fato se deu há alguns anos quando a humanidade era ingênua, quando não se ousava pensar em tenebrosas transações, ainda não despertara a revolução sexual e as mudanças de costumes. O mundo era dos coronéis de engenho.

Naquela época morava em Atalaia, aprazível cidade do interior de Alagoas, uma jovem bonita de nome Mariá. Os homens quando a viam sentiam o desejo pulsar nas veias, na mente e na alma. Bela cafuza, exótica e exuberante, cabelos negros escorridos, rosto redondo, olhos pequenos, lábios carnudos e encarnados. Mariá era conhecida como Índia, filha de cortador de cana, pobre e analfabeta, os homens andavam atrás das saias daquela alegre morena. Porém ela mantinha-se virgem, um apelo e conselho do pai com quem vivia numa casa de taipa.

Certo dia o pai morreu, de cachaça, sua mãe havia fugido com um motorista de caminhão, arribou estrada afora, tornou-se prostituta estradeira, foi o maior desgosto do marido, ele entregou-se à bebida. Mariá ficou só no mundo. Aconselhada por amigas foi tentar sobreviver na capital. Arranjou trabalho de empregada doméstica numa casa. Nos primeiros dias foi desejada e assediada pelo patrão, pelos dois filhos e pelo avô. O bom velhinho quando olhou a Índia pensou que ainda era moço, vivia cantando a bela empregada. Aperreada a todo o momento, Mariá não aguentou a pressão, pediu as contas à patroa. Ao sair do emprego ficou perambulando pela Avenida da Paz, teve sorte, conheceu Cícero, um generoso homossexual que a levou para sua casa, pediu a mãe para lhe dar guarida até ela arranjar emprego. Na casa de Cícero não se podia pagar empregada. Mariá fez alguns trabalhos em troca da comida e dormida. Difícil uma analfabeta achar emprego. Certa vez uma vizinha aconselhou: -“Menina você é muito bonita, os homens lhe desejam, vá ganhar dinheiro no cabaré.” -“Eu sou virgem”, respondeu Mariá. -“Sua virgindade vale ouro, muito coronel pagaria um dinheirão para tirar-lhe o cabaço”, a vizinha insistia na conversa.

A conversa com a vizinha ficou atentando o juízo de Mariá. Numa bela noite ela procurou a vizinha, pediu para levá-la a algum cabaré, queria apenas conhecer. Ao chegar à Boate Tabariz, no bairro boêmio de Jaraguá, subiram a íngreme escada. Mariá empolgou-se com a beleza do salão. O dono do cabaré, conhecido como Mossoró, o rei da noite, examinou-a com um olhar de conhecedor. A amiga falou ao proxeneta: -“Pai Velho, olhe o presente que trouxe para você, uma bela Índia”. Aproximou-se, cochichou no ouvido do Negão: -“É virgem”.

Mossoró, conhecedor profundo das almas das mulheres da vida, interessou-se por Mariá, o fato de ser virgem, deixou-lhe empolgado. Havia quem desse uma fortuna pelo cabaço daquela jovem. Mandou-a esperar, Mariá estava deslumbrada com a música do conjunto, a alegria da casa, os pares dançando no salão. Mossoró levou-a ao escritório, um quarto especial. Puxou do bolso uma nota de gorjeta para vizinha e despachou-a, ficou sozinho com a Índia, era todo sorriso, simpático. Ele passava confiança às suas quengas. Fez algumas perguntas à Mariá. De repente pediu-lhe para tirar a roupa. A moça desabotoou os laços nos ombros, o vestido de chita caiu no chão, desabrochou a beleza nua da jovem, o sangue esquentou as veias do Pai Velho, conteve-se. Se não fosse virgem ele seria o primeiro, contudo, aquele cabaço valia ouro. Disse para Mariá – “Você vai passar alguns dias apenas aparecendo no salão. Amanhã vai ao Comércio, com uma das meninas, comprar três vestidos na moda. Toda noite fique bem bonita se mostrando de mesa em mesa, não vá para o quarto com nenhum homem, diga que é virgem, eu vou arranjar alguém especial para lhe tirar a virgindade, depois você fica trabalhando para mim, aqui na boate.”

Toda noite Mossoró anunciava o leilão da Índia, dia 22 de março, com Show de Reinaldo, uma trupe divertida de travestis, e inauguração da luz negra no salão. Na noite marcada, a Boate estava cheia; políticos, coronéis, usineiros, reservaram mesa. Foi uma das maiores festas na história do bairro boêmio de Jaraguá. O ganhador do leilão foi um rico fazendeiro, colecionador de cabaços, ele tinha um colar, cada conta do colar representava uma virgem. Pagou uma fortuna pela Índia. A festa tornou-se inesquecível. No bares, nos cabarés, nas biroscas do cais do porto de Jaraguá, por muitos anos os boêmios contaram a história do Leilão da Índia arrematada por um rico fazendeiro.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A TENTAÇÃO DE LÚCIFER

Aristóteles é um homem digno, esteio de nossa sociedade, advogado emérito, conhecedor profundo das leis. Desde os tempos do Colégio Diocesano (Marista), foi um aluno exemplar ligado aos princípios morais da civilização cristã. Um apologista aos bons costumes e à moral da educação ocidental. Jovem politicamente correto. Membro de uma tradicional família das Alagoas, ele nunca teve problemas financeiros, conhece o mundo e hoje é um sessentão conservado dedicado. Faz sua caminhada matinal, além de não relaxar na musculação da Academia. Semana passada caminhando numa bela manhã de sol pelo calçadão da praia de Jatiúca, eu fui abraço por trás, era Aristóteles, alegre, sorrindo, andou a meu lado, conversamos descontraidamente, até que meu amigo filosofou.

– Tudo pode acontecer com qualquer cidadão do mundo, com qualquer cristão, com qualquer homem de bem.

Eu fiquei surpreso com o pensamento espontâneo e tempestivo, perguntei o que havia acontecido. Aristóteles baixou o ritmo da caminhada confidenciou-me sua história quase sussurrando.

