CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A COROA PODEROSA

Gerson é um homão, trinta e poucos anos, mais de 1,80 metros de altura, corpo de atleta, cara bonita. Xodó das meninas no tempo de solteiro. Hoje advogado brilhante, ambicioso, atuante.

Ao contrário de muitos especialistas defensores de que a beleza feminina está no auge entre 17 e 22 anos, Gerson assegura que o auge da beleza feminina está na maturidade. Uma mulher de quarenta, cinqüenta, sessenta anos, sabe o que o homem gosta; é bela em sua elegância, em saber o que deseja.

Meses atrás, Gerson frequentava um curso de pós-graduação com alguns colegas advogados, promotores, juízes, inclusive uma advogada, cinquenta e poucos anos, senhora letrada, inteligente, de um bom humor notável. Ele teve uma empatia instantânea com essa madame, viúva, bela e gostosa.

Dora, três casamentos além de casos amorosos. O mais rumoroso, por certo, com um governador do Estado. Teve também um discreto caso com uma artista da rede Globo, que se apaixonou, passava fim de semana em Maceió, para estar com esse belo espécime de mulher.

Dora foi muito poderosa nos bastidores da política. Nas brigas do poder ela metia a mão de ferro, elegantemente, protegendo seus partidários no emaranhado da corte. Seja no poder Executivo, Judiciário ou Legislativo, durante o mandato de seu amante governador, ela foi ouvida, teve poder de decisão. Esse poder não conquistou à-toa, foi pela inteligência, firmeza e posições tomadas, principalmente na cama.

A coroa tem ânsia de viver. O mais de meio século não deixou marcas na jovem alma. Mulher alegre, corpo bem cuidado, bem moldado; teve ajuda, certamente, das academias de ginástica e cirurgiões plásticos.

Mulher de muita leitura, gosta de fazer cursos, atualizar-se, aprender. Gerson e Dora frequentavam o mesmo curso há dois meses. Todas as noites estudavam juntos, gostavam da companhia recíproca. Ele a via como uma irmã mais velha, mas havia atração, apreciava os decotes ousados dos vestidos de nossa musa.

Certa noite, os colegas foram terminar um trabalho em grupo no espaçoso apartamento de Dora na praia de Ponta Verde. Mais de duas horas de discussão numa mesa circular, deixaram a conclusão do trabalho para outro dia. Dora ofereceu um gostoso lanche: moqueca de siri mole, regado a vinho branco e uísque. Foi o ponto alto da noite. O grupo se divertiu até tarde, ouvindo boa música, papo alegre, inteligente. Gerson dedilhando um violão, cantou: “Dora, rainha do frevo e do maracatu…”. Recebeu um beijo lambido no ouvido.

Foi sugerido continuarem os trabalhos no sábado, no mesmo local.

Sábado pela manhã, Dora foi ao mercado comprou camarão e arabaiana, o prato da noite, filé de peixe ao molho de camarão. Ligou para todos os componentes do grupo, se desculpando, pedindo adiar o trabalho para terça-feira. Só não telefonou para Gerson.

uando ele, carregando livros e papéis embaixo do braço, pontualmente tocou a campanhia, Dora abriu a porta do apartamento, com um largo sorriso e um boa-noite, estava maravilhosa de vestido azul colado ao corpo. Gerson estranhou quando sua amiga falou no trabalho adiado. Convidou-o para entrar, seria uma companhia agradável se ficasse para jantar.

Sentaram-se na varanda com vista à praia iluminada por uma azulada lua bonita refletida no mar e nas palhas dos coqueiros. O uísque rolou, bons tira-gostos, até Dora servir o peixe com camarão.

Ao voltar para a varanda, colocou uma música suave, americana, iniciava assim: “Heaven I’am heaven…”, isso é, “Paraíso, estou no paraíso”.Gerson deu-lhe a mão, saíram dançando, escorregando pela sala, ele cantava a canção em seu ouvido, puxava seu corpo com vigor, iniciaram uma seção de carinho e carícias, até ela sussurrar, pediu para ser levada ao quarto. Num impulso, colocou-a nos braços como se fossem recém-casados, empurrou a porta, entrou no quarto, soltando-a ternamente na cama. O resto é silêncio, como diria Shakespeare.

Depois dessa noitada de muito amor, os dois continuam se encontrando secretamente no mínimo duas vezes por semana, para uma seção de matinê na suíte presidencial do belo apartamento da coroa, que continua poderosa.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UMA HISTÓRIA DE AMOR

No longínquo ano de 1963, eu, tenente do Exército Brasileiro servindo na Bahia, passei as férias de verão, como de costume, em Maceió. Certo dia minha irmã Rosita convidou-me para visitar o acampamento das bandeirantes, com mil recomendações para não me enxerir com as moças. Quando olhei aquela galeguinha de 15 aninhos, não pude deixar de cantar uns versos da ciranda no ouvido: “Oh menininha você é tão bonitinha… Engraçadinha… Vou me casar com você…”

Anos depois, já como capitão no 20º BC em Maceió e fazia a Faculdade de Engenharia. Solteiro, com outros amigos, éramos os donos da cidade.

Até que um dia de 1968 encontrei aquela bandeirante bonitinha que havia retornado dos Estados Unidos. Ao me deparar novamente com a galeguinha, me apaixonei e logo cumpri a premonição da ciranda cantada em seu ouvido. No dia 9 de janeiro de 1970 casei-me com Vânia na Catedral Metropolitana de Maceió.

A despedida de solteiro foi no Bar do Miltinho. A noitada foi maravilhosa, o bar se encheu de amigos, colegas da faculdade, empresários, militares, pescadores, políticos, um padre. De repente chega um amigo da Viçosa com um Insquenta Muié, cantando: A minha turma que bebe um pouquinho… no bar do Miltinho… até o sol raiar.

Entrei na Catedral lotada, fardado de capitão pelos braços de Dona Zeca. A Banda de Música do 20º BC tocou belas músicas durante a cerimônia elegante. Depois da cerimônia, no sair da Igreja, os colegas do Exército fizeram a abóbada de aço com as espadas cruzando no ar, uma tradição no casamento militar.

