PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MADRIGAL MELANCÓLICO – Manuel Bandeira

O que eu adoro em ti
Não é a tua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza

O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Não é o teu espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz

O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai

O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.

O que adoro em ti lastima-me e consola-me:
O que eu adoro em ti é a vida!

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, Recife-PE (1886-1968)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

DOMADORES – Medeiros e Albuquerque

Há quem pasme dos fortes domadores.
Cujo esforço valente e decidido
faz que se curve, de pavor transido,
dorso de fera má, de olhos traidores.

E, contudo, dominam-se os furores
e impõe seu jugo o braço destemido
com qualquer ferro em brasa enrubescido
e artifícios banais e enganadores.

Outros há, todavia, mais valentes,
que a populaça rude não conhece:
são os que domam, vultos imponentes,

esta fera: – a Palavra, que carece
para acalmar seus ímpetos insanos
– seiva e sangue de cérebros humanos.

José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque, Recife-PE (1867-1934)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CARTAS DE MEU AVÔ – Manuel Bandeira

A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.

Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, Recife-PE (1886-1968)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O BURRO – Patativa do Assaré

Vai ele a trote, pelo chão da serra,
Com a vista espantada e penetrante,
E ninguém nota em seu marchar volante,
A estupidez que este animal encerra.

Muitas vezes, manhoso, ele se emperra,
Sem dar uma passada para diante,
Outras vezes, pinota, revoltante,
E sacode o seu dono sobre a terra.

Mas contudo! Este bruto sem noção,
Que é capaz de fazer uma traição,
A quem quer que lhe venha na defesa,

É mais manso e tem mais inteligência
Do que o sábio que trata de ciência
E não crê no Senhor da Natureza.

Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, Assaré-CE (1909-2002)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SILÊNCIO – Medeiros e Albuquerque

Cala. Qualquer que seja esse tormento
que te lacera o coração transido,
guarda-o dentro de ti, sem um gemido,
sem um gemido, sem um só lamento!

Por mais que doa e sangre o ferimento,
não mostres a ninguém, compadecido,
a tua dor, o teu amor traído:
não prostituas o teu sofrimento!

Pranto ou Palavra – em nada disso cabe
todo o amargor de um coração enfermo
profundamente vilipendiado.

Nada é tão nobre como ver quem sabe,
trancado dentro de uma dor sem termo,
mágoas terríveis suportar calado!

José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque, Recife-PE (1867-1934)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A VEREDA – Medeiros e Albuquerque

Ai das estradas onde a populaça
Vai e vem no incessante burburinho.
Cada qual vai seguindo o seu caminho,
Ninguém lhe nota a suavidade e a graça.

Mais vale ser o anônimo caminho
Que o olha das multidões nunca devassa
E cujo encanto atrai quem nele passa,
E se demora quando vem, sozinho.

Eu sou a Estrada larga e petulante
De gente, onde se vê, a cada instante,
Todo um tumulto vão de estranhas faces.

Antes eu fosse uma vereda aberta
Na mata – e quase sempre erma e deserta,
Por cuja sombra – tu somente andasses.

José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque, Recife-PE (1867-1934)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AS SEM-RAZÕES DO AMOR – Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade, Itabira-MG, (1902-1987)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DECADENTE – Medeiros e Albuquerque

Morria rubro o sol e mansa, mansamente…
sombras baixando em flocos, lentas, pelo espaço…
Um morrer pungitivo e calmo de inocente:
doces, as ilusões fanadas no regaço.

Passa um cicio leve e suave… Num traço,
ave rápida passa súbita e tremente…
A tristeza, que vem, cinge como um baraço
a garganta: o soluço estaca ali fremente…

Lembranças de pesar… Navio que na curva
do mar, de água pesada e funda e escura e turva,
some-se de vagar das ondas ao rumor…

Ó crepúsculos sós! os exilados sentem
a angústia sem igual de amantes que pressentem
o derradeiro adeus do derradeiro amor!

José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque, Recife-PE (1867-1934)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ILUSÕES – Medeiros e Albuquerque

Velas fugindo pelo mar em fora…
Velas…pontos – depois … depois vazia
a curva azul do mar onde, sonora,
canta do vento a triste psalmodia…

Partem pandas e brancas… Vem a aurora
e vem a noite após, muda e sombria…
E, se em porto distante a frota ancora,
é p’ra partir de novo em outro dia…

Assim as Ilusões. Chegam, garbosas,
palpitam sonhos, desabrocham rosas
na esteira azul das peregrinas frotas…

Chegam… Ancoram ‘alma um só momento;
logo, as velas abrindo, amplas ao vento,
fogem p’ra longe solidões remotas.

José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque, Recife-PE (1867-1934)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ATOS DE ARREPENDIMENTO E SUSPIROS DE AMOR – Gregório de Matos

Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,
É verdade, Senhor, que hei delinquido,
Delinquido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.

Maldade, que encaminha a vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido,
Vencido quero ver-me e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.

Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.

Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pretendo em tais abraços,
Misericórdia, amor, Jesus, Jesus!

Gregório de Matos, Salvador-BA, (1636-1696)