– O Satanás está solto, provocando! Veja você meu irmão, um homem como eu, crente em Deus, assisto à missa todo domingo, temente ao castigo divino, caí na tentação do Cão. O Diabo tomou forma de uma morena da cor de mel, de um sorriso cativante, de uma tentação encantadoramente diabólica. Ângela, minha querida e santa mulher, contratou essa moça para trabalhar em casa. A capeta veste um short desfiado para suas atividades domésticas. Normal para ela, para mim, uma sedução. O sangue ferveu em minhas veias ao me deparar com as pernas roliças, perfeitas, daquela mulher. Todo dia Ângela sai para a casa dos filhos, ver os netos, eu fico sozinho trabalhando no quarto que transformei em escritório. Anália, a moça, é esperta, na cozinha prepara um gostoso almoço, ela tem mãos de ouro, mãos encantadas, em tudo que pega, dá vida. Até engordei, contrariando meu zeloso médico. A diabinha em forma de mulher percebeu meus olhares para seu corpo fascinante. Certo dia, por volta das 10 da manhã, ela entrou no meu gabinete, eu trabalhava em cima de um processo difícil. Anália varria distraída, vestia short de jeans desfiado salientando o maravilhoso traseiro. Acabou-se minha concentração, eu olhava com o rabo do olho para a endiabrada, o sangue esquentava. O Demônio conhece bem as fraquezas humanas. Ela se aproximou bem perto do birô, perguntou se eu era advogado, se soltava preso da cadeia. Foi direta, contou-me que um amigo, um ex-namorado, que tirou sua virgindade quando era mais jovem (achei uma provocação, detalhe desnecessário de contar), estava na prisão, assaltou um posto de gasolina. No maior dengo, me chamando de patrão, disse que faria tudo, tudo mesmo (outra provocação da diabinha) para soltar o amigo. Eu me contive, a satânica de voz angelical, chegou-se bem junto, o decote mostrava os seios pequenos e duros. Levantei-me respirando fundo, disse que iria pensar no caso, evitei continuar olhando, estava à beira do pecado. Sai do escritório antes que fizesse uma besteira.

À noite contei à Ângela sobre o namorado da moça, omiti os detalhes do Demônio que me acendeu uma fantasia libidinosa. No sábado fui com a jovem Anália à cadeia conversar com o marginal. Como não houve ferimento e ser primário, solicitei habeas-corpus para o preso esperar o julgamento em liberdade. No retorno da prisão, conversávamos sobre os procedimentos quando de repente, ela falou no maior descaramento, notava meus olhares e queria agradecer com amor, pelo que fiz por ela. Entramos num motel da Via Expressa. Foi uma tarde maravilhosa de amor. A diaba sabe tudo na cama, me ensinou o caminho do purgatório. Ainda não tive coragem de me confessar, se eu morresse hoje, iria para o inferno!

Fico torcendo para chegar a quinta-feira, dia marcado para desfrutar de minha tinhosa num motel. Em casa me seguro para não agarrá-la, estou encantado com a diabinha. Nunca pensei que um dia poderia ser envolvido pelos caprichos do Demônio. Esse pecado pode acontecer com qualquer cristão, o Cão sabe quando provocar nossas fraquezas. Até veste short.

Perto de casa nos despedimos, atravessei a avenida pensando, avaliando como Lúcifer se aproveita da imperfeição humana. É preciso ter cuidado para não cair em tentação.

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O CASAMENTO DE ROSALVA

Rosalva só falava, só vivia, só pensava em seu casamento. Um ano e três meses de planejamento e preparação. Escolheu a melhor igreja da cidade; o vestido, um primor, era ótima costureira. Vivia trocando a relação dos 150 convidados. Mais de um ano vivendo de expectativa do casamento. Aqueles momentos de preparação, de organização e planejamento, faziam de Rosalva a mulher mais feliz do mundo. Parte do dinheiro que seu pai deixou de herança ela gastaria na cerimônia e recepção. Gostava de ouvir as sugestões das amigas. O noivo, Cândido, não era o que se pode chamar de trabalhador, tinha uma boa conversa, discurso revoltado com a situação do país, era conformado com uma sinecura no Governo, arranjado pelo primo deputado. Ajudava Rosalva em alguns preparativos. Quando os noivos estavam a sós, se grudavam em abraços, beijos e amassos, entretanto, a virgindade foi preservada, tal como prometera ao pai antes dele morrer, um pastor antiquado. Só daria depois de casada.

Afinal o dia do casamento, um bispo fez uma bela pregação, Rosalva emocionou-se ao ouvir citar o pai, o casamento foi bonito como ela queria. Preparou-se durante mais de um ano para uma cerimônia de uma hora e uma recepção aos amigos e parentes. Ela estava feliz, realizada.

Lua-de-mel em Salvador, Cândido fez e aconteceu, ensinou pormenores, Rosalva gostou, uma semana e meia de amor, o noivo mostrou sabedoria e competência, a esposa era só felicidade.

Afinal a festa acabou. E agora Cândido José? Como acostumar-se à vida de casado? Ele até que fez força para ficar em casa sossegado, mas foi difícil se conter. Começou a frequentar os bares da vizinhança enquanto Rosalva ensinava em dois colégios. Cândido não ia ao trabalho, dizia ganhar pouco para trabalhar, contudo, adorava no final do mês ver depositado o pequeno salário. Outro emprego, a preguiça não deixava, desculpava ser funcionário público não podia assinar carteira. Essa vida de malandro foi prevista pelas amigas.

Ela trabalhava dois turnos, teve que contratar uma jovem diarista para faxina e serviços gerais duas vezes na semana. O almoço e o jantar o casal preparava no momento conveniente. Assim foram os primeiros anos de casamento.

Certa tarde houve um problema na escola, muita chuva, pingueiras, não havia condições de aulas, alunos e professores foram dispensados. Rosalva ficou alegre, naquele dia faziam dois anos de casados. Pensou numa tarde de chuva e amor com Cândido, o bom de cama. Foi ao supermercado, comprou um galeto na brasa, algumas cervejas. Radiante faria uma surpresa a seu marido. Eram ainda três horas da tarde. Ao chegar em casa, abriu a porta e percebeu vozes no quarto de empregada, colocou os pacotes na mesa, aproximou-se devagar, ouviu o diálogo entre surpresa e irada.