Assim de passaram 50 anos daquele casamento alegre, com muito bom humor dos amigos e dos noivos. É preciso boa dose de amor e de tolerância para se passar 50 anos juntos. Nada é fácil, não houve céu de brigadeiro o tempo todo, algumas turbulências e até rotas de colisão.

Em 50 anos construímos juntos um belo patrimônio: 3 filhos e 3 netos, além de genro e nora.

Nesses anos de convivência tornei-me admirador dessa professora que aos 40 anos resolveu enfrentar um vestibular de Direito, formou-se e montou um escritório de advocacia. Essa advogada que passou quase dois anos sem folga, sem sábado e domingo, estudou e passou no concurso de Promotor de Justiça. Dessa mulher atarefada que arranja tempo para dedicar-se aos filhos crescidos, a levar os netos às aulas de inglês, de tênis, de natação. Dessa mulher que trabalha com amor e alegria e possui uma felicidade intrínseca e encantadora. Dessa mulher forte que não se deixa pisar. Dessa mulher que gosta de bons livros, de bons filmes, teatro, música, show e da cultura popular e me incentiva em minhas loucas invencionices. Dessa mulher animada que faz o passo atrás de um bloco de frevo nos dias de carnaval. Dessa mulher que gosta de viajar perambulando pelo mundo, Cartagena, Praga, Berlim, Nova York, Paraty, Lisboa. Dessa mulher que nunca deixou de ser professora, ensina aos netos, dá palestras nas Igrejas e nas Festas Literárias do Brasil afora. Dessa mulher que move montanhas defendendo seus direitos, como uma loba defende seus filhotes. Dessa alegre mulher que ama as colegas de colégio e infância e conserva o carinho de suas amigas em encontros e almoços, aproveitando essa bonita e última fase madura da vida.

Dessa menina que um dia encontrei em flor de seus 15 anos num acampamento de Bandeirantes, e eu tenente, cantei pra ela em premonição: “Ôh Galeguinha você é tão bonitinha… engraçadinha… vou me casar com você”. Sou um homem privilegiado, a única pessoa no mundo a conhecer profundamente a gentileza, a bondade, a perseverança, a força dessa mulher. Dessa minha mulher-amante, timoneira do barco de nossas vidas. Vânia aprendeu a remar com o tombo do navio, com o balanço do mar. Navegar foi preciso. Essa mulher segurou forte o leme nos poucos maremotos. Hoje navegamos apenas em calmaria, enxergando, ao longe, outros mares ou um porto final além do horizonte.

A inexorabilidade do tempo é fatal, qualquer dia desse eu parto para o além do horizonte. Quando eu não estiver mais a seu lado deixarei lembranças e quero que você sempre saiba que foi a razão do meu viver. Lhe amar foi para mim uma religião. E que nos seus beijos eu encontrava o calor que me brindava no amor e na paixão. Nós somos uma história de um amor como não há outro igual que me faz compreender todo o bem e todo o mal. Você deu luz a minha vida e quando eu não estiver mais aqui, lembre-se de mim com alegria cantando, penando e ainda me amando: “Já não estás mais a meu lado coração…”.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ESPERANÇA EM 2020

Ano passado enviei uma mensagem de ano novo aos amigos com textos otimistas e humorados de autor anônimo. Complementei a mensagem com algumas frases por mim inventadas. Recebi várias respostas, foi do agrado geral. Nesse ano repito a mensagem adicionada de um complemento especial cheio de humor e malícia escrito especialmente por Chico Buarque de Holanda, segue a mensagem:

Amigo, no próximo ano:

Se existir guerra, que seja de travesseiro.
Se for pra prende, que seja o cabelo.
Se existir fome, que seja de amor.
Se for pra atirar, que seja o pau no gato-t-ó-tó
Se for para esquentar, que seja no sol.
Se for para atacar, que seja pelas pontas.
Se for para enganar, que seja o estômago.
Se for para armar, que arme um circo.
Se for para chorar, que seja de alegria.
Se for para assaltar, que seja a geladeira.
Se for para mentir, que seja a idade.
Se for para algemar, que se algeme na cama.
Se for para roubar, que seja um beijo.
Se for para afogar, afogue o ganso.
Se for para perder, que seja o medo.
Se for para brigar, que briguem as aranhas.
Se for para doer, que doa de saudade.
Se for para cair, que caia na gandaia.
Se for para morrer, que morra de amores.
Se for para violar, que viole um pinho.
Se for para tomar, que tome um vinho.
Se for para queimar, que queime um fumo.
Se for para garfar, que garfe um macarrone.
Se for para enforcar, que enforque a aula
Se for para ser feliz, que seja o tempo todo.

Recebi vários agradecimentos, entre eles um especial do meu querido escritor Ignácio Loyola Brandão, agora imortal da Academia Brasileira de Letras:

“Carlito, meu amigo.

Mandei para dezenas de pessoas seu texto de bom ano. Um sucesso sem precedentes. Maria Medeiros, atriz portuguesa que mora na França e é uma pessoa incrível, maravilhou-se. Mas a melhor resposta foi a do Chico Buarque. Ele agradeceu e complementou com um lado malicioso.

Se for pra cheirar que seja a flor.
Se for pra fumar que seja a cobra.
Se for pra picar que seja a mula.
Abraços. Ignácio”.

Pronto, agora sou parceiro de Chico Buarque em mensagem de ano novo. Em 2020 não esqueçam esse recado para adocicar a vida.

Um excelente ano novo, cheio de esperança. Essa que nunca morre.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UMA HISTÓRIA DE NATAL

Depois de três anos de muita garra, estudo e privações, Otávio terminou o curso na Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza. Seu destino era a Academia Militar das Agulhas Negras, onde se formaria oficial do Exército. Naquele ano houve em Fortaleza uma “Maratona de Matemática”. Otávio bom na matéria concorreu e venceu. Foi a maior alegria quando foi proclamado o resultado. Ele ganhou uma passagem à Europa no Constelation da Panair.

Ao chegar a Maceió mostrava a passagem com orgulho, seu prêmio, marcaria a viagem para Europa no final do ano.

