CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

JÚLIA & JÚLIO

Ana Júlia quando aparecia de biquíni na praia da Avenida Paz fascinava os homens. O pai, viúvo, funcionário público, esforçava-se para lhe dar conforto e educação. Ela estudava numa escola pública e não teve muita dificuldade em passar no vestibular de medicina.

Júlio Fonseca e Ana Júlia eram namorados, inseparáveis depois da praia, gostavam de conversar e tomar cerveja no Castelinho, um bar-restaurante instalado no coreto da Avenida. Na primeira cerveja, eles brindavam, batendo os copos, recitando um poema de Carlos Pena Filho:

“São trinta copos de chope… São trinta homens sentados… Trezentos desejos presos… Trinta mil sonhos frustrados…”

Os dois se entendiam, almas gêmeas, era tempo das jovens virgens antes do casamento. Naquela época houve um Congresso de Plantadores de Cana em Maceió. Ana Júlia foi trabalhar como recepcionista durante a semana. Todas as noites um senhor visitava o estande. Encantou-se com a jovem, alegre e sensual.

Fazendeiro em Minas Gerais, separado, rico, o coroa solitário e bonito apaixonou-se. Ana Júlia até que simpatizou, ele prometeu o Céu, a Terra e o Mar se ela o quisesse. Quinze dias depois do Congresso ele retornou a Maceió, procurou Júlia. Conheceu o pai da jovem, queria casamento. Foi um reboliço na família. Um rico fazendeiro de 30 anos, apaixonado e louco para casar com uma jovem de 18 anos, cursando a Faculdade de Medicina.

Quando Júlio soube pela própria namorada que iria casar, levou um choque, ficou nocauteado e mudo. Foi como se um feixe de flechas tivesse lhe atravessado o tórax, o coração. Descobriu que amava Júlia loucamente. Tudo muito de repente

Na véspera da viagem, eles se encontraram na boca da noite no Castelinho. A namorada estava deslumbrante. Emocionados brindaram ao futuro. Quando se olharam nos olhos, os dois marearam. Ele não se conteve, sussurrou no ouvido de Júlia: “Lhe amo, lhe amo, lhe amo e nunca lhe esquecerei…”

Os dois choraram abraçados. Quando refreou a comoção, Júlia abriu o coração: estava casando por necessidade, seu pai tinha câncer, o tratamento era caríssimo. O noivo prometeu levá-lo para um tratamento moderno em São Paulo. O pai, não imaginava a história verdadeira, deu sua vida batalhando por ela, merecia essa loucura pragmática. Tinha chegado sua vez de retribuir, mesmo sacrificando sua juventude.

De mãos dadas, os dois namorados passearam mudos pela Avenida. Em certo momento, desceram à praia. Num ímpeto natural, abraçaram-se.

Ele beijou e lambeu o longo pescoço da amada, enquanto ela sussurrava seus ais e num grito abafado pediu: “Quero você, quero você, me possua, entre em mim…”

Os dois se uniram abraçados, beijando na boca, chegaram juntos ao êxtase, à apoteose. Ouviram pássaros marinhos cantarem àquela hora da noite.

Uma semana depois Ana Júlia casou-se com o fazendeiro apaixonado. Ficou morando na fazenda em Três Corações, numa enorme casa de 8 quartos, 4 salas, 5 banheiros. Sem condições de estudar medicina.

Alguns anos se passaram, Júlio pouco viu Júlia quando ela passava em Maceió. Aproximou-se certa vez para dar os pêsames no enterro de seu pai. Havia certo afastamento, um tratamento respeitoso, ou medo deles mesmos.

Nesse ano da graça de 2019, Júlio, coroa enxuto e alegre, bom folião, preparou-se para o carnaval e foi desfilar no Bloco da Nêga Fulô no domingo.

Brincava entre casais amigos na rua, de repente tomou maior susto ao se deparar com uma mulher madura, exuberante que dançava e pulava. O coração bateu forte, feliz emoção ao reconhecer Júlia com o esplendor de sua maturidade e alegria, pulando e cantando as marchinhas de carnavais antigos. Abraçaram-se, em rápida conversa marcaram encontro no dia seguinte, segunda-feira de carnaval, almoçar no Restaurante Maré.

Embora Júlio seja um cidadão correto, engenheiro, casado com três filhos, a fidelidade nunca foi seu ponto forte. No outro dia ao meio-dia ele estava sentado no deck da Lagoa Mundaú. Júlia desceu de um táxi com elegância e beleza, Aproximou-se sorrindo, deu um beijo em sua face, sentou-se a seu lado.

Ela desabafou. Contou seu sofrimento com o marido mineiro, extremamente ciumento, violento, e raparigueiro, “qualidades” que só apareceram depois do casamento. Tem uma filha e uma neta, lindas. Certo dia, Ricardo teve um derrame, um AVC, ficou andando e falando com muita dificuldade. A cadeira de rodas tornou-se sua prisão.

Foi uma liberdade para Júlia, mudou radicalmente sua vida. Antes de viajar para Maceió, chegou-se bem perto de seu desvalido esposo e comunicou que estava tirando férias, viajando à sua amada e bela terra. As lágrimas correram nos olhos de Ricardo. Ela não sentiu peso de culpa, nem arrependimento. Deixou uma enfermeira cuidando do marido

Benedito, o garçom, encheu novamente os copos de cerveja, eles sorrindo, brindaram: “São trinta copos de chope… São trinta homens sentados… Trezentos desejos presos… Trinta mil sonhos frustrados…”

Terminaram a tarde num motel. Felizes como vivessem ainda nos gloriosos anos da juventude. Soltaram desejos presos, realizaram sonhos frustrados.

Naquela mesma tarde, em Minas Gerais, choveu muito. Trovoadas e relâmpagos caíram na distante fazenda, Ricardo dormia na suntuosa cama de casal. Só à noite a enfermeira percebeu: seu patrão abraçado ao travesseiro havia morrido.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O FUTURO É HOJE

-Josimar você não tem vergonha? Só faltava essa, casar com a filha de sua terceira esposa, sua enteada, uma menina, mais nova que você quase 40 anos. Não tem vergonha? Hoje ela está com 18 anos, novinha bonita, atraente, os homens gostam da juventude, mas quando você chegar aos 70 anos ela ainda estará no auge dos 30 anos. Será uma ponta do tamanho de um bonde.

