Arquivo diários:23 de outubro de 2025
JESSIER QUIRINO - DE CUMPADE PRA CUMPADE
DEU NO X
BI, BI, BI
MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS
A NOITE DOS GEMIDOS EQUIVOCADOS
Nunca se sabe quando a vida decide nos pregar uma de suas pequenas, mas inesquecíveis, peças de teatro. Foi numa dessas madrugadas de Propriá, em 1992, que o ordinário se confundiu com o extraordinário, e o silêncio da noite se tornou cúmplice de um mal-entendido digno de um roteiro de comédia.
Minha ex-esposa e eu estávamos, enfim, descansando depois de um dia de cansaço razoável. Marcus Alexandre, nosso amigo recém-retornado de uma longa temporada missionária na Bolívia, também repousava, ou pelo menos tentava.
Pouco depois da 1 da manhã, estranhos sons começaram a perfurar a serenidade da casa. Gemidos, suspiros, exclamações curtas — “ain, ain, ain”, “unhé, unhé!” — seguidos de perguntas que soavam absurdamente sugestivas: “Quer mais, quer??”
Levantei-me e a minha ex-esposa assustada, atrás de mim perguntando o que seria aquilo, pois os barulhos e gemidos se intensificaram e, pouco depois, lá estava o Marcus Alexandre, também acordado, os olhos arregalados de incredulidade e como quem estava pensando: “Que diabos será isso?”
Olhei para o Marcus. Ele me olhou de volta, a expressão inconfundível: “Ôôôôôxi!”. Nenhum de nós precisava de tradução: o cérebro, por um instante, se recusou a processar a realidade.
A curiosidade — ou a imprudência — falou mais alto. Abrimos a porta. E ali, sob a luz pálida da madrugada, a revelação: um jovem casal, sentados nos degraus de acesso à porta de nossa casa. O rapaz, empenhado, entregava nada mais do que um cachorro-quente à namorada, que, por sua vez, era surda-muda. Os sons, ao invés de paixão proibida, eram apenas uma tentativa amorosa e barulhenta de comunicação — e de apreciação do lanche.
O riso foi inevitável. Eu ri tanto que minha garganta quase cedeu; minha ex-esposa, de tanto rir, chorava; Marcus, no outro quarto, tentava recuperar o fôlego entre gargalhadas. Na manhã seguinte, durante o café, ainda não nos recuperáramos. E o assunto, claro, dominou a mesa.
A vida, constatei, tem o poder de transformar a mais inocente das cenas em um episódio memorável. E às vezes, a comédia mora exatamente nos lugares onde menos esperamos — até que o cheiro de cachorro-quente e a inocência de um casal nos lembram que, afinal, o mundo é sempre mais engraçado e gentil do que imaginamos.
DEU NO JORNAL
OS DOTÔ DE FOICE E MARTELO
DEU NO X
POIS É… É DESSE JEITO…
DEU NO JORNAL
TÁ POUCO. MUITO POUCO
DEU NO JORNAL
A IMPECÁVEL RACIONALIDADE DE BARROSO
Francisco Razzo

Luís Roberto Barroso, que deixou o cargo de ministro do STF no dia 17
Em meu livro Contra o Aborto, demonstrei que não se pode discutir esse tema sem colocar o nascituro no centro da questão. O que se vê com o voto do ministro Luís Roberto Barroso na ADPF 442 é a confirmação desse desaparecimento. O drama humano foi convertido em problema administrativo com toda a tecnicidade jurídica. O aborto, que sempre expôs a fronteira mais delicada entre a vida e o poder, é reduzido a planilha, protocolo e relatório. O embrião se apagou. No lugar dele, surgem expressões de limpeza técnica: “interrupção da gestação”, “questão de saúde pública”, “redução de riscos”.
A forma do voto já revela sua natureza: uma sessão virtual extraordinária, convocada às vésperas da aposentadoria. A decisão mais grave sobre a vida humana entra na pauta como despacho burocrático. O voto, breve e polido, é a imagem da racionalidade moderna em seu estágio mais avançado: limpa, eficiente, asséptica. Além de magistrado, Barroso é a personificação da lógica administrativa aplicada ao que há de mais decisivo na condição humana.