De férias em casa usufruía de coisas simples, como são as coisas boas da vida. Otávio acordava cedo, vestia um calção de banho, descia à praia da Avenida da Paz. Divertia-se em jogar uma pelada, mergulhar e nadar na água transparente e cristalina. Ao sair sentava-se junto à Claudinha, namorar de mãos dadas, depois um agarrado naquele mar azul esverdeado.

Certa tarde convidou a namorada para assistir no Cine São Luiz, “Suplício de uma Saudade”. Claudinha ainda chorava lembrando o filme enquanto passeavam, olhando as vitrines das lojas. A Brasileira, A Radiante, Livraria Ramalho. Na bem ornamentada vitrine da Joalheria Machado destacava-se uma bonita tiara. Entraram na joalheria. Otávio colocou a tiara na cabeça de Claudinha. Ficou emocionado com a beleza da namorada. Ao atinar o preço, o sonho acabou. Muito caro para dois jovens ainda dependentes dos pais. A tiara ficou catalogada nos sonhos impossíveis.

Na véspera de Natal a juventude convergia às festas de ruas na Praça da Faculdade ou Sinimbu. Otávio amava assistir o pastoril, a chegança, o guerreiro, o reisado, folclore de sua terra. Perto da meia-noite cada qual com a família em sua casa para a distribuição e troca de presentes. Depois da ceia, as famílias vizinhas reuniam-se para assistirem a missa no coreto da Avenida da Paz.

Otávio alegrou-se quando Claudinha apareceu. Ela estava exuberante, deslumbrante, cabelos longos, louros, e um sorriso apaixonado. Ele aproximou-se, deu-lhe um beijo terno, entregou-lhe o presente de Natal.

Ao desembrulhar o papel havia uma linda caixa. Claudinha abriu, emudeceu, balbuciou alguma coisa incompreendida. A emoção lhe deixou atônita quando percebeu dentro da caixa a belíssima tiara. Colocou-a de imediato na cabeça. Uma rainha. Logo depois ela soube por sua cunhada: Otávio vendeu a famosa e preciosa passagem para Europa e comprou aquele belíssimo, desejado e impossível presente. Ela beijou-o com muito carinho, feliz, radiosa. Mostrava a todos sua belíssima tiara. Claudinha ficou louca de felicidade com aquela loucura de amor.

Ao acabar a missa, ficaram namorando num banco afastado da Avenida da Paz com beijos e carinhos excitantes. Já eram quase três horas da manhã quando Claudinha convidou Otávio para um passeio na praia. Queria curtir as estrelas naquela noite escura de lua nova. Ao chegar à areia branca ela abaixou-se, tomou-lhe a mão, puxando-o. Ele sentou-se ao lado. Otávio sentiu de repente os lábios no ouvido e escutou a mais bela declaração de amor:

“- Eu lhe amo mais que tudo nesse mundo. Passei essa semana escolhendo um presente para você nesse natal. Foi difícil, tudo que eu imaginava, você merecia mais. Na hora de dormir, ficava matutando, escolhendo o melhor presente. Pensei, refleti. Resolvi então lhe dar o que mais tenho de importante na vida: eu mesma. Nesse natal meu presente é meu corpo, meu sangue, meu amor. Sei que você me ama, me respeita, mas também é tarado por mim. Pois meu presente sou eu, minha virgindade, minha vida. Quero ser sua, quero que me possua, me penetre…”

Abraçaram-se na areia. Muitos carinhos de amor, desejos cheios de ternura. O vento soprou os gemidos em direção ao mar. Só Yemanjá, os botos, as carapebas e Netuno ouviram os gritos de dor e de gozo da rainha da tiara dourada. Os dois se amaram enquanto puderam, estavam sós naquela bela praia. Ainda estavam deitados, abraçados, quando o Sol apareceu como um Rei. Despontou uma cabeça vermelha como se fosse uma criança nascendo. As nuvens brancas tornaram-se laranjas-avermelhada e o mar tremeluziu de dourado. A manhã despontava cheia de alegria. Os amantes levantaram-se. Abraçados, descalços, felizes, com os sapatos entre os dedos, caminharam juntos entre carinhos e beijos, até que cada um rumou à sua casa.

Os raios de sol iluminaram a praia, mostrando a marca vermelha de amor na areia branca. Era sangue e areia; sangue encarnado impregnado na areia alva e morna. Uma bonita e luminosa manhã surgia; testemunha de uma bela história de amor. Uma História de Natal.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MARIA DO PONTAL

Rosana com seus 16 anos, corpo de mulher, morena, vestido de chita, e a euforia de menina travessa, depois de algumas cervejas e muita conversa entregou-se ao namorado nas areias das Dunas da praia do Trapiche da Barra, numa bela noite de um milhão de estrelas cintilantes. Deu sua virgindade a Mané das Cabras, amigo de infância e namorado.

Nove meses depois nasceu Maria, menina rechonchuda, sorridente, com ar matreiro irradiando alegria.

Mané das Cabras era apelido de Manoel da Silva por ter sido apanhado em flagrante com uma cabra. Quando Maria nasceu ele já havia se arribado para o sul do país. Tocava violão e cantava, queria ser músico famoso da Rede Globo. Maria foi registrada com pai desconhecido. Ela teve uma infância intensa, divertida no bairro do Pontal da Barra, andava pela praia, nadava na lagoa, roubava coco e melancia nos sítios da vizinhança, jogava futebol, ximbra e pião com os meninos. Era conhecida em toda redondeza por sua sapequice e simpatia, como Maria do Pontal. Quando tomou corpo de mulher, aos 15 anos, sua sensualidade cava a atenção. Tornou-se uma morena bonita, rosto arredondado, cabelos negros e crespos, nariz meio achatado, olhos amendoados de uma vivacidade incontrolável, e os lábios grossos pareciam constantemente molhados. Estudou na Escola Silvestre Péricles e teve a inclinação de ler romances, contos, poesias. Moça romântica apaixonou-se por um belo rapaz, filho de um rico comerciante. Gustavo, louro, olhos azuis contrastava com a beleza morena de Maria. A atração entre os dois terminou num quarto da mansão de praia da família. Quando souberam do desvirginamento de uma menor de idade, os pais receosos mandaram o galeguinho dos olhos azuis estudar em São Paulo. Foi a primeira decepção amorosa. Maria prometeu-se jamais se apaixonar.

