Homem vestindo linho puro
“As velas do Mucuripe
Vão sair para pescar
Vou levar as minhas mágoas
Pras águas fundas do mar
Hoje à noite, namorar
Sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar
Calça nova de riscado
Paletó de linho branco
Que até o mês passado
Lá no campo ainda era flor”
Fortaleza, capital cearense. Anos 50 e 60. Juventude de comportamento efervescente que funcionou como rastilho de pólvora e acabou “provocando” o governo do regime militar – diferente da juventude de hoje, um alto percentual de baitolas, drogados e tatuados. Incapazes de perceber a vida presente e futura que lhes rodeia. Um dia o boleto chega, e exigirá pagamento.
Bailes noturnos, festas, tertúlias animadas por Ivanildo e seu conjunto e Sávio Araújo – que nos remetia aos tempos de Paulo Moura, Louis Armstrong e, vez ou outra, Cauby Peixoto procurando a Conceição. Até hoje não foi encontrada. Provavelmente está na ZBM ou comendo fava rajada na feira de Casa Amarela.
Os jovens aderiram à moda das calças Lee (tinham que ser importadas, por valorização e imposição da moda vigente) e vestiam camisas sociais “volta ao mundo”, mangas compridas. Como ainda não aparecera o desodorante, os meninos usavam talco Cashemere bouquet nas axilas – e aquilo, quando o corpo suava com a movimentação do corpo dançando “oh, cupido, vê se me deixa em paz, oh, oh”, aparecia a lama e manchava a camisa. As moças, usando vestidos elegantes sem mangas, mostravam o lamaçal feito pelo suor descendo do sovaco.
Longe dali, nos SECAIs ou no Romeu Martins da vida, ou, ainda, nos luxuosos salões do Ideal Clube e do Náutico, orquestras refinadas tocavam até tango argentino.
Rapazes vestiam camisas sociais, de linho puro.
Camisa lavada pela manhã, com o acréscimo do anil e do grude de goma. Colarinho caprichado. Exageradamente bem passada, a ponto de transformar qualquer jovem num príncipe das Astúrias.
Transporte: Aero Wyllis ou Fusca. O Jeep nem tinha o privilégio do estacionamento nas dependências do clube. A Vemaguette, pelo barulho provocante saído do cano de descarga, era inoportuno. O carro da moda era o Simca Chambord.
Aquelas noites….. deixemos pra lá, né!
Saudade também mata – e os modernos resolveram rotular de depressão.
Depressão, uma porra!
Vivência. Prazer de relembrar as coisas boas vividas.
Depressão é viadagem de quem nunca comeu mucuim de galinha e os dois pés da mesma galinha, com a mão e lambendo dobrinha por dobrinha dos ossos.