Sua linguagem é a do administrador. Em todo seu protagonismo de juiz da suprema corte, o aborto aparece como problema de eficiência, desigualdade social, custo-benefício, alinhamento com “democracias desenvolvidas”. Tudo soa neutro, científico, inevitável. O embrião está ali de passagem, quase um detalhe. Uma nota de rodapé. A mulher leva alguma vantagem quanto reduzida a vítima de um “infortúnio”. O Estado, por sua vez, é apresentado como gestor benevolente de um problema sanitário.
A pergunta central – que vida é essa que se interrompe? – desaparece. Já escrevi que qualquer discurso que ignore essa pergunta se torna imediatamente a favor do aborto, mesmo quando se apresenta como técnico.
Recorro aqui a Max Weber por descrever o traço mais perturbador da modernidade: a burocratização da vida. A razão moderna organiza-se por meio de técnicas, não de fins; por normas funcionais, não por verdades. Nesse horizonte, a tragédia não é enfrentada, é administrada. A racionalidade instrumental mede o mundo pela eficiência e, nesse processo, não se pergunta pelo sentido da maternidade ou da gestação. Barroso não ignora esse ocultamento. Ele o reproduz, com calma, convicção e naturalidade.
O voto é impecavelmente racional nesse sentido. Não nega explicitamente a vida do embrião, o que seria brutal. Faz algo pior: ignora-o. A neutralidade burocrática é o novo nome da omissão. E quando o Estado decide sobre a vida segundo esse critério, a maternidade se degrada em serviço público. A mãe e o filho, que deveriam estar unidos numa relação de cuidado, tornam-se variáveis de uma equação milimetricamente calculada.
Na perspectiva personalista que defendo, a pessoa jamais pode ser reduzida a conceito abstrato nem produto de cálculo utilitário. É fundamento relacional. Toda vida humana é a experiência de alguém; desde o início, expressão de uma relação. A maternidade não é poder, mas cuidado. Quando o Estado a transforma em objeto de protocolo, já não protege a mulher nem o filho. Administra riscos financeiros. Uma sociedade que autoriza eliminar os mais frágeis dos mais frágeis em nome da autonomia inaugura uma nova forma de poder: o poder administrativo da vida. Não é a biopolítica do cuidado nem a necropolítica da guerra. É a tecnocracia da existência – uma gestão que transforma o mistério da vida em objeto de cálculo, reduzindo maternidade a um “problema de saúde pública”, ou seja, gerenciamento técnico do Estado.
Não se trata de demonizar o ministro. Barroso não é um carrasco do imaginário criminal medieval. É pior: é o funcionário perfeito da modernidade. O que mais assusta em seu voto não é a crueldade, mas a indiferença. Nenhuma frase soa violenta; todas soam razoáveis. O resultado, contudo, é devastador. O embrião não fala, não vota, não comparece – porém, é ele quem sofre a consequência irreversível da decisão. A neutralidade que se apresenta como progresso é, no fundo, anestesia da consciência.
Para não dizer que falo apenas como católico, recorro a Habermas. Em sua ética do discurso, a justiça exige que os afetados estejam incluídos, mesmo quando não têm voz. Esse é o princípio mínimo em contextos morais complexos. O Estado não precisa criminalizar a mulher que decidiu abortar. Porém, o Estado deve proteger a vida que não pode se defender. Essa é a medida mínima de uma democracia humanista. Ela deve incluir a vida mesmo em suas extremas expressões.
O voto de Barroso, ao adotar a linguagem da eficiência, abdica de sua principal responsabilidade: garantir que ninguém seja excluído da comunidade moral.
Há aqui um sintoma do que já escrevi em outras ocasiões: a modernidade cumpriu sua promessa de eliminar o sofrimento, eliminando quem sofre. Decidimos o que é humano por relatórios, tratamos a compaixão como política pública, publicamos sentenças limpas, sem vestígio de dor e consciência. O aborto tornou-se símbolo desse processo: um ato limpo, eficiente, sem sujeito. O ministro apresenta isso como avanço civilizatório, quando na verdade é apenas a imagem madura de uma civilização caminha serenamente em direção ao precipício.
PENINHA - DICA MUSICAL


