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8 DE JANEIRO E A REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO BRASIL

Leandro Ruschel

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“Democracia” talvez seja o termo mais abusado da história política. Desde que os gregos inventaram a ideia de um governo de representantes eleitos pelos cidadãos, a democracia ganhou uma aura de legitimidade inquestionável. Todo mundo quer se apresentar como democrata, incluindo aí os piores ditadores.

Por isso que a ditadura comunista que os soviéticos instalaram na Alemanha foi batizada de “República Democrática Alemã”, assim como a brutal ditadura comunista da Coréia do Norte, que recebe o nome oficial de “República Popular Democrática da Coréia do Norte”.

Os comunistas são profundos conhecedores da manipulação do povo através da imposição de narrativas falsas. As palavras têm peso, e o truque barato segue em uso nos dias de hoje, como mostra a imprensa brasileira, que segue empurrando goela abaixo do público a cantilena sobre a “defesa da democracia”.

Sem entrar em debates filosóficos mais profundos, vamos definir “democracia” como um regime de organização política marcada pelo respeito aos direitos individuais, definidos por leis que são votadas por representantes do povo, respeitando crenças e tradições desenvolvidas pela maioria das pessoas ao longo do tempo.

Numa democracia, tais leis são aplicadas igualmente, sendo que os representantes do povo são eleitos de tempos em tempos, em eleições livres e justas. Mais importante, os eleitos devem agir pelo bem de todos, e não movidos em primeiro lugar pelos seus interesses pessoais, lembrando que as autoridades devem respeitar as leis vigentes.

Uma sociedade que consiga manter um arranjo desses conseguirá alcançar um maior nível de paz social e de prosperidade.

Fazendo uma análise honesta da história recente brasileira, é possível afirmar que vigorava uma democracia no país?

Levando em consideração que não há democracia perfeita, tampouco ditadura absoluta, podemos afirmar que havia, na melhor das hipóteses, uma democracia falha.

Desde a Constituição de 88, foi estabelecida, na teoria, direitos políticos mais amplos para os cidadãos, além da garantia da liberdade de expressão, entre outras prerrogativas fundamentais, em linha com outras democracias ocidentais, apesar das várias críticas que possamos fazer da Carta.

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O EFEITO DO ESQUECIMENTO

Roberto Motta

O efeito do esquecimento

Todo mundo conhece alguém que fala muita besteira. Todos têm um amigo que exagera em tudo o que diz, ou que distorce os fatos de acordo com a conveniência – às vezes, apenas para apimentar uma narrativa. Há pessoas, como dizia o jornalista Cristopher Hitchens a respeito do ex-presidente americano Bill Clinton, com uma compulsão tão forte para a mentira que mentem até quando não ganham nenhum benefício com isso.

Todo mundo conhece alguém assim. Nossa reação, em geral, é passar a desconsiderar tudo o que a pessoa diz. A pergunta é: por que não temos a mesma atitude em relação a veículos de mídia?

Todos nós conhecemos bem um assunto ou outro. Há sempre alguma coisa sobre a qual sabemos mais do que a maioria. Pode ser que você entenda de mercado financeiro, de nutrição ou de mecânica de automóveis. Você pode ser um especialista, por exemplo, em Direito Constitucional. No meu caso, devido a uma sequência de incidentes e à minha curiosidade, passei a entender um pouco melhor como funciona – ou não funciona – nosso Sistema de Justiça Criminal. Me tornei um “especialista” em segurança pública (a razão das aspas é que os verdadeiros especialistas em segurança pública são os policiais, eu sou um mero curioso mesmo).

Quase todas as matérias sobre criminalidade que encontro na mídia me deixam espantado com a quantidade de erros e distorções, e com a decisão de não usar lógica ou bom senso para conectar causa e consequência. Na verdade, a maior parte dos artigos sobre segurança inverte a relação entre causas e consequências. Esses artigos sobre criminalidade são escritos – ou seria melhor dizer produzidos? – seguindo o mesmo roteiro. É uma narrativa, pré-estabelecida antes mesmo de qualquer apuração dos fatos, que o brasileiro conhece bem: o criminoso é um pobre coitado, que não teve oportunidade, que foi oprimido pelo sistema e agora, depois de ser forçado a cometer um crime, será duplamente injustiçado ao ser preso pela polícia e punido pela lei.

