CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

JOCÃO

Em Maceió havia um mentiroso, aliás, o maior mentiroso do mundo e não era deputado: era o Jocão. Assíduo frequentador do Café Colombo na Rua do Comércio, ponto de convergência de intelectuais, políticos, artistas, boêmios e outros desocupados. Jocão, ao entrar, se achegava às melhores rodas. Todos gostavam de suas divertidas histórias. Escolhia uma mesa onde não houvesse possibilidades de pagar a conta, arrastava uma cadeira, sentava, entrava na conversa. Logo perguntavam pelas novidades. Era a senha. Jocão, com sua fértil imaginação, primoroso contador de histórias, iniciava uma fantástica trama inventada na hora.

Certa tarde ele contou como se tornou o maior criador de codorna do Brasil. De sua fazenda no Carrapato exportava codorna e ovo para todo mundo. Tudo começou numa visita a Pedrinho, coletor estadual de Fernão Velho. Na despedida, Pedrinho embrulhou alguns ovos de codorna num papel de jornal para Jocão cozinhá-los em casa. Ele colocou o embrulho no bolso do paletó.

Já havia passado mais de um mês quando Jocão ouviu piados no quarto. Investigou de onde vinham aqueles pios parecidos com os de pombos. Ao abrir o guarda-roupa desvendou-se o mistério: no bolso do paletó estavam oito bruguelos de codorna nascidos dos ovos, presente de Pedrinho esquecidos no paletó.

Ele retirou os bruguelos, deu de comer pirão de farinha de mandioca. Os bichinhos foram crescendo. Reproduziram-se com rapidez, ele teve de colocá-los em sua fazenda no Carrapato. Já era considerado o maior produtor de codorna do país, talvez do mundo. Tudo por mera sorte.

Depois de contar a mentira, sentia-se à vontade entre os amigos, pedia mais cerveja e tira-gosto. Pagava a conta com suas fantasiosas histórias.

No tempo da II Guerra Mundial, muitas vezes Maceió entrou em “blackout”. Todas as casas, todas as ruas apagavam as luzes. Carros e ônibus não circulavam. A cidade totalmente às escuras se precavendo de um ataque aéreo ou de submarinos alemães. Havia uma rigorosa fiscalização pela defesa civil procurando alguma falha, alguma luminosidade para corrigir.

No final da tarde posterior a um desses rigorosos “blackout”, Jocão apareceu nas escadarias da Associação Comercial, onde se juntavam os grandes comerciantes e homens do mundo dos negócios.

Assim que viram Jocão foram perguntando pela novidade. Ele não se fez de rogado e iniciou sua história.

– Eu quase não dormi nessa noite de blackout, os aviões da fiscalização sobrevoaram o tempo todo a minha casa. Parecia que havia alguma coisa errada. Um avião passou tão baixo que meu vizinho acendeu o cigarro no fogo do motor do avião. Ouvi no rádio que havia um foco intenso de luz na rua onde moro, pedia à população para procurar a luminosidade senão os submarinos bombardeavam Maceió. De repente minha casa foi invadida por soldados do 20º BC. Tinham identificado o “holofote” na janela de minha casa. Tudo foi esclarecido, a forte luminosidade era o anel de brilhante de minha esposa que refletia a luz da Lua. A luz foi identificada por um oficial em posição na cabeça do cais do porto, depois que os aviões deram o alarme. Cheguei a ser preso. Só sai do quartel hoje pela manhã.

Jocão se aborrecia quando o chamavam de mentiroso. Certa vez no Café Colombo pediram para contar uma mentira. Ele ficou triste, calado e muito sentido. Logo esclareceu, sua mulher havia falecido. Estava por ali para espairecer um pouco e ver se arranjava algum dinheiro, ajuda para o enterro.

Os boêmios solidários fizeram uma arrecadação, deram a quantia para Jocão, que além de embolsar o dinheiro, pegou algumas garrafas de cerveja, um taco de presunto, deixou na conta dos amigos e foi chorar a defunta.

Um bêbado e um garçom foram designados para comparecerem ao enterro da mulher do Jocão no dia seguinte às 10 horas, representando os frequentadores do Café Colombo.

Ao chegarem perto da casa de Jocão na Rua Santa Maria (hoje Guedes Gondim) estranharam a falta de movimento e não ter cortinas negras nas janelas, como era costume nos enterros saídos das casas do morto.

De repente Jocão abriu a porta. Os representantes do Café Colombo perguntaram a hora do enterro. Para espanto dos visitantes, nosso herói gritou para dentro de casa: “Bastinha, venha ver quem veio para seu enterro”.

Complementou para os dois companheiros: “Vocês não pediram para eu contar uma mentira?”.

Sua mulher apareceu dando uma bela gargalhada. Convidou os amigos para uma irrecusável rodada de cerveja com tira-gosto de charque. A alegre “defunta” se divertia com as invencionices de seu marido, Jocão, o maior mentiroso do mundo, que nasceu e viveu na cidade de Maceió. Até hoje contam suas fanfarrices e mentiras bem humoradas.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

TENENTE BARROSO

Ele era tenente, alto, forte, atleta, campeão de vôlei e basquete. Mas gostava mesmo de outro jogo mais maneiro, um carteado. Aos domingos sempre almoçava em minha casa; assim que chegava entrava na rodada domingueira de um pôquer baratinho, que meu pai jogava com alguns vizinhos. Eu, no início da adolescência, admirava aquele tenente desenvolto, risonho e franco. Porém, a maior admiração era o que ele tinha de mais bonito, mais precioso, sua gentil e alegre esposa. Quando o tenente sentava para jogar, ela dizia não entender como podiam perder uma praia tão bonita como a da Avenida da Paz. E me chamava para acompanhá-la, dar um mergulho. Aos domingos eu ficava em casa de propósito, à espera do jovem casal e desse convite.

Ela me abraçava pelo ombro e descíamos à praia, sentávamos na areia branca e fina embaixo da sombrinha. A Deusa era olhada e desejada por todos os homens de todas as idades. Ficavam contemplando o ritual; a divina tirava devagar a blusa e o short até aparecer seu biquíni sempre em tecidos floridos. Estirava a toalha na areia, pegava um livro e deixava que o Sol e os olhos pecaminosos dos homens, inclusive os meus, tomassem conta daquele corpo perfeito, pernas esguias douradas de penugens lourinhas oxigenadas, como se fossem enfeites, dava um irresistível desejo de alisá-las.