– Seu Cândido o senhor me prometeu um agrado, estou precisando, pelo menos 50 real, vá seu cara, eu não fiz o que você queria?

– Lindinalva entenda, é uma questão de princípio, eu não dou dinheiro à mulher, dou presente; essa calcinha vermelha não fui eu que dei? Você é gostosa, estou doidão por você, lhe dou presente, mas, dinheiro não, é contra meus princípios, um homem de bem como eu, tem que ter princípios.

Os dois seminus sentados na cama foram surpreendidos com a fúria de Rosalva batendo com um rodo grosso em suas cabeças, gritando incontida.

– Para fora de minha casa, dois safados. Vou mandar lhe capar!

Cândido nem tentou se explicar, ao sentir a força irada da esposa, de cueca, escafedeu-se pelas portas do fundo, correu pela rua do jeito que estava; nunca teve coragem de retornar ao lar. A morena levou uma surra de rodo e panela. Rosalva juntou os pertences do marido no meio da rua, tocou fogo. Foi o assunto da semana na vizinhança.

Por orientação de uma advogada, Rosalva entrou com uma ação por traição e danos morais. Semana passada saiu a sentença, o juiz condenou Cândido a pagar R$ 30 mil como indenização das despesas do casamento que Marilda bancou. Como ele vai pagar, é outra questão.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

FESTA EM JARAGUÁ

Ninguém sabia seu nome, que dirá sobrenome. Os amigos conheciam como Pafinha, apelido carinhoso. Moça bonita de pele clara, cabelos escuros escorridos, olhos vivos, harmonizavam com a boca rosada permanentemente num debochado sorriso. Pafinha tinha a beleza da juventude e a graça de quem é feliz, era linda.

Corpo miúdo, curvas nítidas, cintura fina e seios abundantes faziam dessa menina uma mulher atraente. A traseira bem torneada era desejo e fantasia de muitos homens.

Todos amavam aquela jovem com ar de moleca sapeca e linda. Vivia a vida como se fosse acabar amanhã. Pafinha trabalhava na Boate Tabariz, era a rapariga predileta do famoso dono da noite de Maceió, o popular Mossoró. Nativa de Pariconha, sertão das Alagoas, sua família passava fome com a seca. Aos 16 anos, só havia conhecido miséria e pobreza. Um cabo de polícia a deflorou. Como ele era casado, prometeu aos pais da moça, amigação, uma casa montada na capital. Depois de muito discutir, os pais liberaram a filha para morar com o cabo na capital. O cabo viajou com Pafinha num fim de semana, e deixou-a na zona das putas em Jaraguá, entrego-a aos cuidados do Mossoró, o dono da casa de mulheres mais famosa da cidade.

Tornar-se prostituta foi uma grande transformação. Cursou a Universidade da Vida. Pafinha era a mais querida do cabaré, conhecia e tratava os frequentadores da boate pelo nome. Podia ser senador, deputado, coronel ou capitão. Era o xodó de Jaraguá. Ela era linda, apaixonou-se por um jovem deputado, rapaz novo, iniciando a carreira política. Quando o deputado aparecia, corria para os braços de seu amor.

Naquela época havia um bingo nas tardes de domingo, numa área do bairro do Trapiche da Barra, era a fonte de recurso para construção de um grande estádio de futebol (o atual Rei Pelé). Os prêmios convidativos: carros, camionetes e caminhões. Mossoró não perdia um bingo e levava suas meninas, comprava uma cartela para cada uma. Certo domingo, Pafinha teve sorte. Faltava apenas a pedra 27, uma torcida eletrizante entre as jovens alegres. Quando chamaram 27, foi uma explosão de alegria e abraços. Pafinha ganhou um carro IMPALA. Um conhecido senhor negociava prêmios de bingos, comprou o carro na hora. Foi dinheiro que Pafinha jamais pensou possuir.

Na mesma noite ela iniciou uma festa no bairro boêmio de Jaraguá. Todos queriam abraçá-la ou pedir dinheiro emprestado. A festa durou oito noites. Pafinha não tinha noção de economia, seu coração solidário e generoso emprestou e deu muito dinheiro. Fez festa no Verde, no Duque e no Sovaco do Urubu, a ZBM, Zona do Baixo Meretrício, frequentada por estivadores, pescadores, catraieiros, os pobres amigos de copo e de cruz. Pagava tudo.

Uma semana de alegria e diversão durou a festa de Pafinha. Só acabou quando ela percebeu que não tinha mais um centavo do dinheiro do bingo. Ficou pobre novamente.

Na praia da Avenida da Paz, no trecho mais perto do cais havia uma birosca frequentada por embarcadiços, pescadores, desocupados, desempregados. As raparigas de Jaraguá ao se acordarem por volta do meio-dia vestiam o maiô e devam um mergulho na praia, se refrescando da noitada anterior.

Pafinha sempre presente ajudava a comer o delicioso tira-gosto de panã ou arabaiana, contava casos da noite no cabaré. Seu Rodolfo, velho pescador, era o melhor contador de historias de peixes enormes, da mãe d’água, sereias, afogamentos, de botos salvando vidas empurrando os afogados até a praia.

Pafinha aprendeu a nadar, boiava e mergulhava se purificando na água do mar até o pôr-do-sol alaranjar o céu, depois das seis da tarde era hora de trabalho no Cabaré. A sertaneja dizia que seu destino estava naquele mar azul com matizes esverdeados.

A história da Pafinha ainda hoje é contada nas biroscas e bares de Jaraguá. Tornou-se lenda, dizem as testemunhas que ela numa tarde desapareceu no banho de mar, deixou-se levar pela correnteza. Iemanjá veio buscá-la e a transformou em um boto que vagueia vigilante na enseada da praia da Avenida da Paz, salvando os afogados.

Há muito tempo não acontece afogamento no mar de Jaraguá e Avenida. Um boto nas águas perto do cais mergulha vigilante, empurra até a praia os banhistas desavisados ou crianças mais afoitas. Depois retorna junto ao cardume, brincando alegre com seus pareias.

