MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

UMA DATA PARA PRESTAR ATENÇÃO

No dia 4 de novembro haverá eleições para a prefeitura de Nova Iorque, maior cidade dos Estados Unidos e tradicionalmente favorável ao Partido Democrata. Nas primárias, o escolhido dos democratas foi o deputado Zohran Mamdani. O pré-candidato derrotado, o ex-governador Andrew Cuomo, lançou uma candidatura independente. Em uma pesquisa do mês passado, Mamdani tinha 47% das intenções de voto, Cuomo tinha 29% e o candidato republicano, Curtis Sliwa, 11%. A maioria dos analistas considera a vitória de Mamdani altamente provável, se não surgir alguma surpresa de última hora.

Sendo uma cidade tão famosa e rica, é natural pensar que a escolha de seus eleitores seja racional e inteligente, mas nesse caso essa afirmação parece duvidosa. Os pontos principais da plataforma de Mamdani são:

– Congelar os aluguéis e modificar as leis para aumentar os direitos dos inquilinos.
– Usar o dinheiro público para construir 200.000 moradias que serão alugadas a preços congelados.
– Aumentar as exigências e a fiscalização sobre proprietários de imóveis e confiscar as propriedades daqueles que “demonstrarem consistente negligência para seus inquilinos”.
– Criar o Departamento de Segurança Comunitária e aumentar a verba para programas de prevenção de “violência de ódio” em 800%.
– Criar uma rede de mercearias estatais para vender produtos básicos mais baratos.
– Tornar gratuitos todos os ônibus da cidade.
– Creches gratuitas para todas as crianças entre seis semanas e cinco anos de idade.
– Cesta básica gratuita para todo bebê nascido na cidade, com itens como fraldas, toalhas, roupas e livros.
– Implantar estrutura de energia renovável em 500 escolas e substituir pátios escolares cimentados por “vibrantes espaços verdes”.
– Criar o Escritório de Assuntos LGBTQIA+.
– Melhorar o sistema de saúde, com ênfase em “ajudar os trabalhadores e sindicatos a subsituir o sistema baseado em lucros”.
– Aumentar o salário mínimo em 100% até 2030.
– Criar regulamentações e exigências para o serviços de entrega como o iFood para “proteger os trabalhadores negros, marrons e imigrantes”.
– Transformar NY em uma cidade “a prova de Trump” (sério, está literalmente no site dele: “Trump-proof NYC”)

Para pagar isso tudo, o programa prevê arrecadar:

– 5 bilhões por ano de um aumento no imposto municipal sobre empresas.
– 4 bilhões por ano cobrando imposto de renda municipal dos “muito ricos”.
– 300 milhões por ano “melhorando os gastos públicos e reduzindo desperdícios”.
– 700 milhões por ano contratando mais fiscais de impostos e cobrando mais multas de “proprietários corruptos”.

Depois de ler o “programa de governo”, o leitor provavelmente estará imaginando que a candidatura de Mamdani se baseia em usar populismo e demagogia para conquistar o voto dos eleitores mais pobres e ignorantes. Mas não. Nas primárias democratas, onde ele concorreu com Cuomo, Mamdani:

– Venceu com ampla margem entre os eleitores com menos de 50 anos, e perdeu entre os eleitores acima dos 50.
– Perdeu para Cuomo entre os hispânicos e os negros, e venceu Cuomo no eleitorado branco e asiático.
– Perdeu para Cuomo entre os eleitores sem curso superior, e venceu Cuomo entre os eleitores com diploma universitário.
– Mamdani venceu por pouco entre os homens e perdeu, também por pouco, entre as mulheres.

Como era de se esperar, Mamdani está sendo duramente atacado pelo presidente Trump, com as usuais ameaças vagas de “salvar a cidade de Nova Iorque”. Trump não fez nada para apoiar o candidato republicano Curtis Sliwa, e ser xingado por Trump provavelmente mais ajuda do que atrapalha Mamdani junto ao eleitorado democrata.

Se Mamdani ganha, como parece provável, o que aconterá? Obviamente ele não conseguirá fazer tudo que está prometendo. Seus aumentos de impostos certamente irão afugentar empresas e moradores para outros lugares – lembrando que em NY basta atravessar uma ponte para estar em outro estado, Nova Jersey. Quando isso acontecer, os seus simpatizantes dirão que ele está sendo sabotado pela ganância dos milionários, enquanto seus adversários verão uma prova de que as suas idéias não funcionam. Se conseguir algum sucesso e agradar o eleitorado, isso certamente afetará a próxima eleição presidencial nos EUA, e se fracassar de forma retumbante, também.

Em resumo, haverá muitos discursos, muitas promessas, muitas acusações, muitas narrativas. Muita gente usará os fatos, ou uma parte cuidadosamente escolhida dos fatos, para provar para si mesma e para os outros que está certa. Como no resto do mundo, grupos a favor e contra brigarão entre si como torcidas de futebol. Quando tudo se acalmar, continuará existindo a famosa frase de Shakespeare em “Macbeth”: A vida é uma história contada por um idiota, cheia de barulho e fúria, significando nada.