Você provavelmente sente a mesma coisa quando encontra na mídia uma matéria sobre um assunto que domina, e constata que o jornalista não tem nenhuma compreensão dos fatos ou das questões envolvidas. E aí vem o paradoxo: ficamos chocados com a incapacidade da mídia de entender e falar sobre aquilo que conhecemos, mas viramos a página e passamos a ler as outras matérias – sobre assuntos que não dominamos como economia, política ou ciência – como se as outras matérias fossem, de alguma forma, mais bem escritas do que as bobagens que acabamos de ler.

Você, que trabalha com transporte, fica revoltado ao ler uma matéria em defesa da “regulamentação” da sua profissão, cheia de informações inverídicas – de mentiras – mas confia no mesmo jornal para te informar sobre a tal “reforma tributária”.

Você, que é especialista em geração de energia, acaba de ler uma matéria totalmente errada sobre usinas termoelétricas – tão errada que te dá vontade de ligar para o jornalista – mas agora acredita que o mesmo jornal tem condições de te informar o que está acontecendo em Israel. Ou na Argentina. Ou no Congresso Nacional.

Não fui o primeiro a me dar conta desse paradoxo. Na verdade, ele já foi descrito pelo autor americano Michael Crichton – o que mostra que ele não é, de forma alguma, restrito à mídia nacional. Na verdade, o fenômeno pode ser observado na maioria dos veículos de comunicação do mundo, especialmente depois da criação do ciclo de 24 horas de notícias em que todos precisam falar, o tempo todo, sobre todos os assuntos, mesmo aqueles sobre os quais não têm qualquer conhecimento.

Um exemplo é a revista The Economist da qual fui, durante o tempo em que morava no exterior, fiel leitor e assinante. Quando retornei ao Brasil, passei a perceber o quanto eram equivocadas as matérias da revista sobre meu país. Dá um calafrio imaginar que milhares de pessoas podem estar formando a sua opinião sobre o Brasil com base nessas matérias.

Isso acontece, provavelmente, porque veículos como a The Economist cobrem uma enorme variedade de países e tópicos. Seus leitores – como eu era – gostam dela exatamente por essa razão: seus artigos trazem informações sobre eventos, locais e pessoas que, normalmente, nem saberíamos que existiam, como a república de Nagorno-Karabakh ou o rapper americano Young Thug (para citar assuntos da edição mais recente).

O problema é que, para escrever com fidelidade e conhecimento sobre dezenas de países e temas numa única edição, seria preciso contar com uma formidável equipe de especialistas ou com jornalistas que moram em cada um desses países, para produzir matérias a partir de fontes primárias ou de pesquisa apurada. Mas quantos veículos de mídia têm recursos, tempo e determinação suficiente para fazer isso?

O trabalho de um veículo de mídia de qualidade – e tenho orgulho de dizer que contribuo para vários deles, inclusive esse aqui – é uma luta permanente contra o tempo e a favor da verdade. Mas os melhores amigos do espectador e leitor continuam sendo seu senso crítico e sua capacidade de comparar e avaliar as diferentes versões da realidade que nos são servidas todos os dias.

COMENTÁRIO DO LEITOR

CRIMES

Comentário sobre a postagem O ASSASSINO É A VÍTIMA. CULPADO É O MORTO

Roosevelt Bessoni e Silva:

É lastimável o argumento de tão soberana Associação.

“O juiz de execução penal não julga novamente…” e a Associação afirma que o crime é resultado da desigualdade social mas não das leis cheias de buracos para os bandidos escaparem e até se tornarem “autoridades”?

Infelizmente é o mesmo argumento que diz que é esperado roubar um celular se não tiver um ou para beber uma cervejinha.

Não será então mais crime se alguém matar um fazendeiro porque trabalha para ele mas não possui uma cabeça de gado?

Não será mais crime assassinar alguém porque é o motorista da vítima mas não pode ter um carro de luxo?

Não será mais crime matar uma criança na creche por ser um funcionario que não consegue pagar para o próprio filho?

Não será mais crime alguém assassinar para levar o tênis que não pode comprar?

Não será mais crime incendiar um apartamento confortável porque mora em região sem o minimo de saneamento?

A associação está certa apenas em alertar para a desigualdade social, causada pelo maior crime social que é a imprensa e outras associações importantes se calarem frente à corrupção influenciando no voto dos cidadãos em candidatos de histórico corrupto.