À noite, nos bares do mercado e na zona da boemia, marinheiros, pescadores, contam histórias de salvamentos milagrosos. Atribuem esses milagres ao boto presepeiro, alegre e lindo. Para o povo do cais do porto, Pafinha é uma espécie de santa protetora das putas, dos boêmios, dos bêbados e afogados de Jaraguá.

ESSA E OUTRAS HISTÓRIAS DO BAIRRO HISTÓRICO DE JARAGUÁ, MACEIÓ, SERÃO CONTADAS DIA 27 DE JULHO, AMANHÃ, SÁBADO, ÀS 17 HORAS, NA PETISCARIA SEU JORGE (EM FRENTE AO DIVINA GULA). ENQUANTO LUIZ POMPE CANTA MÚSICAS QUE TEM A VER COM CADA HISTÓRIA. INFORMAÇÕES: 9.9319.0843

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O MASSACRE EM YA-RÁ-GUÁ

Ya-Rá-Guá (enseada do ancoradouro) é o nome indígena originário do bairro de Jaraguá, o Marco Zero, onde começou a cidade de Maceió. Quando deu início a era da industrialização no mundo, navios de toda parte fundeavam no ancoradouro natural na enseada de Jaraguá. Naquela época o bairro teve um grande desenvolvimento urbano e econômico devido ao efervescente comércio. Jaraguá vivia na euforia de muitos negócios, exportação de açúcar, algodão, e importação de materiais industrializados para o consumo da população. O ancoradouro natural tinha uma ponte de desembarque e Jaraguá tornou-se um dos portos mais movimentados do Brasil. Na Praça da Recebedoria, hoje Praça Dois Leões, em torno da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, moravam estivadores, embarcadiços, pescadores, homens que tinham o mar como sustento.

Os vizinhos se conheciam, havia casamento entre eles, era como fosse uma família. Augusta era a moça mais bonita da redondeza, 16 anos, filha de Seu Augusto, estivador, homem forte, rude e de Dona Sinhá. Ele ficava de olho naqueles que admiravam a beleza de sua alegre filha. Menina sapeca, ela corria na praia, subia nas amendoeiras da Avenida da Paz, a todos encantava. Mas só um ela se agradava, Gumercindo, jovem espadaúdo, tomou corpo de homem aos 18 anos, forte musculatura, o corpo forjado carregando sacos de açúcar na ponte de desembarque; depois se tornou embarcadiço. Os pais de Augusta permitiram o namoro. Era do gosto das famílias.

Certa tarde de domingo, uma pequena patrulha da Força Policial, comandada pelo Cabo Sobral, fazia ronda na Praça da Recebedoria. Quando o cabo viu a moça de roupa domingueira, encantou-se, ficou deslumbrado com a beleza de Augusta. Todo domingo o cabo admirava a menina de seus sonhos passando para missa na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Certo dia ele se apresentou e falou com o pai da moça. Não se conformou em saber que a bela Augusta estava comprometida com um embarcadiço. Não admitia uma negativa, ele um cabo da Força Policial, autoridade, de tradicional família (sua família deu nome à belíssima praia do Sobral, continuação da Avenida da Paz).

No dia 10 de janeiro havia a festa de Bom Jesus dos Navegantes. As embarcações singravam na enseada da praia da Avenida – Jaraguá, os barcos competiam na ornamentação, muitos fogos, muita alegria. À noite a festa se prolongava na Praça da Recebedoria. Colocavam tendas para leilões, bingos, tablados onde se dançava e jogava. Improvisavam bares servindo cachaça e tira-gosto para animar a moçada.

Nas casas eram organizadas festas particulares frequentadas pelos vizinhos e convidados. Gumercindo havia chegado de Penedo numa barcaça. Os amigos encheram a festa na casa de Augustão, pai da aniversariante, a moça mais bonita da cidade.

O Cabo Sobral, ao longe, assistia a animação na casa de Augusto, ficou com despeito quando viu pela janela Gumercindo dançando coco com a amada Augusta na maior felicidade. O Cabo, bêbado, tentou entrar na casa de Augusto, foi barrado na porta por Simplício, irmão do dono da casa. O cabo quis alterar, apareceram alguns estivadores, ele recuou. Depois de certo tempo, o Cabo Sobral, policial arruaceiro, retornou com mais cinco policiais. Foram rechaçados a murros e pontapés, a briga generalizou-se. Uma peixeirada deixou um policial morto estirado na rua.

Cabo Sobral e seus homens bateram em retirada. Retornou ao quartel. Armou mais de 20 soldados, fez um discurso incitando vingar o companheiro assassinado pelos estivadores. Montados a cavalos galoparam até a praça atropelando e atirando em quem estivesse pela frente. Os donos das casas pularam muro, fugiram da sanha dos policiais. Na casa de Augusto, todos dispersaram. Dois músicos ficaram guardando seus instrumentos, foram feridos pelas balas dos policiais. Na praça, os ambulantes, que nada tinham a ver com a história, correram para o interior da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Os soldados do Cabo Sobral entraram na igreja, a cavalo, atirando em todos inocentes.

No dia seguinte o governador soube da chacina, estava escandalizado, entretanto, permitiu que os cadáveres, mais de 20, fossem ajuntados em uma carroça de bonde, e enterrados numa vala comum no cemitério de Jaraguá.

O massacre foi abafado pela imprensa. Nenhuma notícia foi publicada em jornais, não houve um registro sobre a ocorrência. Até a Igreja foi conivente para abafar o caso, determinou a interdição do templo católico. A Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo da freguesia de Jaraguá ficou fechada por 22 anos. Mas o povo, os moradores do bairro de Jaraguá não esqueceram. Ainda hoje, por tradição oral, os netos e bisnetos de Gumercindo e Augusta contam a história do insano massacre de Jaraguá.