Levou uma juventude livre, cuidou-se para não engravidar. Namoradeira, os homens se encantavam com seu o corpo, a beleza, a sabedoria na cama. Os sortudos que tiveram a ventura de passar uma noite em seus braços nunca esqueceram a desbragada noitada de amor. O frescor da boca de Maria ficava impregnado na mente, no âmago de quem experimentou. Ninguém, jamais esqueceu um simples beijo de Maria do Pontal.

Nessa época Lúcio, famoso arquiteto, separou-se da mulher. Deixou-a com o filho no apartamento e foi morar com um amigo de infância. Bruno, solteiro, morava no bairro das mulheres rendeiras, Pontal da Barra, numa casa discreta em frente à lagoa, preservava sua intimidade de homossexual. Lúcio, apesar da amizade, nunca teve relacionamento sexual com Bruno, se respeitavam, eram amigos, muito amigos, quase irmãos.

Certa tarde de sábado Lúcio tomava cerveja com convidados na varanda da casa de Bruno. Teve uma alegre surpresa quando entrou aquela jovem com trouxa de roupa na cabeça. Maria abriu a portinhola da frente sorrindo:

– Bruno!!!!!!Brunoca olha a roupa limpinha pra você sujar de novo!!!!

Seu sorriso enfeitiçou o novo morador. Lúcio acompanhou Maria e ajudou a colocar a trouxa na cama. Ela ficou encantada com a gentileza daquele homem educado, bonito, e gentil; uma raridade entre os homens conhecidos. O arquiteto acertou também com Maria, a lavagem de suas roupas.

Três semanas depois desse fato, Lúcio e Maria já dormiam juntos nos alvíssimos lençóis lavados e passados por Rosana, a melhor lavadeira da região. Foi a melhor fase de felicidade da vida Lúcio. Toda manhã ele ia trabalhar no seu escritório de arquitetura no centro da cidade, só chegava à noite em casa, cansado, mas no fundo, na maior ansiedade de ter Maria em seus braços. Vida encantadora, sem preconceitos, sem temores ou disputa de uma esposa impertinente e cobradora. Aliás, houve um bendito preconceito. Lúcio certa vez quis virar o disco, fazer sexo anal, porém, Maria tinha verdadeiro pavor, faria tudo que ele quisesse, menos isso. Ele respeitou sua opinião, sua determinação. Maria percebeu frustração em Júlio pela recusa. Na sexta-feira quando o arquiteto chegou do trabalho ávido em carinhos de seu amor, Rosa estava acompanhada de uma morena bonita tomando cerveja na varanda da casa. Apresentou Gal com um sorriso maroto. Quando pôde, cochichou no ouvido:

– Você não gosta de ir por trás? A Graça adora essa safadeza. Eu lhe trouxe de presente. Não me importo.

A partir desse dia Lúcio dormiu com as duas. Passou mais de um ano bígamo, aliás, ele dizia estar num paraíso, num sonho; interrompido quando viajou para um curso de seis meses na França. Como quem vai para o ar perde o lugar, ao voltar, Maria havia se casado, já morava em Munique.

O romance de Maria iniciou num dia de festa, ela acompanhou amigos à casa de um simpático alemão apaixonado por Alagoas, morador e curtidor da praia do Francês, era também festa de despedida, o alemão estava voltando para sua terra. Clemens quando foi apresentado à Maria não só ficou fascinado, disse para si mesmo que aquela jovem era o amor de sua vida, apesar da diferença de idade. Dois meses depois ela viajou de mala e cuia para Munique; casaram-se.

Hoje Lúcio, casado com uma colega arquiteta, vez em quando visita Bruno na mesma casa. Nunca esqueceu os melhores momentos de sua vida, quando era livre, sem maiores compromissos e tinha o amor e carinho de Maria do Pontal.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O PENTA

É notória e crescente a homossexualidade nos tempos atuais. Nos anos 60, em Maceió, contava-se a dedo os assumidos. A modernidade deu coragem e ânimo aos enrustidos saírem do armário e haver essa explosão. Eles estão certos, ninguém tem nada a ver com a preferência dos outros.

Nos anos dourados existia no bairro do Farol, perto de onde hoje é a TV Gazeta, o famoso Zeiga, uma pensão especial. O mais famoso hóspede atendia por Ramona, apelidado também de Mandrake, chegado à mágica, adorava fazer desaparecer coisas, ele era o líder. Tornou-se o bicha mais conhecido da cidade.

Certa vez aportou em Maceió, um pintor baiano de nome Sandoval Duarte. Rico e bonito organizou uma “vernissage” concorrida e badalada. As moças solteiras, as “socialites”, da época, ficaram encantadas com o charme daquele artista espirituoso e bonito, parecia um galã de “Roliúde”.

Logo foi revelada a opção sexual do grande pintor SANDUARTE. Houve “frisson” na sociedade alagoana. Sanduarte apaixonou-se, teve um escandaloso caso com um guapo muchacho, também coqueluche das meninas. Hoje, senhor respeitado e temido, exercendo alto cargo nos Poderes.

Em noite de Baile de Máscara do Clube Fênix, um forte rapaz fez sucesso com luxuosíssima fantasia bordada de lantejoulas e paetês. Ninguém sabia se masculino ou feminino. O sexo do folião só foi revelado durante a premiação, era homem, ganhou o concurso de fantasia de luxo, primeiro lugar. O vencedor era meu primo, sobrinho neto e homônimo de Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro. Nós o chamávamos, sem deboche, de Fulô. Foi morar no Rio de Janeiro, destino de muitos que iam dar expansão à sexualidade reprimida.

As lésbicas também eram poucas conhecidas, ou refreadas. Hoje estão aí aos montes, o homossexualismo feminino está em expansão extraordinária. A mulherada entrou com fervor no caminho da revolução de costumes. Hoje estão na direção e transformação do mundo. Assumiram cada vez mais o “sapatismo”. Desfilam com namoradas, dão preferência abertamente às mulheres, o que, aliás, comprovam bom gosto.