Ela pedia que a chamasse quando estivesse na hora do almoço para dar o último mergulho e irmos juntos para casa. Antes do almoço mergulhávamos juntos, ficávamos na brincadeira de dar caldo um no outro, alimentando minhas fantasias. Na hora do futebol, eu deixava aquela mulher deitada ia bater minha pelada. Ficava me gabando, fazendo inveja em ter uma amiga carioca. Os amigos e os mais velhos queriam saber tudo sobre aquele monumento.

Havia um grande advogado em Maceió, com fama de competente e mulherengo. Certo dia a bela criatura teve que recorrer ao doutor sobre uma herança. O famoso causídico, por sinal um tremendo canalha, passou a maior cantada em nossa Deusa. Ela, discreta, com classe, se esquivou, terminou a conversa, foi embora, prometendo nunca mais voltar àquele escritório. Só porque vestia roupas leves, sensuais, andava de biquíni nas praias e nos clubes, era uma moça extrovertida, típica carioca, o doutor fez um erro de avaliação e continuou a assediá-la por telefone ou quando a via. Mas a moça era honesta, aguentou quanto pôde o assédio. Até que um dia acabou a tolerância, contou toda a história para seu tenente, alto, forte e bonito.

Ele mandou a esposa marcar um encontro na própria casa dizendo que o marido viajaria. No dia, na hora, sem atrasar um minuto, o advogado bateu à porta. Logo ao entrar, ela, constrangida, mandou-o sentar-se. Mas o grande advogado estava com a cabeça virada, agarrou-a, sem as preliminares que a situação exige.

No momento em que tentava abraçá-la, apareceu o tenente na sala empunhando uma pistola 45. O susto deu um branco literalmente no doutor, ficou da cor de papel, gaguejava tentando explicar. O medo foi enorme, o doutor borrou-se na calça, e pedia suplicante: “Não me mate, não me mate.” Ajoelhou-se chorando.

O tenente disse-lhe que o mandaria às profundas do inferno, onde jamais cantaria uma mulher honesta. O famoso advogado chorava e gemia, pedia perdão. O tenente deixou prolongar por um tempo a expectativa, escarnecendo do choro do conquistador. Em certo momento o Tenente pediu à mulher para trazer-lhe um copo grande na cozinha. Pegou o copo, desabotoou a braguilha e num jato forte fez xixi dentro do copo. Levantou o copo cheio com a mão esquerda e a pistola com a direita, disse alto e bom som: “Não lhe mato, mas você vai beber o meu xixi.”

O doutor não teve dúvida: pegou o copo, colocou os lábios na borda e tomou aquele líquido amarelo, quente e espumante. Quando terminou, ele tremia de medo, de pavor. Nesse momento o tenente foi ríspido: “Vá embora, seu filho de uma cadela e nunca mais cruze comigo ou com minha mulher; na próxima vez, sem perdão, meto uma bala nos seus cornos.”

Ouvi essa história contada pelo próprio tenente a meu pai. Eu estava sentado perto dos dois, fazia que organizava a coleção de selos como quem não quer nada, prestando atenção à história. No domingo seguinte desci à praia mais cedo. Quando a musa apareceu na praia me deu um alô com as mãos perguntando: “Onde está meu cavalheiro que não me esperou?”

Aproximou-se abrindo os braços, me abraçou forte. Ao deitar-se na areia, fascinado olhei suas apetitosas pernas, lembrei-me da história. Pensei. “Se o tenente descobre meus desejos, vou terminar comendo cocô.”

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AS ÁGUAS DE 1949

A Ponte do Salgadinho na Avenida da Paz – Hotel Atlântico

A chuva tamborilava nas vidraças das janelas, batia forte feito um chicote. O aguaceiro descia pelo telhado da casa, transbordando a calha de zinco, em cuja extremidade, parecendo cachoeira, caía em jorro no gramado do jardim. Três crianças alvoroçadas, alegres, aproveitando a inesperada bica, tomavam banho de chuva, brincavam empurrando um ao outro. Entardecia; de repente ouviu-se um estrondo, o relâmpago iluminou o céu e o mar, por um instante avistaram-se alguns barcos, jangadas, balançando em mar revolto, pescadores retornavam da faina diária. O trovão assustou os meninos e os moradores da redondeza. Era final do mês de maio de 1949 quando aconteceu o maior temporal da história de Maceió.

Na cabeça de Gabriel vieram-lhe os caranguejos. Durante trovoadas goiamuns saem das tocas e entram facilmente nas armadilhas. As cinco “ratoeiras” feitas por ele, usando lata de azeite, deviam estar desarmadas, fechadas, com um baita goiamum preso. Dia seguinte, bem cedo, iria recolhê-las, pensava o menino. No início daquela tarde, como sempre fazia, Gabriel colocou cinco armadilhas em tocas de goiamum no sítio de coqueiros de Dona Sinhá, terra salobra, manguezal, celeiro de caranguejos, à margem do Riacho Salgadinho.

Raios e trovões continuavam. Da varanda onde os meninos saltitavam encharcados não se enxergava o horizonte da imensidão do mar. Naquele momento estacionou na porta do bangalô um Ford 1946, preto. Doutor Bernardo abriu a porta do carro e o guarda-chuva, correu em direção à casa atravessando o jardim. Ao chegar à varanda foi abraçado pelos três filhos encharcados. Feliz por estar em casa gritou recomendando à esposa.

– Isabel, mande esses moleques trocarem de roupa, a chuvarada vai continuar, tenho medo de uma cheia igual à do ano passado.

Não foi preciso o pedido a Isabel, era como se fosse ordem direta aos filhos. Os três correram para seus quartos, tomaram banho, vestiram pijamas, retornaram à sala onde o pai balançava-se numa cadeira de palhinha ouvindo o noticiário da Rádio Difusora de Alagoas – ZYO4 sobre a chuva forte caindo em toda região de Maceió.

Na noite do temporal os meninos brincavam despreocupados. Antes do jantar, Dr. Bernardo pediu ao filho mais velho um grogue. Mário abriu o bar, colocou três dedos de conhaque Napoleón que o doutor tomou de uma talagada, engolindo o líquido que desceu ardendo goela abaixo. Pediu outro, precisava, havia se encharcado na chuvarada, comentou. Depois do jantar a família reunida ouvia as notícias pelo rádio, algumas barreiras caíram na periferia, ninguém sabia a previsão do tempo. O noticiário confirmou que foi o maior volume de água caída na cidade nos últimos anos. Eram nove e meia quando Isabel colocou os meninos para dormir.