ESSA E OUTRAS HISTÓRIAS DO BAIRRO HISTÓRICO DE JARAGUÁ, MACEIÓ, SERÃO CONTADAS DIA 27 DE JULHO (SÁBADO), ÀS 17 HORAS, NA PETISCARIA SEU JORGE (EM FRENTE AO DIVINA GULA). ENQUANTO LUIZ POMPE CANTA MÚSICAS QUE TEM A VER COM CADA HISTÓRIA. INFORMAÇÕES: 9.9319.0843

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NO ESCURINHO DO CINEMA

Nos anos 60, a maior diversão da juventude era, com certeza, o cinema. No Centro da cidade, bem instalado na Rua do Comércio, o Cine São Luiz reinava em Maceió, como o mais frequentado. Havia os cinemas dos bairros: o Cine Rex ficava na aprazível, Pajuçara, bairro da classe média alta, gente grã-fina, porém, o cinema era aberto a todos. A moçada da Rua do Cravo e imediações lotava o cinema para assistir filmes de cowboys e seriados. O cine Plaza, ficava no bairro do Poço, fui frequentador assíduo. O Cine Lux na Ponta Grossa fazia a alegria da pivetada dos bairros vizinhos. E o Cine Ideal na Levada passava as melhores séries, “voltem na próxima semana”. Nos anos 80 o Cine Ideal foi transformado em cinema pornô.

Certa vez fui jurado em um concurso literário. Fiquei impressionado com uma crônica bem escrita por um cidadão, homossexual, de Maragogi. Uma crônica- depoimento, onde confessava o que acontecia em suas tardes no Ideal. Quando ele sentia vontade, quando dava comichão no rabo, entrava no cinema com o filme já iniciado. Não demorava, alguém encostava, se oferecendo como parceiro; em pé, encostado à parede, eles satisfaziam-se mutuamente. Na crônica ele chegava a detalhes impressionantes. Outra jurada, professora da Universidade, arquivou aquela crônica como documento para estudos de comportamentos sexuais dos anos 80. É bom esclarecer aos apressadinhos meninos do arco-íris que o Cine Ideal já fechou há alguns anos.

Na década de 50 o cinema mais chique no centro da cidade, o Cinearte passou a ser chamado São Luiz (minha mãe em lapso de memória às vezes chamava de Capitólio, seu nome original nos anos 30). Foi a época do cinemascope e tecnicolor, o auge dos grandes filmes americanos: “Suplício de Uma Saudade”; “Tarde Demais para Esquecer”; “Juventude Transviada”, entre outros. No início de uma paquera, o jovem marcava encontro no São Luiz, pedindo a moça para guardar seu lugar. Ao iniciar o filme, no escurinho do cinema, ele sentava-se ao lado. Às vezes, no primeiro dia, pegava na mão, era a glória, ter pegado na mão no primeiro dia. Quando era uma moça já calejada, marcava encontro nas cadeiras de trás, mais discreto para o beijo na boca, o alisar e outras carícias mais íntimas. À noite o cara se gabava com os amigos que tinha feito maior “sabão” com uma jovem no São Luiz.

As matinês do São Luiz eram bem frequentadas, os maloqueiros de Maceió se juntavam para fazer presepadas. Certa vez no filme “Sansão e Dalila”, numa cena, Dalila caminha numa estrada, a câmara focalizava ela andando de costas. De repente, Dalila para, vira a cabeça, olha para trás e dá um adeus com mão direita. Becker, um dos maiores presepeiros de Maceió, ficou para assistir outra seção do filme. Quando apareceu a cena de Dalila caminhando, Becker deu um grito: “Tchau Dalila!!!”. Nesse momento, na tela, Dalila parou, olhou para trás, deu adeus. O cinema veio a baixo, às gargalhadas. Outra vez durante um filme de terror, maior tensão, maior perigo, todos entretidos no filme, de repente, Becker em cima, no balcão, jogou uma galinha viva. O barulho que a galinha fez batendo as asas e o cacarejando alto, deu um susto apavorante na plateia. Parou o filme, tentaram inutilmente pegar meu querido amigo Becker.

Havia um rapaz de uma das famílias mais distintas de Maceió que nasceu com problema, tinha idade mental de cinco anos, vivia perambulando pela Rua do Comércio, todos gostavam de Celinho. Ele assistia várias vezes os filmes no São Luiz. O gerente compadeceu. Propôs a Celinho entrar de graça e ser fiscal do cinema e disse quais suas funções: Não deixar pivete fazer maloqueiragem; não deixar fumar; não deixar se masturbar; beijar podia. Celinho repetia para memorizar: “Não pode fumar, não pode gritar, não pode se masturbar”

Celinho até que ajudou, quando percebia um cigarro aceso, aproximava-se: “Cigarro não! É proibido!”, o cara apagava. Ele ficava louco porque não podia identificar os meninos gritando nas matinês. Certa vez, Celinho encostado com a barriga na mureta notou um casal suspeito nas duas últimas cadeiras. Andou de ponta de pés até constatar a cena: a namorada segurava alguma coisa por dentro da braguilha do namorado. Celinho não advertiu, emocionado com o primeiro flagrante foi gritando:

– “Ela tá masturbando ele! Tá masturbando. Não pode, não pode.”

O cinema veio abaixo numa só vaia. O casal saiu apressadinho pedindo licença entre as cadeiras. Por azar a moça foi identificada pela moçada da Rua do Comércio. Por muito tempo ficou conhecida como “Mãozinha de Ouro”. Celinho foi chamado pelo paciente administrador comunicando que ele devia ser discreto quando chamasse a atenção, ele entendeu. Celinho por muito tempo assistiu todos os filmes do São Luiz gratuitamente e zeloso, repreendia discretamente quem fumasse, quem gritasse ou quem se masturbasse, o que acontecia algumas vezes em filmes impróprios a 18 anos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O TROCA-TROCA

Cardoso é malandro desde menino, na juventude fez parelha com um primo, viviam os dois matando aulas, pensando sempre em sacanagem, em tirar vantagem. Seu primo dedicou-se à malandragem profissional, tornou-se deputado, e Cardoso seu dileto primo, assessor para assuntos prescindíveis. Trabalho maneiro, ele frequenta a Assembleia duas vezes por semana, onde lê revistas, jornais, paquera as funcionárias e conversa com um ou outro eleitor do deputado.