Aconteceu um fato emblemático com um amigo, vou chamá-lo de Rock, em homenagem a Rock Hudson, bonito ator de cinema que no final da vida revelou-se boiola. Esse amigo, depois do terceiro casamento, mora só num apartamento na praia de Cruz das Almas, ama a vida de boemia e mulheres. Há algum tempo ele foi para uma festa no Recife com a namorada, aliás, uma menina de programa promovida à condição de noiva, assim apresentou Elizabeth aos amigos no Recife.

No retorno quando seu carro passava numa curva perto da cidade de Novo Lino, foi cruzado, fechado por uma camionete. Saltaram quatro homens com revólveres na mão, apontando, gritando ser um assalto. Um negrinho magro, com cara de fuinha e voz de “foen” entrou e sentou-se no banco traseiro, encostou o frio cano da arma na nuca de Rock. Ele apavorado obedecia aos gritos do marginal, dirigiu o carro até um matagal.

Apareceram outros assaltantes. Arrecadaram cartões de crédito, dois mil reais em dinheiro, talão de cheques, celulares, joias e bijuterias da “noiva”. Eram quase cinco da tarde quando dois bandidos levaram Beth para outro local. Nas brenhas fizeram todo tipo de sacanagem sexual.

Enquanto isso, os meliantes seguraram Rock, mandaram se despir, deixando-o na posição que Napoleão perdeu a Guerra. Nesse momento o Fuinha estuprou o apavorado Rock. Foi doloroso, ele chorou angustiado.

Com o serviço terminado, os assaltantes deram um arranque na camionete, deixaram os dois no carro, levaram a chave.

Passava das nove da noite quando Rock e Beth bateram numa casa perto de Novo Lino. Foram socorridos. Dormiram num pequeno hotel, prestaram queixa à Polícia. No dia seguinte chegou uma chave extra do carro, trazida de Maceió.

O assalto deixou algumas sequelas, foram traumáticos os primeiros dias, principalmente para Rock, estuprado violentamente pelo Fuinha.

Existe uma relação muito forte entre a vítima e o algoz, é a chamada síndrome de Estocolmo. Rock não esqueceu o Fuinha, toda noite tinha sonhos eróticos sendo estuprado, ouvindo voz “foen”, vinha-lhe uma excitação estranha. Resolveu consultar um psiquiatra. Com três meses de análise, ele entendeu: o estupro revelou sua ambígua sexualidade.

Rock, hoje vive tranquilo, assumiu a bissexualidade. Quando dá uma comichão, quando a vontade chega sem controle, ele vai à noite à orla e escolhe um travesti para um programa.

No maior descaramento, afirma sorrindo, que é bissexual porque só existem dois sexos, se fossem cinco sexos como são os sentidos, ele seria PENTA.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

VELHINHO APAIXONADO

Dagoberto desde menino teve apego ao dinheiro. Pensa em torno de cifrões, sonha com notas. Sua conversa é irritante sempre falando sobre a bolsa e os rendimentos. Herdou a sovinice de seu pai; rico comerciante e agiota. Seu Hermenegildo era homem ligado aos poderosos, metia-se em negócios e negociatas. Nasceu pobre, tornou-se rico. Na década de 60, embora semianalfabeto e rude, Hermenegildo entrava em qualquer palácio, em qualquer gabinete de deputado. Frequentador assíduo da zona de Jaraguá tinha tratamento especial entre as raparigas e os donos das boates.

Dagoberto tem uma vida semelhante, embora mais letrado e mais fino no trato. O velho terminou seus dias ao lado da única esposa, morreu nos braços de Dona Eulália, mulher de fibra que aguentou mais de 40 anos de traição, raparigagem do marido, e ainda lhe deu carinho, amor e cinco filhos.

Já Dagoberto teve casamentos desmantelados. Sua primeira mulher era uma jovem bonita, família tradicional. Não aguentou as farras, as amantes, e a usura do marido. Com sete anos de casados ela pediu desquite. Noticiada a separação do jovem casal, o motivo alegado pelo próprio Dagoberto foi um par de chifres que Antônia colocou em sua testa. Ele deixou a esposa e dois filhos. Outra versão correu nos fuxicos da cidade: Dagoberto havia forjado as “provas” contra a esposa. Uma carta anônima e um bilhete foram os indícios falsos. Versão mais crédula pelo mau caráter de Dagoberto e a formação religiosa de Antônia, que muito sofreu.

Dagoberto, atualmente solteiro, vive de escusos negócios, falta pouco para gangster. Agiota oficial e informal de políticos, empresta dinheiro a juros altos, com garantia de casa ou carro.

Teve mais dois casamentos desfeitos, mais dois filhos. Mora num belo e luxuoso apartamento na praia de Ponta Verde.

Aprendeu a lidar com o computador para pesquisas, informações de negócios. Sua mania de homem solitário é namorar nas salas de bate-papo na Internet. Conversa até altas horas da noite. “Namorou” e conheceu algumas internautas. Ele se gaba de comer namoradas, conhecidas via Internet.

Numa viagem a São Paulo marcou encontro com Fernanda, “namorada” de bons papos no “chat”. Consultora da Bolsa, ela entende de finanças, excelente conversa.

Dagoberto ficou encantado quando Fernanda entrou no restaurante italiano. Elegante, parecia estar deslizando em uma passarela. Não era alta, nem baixa, sentou-se cruzando as pernas exibidas por uma saia curta. Pele rosada parecia porcelana, sem algum defeito. Ele deslumbrou-se com a jovem de cabelos e olhos negros, sobrancelhas grossas, bem delineadas, nariz afilado e uma boca carnuda que deixou Dagoberto alucinado, lembrava a boca da Angelina Jolie, sua atriz preferida.

Depois do jantar foram a uma casa de dança. Ela sabia que coroa gosta de dançar música suave, com os corpos agarrados. Terminaram a noitada numa confortável suíte do Hotel Pathernon. Quando Fernanda tirou a roupa, Dagoberto ficou louco e excitado. Abraçou-a, beijou-a na boca, no pescoço, derrubou-a na cama beijando-lhe o corpo. O resto é silêncio como diria Shakespeare.