DEU NO X

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A PRESENÇA DE HELENA

Na fila da loteria, Hélio Prata contemplava o belo pescoço da senhora em sua frente. De repente, ela virou o rosto, ele reconheceu Helena, ficou feliz ao rever um amor de sua juventude.

Uma alegria para ambos. Sentaram à mesa, pediram sorvete. Há muitos anos não se encontravam.

– E aí, Helinho, você continua mulherengo? Foi a primeira pergunta.

– Estou solteiro. Dois casamentos não deram certo. Sou ainda o romântico incorrigível procurando alguém para lhe substituir. Nunca encontrei!

– Você é um danado! Sempre gentil!

– Não é gentileza, Helena. Depois de tantos anos, sou um sessentão e você está beirando. Mulher casada, respeito, mas posso dizer sem mágoa, você sempre foi a mulher de minha vida, nunca lhe esqueci, conservo esse amor bonito dentro de mim. Esse negócio de dizer que sou mulherengo é verdade, depois que você se casou, descambei para as raparigas, tornei-me um grande boêmio, tive muitas mulheres, minha vida desregrada foi fruto da dor-de-cotovelo por você me ter abandonado.

– De fato, nosso amor foi bonito, todos comentavam nossa paixão, nosso namoro avançado. Naquela época namorados não transavam, mas você queria muito. Uma paixão louca! Era tarado por mim. Precisei me segurar para continuar virgem. Terminamos o namoro, mas, você teve culpa, queria todas as mulheres do mundo, namorou uma amiga minha.

– Como está o Josafá, o homem mais feliz do mundo, o homem que tem você nos braços há tanto tempo!

– Helinho, vou ser sincera. Desculpe o desabafo, afinal você é um amigo confiável. Namorei com Josafá, não era aquela coisa louca de nosso namoro. Casamos, construímos nossa família. Dois filhos e um neto. Ano passado tive duas tristezas na vida. Descobri que Josafá tem uma amante, menina nova, sustentada por ele há mais de quatro anos. Encheu-me de mágoa. E o pior, descobri um câncer na minha mama esquerda. Já me operei, tenho como tratar do câncer, os médicos dizem que posso controlar a doença e viver muitos anos. Mas o meu marido não dá mais para controlar, ele está apaixonado por essa sirigaita. Eu vivo só, ninguém sabe o que se passa comigo, vivo indignada dentro de minha dignidade.

Helinho apertou sua mão, olhou nos seus olhos.

– Minha querida Helena, não aguente isso, deixe a merda desse marido. Eu ainda lhe amo, sempre lhe amarei, estou à sua espera o dia que você quiser, pelo resto da vida. Amanhã pela tarde estarei viajando, vou passear quase um mês no navio COSTA MARU, sai do cais do porto direto para Recife e Europa, atravessando o Oceano Atlântico. Quando eu retornar quero conversar com você. Está certo? Você promete que vai me ver? Me dê o número de seu celular.

Despediram-se com beijo no rosto.

À noite o Josafá chegou meio tarde e bêbado. Na hora de dormir, Helena alisou o corpo do marido, beijou-lhe o pescoço, foi se achegando como pedisse carinho, um pouco de atenção. Nesse momento ele falou aborrecido, grosseiro.

– Não quero, não quero pegar sua doença. Você está com câncer. Porra!

Virou-se para o lado e adormeceu.

Humilhada e ofendida, Helena chorou baixinho, correu ao banheiro, sentou-se na privada, caiu em prantos, chorou muito. Certo momento se recuperou, respirou fundo, levantou-se, olhou-se no espelho, só de calcinha, levantou os braços, rodou, achou-se uma mulher bonita, conservada, atraente. Veio-lhe um sentimento forte de amor próprio, jurou nunca mais chorar por Josafá, e que curaria o câncer.

Retornou à cama, custou a adormecer. Fez um retrospecto de sua vida, ninguém mais dependia dela, vivia praticamente só, os filhos independentes. Pensou no que restava no seu futuro hipócrita e humilhante, junto à Josafá.

Eram oito horas da manhã quando ela levantou-se. Tomou café, trocou de roupa, foi ao cabeleireiro, à manicure. No shopping comprou roupas, foi ao banco, almoçou. Chegou em casa por volta das duas horas, arrumou a mala, escreveu uma carta simples para Josafá. Tomou um táxi.

O navio COSTA MARU repleto de passageiros desencostava do cais. Na balaustrada do convés Helinho contemplava o mar, o casario da Avenida da Paz se afastando, diminuindo de tamanho. Ele estava embevecido com a cor do mar de sua terra, quando, de repente, sentiu uma mão por cima da sua. Ao olhar de lado teve a mais bela visão de sua vida: a presença de Helena.

PENINHA - DICA MUSICAL