Certa vez chegou-lhe às mãos uma revista masculina. Ao ler uma seção chamada Fórum, onde as pessoas se abrem em fantasias sexuais, chamou-lhe atenção um anúncio de um jovem casal de Santa Catarina radicado em Aracaju a fim de fazer swing, ou seja, o troca-troca de casais. Esse anúncio aguçou o espírito de aventura de Cardoso. Fantasiou a beleza da galeguinha catarinense. Passou a tarde meditando, pensando, idealizando a sacanagem. Havia uma dificuldade, o casal pedia o envio antecipado da certidão de casamento. Só depois fariam troca de fotos, e por fim marcariam o encontro dos casais. Cardoso é bom marido, bem casado, jamais pensaria troca de casais envolvendo sua esposa, amor de sua vida.

De repente apareceu na sala a gostosa Maria do Rosário, assessora de outro deputado. Se houvesse dispensa do serviço de funcionários da Assembleia que já tinham comido Rosarinho, ficariam poucos homens no prédio.

Cardoso não perdeu tempo, conversou com sua amiga e comida nas horas vagas. Mostrou o anúncio do casal catarinense morando em Sergipe, expôs o plano: falsificar uma certidão de casamento. No dia seguinte, Maria do Rosário e Cardoso, com meia hora na sala de xérox, saíram com uma perfeita cópia de certidão de casamento entre Carlos Antônio Cardoso e Maria do Rosário Costa e Silva. No mesmo dia remeteu a cópia da certidão, com endereço da Rosarinho e seu EMAIL para o endereço da caixa postal de Aracajú, via Sedex, como orientaram.

No início da semana, Cardoso recebeu um EMAIL do catarinense aprovando a certidão e enviando a foto do casal. Cardoso ao olhar a foto da galega catarinense ficou louco, mais bonita que a Vera Fischer. Convocou a parceira Maria do Rosário, tiraram fotos juntos, ele enviou por Email para Franz, o catarinense.

Com detalhes acertados, marcaram encontro no Restaurante Flexa de Aracaju, na estrada. Cardoso inventou para esposa uma viagem a serviço do deputado para Salvador e numa bela manhã de sexta-feira rumou com Rosarinho pela estrada do litoral sul.

Exatamente às 11 horas o casal entrou no Restaurante Flexa. Quando Cardoso reconheceu o outro casal sentado em uma mesa, deu-lhe uma sensação de felicidade. A mulher do cara era mais empolgante ao vivo, loura dos olhos verdes, sorriso perfeito, dentes brancos, exalando sensualidade. Aproximaram-se da mesa, o casal levantou-se, cumprimentaram-se. Os quatros sentados à mesa conversaram amenidades. Rosarinho saiu-se muito bem, com os detalhes de sua suposta família, combinados e inventados por Cardoso. Ela também estava entusiasmada, o catarinense era um jovem bonito, atlético e bem humorado.

Como combinaram, seguiram no carro de Cardoso para Salvador. Conversaram bastante durante as três horas viagem, quebrando o gelo, descontraindo. Ao chegar ao hotel em Salvador, cada qual foi com a mulher do outro para o quarto.

Cardoso educadamente esperou Helga, era o nome da deusa, tomar banho. Ela apareceu vestida numa maravilhoso e curto lingerie de renda preta. Cardoso, contente, cantarolando, tomou seu banho, vestiu um pijaminha. Ao sair do banheiro, deparou-se com uma cena inesquecível: sua parceira Helga, deitada na cama, cotovelos entre o travesseiro, lia uma revista, suas pernas balançavam langorosamente por cima da linda bunda levemente coberta pela calcinha de renda preta. Cardoso deitou-se a seu lado, começou com um beijo no rosto, e o resto é silêncio, como diria Shakespeare.

Teve que repetir mais duas vezes durante a noite, com intervalos para bons papos, doses de uísques e ajuda do azuladinho. A catarinense gostava do amor, tinha furor-uterino. Com a boca, ela era inigualável. Ao acordarem cumpriram novamente a santa obrigação. No café da manhã se encontraram com Maria do Rosário e o Galegão, felizes da vida.

Retornaram de Salvador no domingo, entraram em Aracaju para deixar o casal, onde conheceram os dois filhos lourinhos. Marcaram um novo encontro. Um mês depois, repetiram a dose, dessa vez no Recife. Eles queriam ir à Maceió para conhecer os filhos do casal. Cardoso com medo que a brincadeira fosse mais longe, deu desculpas, disse que estava se separando de Rosarinho, assim cortava a regra do jogo e terminaram o brinquedinho de troca-troca. Ficaram apenas lembranças daqueles dois fins de semana. Para Cardoso ficou inesquecível a cena de Helga no lingerie de renda preta, deitada, esperando…

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A MULHER DO TENENTE

Ele era tenente, alto, forte, atleta, campeão de vôlei e basquete. Mas gostava mesmo era de outro jogo mais maneiro, um carteado. Aos domingos sempre almoçava em minha casa, assim que chegava entrava na rodada domingueira de pôquer baratinho, que meu pai jogava com alguns vizinhos.

Eu, no início da adolescência, admirava aquele tenente desenvolto, risonho e franco. Porém, a maior admiração era o que ele tinha de mais bonito, sua mulher. Quando o tenente sentava para jogar, ela dizia não entender como podiam perder uma praia tão bonita como a da Avenida da Paz. E me chamava para acompanhá-la, dar um mergulho. Aos domingos eu ficava em casa de propósito, à espera do jovem casal e desse convite.

Ela me abraçava pelo ombro e descíamos à praia, sentávamos na areia branca e fina tomando sol. A Deusa era olhada e desejada por todos os homens de todas as idades. Ficavam contemplando o ritual, a divina tirava devagar a blusa e o short até aparecer seu biquíni cavado sempre em tecidos floridos. Deixava que o Sol e os olhos pecaminosos dos homens, inclusive os meus, tomassem conta daquele corpo perfeito, pernas esguias douradas, dava um irresistível desejo de alisá-las. Ela pedia que a chamasse quando estivesse na hora do almoço para dar o último mergulho e irmos juntos para casa. Na hora do futebol, eu ficava me gabando, fazendo inveja em ter uma amiga carioca. Os companheiros se babavam e os mais velhos queriam saber tudo sobre aquela mulher. Antes do almoço mergulhávamos juntos, ficávamos na brincadeira de dar caldo um no outro, cruzando nossas pernas embaixo d’água ela gostava daquele jogo, de propósito alimentava minhas fantasias.