Repreendia Virgínia, irmã de Josimar, solteirona, invicta, ligada à Igreja, autêntica filha de Maria, cheia de preconceitos e dogmas. Reza todos os dias pela alma de Josimar, seu único irmão, seu último parente, mas fica estarrecida com sua vida de mulherengo incorrigível.

Há alguns anos quando o irmão casou-se a primeira vez, Virgínia comemorou. Afinal o mano querido sairia da vida pecaminosa de solteiro, cheio de raparigas e amantes. Foi difícil para Josimar acostumar-se com a vida de casado. Nas sextas-feiras, ao meio dia, saía direto para o Bar do Pontal, ponto de encontro de suas amizades, inclusive algumas garotas suspeitas. Mesmo com o nascimento de seu filho, Josimar continuou sua vida de boêmio. O casamento durou cinco anos, a separação foi até um alívio para esposa. Josimar nunca deixou faltar nada na casa da ex-mulher e do filho. Ele tem um bom emprego, uma sinecura federal, aparece uma vez por semana, é um tremendo funcionário boa vida.

Certa vez apareceu uma prima da Bahia, toda frajola, morena da cor de melaço, encantou nosso herói, saiu com ele várias vezes, ficava nas preliminares, mas nada do jogo principal. Marta, a baiana, dizia que ali só entrava casando. Muita cantada, muita lábia gasta pelo boêmio, porém Marta resistiu bravamente. Quem não resistiu foi Josimar terminou casando-se na Igreja de São Joaquim na cidade baixa de Salvador, com uma alegre recepção na casa dos primos. Sua família e amigos viajaram para Bahia num ônibus fretado. Quem mais ficou alegre foi Virgínia pensando que a prima consertaria a vida do irmão mulherengo. Nos primeiros meses o casal vivia de mãos dadas em lua-de-mel, aparecia em todos os lugares, enamorados. Os amigos comentavam: quem diria? Como uma mulher pode transformar um homem.

Certo dia chegou um recado de Brasília do deputado mandando Josimar resolver uma questão em Delmiro Gouveia, sertão alagoano. Ele não é advogado, mas tem conversa convincente, sabe defender pertinentemente seus pontos de vista, mesmo que esteja errado. No sertão ele resolveu a questão mais cedo que pensava e retornou ao lar pensando na baiana do rabo grande, sua digníssima esposa. Ao entrar no apartamento ouviu um barulho estranho, no quarto deparou-se com uma imagem que até hoje está fixada em sua mente e em sua alma. A bela Marta deitada na cama com um dos funcionários do prédio. Deu-lhe uma dor no coração, saiu do apartamento, foi para um bar encher a cara de cachaça. Terminou o casamento com um chifre enorme que ainda hoje dói. Prometeu nunca mais casar na sua vida, dedicar-se apenas às raparigas.

Anos depois conheceu, por intermédio da irmã, Mariluce, uma viúva, madura, bonita coroa, com uma filha de 16 anos, Maria da Penha. Josimar se encantou, estava cansado da vida de solteirão, os amigos casados, ele já não conseguia uma conversa adequada à sua idade nas noitadas cheias de jovem. Com certo tempo acertou formalmente e casou-se pela terceira vez. Mãe e filha foram viver no apartamento de três quartos de Josimar. Ele ficou feliz com seu novo casamento e deu-se às maravilhas com Maria da Penha, dizia que a enteada era a filha que não teve.

Matriculou e custeou a moça na Faculdade de Direito. Quando podiam viajavam os três. Maria da Penha tinha o padrasto como confidente sobre seus namorados. Josimar dava-lhe vestidos, perfumes, até um carro seminovo a enteada ganhou. Mariluce ficava com ciúmes pelo tratamento dado à sua filha, achava que ela também merecia. O tempo foi passando até que estourou a bomba. Josimar apaixonado por Maria da Penha deixou a mulher e foi viver com a enteada, um escândalo. Ele está feliz da vida. Nem liga para as espinafrações que a querida irmã Virgínia lhe dirige, ao encontrá-lo. Responde à irmã.

– O Futuro é Hoje.

ESTA HISTÓRIA ESTÁ INSERIDA NO LIVRO “CONTOS LEVEMENTE ERÓTICOS” QUE SERÁ LANÇADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA, DIA 25 OUTUBRO ÀS 19 HORAS NA COBERTURA DO EDIFÍCIO EMPRESARIAL DELMANN RUA SAMPAIO MARQUES 25 – MACEIÓ – PAJUÇARA.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A COOPERATIVA

A moto corria solta pelo asfalto, ziguezagueava procurando brechas entre carros, ônibus, caminhões, no caótico trânsito do meio dia. Micheline dirigia a moto veloz como uma malabarista, imprudente como ela só. De repente fechou o sinal, ela, desajuizada, não freou, tentou atravessar a avenida, quase ao chegar do outro lado foi atropelada por um carro, a moto rodopiou, Micheline foi jogada longe no jardim da praça. Acordou-se no Pronto Socorro com pernas e braços cheios de hematomas, nada grave, seu capacete salvou-lhe a vida, segundo testemunhas. Foi constatado não ter osso quebrado, assim que fizeram os curativos, o médico deu-lhe alta, o hospital estava superlotado, recomendou repouso absoluto. Ao chegar em casa sua mãe assustou-se e deu o sermão esperado. “Eu não lhe disse, moto é um perigo, e agora como vai trabalhar? Menina desmiolada. Se aquiete, arranje um emprego num escritório, esse negócio de moto-taxista é para homem jovem.”

Na verdade Micheline não tem emprego fixo, nem seguro de saúde, ela é autônoma, moto-taxista, presta serviços a uma espécie de cooperativa. Para que Micheline possa trabalhar com mais calma, eficiência e dedicação, seis amigos privilegiados organizaram uma sociedade informal, uma cooperativa. Micheline presta serviços especiais aos cooperativados. É o serviço mais antigo da humanidade, até santa existiu nesse ramo, Santa Maria Madalena, prima de Jesus. Por tudo isso Micheline sente-se segura, os excelentes patrões não lhe deixam ao Deus dará. Ela tem certeza que terá cobertura nesse acidente.

