PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A INCONSTÂNCIA DOS BENS DO MUNDO – Gregório de Matos

Nasce o Sol e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos, Salvador-BA, (1636-1696)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

NORDESTE – Luciano Dídimo

O sol com sua força incomplacente
Abraça o chão sedento do sertão,
Clamores se derramam na oração
Do povo tão sofrido e renitente.

O sol com sua luz incandescente
Abraça as belas praias com paixão,
Gigante litoral em extensão
Com mares de água morna transparente.

A lua embala o frevo e a capoeira,
As dunas e falésias, cor dourada,
Cordel, literatura verdadeira.

Estrela que reluz na Pátria Amada,
Cultura que enriquece a terra inteira,
Nordeste, a minha terra abençoada!

LUCIANO DÍDIMO – “A COLHEITA” – UM SONETO | LITERATURA COM TÚLIO MONTEIRO

Luciano Dídimo Camurça Vieira, Fortaleza-CE

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO BEIJA-FLOR – Luciano Dídimo

Soneto beija-flor, que suga tão traquino
Com bico fino e longo, o verso dos quartetos,
E beija bem depressa a dupla de tercetos,
Em voo assim veloz, mais ágil que menino.

De forma especial, no verso alexandrino,
Contempla-se feliz o encanto dos sonetos.
Entoam a canção, sextilhas em duetos
Que teimam em rimar de modo tão divino.

O verso do soneto é como um beija-flor
Que voa em marcha ré ou no imoto esplendor,
Deixando no leitor um beijo duradouro.

O beija-flor aguarda o versejar venturo,
Vivendo sabiamente o seu labor seguro,
Chegando ao seu final com verso chave de ouro!

LUCIANO DÍDIMO – “A COLHEITA” – UM SONETO | LITERATURA COM TÚLIO MONTEIRO

Luciano Dídimo Camurça Vieira, Fortaleza-CE

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

IMPACIÊNCIA DO POETA – Gregório de Matos

Cresce o desejo; falta o sofrimento;
Sofrendo morro; morro desejando:
Por uma, e outra parte estou penando,
Sem poder dar alívio ao meu tormento.

Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acovardando;
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.

Quem pretende alcançar, espera, e cala;
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.

Pois se aquele que espera sempre alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda a esperança.

Gregório de Matos, Salvador-BA, (1636-1696)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

RECEITA DE ANO NOVO – Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegrama?).

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade, Itabira-MG, (1902-1987)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

RESPOSTA A UM AMIGO EM MATÉRIA AMOROSA – Gregório de Matos

Fábio, que pouco entendes de finezas!
Quem faz só o que pode, a pouco obriga:
Quem contra os impossíveis se afadiga,
A esse cede amor em mil ternezas.

Amor comete sempre altas empresas:
Pouco amor, muita sede não mitiga;
Quem impossíveis vence, este me instiga
Vencer por ele muitas estranhezas.

As durezas da cera o Sol abranda,
E da terra as branduras endurece,
Atrás do que resiste o raio se anda.

Quem vence a resistência se enobrece;
Quem pode, o que não pode, impera e manda,
Quem faz mais do que pode, esse merece.

Gregório de Matos, Salvador-BA, (1636-1696)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

BENZE-SE O POETA DE VÁRIAS AÇÕES QUE OBSERVA NA SUA PÁTRIA – Gregório de Matos

Destes que campam no mundo
Sem ter engenho profundo,
e, entre gabos dos amigos,
os vemos em papa-figos
sem tempestade, nem vento:
Anjo Bento.

De quem com letras secretas
Tudo que alcança é por tretas,
baculejando sem pejo,
por matar o seu desejo,
desde a manhã té a tarde:
Deus me guarde.

Do que passeia farfante,
Muito prezado de amante
por fora luvas, galões,
insígnias, armas, bastões,
por dentro pão bolorento:
Anjo Bento.

Destes beatos fingidos,
cabisbaixos, encolhidos,
por dentro fatais maganos,
sendo nas caras uns Janos,
que fazem do vício alarde:
Deus me guarde.

Que vejamos teso andar,
quem mal sabe engatinhar,
meio inteiro e presumido,
ficando o outro abatido
com maior merecimento:
Anjo Bento.

Destes avaros mofinos,
que põem na mesa pepinos
de toda iguaria isenta,
com seu limão e pimenta,
porque diz que queima e arde:
Deus me guarde.

Que pregue um douto sermão
Um alarve, um asneirão,
e que esgrima ,em demasia
quem nunca lá na Sofia
soube por um argumento:
Anjo Bento.

Desse santo emascarado,
que fala do meu pecado,
e se tem por Santo Antônio,
mas em lutas com o demônio
se mostra sempre cobarde:
Deus me guarde.

Que atropelando a justiça
só com virtude postiça,
se premeie o delinquente,
castigando o inocente/
por um leve pensamento:
Anjo Bento.

Gregório de Matos, Salvador-BA, (1636-1696)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O POETA DESCREVE A BAHIA – Gregório de Matos

A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha
E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um bem frequente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia.

Gregório de Matos, Salvador-BA, (1636-1696)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DE NATAL – Machado de Assis

Um homem, – era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, –
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”

Joaquim Maria Machado de Assis, Rio de Janeiro-RJ, (1839-1908)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AS COISAS DO MUNDO – Gregório de Matos

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa,
Mais isento se mostra o que mais chupa.
Para a tropa do trapo vazo a tripa
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

Gregório de Matos, Salvador-BA, (1636-1696)