Havia um grande advogado em Maceió, com fama de competente e mulherengo. Um dia a bela criatura teve que recorrer ao Doutor sobre uma herança. O famoso causídico, tremendo canalha, passou a maior cantada em nossa Deusa. Ela discreta, com classe se esquivou, terminou a conversa, foi embora, prometendo nunca mais voltar àquele escritório.

Só porque vestia roupas leves, sensuais, andava de biquíni nas praias e nos clubes, a típica carioca, o Doutor fez um erro de avaliação e continuou no assédio por telefone. Mas a moça era honesta, aguentou quanto pôde o assédio. Até que um dia, acabou a tolerância, contou toda a hist6ria para seu tenente, alto, forte e bonito.

O marido mandou a esposa marcar um encontro na própria casa dizendo que ele havia viajado. No dia, na hora, sem atrasar um minuto o Doutor bateu em sua porta. Logo ao entrar, ela constrangida, mandou-o sentar-se. Mas o Doutor estava com a cabeça virada, agarrou-a, tentando tirar-lhe o vestido.

No momento em que tentava despi-la, apareceu o tenente na sala empunhando uma pistola 45.

O susto deu um branco literalmente no doutor, ficou da cor de papel, gaguejava tentando explicar. O medo foi enorme, o Doutor cagou-se na calça, e pedia suplicante: “Não me mate, não me mate.” Ajoelhou-se chorando.

O tenente disse-lhe que o mandaria às profundas do inferno, onde jamais cantaria uma mulher honesta. O famoso advogado chorava e gemia, pedia perdão. O tenente deixou prolongar por um tempo o pavor e o choro do conquistador. Certo momento ele pediu a mulher trazer-lhe um copo dos grandes na cozinha. Pegou o copo, desabotoou a braguilha e num jato forte mijou dentro. Levantou o copo cheio de xixi com a mão esquerda e a pistola com a direita, disse alto em bom tom: “Não lhe mato, mas você vai beber o todo esse mijo.”

O Doutor não teve dúvida pegou o copo, colocou os lábios na borda e tomou aquele liquido amarelo, quente e espumante. Quando terminou, tremia de medo, continuava chorando. Nesse momento o tenente foi ríspido: “Vá embora seu filho de uma puta e nunca mais cruze comigo ou com minha mulher, na próxima vez, sem perdão, meto uma bala nos seus cornos.”

Eu ouvi essa história contada pelo próprio tenente a meu pai. Sentado perto dos dois, como se estivesse organizando a coleção de selos, prestando atenção à história, emocionado. No domingo seguinte desci à praia mais cedo. Quando a musa apareceu na praia me deu um alô com as mãos perguntando: “Onde está meu cavalheiro? Nem me esperou.”

Aproximou-se abrindo os braços, me abraçou forte. Ao deitar-se na areia, olhei fascinado seu apetitoso corpo e lembrei-me da história. Pensei. “Se o tenente descobre meus desejos, vou terminar comendo cocô.”

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A VINGANÇA DE JOSINA

Bernardo, como fazem todos os novos ricos, construiu uma bela casa na praia da Barra de São Miguel. Tem uma verdadeira paixão e vaidade daquela bela casa. Vive cheia de amigos, a maioria de seu interesse comercial e político. Usa a mansão praieira como forma de relações públicas com almoços, boas bebidas. Ficou rico como laranja de autoridades poderosas que deviam estar na cadeia por usurpar dinheiro público,

Na quinta-feira antes do carnaval, Bernardo foi à casa de praia da Barra de São Miguel a fim de prepará-la para receber amigos durante a folia. Sua doce mulher, Josina sempre viveu em harmonia, mesmo com algumas desconfianças da integridade conjugal do marido. Quando solteiro, Bernardo foi um incorrigível raparigueiro, por conta disso havia resquícios de sua fama. Na verdade, nunca perdeu a mania, o vício de mulher. Durante os 10 anos de casados ele pulou a cerca várias vezes, muito discretamente.

Da varanda da casa Bernardo contemplava a bela vista da praia quando apareceu Lucinha, filha da faxineira para ajudá-lo na arrumação. Ele alegrou-se ao vê-la, “secava” a jovem desde que ela retornou de São Paulo, onde foi morar há três anos com menino no bucho em busca do pai. Em Sampa o marido desapareceu. Ela tentou sobreviver, foi difícil, teve de retornar à casa da mãe. Lucinha com seus 24 aninhos tem consciência de sua beleza e do corpo bem torneado; usa uma provocativa minissaia expondo o belo espécime feminino. Em São Paulo fez alguns programas, aprendeu coisas inacreditáveis.

Começaram a arrumação da casa. O patrão ficou perturbado ao olhar aquela moça varrendo o chão, limpando vidraça. Os dois sozinhos naquela casa geraram um clima propício à sensualidade. Em certo momento ele não se conteve, achegou-se à jovem, alisou seu cabelo, seus braços, ela sorria em cumplicidade, “Que é isso? Doutor Bernardo!” Deitaram-se no tapete da sala, abraçaram-se, beijaram-se, amaram-se até a apoteose gritante. Estavam estirados no chão abraçados quando a porta se abriu. Josina chocou-se com a cena. Foi um flagrante constrangedor, ela gritou com ódio: “Você me paga. Seu filho de uma puta!” Bateu a porta, retornou à Maceió, dirigindo nervosa, aos prantos.

Bernardo não teve coragem de voltar para casa. Procurou amigos, parentes, contou a história, pediu para que fizessem a ponte da paz, ele estava arrependido, nunca mais aconteceria, e outras promessas vãs que todos os pecadores cometem. Josina irredutível mandou recado que ele não tivesse a ousadia em procurá-la.