Na manhã seguinte, ainda enfaixada, deu o primeiro telefonema; falou com o deputado explicando o acidente e a situação, estava em casa machucada, precisava de um adiantamento, ela pagaria com muito amor e carinho, ele sabia. O deputado não reclamou, ela merecia pela excelência dos serviços, ninguém é tão eficiente quanto Micheline, mas a repreendeu, precisava ser comportada nesse trânsito maluco, deixasse a loucura apenas para o trabalho, pediu o número da conta e mandou um assessor depositar boa quantia.

Micheline passou o resto do dia em contatos com os outros cooperativados, o coronel, o secretário de estado, o cientista político, o suplente de vereador e o professor universitário aposentado. Micheline ainda presta serviços, fora da cooperativa, sem conhecimento dos patrões, a um pastor e a uma linda advogada.

Seu verdadeiro nome é Maria das Dores, Micheline é nome de guerra depois que entrou no ramo. Quando o cientista político conheceu intimamente aquela morena alta, bonita, cabelos negros, sorriso escancarado e debochado, olhar de gata no cio, comentou para os amigos de roda de chope, havia dormido com a mulher do século e do sexo, a morena mais frajola e quente da cidade. Nos braços de um homem era a própria Messalina, libidinosa e voluptuosa, fazia programa há pouco tempo, entretanto, ela é única, ama o pecado, peca só por prazer e vive para pecar, como diria o poeta. Diverte-se e gosta dos prazeres da carne. Entre quatro paredes tudo lhe é permitido. Os amigos ficaram fascinados com as descrições pormenorizadas do cientista político.

Nesse mesmo dia o coronel telefonou, foi devidamente atendido. Ao encontrar com os amigos confirmou a eficiência da deusa marrom. Em uma semana todos constaram a perfeição e dedicação de Das Dores. Alguém teve a ideia da exclusividade entre eles. Foi quando formaram uma cooperativa, as despesas e os serviços prestados por Micheline são devidamente repartidos entre os seis amigos. Para ser mais eficiente no atendimento deram-lhe uma moto e um celular, além de um banho de loja, é a moto-taxista mais chique do Brasil. Seu nome de guerra, Micheline, é devido a uma preferência sexual, diz ela que se fosse homem seria boiola. Ela tem um amigo francês elegantíssimo, homossexual assumido de nome Michel, em homenagem a esse homem, ela apelidou-se de Micheline.

A moto-taxista ama duas coisas na vida, andar de moto e dar. Os cooperativados depositaram em sua conta um generoso montante, ela passou quinze dias recuperando-se. Restabelecida procurou os cooperativados que a socorreram. Ela pagou a dívida, bem paga, com calorosas tardes de amor. Micheline retornou à moto e ao trabalho, não toma juízo, ama a velocidade, continua correndo nas brechas do trânsito caótico. Apareceram novos clientes, atende um ou outro quando está ociosa, porém, a prioridade é dos cooperativados. Ela é séria em suas obrigações trabalhistas.

ESTA HISTÓRIA, BASEADA EM UM FATO REAL, ESTÁ INSERIDA NO LIVRO “CONTOS LEVEMENTE ERÓTICOS”, A SER LANÇADO DIA 25 OUT NA COBERTURA DO EDIFÍCIO DELMAN NA PAJUÇARA, EM MACEIÓ.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A TARADA DA JATIÚCA

Ninfômana, segundo Aurélio Buarque de Holanda, o maior dicionarista da língua portuguesa, é uma mulher que tem tendência patológica ao abuso do coito, à compulsão ao amor carnal, ao ato sexual. Doença também chamada de uteromania, furor uterino, ou seja, no popular, simplesmente uma mulher tarada.

Depois dessa explicação médica-científica, posso contar o caso da loura gostosa que está atacando homens desavisados durante as caminhadas noturnas na orla da Jatiúca. Mais de oito ocorrências foram constatadas e comprovadas nas últimas semanas. A notícia já se espalhou na cidade, e logo aumentou o número de homens andando no calçadão nas noites mornas da praia de Jatiúca. Não deixa de ser um incentivo à saúde e à qualidade de vida.

Para os que me acusam de mentiroso, de inventar histórias, provo o acontecido com o depoimento de um homem íntegro e honesto, Bolívar; mais um que caiu na esparrela da tarada da Jatiúca. Ele contou-me a história como de fato aconteceu. Ainda está atordoado, só pensa na maravilhosa noite que passou com a loura sarada e tarada, idade indefinida entre 40 e 50 anos, e disposição sexual de uma adolescente transbordante de hormônios.

Bolívar é trabalhador, proprietário de duas revendas de veículo seminovo. Toda manhã é o primeiro a chegar à loja, só sai depois das dezenove horas, ao encerrar o expediente. Vendedor nato, nenhum de seus empregados tem o carisma, o fascínio de convencer ao cliente como o patrão. Bem casado, dois filhos, forma uma família exemplar. Toda noite, ao retornar do trabalho por volta das sete e meia, veste um short frouxo, um velho tênis e uma camisa larga, GG, tamanho maior que o seu. Bolívar caminha diariamente dez quilômetros na orla da Jatiúca. Depois entra numa roda de conversa com amigos respirando a brisa gostosa da noite. Ao voltar para casa, toma banho, veste um pijama, assiste um pouco de televisão. Gosta de novelas. É competente, no mínimo, três vezes por semana faz amor com Manuelita, sua querida mulher. Resumindo, é um cidadão comum, de bem com a vida.

Semana passada Bolívar confidenciou-me: Ele caminhava à noite na orla da Jatiúca. Ao passar pela Barraca do Siri, uma senhora correndo devagar, aproximou-se e perguntou se podia acompanhá-lo na caminhada, tinha receio de ser assaltada. Ele, gentil, tranquilizou-a, informou que não conhecia algum caso de assalto naquelas bandas. E que seria um prazer sua companhia. Os dois caminharam juntos em direção à praia de Cruz das Almas conversando amenidades. Ela apresentou-se, era paulista, morando em Maceió, a cidade mais aconchegante que encontrou, amou as praias e o povo da terra. Ao caminhar pela ciclovia por trás do Hotel Jatiúca, a loura achegou-se mais perto, Bolívar sentiu o inebriante perfume. Retornaram. A conversa estava mais que animada, contaram piadas picantes e inteligentes. Ao passar diante de um belo edifício, a bela coroa convidou Bolívar a tomar um drink em seu apartamento. Segurou sua mão, perguntou: vamos?