Por volta das dez horas da noite ouviu-se um estrondo contínuo, era barulho de água em movimento. Uma enxurrada em velocidade passava perto. A tromba d’água descia desde o bairro do Tabuleiro dos Martins, dezessete quilômetros acima da região da orla, e foi se avolumando, crescendo pelo bairro do Farol como uma onda desgovernada, atropelando o que encontrava pela frente. Virou carros e carroças, derrubou árvores. Quando a enxurrada desceu como uma cachoeira no bairro das Mangabeiras, desprendeu-se um enorme pedaço da encosta caindo por trás de mais de vinte casas. A barreira cobriu de terra e lama essas casas, muitas pessoas morreram soterradas.

A tromba d’água tomou o Vale do Riacho Salgadinho, cada vez mais volumosa, insustentável, levava o que havia no leito do riacho. Na foz, no desembocar do mar, a água chegou avassaladora quebrando ao meio a ponte de concreto da Avenida da Paz sobre o riacho, arrastou os dois blocos pesados da ponte à beira mar.

No vão onde havia a ponte sobre o Salgadinho ficaram apenas os trilhos dos bondes pregados em seus dormentes. O tamanho da tragédia foi avaliado quando o dia amanheceu.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

PREFÁCIO DE UM AMIGO

Meus leitores me perdoem, hoje tive um impulso irresistível de publicar o Prefácio do meu romance JEQUIÁ escrito pelo meu querido amigo de infância, cineasta Cacá Diegues, que será lançado dia 12 agosto a partir das 18 horas na Academia Alagoana de Letras.

* * *

UMA REVOLUÇÃO PESSOAL – Carlos Diegues

Não conheci propriamente Carlito Lima. Na verdade, explodimos juntos, na avenida da Paz, nos anos 1940, acabados de nascer. E seguimos juntos por nossa infância afora, passando pela adolescência e chegando à juventude, mesmo se, a partir de certa idade, moramos em cidades tão distantes uma da outra. É portanto uma honra especial e um grave compromisso escrever esse texto sobre ele e seu livro mais recente, “JEQUIÁ”.

A história que Carlito nos conta nesse livro, começa quando o jovem Pablo Márquez, um colombiano nascido em Cartagena das Índias, a mais bela cidade histórica da América do Sul, passa de navio por Maceió com sua filha pequena, Isabel, de dois anos de idade, e decide ali morar e ali se instala pelo resto da vida. A história termina, depois de três agitados volumes: MANGUABA, MUNDAÚ E JEQUIÁ.

Ao longo dos três pedaços da história, vamos conhecer a família que Pablo Márquez constrói em Alagoas, com virtuosa atenção a seus costumes e comportamento. Mais adiante, ficamos sabendo que Pablo fugiu da Colômbia para evitar a ação contra ele de bandidos, os responsáveis pela morte de sua esposa Rosa, aos 20 anos. Ele encontrou em seu caminho o grupo de arruaceiros assassinos e, na disputa com os criminosos, deixou para trás cinco deles mortos.

Pablo Márquez se tornou um homem perseguido em toda a região de Cartagena e Barranquilla. Então toma pela mão a filha que Rosa lhe deixara e parte por mar para o Rio de Janeiro. No meio do caminho, quando seu navio aporta em Maceió para cumprir compromisso, Pablo e Isabel, cada um de seu jeito, se apaixonam pela cidade e ele decide descer do navio e ficar ali, com a filha. Em Maceió, constrói uma vida de muito sucesso, fica rico e acaba fundando numerosa família, da qual teve do que se orgulhar.

São esses filhos, netos e bisnetos, seus amores e seus ódios, suas lutas pela sobrevivência e a comunhão entre eles, o tema dos três volumes escritos por Carlito Lima, com títulos em homenagem às belas lagoas do estado, “Manguaba”, “Mundaú” e “Jequiá”. Não sou capaz de reconhecer todos os personagens inspirados em pessoas reais. Mas seus vacilos e sucessos são jeitos tão naturais de ser que, mesmo que nos decepcionem ou os julguemos equivocados, acreditamos neles, somos solidários a seus defeitos, reconhecemos neles seres humanos como nós.

Entre esses personagens, um dos mais intrigantes é o jovem tenente do Exército Mário Peixoto que, se não me engano, foi inspirado na vida, nos costumes e em acidentes ocorridos com o próprio autor. Personagem original e raro na literatura brasileira moderna, Mário Peixoto vive em plena ditadura militar. O tenente nos revela aspectos de sua vida privada que nos fazem compreender que ele não é muito diferente de outros jovens brasileiros que lutavam contra a ditadura militar. Sem bravatas ideológicas, assistimos, ao mesmo tempo, ao horror de um regime autoritário e à luta por integridade e sobrevivência de uma de suas mais inesperadas e injustiçadas vítimas.

Mais adiante, encontramos outro personagem, de dentro da família, que contesta o regime militar de maneira clara e supostamente mais eficiente. Vera, cujo marido foi misteriosamente assassinado, se liga aos terroristas armados de bombas, dispostos a enfrentar a ditadura com as armas dela. Exilada na Itália, Vera só consegue voltar a Maceió, sua dolorosa obsessão, depois que se casa com um talentoso escritor italiano, cujo nome, Dante Alighieri, é uma homenagem à poesia. Dante é apaixonado pelo Brasil e, quando é promulgada a Lei da Anistia, vem com Vera morar em Alagoas.

Em “Jequiá”, último volume da “trilogia das lagoas” de Carlito Lima, o autor parece ganhar um pouco mais de pressa em chegar ao fim da saga familiar. Ele torna mais variadas as ocupações dos membros da família, os faz viajar e trocar de ambiente, mesmo quando estão em Maceió. Na ansiedade por um fim da narrativa, netos e bisnetos aderem ou criam núcleos que não estão mais no centro de interesse da longa e poderosa trama familiar criada pelo autor.

Digamos que, nessa relativa distensão, a família é que sai perdendo. E seus membros terminam numa lista de meras identidades, antes do último capítulo. O pungente último capítulo, aonde, aí sim, se conta o fim da fundadora história de amor entre Pablo e Victória, que nos tonteia e orienta.