Sábado de carnaval, tristonho Bernardo acordou na casa na Barra, pensava muito, avaliando a bobeira que havia feito. À noite foi dar uma volta no carnaval de rua no centro da pequena cidade balneário. Teve um susto quando viu Josina com um short curto, barriguinha de fora, charmosa, dançando na rua, pulando com amigos. O ciúme subiu-lhe à cabeça, os olhos dos dois se cruzaram. Até que certa hora o álcool deu coragem, Bernardo aproximou-se Josina. Ela o empurrou, disse que chamava a polícia. Levaram-no bêbado para casa. No domingo estava com depressão. À noite foi pior. Ao ver Josina abraçando e beijando a boca de um jovem surfista, Bernardo partiu para cima da mulher, puxou-a pelo braço tentando arrastá-la para casa, nesse momento levou um soco do acompanhante. Levaram novamente o ridículo bêbado para dormir. Durante o resto do carnaval ele procurou, mas não conseguiu encontrar Josina. Ela desapareceu de casa com roupas e pertences.

Bernardo soube notícia da mulher dias depois, quando ela já estava em Paris. Na quarta-feira de cinzas assim que o banco abriu, Josina transferiu R$ 420.000,00 da conta conjunta para sua conta particular, viajou para o Recife, de lá tomou um avião para Europa. Não sabe quando volta, o jovem surfista está fazendo companhia em seus passeios parisiense e em sua cama no hotel à beira do Sena. Vingança de mulher nem o cão dá conta!

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ENTRE CHUVAS, RAIOS E TROVOADAS

Quando Gerônimo acertou o pagamento da pousada no Recife, Seu Manoel, o proprietário, pediu-lhe um favor: Levar de carona à Maceió, Lilian, sua jovem sobrinha. Gentil, ele disse ser um prazer, embora gostasse mais de dirigir solitário nas estradas. Partiram pelas três e meia da tarde. A jovem acomodou-se a seu lado no banco da frente, não o cumprimentou. Tinha um “walkman” grudado ao corpo e os fones no ouvido. Constantemente ouvindo música durante a viagem numa pose de quem estava fazendo um favor ter sua companhia. Gerônimo sentiu um desconforto com o comportamento pedante da jovem. Lilian era graciosa como qualquer moça. Corpo bem formado, sua pele rosada contrastava sob a blusa de malha branca, desenhada com motivos modernos, cobrindo seios abundantes. Seu rosto suave, cabelos castanhos, uma bela jovem, pena ser tão soberba, pensou Gerônimo, enquanto analisava a sua companhia acidental.

A viagem transcorreu monótona, sem diálogo, a moça só ouvia música e gesticulava como se estivesse dançando. Esgotado o repertório do “walkman”, Lilian retirou os fones do ouvido e sem pedir licença, ligou o rádio do carro, procurou um som jovem, ficou a ouvir calada. Gerônimo ainda tentou conversar alguma coisa, desistiu diante do mutismo da moça. Com duas horas de viagem bateu uma chuva grossa persistente. Gerônimo parou num posto de combustível para abastecer e lanchar. Depois do lanche, pela primeira vez Lilian falou.

– “Deixe, que a minha conta eu pago. Faço questão de não lhe dar despesas.”

Gerônimo respondeu brincando.

– “Na próxima você paga”.

Depois de dirigir mais 15 minutos ainda sob um intenso temporal, encontrou uma fila de carros parados. Gerônimo perguntou a um guarda rodoviário o que havia acontecido, ele respondeu que o aterro da cabeça de uma pequena ponte estava com problemas devido à enxurrada, o D.E.R. proibiu a passagem pela ponte. Estava perigoso enfrentar um desvio até Maceió àquela hora, escurecia. Aconselhou a dormir em Palmares e continuar a viagem no outro dia pela manhã, quando a ponte estivesse liberada. Gerônimo perguntou a opinião de Lilian. Ela fez um gesto com os ombros, como se dissesse tanto faz. Ele precavido voltou até o posto. Recomendaram um hotel na cidade.

Acertou na portaria, pediu dois quartos. A chuva não parava, marcou com Lilian para jantarem no próprio hotel às 19:30 h. Quando Gerônimo desceu na hora combinada, Lilian já havia jantado, subia as escadas para seu quarto, sem sequer dar um boa-noite. Ele não entendia aquela grossura. Jantou, recolheu-se cedo. Deitou-se de pijaminha bermuda esperando o sono. Relâmpagos cortavam o ar e trovões ribombavam incessantemente, custou a dormir. Ainda não era meia-noite quando foi despertado por fortes batidas na porta de seu quarto, a voz aflita de Lilian pedia, desesperada: “Por favor, abra aqui. Abra a porta!” Gerônimo deixou a cama num salto. Abriu a porta, Lilian entrou correndo, enrolada no cobertor, deitando-se na cama, confessou com voz trêmula morrer de medo de trovão. Gerônimo surpreso e fascinado pelo encanto da moça, agora humilde, buscou confortá-la, mandou que ela dormisse à vontade; ele dormiria na outra cama. Foi surpresa e emoção para o sessentão, quando ela puxou-o pelo braço pedindo: “Vem para perto de mim cara!”

Ela levantou o lençol, estava nua. Ao mesmo tempo em que o abraçou. Lilian, tremendo, levantou o rosto beijando voluptuosamente seu “motorista” na boca.

A noite longa transcorreu com muita chuva, muitos trovões e muitos ais. A louca ninfeta sabia tudo do amor, perfeita nos carinhos e na hora certa.

Dia seguinte, quando Gerônimo acordou, Lilian não estava na cama. Olhou para o céu pela janela, o tempo havia melhorado, mas continuava chuvoso. Tomou banho, arrumou a mala e desceu. Quando saiu do café, Lilian estava pronta sentada numa poltrona com a mala, esperando a partida.

Entraram no carro, a jovem tomou a mesma posição, calada como se nada tivesse acontecido. Não cumprimentou o companheiro de amor da noite de raios e trovões. Durante a viagem o fone não saiu do ouvido. Nem sequer disse um “obrigado” quando ele a deixou num edifício no bairro da Pajuçara.