Dagoberto empolgou-se com aquela jovem. Fernanda mostrava-se satisfeita com os carinhos, beijos, carícias do parceiro. Ele se sentiu mais homem, o macho daquela mulher.

Uma semana depois, ela aterrizou em Maceió. Ficaram morando de cama e mesa. Fernanda deu uma mãozinha no escritório. Além de boa de cama era ótima de negócio. Que mais queria Dagoberto? Viviam no céu, em lua-de-mel. Ganhava dinheiro na agiotagem e amava sua musa. Com quase um ano de convivência, Fernanda tornou-se assessora imprescindível ajudava nos pagamentos, no controle dos recebimentos e contas bancárias.

Numa noite de sexta-feira, voltando de uma reunião, Dagoberto não encontrou Fernanda no apartamento. Havia combinado jantar fora. Esperou mais um pouco, telefonou para o celular, deu fora do ar. Telefonou várias vezes. Ficou preocupado, Fernanda era pontual, ela dizia que a maior qualidade de um ser civilizado era a pontualidade. Às 21:30 ele resolveu mexer no guarda-roupa. Não havia sequer um vestido. Telefonou para alguns conhecidos, ninguém sabia do paradeiro da namorada. Foi ao aeroporto, depois de muita investigação descobriu que uma mulher, parecida com a descrição da namorada, havia tomado um avião para S. Paulo no voo das 15:00 horas. O nome de Fernanda não constava na lista de passageiro.

Dagoberto desesperado voltou para o apartamento, tentava lembrar algum amigo comum em São Paulo, não havia.

Na segunda-feira conferiu o desfalque. A namorada deu um abalo em suas contas bancárias de aproximadamente R$ 500.000,00. Fernanda tinha uma procuração para retiradas de pagamento aos funcionários, seu trabalho, sua ajuda.

Dagoberto fez as contas: 10 meses de convivência, média de duas transadas por semana, oito por mês. Custou cerca de R$ 6.250,00 cada vez. Ficou irritado e desesperado. Aconselhado por um investigador pegou um avião para São Paulo. Procurou a Polícia. Em uma Delegacia reconheceram a namorada pela fotografia. Fernanda chama-se Rosa Maria dos Santos, trambiqueira, especialista em golpe da Internet com velhinhos apaixonados. Difícil encontrá-la em São Paulo. Dagoberto sentiu-se humilhado quando o investigador tratou-o como velhinho apaixonado. Retornou ao lar, solteiro novamente, fica à beira do enfarte quando se lembra dos 500 mil.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ARGENTINA VETERANA

Deixei de dirigir há mais de 10 anos, só vou de táxi; tornei-me amigo de taxistas. Gosto de conversar com esses motoristas anônimos sobre futebol, política (é um termômetro) e tudo o que acontece na cidade. Semana passada, peguei um taxi no posto em frente onde moro, informei o destino ao amigo taxista, o Arara. Fomos conversando, perguntei sobre o movimento dos turistas. Ele não se fez de rogado, gabola, ótimo contador de história. Enfrentando o trânsito louco, ele contou-me com entusiasmo sua última aventura.

– “O senhor não vai acreditar. Eu aguardava passageiro estacionado no posto, eram quase 10 horas da manhã, quando a argentina apareceu; coroa bonita, vestido transparente de renda branca, por baixo um biquíni florido. Sorrindo foi negociando o custo em levá-la à praia de Ipioca e ficar esperando até às duas da tarde, o almoço ela pagava. Fiz meus cálculos, ela aceitou. Sentou-se no banco dianteiro, partimos rumo ao litoral norte. A coroa se apresentou: Filipa, mora em Córdoba, fascinada por Maceió, está comprando um apartamento na Jatiúca, sempre passa férias e feriados, conhece todas as praias da cidade, é apaixonada por Ipioca. Ficou empolgada ao passarmos pelas novas ruas e avenidas em frente ao mar. Em Ipioca estacionei embaixo de uma árvore, Filipa desceu, rumou à barraca de praia, acompanhei-a à distância. Percebi quando pediu ao garçom uma cerveja. Eu apreciando ao longe. A argentina tirou o vestido, ficou de biquíni. Respirou fundo, de repente correu, entrou no mar, pulou as marolas e mergulhou.”

Interessadíssimo na história, perguntei: “que tal a coroa?”

– “Uma Deusa, corpo enxuto, tudo em seus lugares, foi campeã de natação na Argentina.” Respondeu o Arara entusiasmado. Continuou.- “A bonitona nadou um pouco. Saiu da água saltitando, feliz, alegre, sorrindo, deu-me um adeus ao longe, sentou-se na areia tomando um sol no corpo. De repente, retornou à mesa, pediu ao garçom mais cerveja e peixe frito, camarão. Na segunda cerveja ela virou-se, chamou-me com os dedos, atendi, sentei-me a seu lado. Num português com sotaque entendível, conversamos bastante. Ela trocou a cerveja por uísque, eu bebendo coca cola. Cada vez soltava-se mais, ela perguntou-me que tal a veterana? Só depois entendi que veterana é coroa em argentino, mulher madura, seminova. Respondi: “A senhora ganha de muita jovem”

Arara, todo orgulhoso confessou que houve um clima de paquera.

– “Filipa puxou assuntos picantes, sexo e coisa e tal. Ela perguntou-me se queria almoçar em algum restaurante ou se comeria ali, na barraca, respondi-lhe que o peixe estava ótimo, matava a fome com aquele delicioso camorim e camarão. Ela tomava uísque como se fosse cerveja, sorria, cantava, quase embriagada. Deu três horas, ela falou que não me importasse, pagava mais. Às quatro horas da tarde ela pagou a conta da barraca. Levantou-se, eu ajudei-a a levar o vestido, de biquíni entrou no carro, cantando e sorrindo. Ao sentar-se, de repente olhou para mim, puxou meu rosto, beijou-me a boca, ficamos grudados. Olhamos olhos nos olhos, ela deu as ordens, para o hotel. Parti com o carro, ansioso, conversando com a veterana que cantava e sorria No hotel a levei ao quarto. Nos abraçamos. Fomos ao banho. Passei um resto de tarde maravilhoso. Coroa extraordinária, a argentina, sabe tudo na cama. Nos amamos até às nove da noite. Pagou-me o combinado, deixei-a na cama já dormindo.”