Esse terceiro volume da trilogia tem a mesma força telúrica, de racionalidade e de sentimentos dos outros dois. Ele mantem o saudável desejo de reinventar a “literatura nordestina”, modernizar seus temas e seus hábitos, sua capacidade de abordar mundos antes proibidos, talvez até por um falso rigor moral. O que se destaca na ficção de Carlito Lima e em sua “cultura local”, é justamente a liberdade narrativa que lhe permite fazer com que alguém, que faz um discurso político importante, por exemplo, possa se interessar súbita e simultaneamente pelo corpo da bela mulher que passa à sua frente.

Como Gabriel Garcia Márquez ou Alejo Carpentier, o autor de “Jequiá” é, antes de tudo, um cronista da vida de seus conterrâneos, sem esquecer de onde eles vieram. Ele é capaz de fazer dessa qualidade um sólido apoio para se lançar no coração da origem de seus personagens. São eles que revelam, por sua ação, pelo que dizem ou pelas simples sombras que espalham por cada cenário, a grandeza de sua presença no mundo enquanto nordestinos e alagoanos. É com esses nordestinos e alagoanos, como ele, que Carlito Lima procura fazer sua gentil, mágica e vigorosa revolução cultural e literária.

Me sinto orgulhoso de ser amigo de Carlito, de ter dividido com ele experiências e descobertas que só na infância e na adolescência podemos experimentar. Aprendi com ele, e ele comigo, muita coisa que só essa convivência podia inventar. Acompanhando sua carreira de escritor bem sucedido, me sinto homenageado; como ele deve se sentir, com qualquer de meus filmes que dê certo. Nós somos parte de extensa família cultivada na beira do cais, na avenida da Paz.

* * *

OBS – Aos amigos do Jornal da Besta Fubana haverá venda especial do livro via Internet e entrega pelos Correios, da seguinte forma: a solicitação do comprador será via email: carlitoplima@gmail.com ou via zap: 82.99981.0199, informando o nome e endereço com CEP e o(s) livro(s) que desejam. O(s) livro(s) serão enviados pelos Correios. Somente quando o(s) livro(s) chegarem ao comprador, ele pagará no PIX: 005.586.484-87 e enviará o comprovante. Se não gostar do livro, não paga.

Preços dos romances:

JEQUIÁ R$ 60,00

MUNDAÚ R$ 50,00

MANGUABA R$ 40,00

Frete por conta da editora.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

TRECHO DO ROMANCE “JEQUIÁ”

Certa terça-feira, Dr. Bernardo atendeu uma senhora, pouco mais de quarenta anos; a filha estava com um problema, foi medicada, mas não houve melhora. A senhora pedia para que o doutor socorresse a doente de treze anos, estava delirando de febre deitada na cama em sua casa há três dias. De tão fraca, não pôde levar a filha ao consultório. Pedia pelo amor de Deus para que ele fosse à sua casa. Ao terminar as consultas, a senhora, nervosa, ansiosa, estava esperando Bernardo na calçada. Quando ele abriu seu carro, ela imediatamente pediu licença, abriu a porta e sentou-se ao lado do doutor. Nesse momento, informou que sua casa ficava na lagoa de Jequiá, distante cerca de quarenta quilômetros de Maceió. Dr. Bernardo não gostou, achou um incômodo abusivo, mas por sua infinita paciência e bondade, ele se pôs a caminho, apenas reclamou que era longe. Enquanto o carro percorria a estrada, Moema, para distrair, descontrair e sensibilizar o Doutor, contou pedaços de sua vida. Era pescadora e marisqueira. Vivia do comércio de peixe. Nasceu e cresceu à beira da lagoa Jequiá, de onde tira seu sustento. Casou-se aos dezoito anos com um pescador. Tinha amor ao Zeca de Miúda, era poeta e tocador de viola. Ela gostava de suas brincadeiras, porém o Zé tinha um defeito, era esquentado, brigava por tudo. Gostava de beber e frequentar os bares. Uma noite, houve uma briga em um bar perto de Coruripe, mataram o Zeca. Ela ficou viúva, sem filhos, mas tinha uma casinha à beira da lagoa onde mora até hoje. Chorou, sentiu muito a morte do marido, mas tinha de continuar a vida. Gosta de brincar na sua comunidade, na época do Natal ela organiza pastoril e outras festas. Dançar e cantar era com ela mesma. Certo dia conheceu um caixeiro viajante num carro velho, vendia vestido, fazenda, sapato, perfume, essas coisas que mulher gosta. O homem se enxeriu, ela topou, terminaram se juntando, ficaram morando na sua casa. Ele, toda segunda-feira, fazia compras em Maceió e saía mundo afora vendendo seus mangaios. No fim de semana, retornava à Jequiá. Foram três anos de amigação. Até que um dia ele saiu para trabalhar e desapareceu, ninguém mais soube dele. Deixou uma criança em sua barriga. Era essa filha que estava doente. Quando acabou de contar a história, o carro chegou à lagoa de Jequiá.

Dr. Bernardo não conhecia a lagoa, ficou fascinado com o cenário, um espelho d’água refletindo o céu. Entraram pelo jardim até à casa branca de duas janelas e uma porta, verdes. O piso rústico de tijolo batido. No centro da sala, destacava-se uma mesa de madeira antiga com seis cadeiras pesadas, duas poltronas e um sofá completavam o ambiente. As paredes decoradas com motivos de pesca, uma tarrafa, um quadro da lagoa de Jequiá, presente do artista Alex Barbosa, e uma folhinha marcando o dia do mês e seu santo. A casa tinha três quartos, um banheiro e uma cozinha. A parte do fundo era avarandada e havia um pequeno quintal à beira da lagoa.

– Doutor, a Jurema está nesse quarto – disse Moema, abrindo a porta.

Encontraram a jovem deitada coberta com dois lençóis, tremia de frio, febril e tossia muito. Bernardo perguntou sua idade.

– Amanhã faço treze anos – respondeu Jurema com voz trêmula.

O doutor mandou-a sentar, era uma moçona. Fez alguns exames com o estetoscópio e as mãos experientes. Chegou à conclusão, diagnosticou pneumonia. Ferveu uma seringa na cozinha e aplicou na nádega um forte antibiótico, havia apenas uma ampola em sua maleta. Deu-lhe aspirina e mandou continuar em repouso. A menina estava com fastio, recomendou sopa de carne. Foi uma consulta rápida, a experiência do Dr. Bernardo valeu. Moema fez questão que ele tomasse um cafezinho; ele se desculpou, tinha pressa em retornar a Maceió, antes do escurecer. Marcou com Moema na tarde seguinte para lhe dar mais quatro ampolas do antibiótico, amostra grátis. Perguntou se havia alguém no povoado que aplicasse injeção. Moema aplicava, fez um curso de Enfermagem e quebrava o galho de todos que precisavam de sua ajuda no povoado. Dr. Bernardo retornou a Maceió, satisfeito com ele mesmo. Gostava de atender o povo carente.