Ao entrar na quitinete nosso herói foi despido de maneira brutal. A mulher arrancou-lhe o velho calção frouxo e beijou seu peito cabeludo. Surpreso com tanta energia da parceira, ele correspondeu com a virilidade de homem de 50 anos. A loura tarada puxou-o para cama. Amaram-se feitos dois animais. Os detalhes da peleja, Bolívar não me contou. Entre uma e outra refrega, ele teve descanso apenas enquanto tomava banho e se reabastecia de azuladinha oferecida pela anfitriã. Foi uma noitada de uísque e amor com a bela coroa. Já passava da meia noite quando Bolívar entrou em casa. Manuelita, deitada, sonolenta, perguntou por onde andava. Ele respondeu: “conversando com os amigos na orla”. Tomou um banho, vestiu o pijama, dormiu como um anjo. Sonhou no meio de um bacanal com muitas louras saradas, tatuadas e taradas. No dia seguinte acordou-se ainda com efeito da pílula, apreciou a esposa apenas de calcinha. Não teve dúvida, pulou por cima. Manuelita acordou-se feliz da vida com a energia do maridão.

Quando Bolívar soube de outros casos iguais com a loura tarada, ele, agora, encerra o expediente mais cedo, inicia sua caminhada noturna olhando para os lados, caçando a galega. Já a encontrou duas vezes e ficou ciúme quando a viu andando, acompanhada, uma vez com um vereador, outra vez com conhecido surfista. Ao passar, ela piscou-lhe o olho, enchendo-o de esperança. Bolívar não desiste, contou-me que, continua caminhando toda noite, procurando, tem esperança e certeza em encontrar a loura, desacompanhada.

Como chegou o verão, o Sol está forte queimando as costas, braços e pernas, decidi trocar minhas caminhadas matinais por caminhadas noturnas. Agora, também caminho toda noite pela orla da Jatiúca. Quem sabe?

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

PAPILLON

Albuquerque frequenta a academia de natação, duas a três noites por semana. Tem esse vício em nadar contínuas braçadas, relaxar antes de dormir. Certa noite depois da natação, dormiu feito um menino, roncou feito um bode, teve um sonho, surreal, quase pesadelo: Ele se aproxima por trás de uma mulher, costas nuas, a nuca tatuada com uma borboleta colorida, asas abertas. Num impulso ele estende a mão tentando alcançar a mulher. De repente, a borboleta tatuada levanta voo batendo as asas por cima de seu nariz. Nesse momento a mulher vira-se, ela não tem rosto definido, falta-lhe nariz e boca, apenas dois olhos cinzas, ele se assusta. Albuquerque acordou-se ofegante, excitado, o nariz irritado, coçando. Sonhou algumas noites seguidas, a mesma mulher, a borboleta, o nariz coçando. O sonho ficou nítido em sua mente, coisa rara, durante o dia tentava interpretar a história, tinha certeza, conhecia aquela tatuagem, tinha visto a borboleta colorida num pescoço, não recordava a pessoa.

À noite custava a adormecer pensando no sonho. Tentou relaxar, apelou para cinema, andar na praia, escrever, saiu com casais amigos, bebeu além da conta, dormiu feito um príncipe, entretanto, o mesmo sonho veio-lhe na madrugada. Consultou a um psicólogo amigo, a conversa de uma hora não deu resultado prático. A borboleta tatuada na nuca não lhe saía da cabeça.

Foi à natação relaxar, a academia repleta de jovens, velhos, mulheres, exercitando ou nadando. Albuquerque nadou ininterruptamente oito piscinas, ao terminar 200 metros, boa marca para um sessentão, segurou-se na borda, pequeno descanso. Ele notou na raia vizinha uma mulher fazendo exercício de respiração, mergulhava, soltava o ar, emergia, respirava novamente. Seu coração disparou entre surpreso e emocionado, quando avistou por trás do pescoço da mulher, a tatuagem, a borboleta colorida. Encantado, extasiado ao ver a nuca tatuada, tentou conter a emoção, não pode conter o olhar insistente à nadadora, mulher madura, bem conservada, nem bonita, nem feia, ele olhava fixamente a borboleta. Certo momento ela tirou os óculos, olhos cinzas, segurou a escada da piscina, subiu. Albuquerque teve certeza, era a mulher do sonho. Ele também subiu, acompanhou-a discretamente, aproximou-se, num impulso puxou conversa.

– Essa borboleta tatuada lembrou-me o livro, Papillon. A história de um preso fugitivo na Guiana Francesa, ele tinha uma borboleta tatuada, era conhecido como Papillon, borboleta em francês.

– Interessante, eu gostaria de ler, qual livraria tem esse livro?

– Posso lhe emprestar, a senhora vem quando por aqui na academia?

– Toda noite eu nado a partir das sete horas.

– Amanhã trago o livro, a senhora vai gostar, tenho certeza. Fizeram um filme com o Dustin Hoffman.

– Até amanhã, despediu-se a nadadora saindo da academia.

Albuquerque ao chegar em casa tomou um bom café. Procurou o livro “Papillon”, não encontrou, ficou especulando, lembrou que havia doado alguns livros a uma Biblioteca Comunitária. Nessa noite teve o mesmo sonho, mudou um detalhe, o rosto da mulher era visível, era a nadadora.

No dia seguinte pela manhã foi a uma livraria e comprou o livro. À noite, antes das sete ele nadava, ao avistar a mulher, alegrou-se, cumprimentaram-se.

– Eu trouxe o livro. – disse-lhe arrancando um sorriso, saíram juntos da piscina, conversaram na lanchonete por meia hora. Na noite seguinte conversaram mais. Ela, professora de música, divorciada, dois filhos, não queria compromissos, gostava de ler, estava adorando o livro. Nessa noite, durante o sonho ele abraçou a nadadora, acordou-se excitado.