Eu ansioso por saber se a argentina estava ainda na cidade, perguntei se ele a procurou, qual hotel que estava hospedava. Arara continuou sua história.

– “No dia seguinte fui ao hotel, encontrei-a no café da manhã, pediu-me para sentar, disse-me em seu espanhol. “Arara, me gustó sair con usted, pero, saio solamente una vez, sin repetir el hombre, una vez cada, una vez nada más, solamente una vez.” Levantou-se, subiu ao apartamento. Com alguns dias descobri> dois colegas taxistas tiveram a mesma aventura maravilhosa com a argentina. Vão completar dois meses, nunca mais avistei a veterana argentina”.

Chegamos ao nosso destino, Arara parou o taxi, deixou-me pensando na história, com uma ponta de inveja.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

BACALHAU PODRE

Marciel estava hospedado numa pousada em Boa Viagem; acordou-se ao amanhecer o dia, costume antigo. Contemplou o teto do quarto lembrando os acontecimentos dos últimos dias. A aventura com bela jovem, 30 anos mais nova; gordinha, simpática, inteligente e fogosa. Fez uma retrospectiva, um apanhado do novo ciclo de sua existência, de sua nova vida.

Naquele dia de verão completavam seis meses da morte da esposa. Deu uma dor no peito, a saudade da mulher bateu forte. Sua imagem veio junto a algumas lágrimas, foram mais de 30 anos de convivência. Levantou-se, foi ao banheiro, vestiu um velho calção de banho e partiu em direção ao mar. Marciel não abre mão da caminhada matinal, dá-lhe bem estar, oxigena o cérebro, rejuvenesce.

Durante a andança, enfiando o pé na areia molhada da praia de Boa Viagem, recordou o tempo de estudante no Recife. Ao passar em frente ao Edifício Acaiaca, o mais chique nos anos 60, lembrou as belas festas no apartamento de um amigo, terminavam ao amanhecer, tirava a ressaca com um mergulho naquele mar verde azulado, morno, tranquilo, de pequenas ondas.

De volta à pousada, em torno das nove horas, enquanto Marciel tomava um reforçado café da manhã, uma recepcionista ofereceu um passeio à Olinda. Ele acertou na hora. De bermuda no ônibus, sentou-se solitário numa poltrona dos fundos. Quando o motorista deu a partida, ouviu-se um grito. Era uma retardatária do passeio, atrasada. Ao subir, a moça levou uma vaia de seus amigos, que gozavam seus atrasos. Sentou-se junto a Marciel.

O ônibus partiu, ele a cumprimentou com a cabeça, a turista se apresentou: “Sou Débora, a sempre atrasada.” Durante o percurso conversaram amenidades.

Marciel tem costume de analisar as pessoas. Débora, mulher bonita de idade indefinida entre 35 a 40 anos. Cabelos castanhos escorridos, pele bem tostada, curtida pelo sol, olhos grandes e castanhos, narinas achatadas, boca grande e carnuda. Marciel, detalhista, percebeu que por baixo da canga azul havia belas pernas com penugem douradas. A decepção ficou por conta das unhas quebradas e mal pintadas, cabelos assanhados, e uma mancha de gordura no sutiã do biquíni. Concluiu que a moça bonita deveria ser relaxada e preguiçosa.

Outras informações sobre a companheira de passeio, foram dadas por ela mesma em conversa durante a viagem: solteira, não trabalhava, o pai tinha uma fazenda perto de Teresina. Estava fazendo turismo com amigos do Piauí. Gostava de viajar, mas era extremamente preguiçosa para acompanhar o grupo.

Ao chegar a Olinda, o guia iniciou um percurso mostrando as belezas da cidade patrimônio da humanidade. Débora se despediu dos companheiros apontando para um bar em frente à praia, local onde ficaria tomando sol quente e algumas cervejas geladas. Passou por Marciel e convidou:

– “Quem gosta de velharia é museu. Venha comigo, garanto como vai se divertir muito mais naquela barraca.” E prosseguiu seu caminho.

Marciel conhecia bem Olinda, preferiu acompanhar Débora rumo à praia. Ficaram bebericando e sorrindo com as aventuras de Marciel, um excelente contador de histórias.

Ao entardecer retornaram para o Recife. Na pousada, Marciel e a piauiense ficaram na beira da piscina bebericando uísque. Ele deu alguns mergulhos, Débora resistiu, não entrou na água. Jantaram tira-gosto.

Por volta das oito da noite, os dois estavam de pileque, resolveram terminar a noitada no apartamento de Débora. Assim que entraram, se atracaram, estavam de roupa de banho, se beijaram feitos dois animais. Finalmente ele deitou-a com carinho na cama, tirou-lhe o sutiã, beijou-lhe o corpo salgado. No momento que desceu a peça de baixo do biquíni, teve um inesperado mal-estar ao sentir um odor fétido vindo da parte íntima de sua musa. Uma inhaca parecida com bacalhau podre impregnou suas narinas, era fedor de carniça. O cheiro ácido atingiu o cérebro de nosso herói murchando toda sua virilidade. Brochou.

Marciel educadamente pediu perdão, estava bêbado. Num repente trancou-se no banheiro. Levantou a tampa do vaso, vomitou o que tinha no estômago. O cérebro estava comandado pela narina impregnada do podre cheiro da genitália de sua companheira.

Ao sair do banheiro, percebeu que Débora dormia, roncava. Aproveitou, e escapuliu para o seu apartamento. Tomou um demorado banho, uma hora de água morna tentando acabar o fedor impregnado nas narinas, no cérebro e na alma.