Na tarde seguinte, Moema apareceu no consultório, feliz da vida, a filha havia melhorado bastante com a medicação. Bernardo lhe deu mais quatro ampolas de antibiótico e outros medicamentos amostra grátis, ela agradeceu e retornou imediatamente à lagoa de Jequiá em sua kombi velha de entrega.

Moema vendia peixe em Maceió duas ou três vezes por semana, tinha fregueses cativos, entregava nas casas, recebia no final do mês. Passou a aparecer no consultório, levava peixe, camarão, siri, embrulhados em folhas de bananeiras. Dr. Bernardo dividia entre as outras médicas e Anita, a recepcionista. As carapebas, ele levava para casa.

TRECHO DO ROMANCE “JEQUIÁ” QUE SERÁ LANÇADO DIA 12 DE AGOSTO ÀS 19 HORAS NA ACADEMIA ALAGOANA DE LETRAS, PRAÇA SINIMBU. TODOS CONVIDADOS.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SINCERICÍDIO

Albertão ao formar-se em engenharia foi morar na bela Vitória do Espírito Santo, por conta de um emprego numa grande construtora. Com um ano de trabalho, tornou-se um dos mais conceituados engenheiros da empresa.

Celina, a noiva, de Maceió fazia uma discreta, pertinente e constante pressão. Ele resolveu se casar, deixar a vida de solteiro. O mulherio de Vitória é deslocado, moderno e alegre. Alberto levava uma vida invejável, no trabalho e na boemia. Deixou a boa vida para casar com Celina, namoro desde criança.

O casamento foi na Igreja de Santa Rita no Farol. Estava a fina flor da sociedade alagoana, com direito a fotografia nas colunas dos jornais, a família da noiva era muito chegada a badalações.

Em Vitória, o casal instalou-se num apartamento do melhor bairro da capital capixaba. Alberto viajava frequentemente, a distração da esposa era assistir televisão, falar com os amigos nas redes sociais, naquela época era novidade.

Numa bonita tarde de sexta-feira, Albertão em viagem de trabalho, Celina foi ao supermercado fazer compras, abastecer a geladeira e a despensa no fim de semana. No retorno, dirigindo seu belo carro, parou em uma sinaleira vermelha. De repente teve um susto, avistou seu amado marido em um carro do outro lado da rua, acompanhado por uma loura. Celina, surpresa, acenou para Alberto, ele não respondeu. Ao abrir o sinal, os carros se cruzaram, ele passou disparado olhando para frente. Ela deu a volta no carro, tentou segui-lo, mas, o carro do marido perdeu-se na multidão.

Chegou em casa com dor no peito. Um misto de decepção, raiva e impotência. Deprimida, sem ânimo, guardou as compras, ficou a meditar. “Será que não era mesmo Alberto? Mas eu vi, tenho certeza!” Veio-lhe a dúvida, telefonou para o celular do marido, deu fora de área. Telefonou para a construtora, a empresa informou que Dr. Alberto estava em Brasília.

Eram onze da noite quando o maridão apareceu no apartamento. Celina acordada, o recebeu com lamúrias:

– Não adianta me embromar. Você estava no carro com uma piranha loura. Não sou maluca! Você não me engana!

Albertão aparentando surpresa e paciência, falou calmo, estava viajando, ela confundiu com alguém. Estava trabalhando em Brasília, mostrou como prova a passagem de avião.

As contínuas negações encheram Celina de dúvidas. Depois de algum tempo, aceitou com restrições as explicações do marido.

Na cama, Alberto deu tudo de si, não podia demonstrar cansaço, a tarde de amor com a loura maravilhosa foi desgastante, não podia deixar suspeita, afinal a mulher lhe deu um flagra.

Os anos passaram. A dúvida nunca saiu do coração e da mente de Celina. Algumas vezes volta a comentar o dia trágico que flagrou seu marido com uma loura num sinal de trânsito em Vitória. Ele continua negando peremptoriamente.

Albertão, hoje setentão, senhor de seus negócios, tem uma vida folgada, fruto de seu trabalho. Voltou de vez para Maceió, comprou um belo apartamento na Ponta Verde. Tem tudo do melhor. Dá o conforto merecido para a família que ele preza, ama e conserva; apesar de continuar com o enorme defeito: gostar de uma rapariga.

Esta história me foi contada por Alberto enquanto tomávamos uma gostosa cerveja na Barraca Pedra Virada. Ele afiançou enfático, ao arrematar a narrativa:

– Pois é irmãozinho. Para você viver bem, tem que negar com convicção, negar sempre até o fim. Esse negócio de confessar é morte certa, é o suicídio pela sinceridade. Nunca cometa o sincericídio.

Levantou-se, deixou dinheiro para conta, colocou a mão no bolso, saiu assoviando. Havia marcado com Teca, uma loura de programa que atende em seu próprio carro e apartamento, especialista em prestação de serviços aos idosos. Albertão fez-lhe os maiores elogios: eficientíssima.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A CASA DA AMANTE FRANCESA DO GOVERNADOR

Manifestação de desagravo ao governador Costa Rego, comandada por Demócrito Gracindo ( pai do ator Paulo Gracindo) em 1926. ( Foto: Arquivo Paulo Cajueiro)

Pedro da Costa Rego foi o 15º Governador das Alagoas na época da Velha República. Austero, elegante, inteligente, duro em suas ações e cobranças administrativas. Culto, gostava de literatura e música, tinha O Príncipe de Maquiavel em sua cabeceira. No seu governo foi criado o Departamento de Viação e Obras públicas, hoje D.E.R. Construiu a estrada Maceió – Penedo, entre suas grandes realizações. Era um homem rigoroso, mas sensível, gostava de coisas finas e arte; música, teatro, inclusive viajar.

Em uma dessas viagens, conheceu Mademoiselle Sigaud, bonita artista cheia de charme e de salamaleques na cama. A francesa impressionou nosso Governador, que convidou sua nova musa a visitar Alagoas. Mlle. Sigaud adorou o mar de Maceió. Ficou estabelecida de cama e mesa na Rua Silvério Jorge, bem perto da praia da Avenida da Paz, onde pelas manhãs não dispensava seu banho salgado, como se chamava o banho-de-mar naquela época.