De conversa em conversa à beira da piscina, tornaram-se amigos, dois adultos, ele não teve dúvida em contar a história do sonho, confessou, só deixava de ter o sonho quando beijasse a borboleta, ela gargalhou. Marcaram encontro na outra tarde. Amizade colorida, sem compromisso, assim acertaram. Albuquerque não sonha mais com a mulher sem rosto, entretanto, em algumas tardes deliciosas, ao vivo e a cores beija a borboleta tatuada. Com carinho sussurra ao ouvido da nadadora: “Minha Papillon”.

ESTA HISTÓRIA FAZ PARTE DO LIVRO “CONTOS LEVEMENTE ERÓTICOS”. LANÇAMENTO: DIA 18 DE OUTUBRO ÀS 18 HORAS NA COBERTURA DO EDIFÍCIO DELMAN EMPRESARIAL, RUA SAMPAIO MARQUES 25 – PAJUÇARA-MACEIÓ

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O SÍTIO DA BICA DA PEDRA

Era uma vez, em Maceió, uma jovem, bela, recatada e do lar, filha de um comerciante de sapatos na Rua do Comércio. Fernanda, aluna do Colégio São José, aprendeu com a mãe a costurar, cozinhar, tocar piano e ser rainha de casa. O pai, extremamente religioso, só deixava a filha sair à rua ou às festas, se acompanhada dos irmãos. Claro que sua virgindade permaneceu invicta até o casamento. A beleza e sensualidade exuberante de Fernanda chamavam a atenção. Numa festa de 15 anos, conheceu Albérico Albuquerque, mancebo de família rica, estudante de Direito no Recife, bonito, másculo, xodó das mulheres, passava férias de final de ano na cidade.

Albérico encantou-se por Fernanda, a bela. Iniciaram um namoro de portão de casa, horário e vigilância rígidos. Dentro de dois anos, casaram-se, apesar da resistência dos pais do noivo, queriam um casamento para o filho dentro do circuito açucareiro. Albérico, já exercia a função de advogado das empresas familiares; impôs-se e casou-se, com direito a lua de mel na Europa.

Três anos se passaram, o casal bonito chamava a atenção. Albérico não quis filho no início do casamento; Fernanda se frustrava. O ritmo de amor na cama diminuiu, às vezes mais de um mês sem um carinho. Em conversa com a prima e confidente, Claudinha, Fernanda ouviu com atenção o relato das peripécias sexuais da prima na cama com o marido. Claudinha não podia viver sem aqueles carinhos especiais. Fernanda encantou-se e excitou-se com os detalhes contados pela prima, ascendeu-lhe uma fogueira em suas entranhas, quase adormecidas.

À noite, depois do banho, Fernanda vestiu minúsculo lingerie preto, estava divina e escandalosamente sensual. Albérico sequer olhou para esposa, disse apenas estar cansado, deitou-se. Ela não entendeu, nem admitiu aquela apatia. Abraçou o marido, atacou com volúpia, mãos e boca entornaram o corpo másculo. Para sua surpresa, Albérico levantou-se, olhou para esposa e a repreendeu: – “Quem faz isso é prostituta. Quem lhe ensinou? Você quer ser quenga?”. Dizendo-se muito cansado foi dormir em outro quarto.

Fernanda, entristeceu e chorou. Seus instintos desejavam aqueles carinhos ensinados pela prima. Ficou a perguntar-se se era uma tarada, uma quenga. Custou a dormir. No dia seguinte nem Albérico, nem Fernanda, conversaram sobre o acontecimento da noite anterior.

O casal gostava de passar fim de semana no bucólico sítio na Bica da Pedra, beirando a lagoa Manguaba. Certo domingo, Fernanda teve que retornar a Maceió mais cedo, o motorista viria buscar Albérico perto da noite; deixou o marido cheio de uísque deitado na rede. Com quinze minutos dirigindo, ela sentiu falta da bolsa, naquela época não havia celular, Fernanda resolveu retornar ao sítio. Ao entrar na casa, notou alguma coisa fora do normal, não havia vestígio do marido. Ao segurar a bolsa em cima da mesa, ouviu um barulho em seu quarto. Abriu a porta e tomou um choque; essa cena permaneceu na memória para o resto da vida. O belo Albérico, nu, por cima da filha do morador, uma garota de 16 anos. Fernanda soltou um grito, “Filho de uma puta”, correu, entrou no carro. Chorou até chegar em casa.

Era noite quando Fernanda parou de chorar. Tomou um banho, nua, olhou-se no espelho, achou-se bonita. Colocou um belo vestido, perfumou-se, pegou um táxi em direção ao Zinga Bar na praia de Riacho Doce. Avistou alguns conhecidos, sentou-se à mesa com amigas e amigos. A partir dessa noite, escandalizou a província saindo com homens solteiros e casados. A história de Fernanda e Albérico tornou-se o fato mais comentado pelos fuxiqueiros em todas as esquinas, bares e lares da cidade.

Fernanda foi morar ao Rio de Janeiro. Amou a balada carioca dos anos 60/70. Bonita e gostosa frequentou os bares e boates de Ipanema e Copacabana. Caiu na noitada carioca. Fez sucesso entre artistas, políticos, desocupados. Arranjou um emprego, depois do meio dia. A nova vida terminou arrastando-a aos braços de muitos homens, famosos ou não. Fez sucesso, mestra em todas as posições do Kama Sutra. Até que um dia um senador do Paraná apaixonou-se, deu-lhe apartamento, joias e um emprego no Senado. Os anos passaram-se, teve dois filhos com o Senador, foi-lhe fiel até a morte. Hoje, em seu apartamento em Copacabana, Fernanda olha pela janela o mar azul, relembra da juventude presa, recatada e do lar. Tem planos de morar, passar o resto da vida, no sítio da Bica da Pedra.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

COCO VERDE

Ao completar 50 anos, Laurinha, bela mineira de Juiz de Fora, engenheira ambiental, sensível, preocupada com o bem estar comum, ganhou do ex marido uma viagem ao Nordeste, iniciando em Maceió. Desceu no Aeroporto Zumbi dos Palmares, pegou um táxi direto ao Hotel Atlantic na praia da Jatiúca. Ao descortinar a janela do apartamento encantou-se com o mar azul turquesa esverdeado, a praia de areia branca e os coqueiros enfileirados feito sentinelas vigilantes. Sentiu uma sensação de bem estar, de amor, de paixão pelo belo cenário em seu redor. Foi amor à primeira vista.