No dia seguinte, pela manhã, pagou a conta, tomou café. Ligou o carro e prosseguiu sua planejada viagem pelo Nordeste, rumo à Caruaru. Pensou naquela bela mulher, que por preguiça não cuidava de si, não tinha autoestima, nem sequer se lavava. Marciel, homem disposto ao trabalho e ao lazer, condenava qualquer tipo de preguiça e relaxamento. Pecado capital.

Durante a viagem, dirigindo sozinho pela estrada, veio-lhe a imagem de sua esposa que, por hábito, tomava banho três vezes ao dia; vivia limpa, bem tratada, unhas perfeitas, cabelos sedosos, pernas depiladas. De repente deu-se a magia, sentiu o suave perfume “Fleur de Rocalle” que a falecida usava. E o mais extraordinário, sentiu a presença da esposa com o discreto e inconfundível cheiro de suas partes mais íntimas. Arrepiou-se; e emocionado chorou de saudades.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O ET TARADO

Desde os primórdios, as grandes nações colonizadoras priorizaram o serviço de inteligência e informações, os espiões, os 007s. Os navegantes da Escola de Sagres, os descobridores, não passavam de um destacamento precursor em buscas de terras a serem exploradas. Na era moderna, o Trump não vive sem espionagem. Existe uma horda de espiões travestidos de ongueiros e religiosos embrenhados na Amazônia mapeando nossas riquezas. Astronautas são espiões “Hi-Tec”.

Assim como nós, terráqueos, ansiamos desvendar o Universo, outros mundos distantes têm agentes nos espionando e nós não percebemos. Na Terra existem extraterrestres que enviam informações para seus planetas. Nós não damos conta de quem seja, pode ser um vizinho, ou uma pessoa próxima. Recentemente fui visitar o amigo Frederico, internado num hospital psiquiátrico; a expectativa de receber o tal do precatório deixou-o avariado da cabeça. Ele mostrou-me um papel cheio de desenhos, garranchos, que achou no lixo do Hospital. Afirma ser documento de um E.T. Ele me garantiu que passou uma semana trabalhando para decodificá-lo e deu-me para que eu lesse o que conseguiu decifrar. Ele mesmo digitou no computador do hospital. Eis o documento decodificado:

“SUPREMO AHNIUQOD. Grande Chefe do planeta ATOX 666.

Desci do disco voador travestido de humano, estou na Terra, precisamente no Brasil, em uma cidade com o nome Maceió (vide mapa), onde vivem mais de um milhão de terráqueos. Existe uma faixa de areia branca chamada praia, repleta de uma planta alta e bonita, os coqueiros. A praia fica entre os prédios de moradia e o mar, uma vastidão de água salgada, não presta para os humanos beberem. A boniteza da cor desse mar, não se sabe se azul ou verde é impressionante, deve haver uma magia, deixa todos felizes, aqui o povo é bom e alegre. As terráqueas costumam deitarem-se na areia branca para se queimarem com os raios do Sol. As fêmeas daqui não são como as nossas, feito tábuas, pranchadas e verdes. As fêmeas daqui têm curvas, dá vontade de alisá-las, de agarrá-las; os terráqueos machos chamam de gostosas. As duas curvas da frente têm o nome de seios, ficam à mostra pelos decotes. As duas curvas maiores ficam por trás e abaixo, são chamadas de bunda. É muito bonita. Não existe no Universo coisa igual, os terráqueos gostam muito, mas nem todos podem pegá-las, alisá-las. Na praia as fêmeas usam uma tanga para mostrar os seios e a bunda. Ao ver um terráqueo passando óleo nas pernas e na bunda de uma gostosa deitada, pensei que eu também podia e alisei a bunda da fêmea; levei uma tapa na cara. Tive que desligar meu dispositivo de sensibilidade sexual endurecido. Tenho muito a aprender.

RIQUEZA – Existe muita riqueza, mas ela está nas mãos de poucas pessoas, os ricos. Esses ricos têm dinheiro e propriedade. A riqueza é mal dividida entre os terráqueos. Neste lugar onde estou, Maceió, tem açúcar, petróleo, salgema, coco e muitas outras fontes de riquezas, inclusive o turismo; por ser uma terra belíssima difícil de existir igual em todos os universos. O povo é dócil, os políticos, representantes do povo, fazem o querem. Eles vivem brigando pelo poder e roubam muito, até merenda de crianças. Se esse roubo acontecesse em nosso planeta, seriam condenados à morte.

Senhor Supremo, depois de três dias volto a escrever informações: Tudo continua como antes, estou ainda travestido de humano e me dando bem. Todos os dias, eu descubro mais costumes sobre as fêmeas. Fico no calçadão da praia apreciando elas passarem, com vontade de agarrar aquelas maravilhas. Quando tirei do bolso dinheiro daqui que falsifiquei para pagar uma bebida deliciosa chamada cerveja, uma fêmea, conhecida como rapariga, me abordou perguntando se não queria fazer um programa. Perguntei o que era programa e se eu podia alisá-la, Ela sorriu e falou no meu ouvido o que faria comigo. O sensibilizador estremeceu, fui para o apartamento do hotel.

Supremo, vocês no planeta ATOX 69, não podem imaginar o que seja transar aqui na Terra; não é feito aí que os filhos nascem em chocadeira. Aqui o macho e a fêmea se abraçam, é bom demais. Para evitar engravidar e não pegar doença, as raparigas exigem que eu use camisa de Vênus. Os nossos amigos de Vênus já estiveram por aqui, e trouxeram essa camisa, vou investigar.

Nesse momento estou no quarto do hotel esperando as raparigas, contratei duas. Vou passar a noite raparigando, é a melhor coisa do Universo. Depois eu conto com mais detalhes. Vou mandar essas informações, via Internox com cópia para o DR. Um abraço do subordinado. RAMLIG– 21.”

Essa foi a possível tradução do documento achado por Frederico. Depois que decodificou o papel achado no lixo, ele quer ir à ONU. Confidenciou-me convicto que o Hospital psiquiátrico está infiltrado de extraterrestre. Até seu médico, de barbicha bonita, o competente Dr. José Moreira, Fred tem certeza e prova, é um E.T. é esse cara que recebeu a cópia, o tal do DR.