No dia 15 de dezembro de 1926, segundo ano de governo, depois de algumas partidas no Jaraguá Tênis Clube, o Governador Costa Rego dirigiu-se à casa da Rua Silvério Jorge, onde sua amiga Mlle. Sigaud lhe esperava. Após um laudo jantar, ficou a ouvir Mozart bem tocado pela anfitriã, fumando charuto, seu grande prazer. Nessa noite recebeu seu amigo Adalberto Marroquim para conversas sobre política, administração e coisas da vida; sentados tomando fresca na varanda dos fundos.

Mal sabia o Governador que Felismino, um dos seus guardas pessoais, havia sorrateiramente entrado no quintal da casa vizinha e se posicionado numa mangueira mais próxima, sentado em um troncudo galho, de onde se avistava o governador conversando com seu amigo. Estava ali segurando um fuzil para matá-lo; corrompido e contratado por um inimigo político.

Felismino era um caboclo corpulento, estatura média, quarenta anos. Tinha sido colocado na Guarda Civil por recomendação de um amigo. Felismino passou a fazer parte da guarda pessoal do governador Costa Rego. Por ter essa facilidade em estar constantemente com sua excelência, foi contratado para matá-lo, em troca de dez contos de réis que o mandante entregaria depois do serviço feito.

Era nesse dinheirão que Felismino pensava quando resolveu dar o tiro fatal com seu fuzil. Para isso precisou tomar uma melhor posição no tronco da mangueira. Quando se moveu, balançou alguns galhos, o movimento brusco na árvore, despertou a atenção de vários gansos da casa do vizinho (Dr.Ezequias da Rocha – depois Senador da República). Os gansos ficaram indóceis, correram para baixo da mangueira e passaram a fazer maior zoada com suas roucas cantorias, com seus trinados, como de estivessem dando um alarme ininterruptamente. A cantoria dos gansos chamou a atenção de todos da casa da francesa. Alguns guardas correram, reconheceram Felismino quando se evadia, fugia dentro da escuridão da noite.

“Mais uma vez os gansos salvaram a humanidade. A primeira no Capitólio de Roma, agora, na Rua Silvério Jorge.” Assim foi comentado debochadamente nas rodas dos intelectuais boêmios no Bar Colombo, na Rua do Comércio.

Felismino foi denunciado. Depois respondeu a inquérito supervisionado pelo Secretário do Interior Dr. Ernande Basto (figura alagoana notável, casado com Dona Moema Cavalcante, matrona da Barra de São Miguel). Felismino confessou o crime e a grande bomba: o mandante ter sido o filho do ex-governador Fernandes Lima, o deputado Fernandes Lima Filho.

O atentado teve uma enorme repercussão no Estado e em todo o país. Várias manifestações de apoio ao governador Costa Rego foram realizadas durante a semana.

No dia 23 de dezembro, houve um desagravo, uma multidão defronte a Catedral. O bispo Dom José Maurício rezou uma missa com a presença de todas as entidades de classe e a elite alagoense.

Depois da missa formou-se um cortejo pela Rua do Sol até ao Palácio dos Martírios. Uma multidão ouviu discursos de desagravo, iniciado pelo presidente da Academia Alagoana de Letras, Demócrito Gracindo (pai do ator Paulo Gracindo) que emocionado esbravejou: “Não é a boca de ouro da lisonja, nem mesmo a palavra inflamada da paixão partidária que ouvis; é o comércio que paga imposto, o operário humilde que não aprendeu a mentir, o pescador indômito…..” Discurso aplaudidíssimo pelo povo na praça e as autoridades assistindo na sacada de palácio.

Na terça-feira (28) houve a reconstituição do crime. No local estavam presentes autoridades, jornais de todo o Brasil e agencias internacionais. Assistiram como convidados, o Dr. Exequias da Rocha e todos os vizinhos que se concentraram na casa da amante do Governador na Rua Silvério Jorge 290. A casa tornou-se famosa, entrou para a história política e da fofoca como o a casa da amante francesa do Governador Costa Rego.

Passaram-se alguns anos, até que em 1937, o Capitão Mário Lima, do Exército Brasileiro, casado com Dona Zeca, pai de dois filhos Rosita e Betuca, alugou essa casa e posteriormente a comprou, financiada pela Caixa Econômica. Dona Zeca, numa linda manhã de sol, no dia 27 de fevereiro de 1940, dois dias antes do carnaval, deu à luz ao terceiro filho, uma sorridente, corada e encantadora criança.

Assim, eu nasci na famosa casa, onde morei na minha infância, juventude e grande parte de minha vida. Ela é um pedaço de mim, faz parte, está incorporada a meu ser.

Fui concebido, gerado, nascido, criado, com muito amor e carinho, na casa da amante francesa do Governador, na Rua Silvério Jorge 290, bairro boêmio de Jaraguá.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

HAVIA BALÕES NO AR

Ele chegava alegre com dois ou três pacotes, colocava-os na mesa e abria mostrando aos cinco filhos os fogos comprados para o São João. Arrodeando a mesa da sala da imensa varanda de minha casa contemplávamos cheios de alegria aquele presente de meu pai. Ele sentia prazer, satisfação ao distribuir os fogos para os filhos. Aos menores cabiam: traques, chuvinhas e estalos bebé. Aos maiores eram distribuídos: foguetes de três tiros, foguetes de estrelas, bombas travalianas e peidos de veia, e o melhor os vulcões. Perto de escurecer dava-se o momento mágico: acender a fogueira bem arrumada na rua em frente a minha casa. Jogava álcool por cima, tocava fogo com um fósforo. O fogaréu começava, a fogueira chispando faísca, iluminava a rua. Os adultos sentados nas cadeiras na calçada, conversava, tomando doses de quentão, uísque ou cerveja e olhavam a meninada correr e soltar seus fogos. Os vizinhos seguiam o mesmo ritual. A rua engalanava-se em fogueiras e bandeirinhas, havia um rodízio de visitas enquanto a eletrola tocava: A fogueira tá queimando… Em homenagem a São João… O forró já começou… Vamos, gente, rapa pé nesse salão… Dança Joaquim com Zabé, Luiz com Yaiá… Dança Janjão com Raquer e eu com Sinhá…Traz a cachaça Mané! Eu quero ver, quero ver paia avoar…

Quando dava meia-noite, as mocinhas entravam para fazer “adivinhações”. Em uma bacia cheia d’água deixavam pingar cera de uma vela acesa até formar ou aparentar com os pingos uma letra. Pronto, era com um jovem de nome iniciado com aquela letra que iria casar a moça que deixava pingar a vela. Ou levavam para o fundo do quintal uma faca que enfiava no tronco de uma bananeira no dia seguinte puxava a faca marcada, manchada com a primeira letra do seu futuro marido. Eu, menino acompanhava com fascínio toda aquela movimentação da véspera de São João, ouvindo o som da eletrola rodando as músicas de Luiz Gonzaga. Quando a fogueira baixava, convidava um amigo do peito para pular juntos as brasas, um de cada lado, e ser “compadre” para o resto da vida. Um dos momentos mais esperados era a queima de três ou quatro vulcões enormes, um esplendor de explosão jorrando forte para o alto enorme faíscas com pontos coloridos.