Eram quatro horas da tarde, ela vestiu um biquíni que pouco encobria o corpo firme e conservado de uma mulher madura. Desceu à praia e caminhou descalça na areia fina por mais de meia hora, como se estivesse tomando posse do lugar. Estava fascinada com tanta beleza. –“Esta é minha praia”, disse para si mesma. Retornou caminhando à beira mar, sentindo no corpo o respingo das marolas molhando seus pés. No calçadão tomou água de coco, sentou-se num banco, absorta, embevecida com o Sol se pondo lá para o fim do mundo. O entardecer alaranjado deu-lhe um sentimento de paz e tranquilidade.

No Hotel conheceu um grupo de turistas, coroas; convidaram Laurinha para uma volta noturna na cidade. Foi uma noitada agradável na casa de dança Burguenvíllia. Conheceu um advogado alagoano, moreno, sessentão, contumaz frequentador daquela casa onde se divertem os solteiros mais descolados da cidade. Tenorinho é uma figura polêmica, cheio de conversas fantasiosas, encanta e diverte qualquer roda. Uma vida pessoal com muitos atropelos, três casamentos desfeitos. Tenório se gaba com amigos de ser o maior caçador de turista nas noitadas maceioenses. Laurinha caiu em suas garras, acordou-se em seus braços num pequeno apartamento na praia da Ponta Verde.

Foram três semanas e meia de amor. Laurinha deixou para conhecer o Nordeste em outra viagem. Tenório ficou deslumbrado com as mãos mágicas da parceira, além de engenheira, ela é excelente massoterapeuta. Nas horas vagas de amor, eles fizeram turismo nas praias do Litoral Norte, Litoral Sul. Laurinha, católica praticante, encantou-se com as igrejas, o Museu de Arte Sacra da bela cidade barroca e histórica de Marechal Deodoro. As férias acabaram. A mineira retornou à sua terra, muitas lembranças e saudades daqueles dias nos braços de Tenorinho. Em Juiz de Fora contou às amigas suas aventuras e os passeios maravilhosos com um alagoano bem humorado, baixinho, de seu tamanho.

Três meses depois aconteceu um feriadão. Laurinha não teve dúvida, comprou passagem, instalou-se novamente no Hotel Atlantic. Ela retornou com todo charme da mulher mineira, pensando em curtir as praias, os belos coqueiros, tomar água de coco, olhar para o azul do mar. Assim que pôde fez a surpresa: telefonou para Tenorinho. Acontece que o pilantra, surpreendido, deu uma desculpa esfarrapada. Ele estava dando assistência a uma turista norueguesa. Laurinha não se comoveu, percebeu que sua paixão não era o homem, sua paixão era aquela cidade tropical, a suave brisa, e a beleza inimaginável da cor do mar. Na manhã seguinte caminhou na praia, mergulhou no azul piscina, satisfeita da vida porque estava em sua terra adotada e adorada. Sabia o caminho da noitada partiu para o Burguenvíllia, não ficou solteira durante o feriadão. Esqueceu Tenório desde que desligou o telefone.

Agora, tornou-se rotina, todas as férias e feriadões, Laurinha viaja à Maceió. Fez vários amigos na cidade, frequentadora do Orákulo, do Caldinho do Vieira, sem esquecer o Burguenvíllia. Outros namorados aconteceram. Reviu o Tenorinho algumas vezes, ele convidou, insistiu em levá-la a passeios, ela negou apenas com um gesto, balançando a cabeça.

Dezembro passado Laurinha entrou em férias, alugou um apartamento mobiliado na praia da Jatiúca. Brindou o Réveillon na praia. Juntou-se aos amigos, muitos fogos, dançou ao ar livre, divertiu-se curtindo até o amanhecer do novo ano. Acordou-se depois do meio-dia, foi à varanda do apartamento, bocejou, estirou-se com preguiça no corpo, deu vontade de tomar uma água de coco. Desceu à praia, pediu ao rapaz abrir um coco. Ele cortou com uma rapidez fantástica. Laurinha ficou impressionada com a perícia e o corpo musculoso, espadaúdo e brilhante do guapo moreno. Puxou conversa; amou a alegria, a simplicidade do jovem Cícero, o vendedor de coco. Ela tomou água de coco por mais três vezes. Dia seguinte, ao entardecer, pediu ao Cícero para levar cinco cocos verdes em seu apartamento. Ao chegar, o jovem colocou os cocos descascados na cozinha. Ela o convidou para sentar, ele sentou-se. Ela ofereceu-se para fazer-lhe uma massagem, transaram. Durante o resto das férias, o jovem Cícero, todos os dias, alegre, levou coco para sua amiga mineira. Às vezes dormiu relaxado com a massagem. Laurinha cada vez mais ama Maceió, curtindo a vida e sedenta de água de coco.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A MANICURE

– Depois de velho você ficou relaxado, coisa feia! Não corta o cabelo, unhas grandes, vou contratar manicure. Se eu morrer você vai virar lobisomem. – Vivia reclamando Dona Sílvia aos ouvidos de Fonseca.

Certo sábado, pela manhã, apresentou-se no apartamento uma morena sorridente, Aparecida, manicure. Dona Sílvia tirou o marido da leitura dos jornais na varanda, hora de fazer as unhas. Ele levantou-se, mais para livrar-se da insistente mulher. Sentou-se na poltrona, cumprimentou a manicure, acionou o controle remoto da televisão. Colocou os pés numa bacia de água quente para amolecer as unhas. Dona Sílvia deixou o marido entregue à manicure, foi às compras, sábado é dia de Shopping, encontro de amigas, só retornaria na hora do almoço.

Durante o cortar das unhas, Aparecida alisou a mão de Fonseca de uma forma suave, ele sentiu uma sensação gostosa, carícia no toque de mãos. Olhou para manicure e ficou inquieto ao perceber o generoso decote, seios duros, empinados. Há tempos não se excitava só em olhar uma mulher. Puxou conversa.

– Você é a boa manicure, sabe cortar com suavidade, onde aprendeu essa delicadeza?

– Eu precisava de uma profissão, ganhar dinheiro para me sustentar, tenho uma filha. Uma amiga me ensinou e fiz um curso no SENAC, hoje tenho bons fregueses, não paro de cortar unhas, os clientes gostam. Ser manicure foi muito bom para mim. O que ganho está dando para sobreviver.

– E seu marido, pai de sua filha, não lhe ajuda?

– Tenho marido não. Namorei um vizinho, ele me engravidou, eu era ainda menina, tinha 15 anos. O desgraçado danou-se para o Rio de Janeiro, sonhava ser cantor de rádio e televisão. Há mais de cinco anos não tenho notícias do vagabundo, me disseram que é traficante no morro. Eu moro com minha mãe.

Conversaram bastante. Aparecida contou sua vida, semelhante às jovens da periferia do Nordeste. Ao terminar, ele olhou os pés, as mãos, admirou as unhas simetricamente cortadas, perfeitas. Perguntou o preço do serviço, pagou R$ 35,00, cinco a mais do valor pedido. Aparecida agradeceu, guardou o material. Fonseca ficou encantado com o rebolar do corpo moreno dentro do vestido branco, quase transparente. Ela despediu-se perguntando quando retornava.

– Venha no próximo sábado. – Fonseca disse com entusiasmo.

Na hora do almoço Dona Sílvia inspecionou as mãos, os pés, do marido, aprovou, perguntou se havia gostado da manicure, Fonseca fez-se indiferente, entretanto, a jovem não saía da cabeça.

Fonseca alimentou-se de fantasia, sonhava com a morena acariciando seus pés. Ficava feliz desde sexta-feira. Em conversas enquanto cortava unhas, tornaram-se amigos, íntimos, certa vez ela confessou ter sido garota de programa, não gostou. Numa manhã de sábado, ao pagar a manicure, Fonseca encorajou-se, alisou o pescoço da jovem e deu-lhe um beijo na testa. Ela reclamou baixinho, com ar de cumplicidade: “Não Seu Fonseca, não…” Ele a trouxe num abraço apertado, beijou-lhe a boca. Deitaram-se no tapete comprado na Capadócia, fizeram amor pela primeira vez.

Dona Sílvia ao chegar notou a cara de felicidade do marido tomando uma cervejinha, cantando na varanda, achando o mar e a vida bonita. Convidou a esposa para almoçar fora, variar de comida, de tempero, foram à Barraca Pedra Virada na orla da Ponta Verde, encontraram amigos, passaram uma tarde maravilhosa conversando, uísque de combustível. Ao chegar em casa amaram-se como nunca mais tinham amado. Dona Sílvia, antes de adormecer, conseguiu perguntar: – O que houve com você, hoje?

No sábado seguinte Fonseca conversou sério com a manicure, não ficava bem fazer amor dentro de sua casa, era falta de respeito. Marcou, estabeleceu com Aparecida. Uma vez por semana, eles se encontram para uma deliciosa tarde de amor num motel. Dentro do apartamento nunca mais aconteceu. Afinal Fonseca é um cidadão de respeito.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

JOCÃO

Em Maceió havia mentiroso, aliás, o maior mentiroso do mundo, Jocão. Era assíduo frequentador do Café Colombo na Rua do Comércio, ponto de convergência de intelectuais, políticos, artistas, boêmios e outros desocupados. Jocão ao entrar se achegava às melhores rodas. Todos gostavam de suas divertidas histórias. Escolhia uma mesa onde não houvesse possibilidades de pagar a conta, arrastava uma cadeira, sentava, entrava na conversa. Logo perguntavam pelas novidades. Era a senha, Jocão, com sua fértil imaginação, primoroso contador de histórias, iniciava uma fantástica trama inventada na hora.

Certa tarde ele contou como se tornou o maior criador de codorna do Brasil. De sua fazenda no Carrapato exportava codorna e ovo para todo mundo. Tudo começou numa visita a Pedrinho, coletor estadual de Fernão Velho. Na despedida, Pedrinho embrulhou alguns ovos de codorna num papel de jornal para Jocão cozinhá-los em casa. Ele colocou o embrulho no bolso do paletó.

Já havia passado mais de um mês quando Jocão ouviu piados no quarto. Investigou de onde vinham aqueles pios parecidos com os de pombos. Ao abrir o guarda-roupa desvendou-se o mistério: no bolso do paletó estavam oito bugrelos de codorna nascidos dos ovos, presente de Pedrinho esquecidos no paletó.

Ele retirou os bugrelos, deu de comer pirão de farinha de mandioca. Os bichinhos foram crescendo. Reproduziram-se com rapidez, ele teve de colocá-los em sua fazenda no Carrapato. Já era considerado o maior produtor de codorna do país, talvez do mundo. Tudo por mera sorte.

Depois de contar a mentira, sentia-se à vontade entre os amigos, pedia mais cerveja e tira-gosto. Pagava a conta com suas fantasiosas histórias.

No tempo da II Guerra Mundial, muitas vezes Maceió entrou em “black-out”. Todas as casas, todas as ruas apagavam as luzes. Carros e ônibus não circulavam. A cidade totalmente às escuras se precavendo de um ataque aéreo ou de submarinos alemães. Havia uma rigorosa fiscalização pela defesa civil procurando alguma falha, alguma luminosidade para corrigir.

No final da tarde posterior a um desses rigorosos “black-out” Jocão apareceu nas escadarias da Associação Comercial, onde se juntavam os grandes comerciantes e homens do mundo dos negócios.

Assim que viram Jocão foram perguntando pela novidade. Ele não se fez de rogado e iniciou sua história.

“- Eu quase não dormi nessa noite de black-out, os aviões da fiscalização sobrevoaram o tempo todo minha casa. Parecia que havia alguma coisa errada. Um avião passou tão baixo que meu vizinho acendeu o cigarro no fogo do motor do avião. Ouvi no rádio que havia um foco intenso de luz na rua onde moro, pedia à população procurar a luminosidade senão os submarinos bombardeavam Maceió. De repente minha casa foi invadida por soldados do 20º BC. Tinham identificado o “holofote” na janela de minha casa. Tudo foi esclarecido, a forte luminosidade era o anel de brilhante de minha esposa que refletia a luz da Lua. A luz foi identificada por um oficial em posição na cabeça do cais do porto, depois que os aviões deram o alarme. Cheguei a ser preso. Só sai do quartel hoje pela manhã.”.