Durante a adolescência, a expectativa do São João iniciava um mês antes, com os ensaios da Quadrilha no Iate Clube. Vários pares de jovens dançavam e rebolavam ao som de uma animada música junina e sob o comandando do quadrilheiro que cantava a sequência dos passos da dança em francês: “Em avant tout”, “change de dame”, “balancê”, “returnê”, “tur”, e lá íamos nós, os jovens casais felizes da vida. Ensaiávamos bastante até a noite da grande apresentação. Durante os repetitivos treinos, a paquera era maravilhosa até o final depois de várias noites ensaios no salão do Iate iniciavam namoros entre os componentes da quadrilha, muitas vezes o próprio par. Afinal a noite de glória a apresentação da Quadrilha do Iate. Todos fantasiados de matutos, com as calças e camisas remendadas, bigodes e costeletas de carvão, chapéu de palha, dançávamos como se fosse para a plateia do maior teatro do mundo. Enchíamos de orgulho e felicidade quando os aplausos ensurdeciam o enorme salão cheio de mesas.

No CRB havia a famosíssima Festa dos Pedros, organizada na véspera de São Pedro, dia 28 de junho. As mesas rapidamente vendidas, quem tinha o nome Pedro, a mesa reservada era cortesia. Um arrasta-pé intermitente animado por quatro trios nordestinos, forró de pé de serra, tocava a noite toda. Ao lado de fora uma enorme fogueira acesa iluminava o Clube e a praia da Pajuçara. Quando terminava a animada festa, nós, meninos moradores da Avenida da Paz, vínhamos andando e cantando ainda com energia de jovem cheio de hormônios, geralmente de mãos dadas com a namorada da vez. Abraçados, um beijo roubado, cantando pela noite iluminada pelos postes da luz boêmia: “Olha pro céu meu amor… Veja como ele está lindo… Olha para aquele balão multicor… Que lá no céu está sumindo… Foi numa noite igual a esta… Que tu me deste o coração… O céu estava em festa… Porque era noite de São João… Havia balões no ar… Xote, baião no salão… E no terreiro o teu olhar… Que incendiou meu coração…” A música valia um beijo da namorada já segura pelo pescoço. Durante a alegre caminhada, às vezes aparecia a chuva, era sinal de alegria, estimulava nossa energia. Ao chegar perto do coreto da Avenida, o dia amanhecendo, o céu dourado anunciando um novo dia, com chuva ou sem chuva, corríamos para um mergulho no mar alaranjado pelo sol nascente com a roupa e tudo que tivesse no corpo. Alegres, cansados, cada qual partia, molhado para sua casa. Era a despedida, acabava as festas juninas tão amadas e tão esperadas durante o ano inteiro.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O DOQUE DE JARAGÚA

No final do século XIX os ricos comerciantes de Maceió construíram casarões avarandados em frente aos trapiches da praia do aterro em Jaraguá. Fachada com dois andares, ornamentadas com varandas, balaustradas em ferro batido, desenhos arabescos, moderno estilo arquitetônico europeu. Esses casarões serviam para moradias e estabelecimentos comerciais e tomava quase toda a Rua Sá e Albuquerque.

A enseada de Jaraguá por ser um local adequado, um ancoradouro natural, foi contemplada com uma ponte de embarque de navios e barcaças, além dos trapiches existentes mar adentro que também serviam à exportação do açúcar fabricado pelos engenhos daquela época.

A Ponte de Jaraguá estimulou o movimento comercial da região, e houve um desenvolvimento urbano efervescente no bairro e na cidade. Foi o argumento decisivo para transferência da capital da cidade de Alagoas (hoje Marechal Deodoro) para Maceió.

Cais, porto, ancoradouro, ponte de embarque, navios e marinheiros atraem biroscas, bares e cabarés. A região comercial de Jaraguá transformou-se em ponto boêmio. Os moradores dos casarões, famílias das mais distintas e conservadoras se mudaram para outros bairros, abandonando as belas moradias para o comercio pela manhã e a boemia durante a noite.

Os casarões transformaram-se em casas noturnas. Boates ocuparam os patamares superiores, enquanto no térreo conservaram as empresas de negócios, de exportação.

Esses lupanares abrigavam mulheres refinadas. Selecionavam as mais bonitas para os grandes comerciantes, políticos e barões. Jovens de serventia foram importadas da Europa, França, Bahia e do sertão nordestino.

Essas raparigas passaram mais de 60 anos nos casarões, trabalhando com o suor de seu corpo. Fazendo a vida na mais velha das profissões. Ao mesmo tempo, involuntariamente, conservaram suas moradas, seus pontos de trabalho, os casarões do bairro de Jaraguá.

Para homenagear as moças que preservaram e legaram para outras gerações os casarões de Jaraguá, alguns boêmios da cidade resolveram afixar o MEMORIAL À RAPARIGA DESCONHECIDA em um beco do bairro, conhecido pelo intenso movimento noturno de Beco das Raparigas, perpetuando o agradecimento dos boêmios e dos artistas que amam aqueles casarões. Gesto merecedor e reparador.

Em minha juventude fui um curioso frequentador daqueles cabarés, mesmo que, só para tomar uma cerveja ou ouvir música dos conjuntos tocando para clientes se divertirem. Com as jovens aprendi a dançar bolero, mambo, tango, rock and roll.

Os nomes das casas eram expressivos: Alhambra, Tabariz, Night and Day. Nas ruas circulares ficava a ZBM, Zona do Baixo Meretrício, frequentada pela população pobre. Duque de Caxias e o Verde eram os “randevus” mais conhecidos da ZBM.