Jocão se aborrecia quando o chamavam de mentiroso. Certa vez no Café Colombo pediram para contar uma mentira. Ele ficou triste, calado e muito sentido. Logo esclareceu, sua mulher havia falecido. Estava por ali para espairecer um pouco e ver se arranjava algum dinheiro, ajuda para o enterro.

Os boêmios solidários fizeram uma arrecadação, deram a quantia para Jocão, que além de embolsar o dinheiro, pegou algumas garrafas de cerveja, um taco de presunto, deixou na conta dos amigos e foi chorar a defunta.

Um bêbado e um garçom foram designados para comparecerem ao enterro da mulher do Jocão no dia seguinte às 10 horas, representando os frequentadores do Café Colombo.

Ao chegarem perto da casa de Jocão na Rua Santa Maria (hoje Guedes Gondim) estranharam a falta de movimento e não ter cortinas negras nas janelas, como era costume nos enterros saídos das casas do morto.

De repente Jocão abriu a porta. Os representantes do Café Colombo perguntaram a hora do enterro. Para espanto dos visitantes, nosso herói gritou para dentro de casa: “Bastinha, venha ver quem veio para seu enterro”.

Complementou para os dois companheiros: “Vocês não pediram para eu contar uma mentira?”.

Sua mulher apareceu dando uma bela gargalhada. Convidou os amigos para uma irrecusável rodada de cerveja com tira-gosto de charque. A alegre “defunta” se divertia com as invencionices de seu marido, Jocão, o maior mentiroso do mundo, nasceu e viveu na cidade de Maceió. Até hoje contam suas fanfarrices e mentiras bem humoradas.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

QUEM É ESSA MULHER?

Quem é essa mulher que me acorda às seis horas da manhã e me beija com a boca de hortelã? Diz que é para me cuidar e me leva para nadar. Quem é essa mulher que todo dia ela faz tudo sempre igual? Depois do café da manhã sai com suas pastas embaixo do braço direto ao escritório e divide com o genro e a filha o trabalho de clientes em busca de seus direitos. Quem é essa professora que aos 40 anos resolveu enfrentar um vestibular de Direito, formou-se e montou um escritório de advocacia? Quem é essa advogada que passou quase dois anos sem folga, sem sábado e domingo, estudou e passou no concurso de Promotor de Justiça? Quem é essa promotora que deixava sua casa, seu marido e filhos durante a semana para assegurar a Justiça no interior do Estado? Quem é essa mulher que poderia estar desfrutando de uma aposentadoria merecida, porém, reabriu o escritório e trabalha todos os dias? Quem é essa mulher atarefada que arranja tempo para dedicar-se aos filhos crescidos, a levar os netos às aulas de inglês, de tênis, de natação? Quem é essa mulher síndica do prédio onde mora, administra com dedicação como fosse sua casa? Quem é essa mulher que trabalha com amor e alegria e possui uma felicidade intrínseca e encantadora? Quem é essa mulher que percebeu dois pequenos coqueiros morrendo na praia, comprou dois pés de coqueiros, ela mesma reimplantou e os coqueiros cresceram viçosos sob sua vigilância? Quem é essa mulher que quando enxerga um lixo acumulado no meio da rua, telefona à Prefeitura para que venham limpar sua cidade. Quem é essa mulher que quando percebe o esgotamento sanitário vazando com a água em dejetos aciona a Casal para que possa consertar o bueiro fétido? Quem é essa mulher que cuidou do pai moribundo com amor e carinho, trouxe-o para sua casa, fez o que pode e o que não pode até o final de seus dias? Quem é essa mulher que leva comida a um cão abandonado no quintal de uma casa e nos dias de sábado dá banho e conforto ao pobre animal? Quem é essa mulher forte que não se deixa pisar? Quem é essa mulher que gosta de bons livros, de bons filmes, teatro, música, show e da cultura popular? Quem é essa sertaneja de Major Isidoro que ama o linguajar matuto de seu povo, das danças, dos coloridos folguedos e folclores? Quem é essa mulher animada que faz o passo atrás de um bloco de frevo nos dias de carnaval? Quem é essa mulher que gosta de viajar perambulando pelo mundo, Cartagena, Praga, Berlim, Nova York, Paraty, Lisboa, ou a amada Penedo? Quem é essa mulher brasileira, cidadã da pátria amada, idolatrada, salve, salve? Quem é essa mulher que nunca deixou de ser professora, ensina aos netos, dá palestras nas Igrejas e nas Festas Literárias do Brasil afora? Quem é essa mulher que move montanhas defendendo seus direitos, como uma loba defende seus filhotes? Quem é essa mulher que paga a faculdade das filhas da secretária? Quem é essa alegre mulher que ama as colegas de colégio e infância, conserva o carinho de suas amigas em encontros e almoços, aproveitando a fase madura da vida.

Quem é essa mulher que desde menina, gostou dos livros, dos estudos, que teve uma juventude feliz em sua Maceió e até New Jersey? Quem é essa menina que um dia encontrei em flor de seus 15 anos num acampamento de Bandeirantes, e eu tenente, cantei pra ela em premonição: “Ôh Galeguinha você é tão bonitinha… engraçadinha… vou me casar com você”. Poucos anos depois entramos na Catedral Metropolitana trocando alianças. Essa mulher hoje completa 70 anos e o tempo não desfez sua beleza, continua tão bonita quanto a adolescente galeguinha bandeirante que encontrei um dia, acampada na praia do Pontal.

Sou um ser privilegiado, a única pessoa no mundo a conhecer profundamente a gentileza, a bondade, a perseverança, a força dessa mulher divina, que toda noite me jura eterno amor, não me deixa dizer não, e me beija com a boca de paixão. Essa é minha mulher, minha amada, amante, timoneira do barco de nossas vidas; mas, nem tudo foi um mar de rosa. Vânia aprendeu a remar com o tombo do navio, com o balanço do mar. Navegar foi preciso. Essa mulher segurou forte o leme nos maremotos. Hoje navegamos em calmaria, enxergando, ao longe, outros mares ou um porto final além do horizonte.

(Escrevi esta crônica para Vânia quando ela completou 70 anos, em agosto de 2018. Vou reeditá-la todos os anos, pelo resto da vida, no dia 22 de agosto, até o resto de meus dias, até ancorar no porto final; não está tão longe)