Quando os bairros nobres de Pajuçara, Ponta Verde se tornaram mais habitados pela burguesia, houve uma forte pressão das madames para tirar a zona de Jaraguá. Sentiam-se incomodadas. Ao se deslocarem até ao centro, inevitavelmente passavam pelo corredor de prostíbulos.

Em 1969 o Secretário de Segurança Pública mandou transferir todos os cabarés de Jaraguá para região do Canaã no Tabuleiro dos Martins.

A partir desse momento alguns casarões de Jaraguá foram demolidos pelas imobiliárias e construtoras. Construíram prédios de gostos duvidosos: BRADESCO, COMISPLAN.

Um grupo de intelectuais e artistas liderados por Ênio Lins, Pierre Chalita e Solange Lages, se movimentou e conseguiu o tombamento do bairro de Jaraguá.
Não fosse esse movimento da comunidade artística, nada mais restaria dos casarões. O que as raparigas conservaram por mais de 60 anos, estava para ser derrubado em poucos meses.

Hoje, o bairro de Jaraguá está restaurado. Mas, falta um projeto para um movimento noturno que atraia os turistas e nativos. E a Prefeitura está sensível em transformar o bairro em uma grande atração turística cultural. Iniciou recentemente uma intervenção urbana no Beco das Raparigas, com bancos, fontes luminosas, um local agradável para uma boa conversa.

Por conta dos velhos tempos, por participar na recuperação do velho bairro boêmio, a Liga de Blocos Carnavalescos de Maceió, comandada por Edberto Ticianeli, conferiu-me o título de DUQUE DE JARAGUÁ. O qual uso em meus escritos, em minha identidade. O diploma de Duque fica visível na parede de minha sala, homenagem ao bairro onde nasci e me criei.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MENINOS DA AVENIDA II

Nós meninos da Avenida, quase da mesma idade, amigos, juntos, tínhamos predileções semelhantes. Gostávamos de pescar no Riacho Salgadinho. Empurrávamos uma jangada de tronco de bananeira para o meio do Riacho, jogávamos a tarrafa aberta que enchia de tainhas. E o siri era pescado com teteia. Nas margens e imediações do Salgadinho, por ser terra salobra, lama salgada, se prestava à vivência, ao “habitat” de caranguejos, o goiamum azulado. Com lata quadrada de azeite, fabricávamos armadilhas para capturá-los. Armávamos a arapuca, com uma isca no buraco do caranguejo. Quando o bicho saía, beliscava a isca e fechava a arapuca. Uma vibração, uma felicidade, quando a gente via a lata com a tampa fechada e um baita goiamum preso. Cevava, engordava os caranguejos num gradeado. Dias depois nos deliciávamos com uma caranguejada, feita por nossas mães, o caldo do gordo escorria pela boca.

À noite o calçadão da Avenida da Paz se transformava em palco e campo de jogos. Correr brincando “Roubar-Bandeira” era a primeira diversão. Dividia a calçada em dois campos, um para cada equipe de sete ou oito meninos (as), no final de cada campo fixava uma pequena bandeira pregada numa vara. O objetivo da brincadeira era entrar pelo campo adversário e trazer a bandeira fincada para o nosso campo sem ser tocado pelo adversário. Quando alguém era tocado pelo adversário tinha que parar ficar imóvel até um amigo vir e tocar de novo, “soltar” o amigo. Ganhava quem trouxesse primeiro a bandeira do adversário pro seu campo. Jogo de astúcia e velocidade.

Havia outros jogos como ximbra (bola de gude), pião, o vitorioso tinha direito de, com o próprio pião amarrado com a enfieira, tentar com a ponta quebrar o casco do pião adversário. Na época o filme O Cangaceiro fazia sucesso e a Vanja Orico cantava o sucesso: “O meu pião é feito de goiabeira… ele só roda com a ponteira… na palma de minha mão… dança morena. no meio desse salão…requebrando o corpo todo… no ronco desse pião.”

Nosso paraíso não era apenas a praia. Nossos pais gostavam de passear nas lagoas. Embarcávamos numa enorme canoa navegando pelas lagoas até Coqueiro Seco. A meninada sentada no fundo, os mais velhos nos bancos de tábuas na proa e na popa. O canoeiro dava a direção, puxando e molhando a vela conforme a intensidade do vento. Vela enorme colorida em vários matizes marrons, como se fossem manchas. Nós ficávamos extasiados, embevecidos com a beleza da imensidão da lagoa cheia de ilhas, coqueirais e entrecortadas por canais naturais. Enfiávamos a mão dentro da lagoa, deixando a ser acariciada pela água corrente. Tio Béu cantava alto as emboladas e nós acompanhávamos: “Coqueiro Seco do outro lado da lagoa… Se atravessa de canoa… fazer feira no Pilar…” A moçada fazia o coro: “Espingarda, pá, pá, pá, pá, faca de ponta, tá, tá, tá”… A chegada da canoa era uma festa, não havia ancoradouro, era preciso ajudar as mulheres e crianças desembarcarem. Passávamos o dia naquele pequeno povoado, correndo, jogando bola, mergulhando nas águas limpas da lagoa.

Frequentávamos o Clube Fênix Alagoana, onde a elite de Maceió se divertia. Nas noites das segundas-feiras havia cinema no salão nobre numa tela adaptada. Final da fita, nos bancos da Avenida, comentávamos sobre os bons filmes que assistíamos na Fênix. Geralmente filmes de cowboy, Rio Vermelho, com John Wayne, inesquecível. No centro da cidade havia o Cine Arte (São Luiz) quase sempre assistíamos a matiné, depois descíamos caminhando à Avenida da Paz, passando junto ao Arcebispado tomávamos um divino suco de maracujá com pão doce.

Final do ano chegavam as férias, os meninos que estudavam fora retornavam para a vida livre, leve e solta no Paraíso, a praia da Avenida. Adolescentes, tínhamos outros programas: andar de bicicleta batendo a cidade de Maceió e olhar na praia as mulheres de maiôs com intensões pecaminosas.

À noite ficávamos nos bancos da Avenida ou saíamos à cata de namoradas, nas redondezas. Eram namoros à antiga, pegar na mão, em vez em quando um abraço mais quente. A turma dos meninos da Avenida dos anos 50 foi se dispersou no tempo e no espaço. Hoje somos oitentões alegres ou um retrato na parede, cheio de saudade.