DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O MOSQUITO ESCREVE – Cecília Meireles

O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S.

O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U e faz um I.

Esse mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.

E aí, se arredonda e faz outro O,
mais bonito.

Oh!
já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever o seu nome.

Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?

E ele está com muita fome.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901-1964)

DEU NO JORNAL

DEU NO JORNAL

A GANGUE DA BONDADE

Luís Ernesto Lacombe

Em fevereiro, Lula se encontrou com grupo de influenciadores, incluindo membros da Mynd, que fizeram campanha para o petista em 2022.

Em fevereiro, Lula se encontrou com grupo de influenciadores, incluindo membros da Mynd, que fizeram campanha para o petista em 2022

Dominar a mídia custa caro, mas Lula e Dilma sempre encontraram dinheiro para isso. A verba para publicidade nos governos dos dois sempre esteve nos bilhões. De forma desavergonhada, os petistas mantêm a tradição de comprar a mídia. Isso já fez, em outros tempos, com que um veículo de informação desistisse de chamar Lula de “bêbado, analfabeto e incompetente” e começasse a tratá-lo como “grande estadista”. Bastou que 70% da receita da publicação, de repente, passasse a vir de empresas estatais.

São vários casos assim… A verba é liberada, e, como mágica, Lula deixa de ser um corrupto, um lavador de dinheiro, e se transforma no melhor político para comandar o Brasil. Quando era apenas um candidato à Presidência, a simples indicação de que abriria os cofres para algumas empresas de comunicação já fez com que todos os seus pecados fossem esquecidos, completamente ignorados. “A alma mais honesta do Brasil” seria atestada, comprovada em horário nobre na tevê, em manchetes com letras garrafais.

Também sempre foi prática do PT, a partir do surgimento das mídias digitais, garantir um bom troco para um time particular de blogueiros. Depois, vieram as redes sociais, vieram os “influenciadores”, e os escrúpulos foram mesmo às favas. O vale-tudo foi liberado… O dinheiro dos pagadores de impostos possibilitou a criação de uma milícia digital, de uma rede divulgadora de mentiras, promotora de linchamento virtual, de assassinatos de reputação. Uma horda de manipuladores, de autoritários, todos unidos pela “causa do amor” e uma boa grana.

Lula pôde, enfim, se reunir com essa turma no Palácio do Planalto. No encontro dos sem caráter com o “chefe”, teve agradecimento… Lula reconheceu que não teria ganhado as eleições sem o ardil empreendido nas redes e falou numa “fábrica de mentiras” que é preciso enfrentar. E esse país em que faltam cultura de verdade, ética, moral vai sendo empurrado sem perdão para a burrice eterna, a ignorância, o desconhecimento de tudo. Os boatos, as lorotas atacam sistematicamente e de forma organizada e são capazes de matar um país inteiro.

A velha imprensa vê alguma coisa? Vê e não vê o que o dinheiro manda. Sua cumplicidade é garantida em forma de nota fiscal. O “gabinete do ódio” é outro, e contra ele um regime de exceção se justifica. A “democracia relativa” deve prevalecer. Persigam jornalistas que não se enquadram, fechem as portas para eles nos veículos tradicionais, tirem suas redes sociais, bloqueiem suas contas bancárias, cancelem seus passaportes. Corram daqui, fascistas, nazistas, golpistas, misóginos, racistas, homofóbicos. Vocês não sabem nada de igualdade. É preciso ter a mesma opinião da “gangue da bondade”. Discordar de quem está com Lula é o fim da picada.

DEU NO X

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

NADA DE NOVO

Pindorama, ano 468 d. S (depois de Sardinha) e ano 001 DdC (Depois de Clezão), peguei-se-me a refletir sobre um fato assucedido na casa de meu grande amigo Marcelo Cestari e o modo como a vida é uma repetição enfadonha das mesmas coisas e dos mesmos acontecimentos, com nós, curibocas, bororos e caetés soltando fogos e enchendo a cara todas as vezes que esse insignificante pedregulho que chamamos de lar, dá uma volta em torno de sua insignificante estrela a cada 365 dias.

Estávamos a assistir um filme chamado Sissy, que conta a história da princesa Elizabeth da Baviera, e Imperatriz da Áustria. É uma trilogia boa, mesclando drama, romance, história e humor, demonstrando como casamentos reais, alianças políticas e interesses coloniais criaram o palco para a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Fotografia bela, enquadramento bem feito e um leve toque de humor que desanuvia o clima pesado do desenrolar da história europeia do século XIX.

Em uma determinada cena, as personagens se deleitam em um banquete com vários pratos, iguarias refinadas, servidos por um magote de criados e serviçais que se revezam no atendimento e satisfação dos desejos da nobreza europeia. Olhando aquilo meu amigo fez um comentário sobre o luxo, o fausto, a riqueza daquela refeição. Em resposta a ele disse: e o que difere de hoje? Apenas se trocou nome do regime, criou-se a fantasia do poder que emana do povo, mas tudo continua da mesma forma.

A nobreza hereditária de outrora foi trocada pelos plebeus eleitos de hoje. Os ditos mandatários do suposto poder popular continuam comendo à mesma mesa, com o mesmo luxo, com a mesma riqueza, com os mesmos serviçais, enquanto a malta continua a catar as migalhas que caem de suas mesas.

Trocou-se o pronome de tratamento de Alteza e Majestade, por Excelência, porém a dinâmica da relação de poder continua sendo a mesma, principalmente abaixo do Rio Grande, em que o conceito de riqueza só se estabelece se estiver rodeado de pobreza e miséria. À diferença dos Estados Unidos, Canadá e Europa, abaixo do Trópico de Câncer, com raras exceções, o conceito de riqueza só subsiste em meio à pobreza extrema e à miséria, com a máxima do “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Pindorama é um exemplo clássico dessa máxima em que se substituiu o regime monárquico pelo republicano, mas não se mudou a dinâmica de privilégios monárquicos pelo igualitarismo democrático. Lembro-se-me do presomente subindo a rampa do Planalto ao lado de um índio, de um deficiente físico e de uma catadora de materiais recicláveis. Essa moça, logo depois declarou que em 2003, quando o descondenado subiu pela primeira vez aquela rampa, era catadora de recicláveis. Vinte anos depois continua na mesma condição e sem esperança de sair da mesma.

São vários exemplos dessa configuração que reflete o privilégio de classes e o conceito enviesado de riqueza a partir da distribuição igualitária da pobreza e da miséria. Em uma mesma cidade, de qualquer quadrante desta nação, pode-se ver exemplos claros dessa visão enviesada. São ilhas de prosperidade, de luxo e de privilégios cercadas de miséria e indigência por todos os lados.

A riqueza em Pindorama calha bem ao conceito de ilha, retirada da geografia física, assim como calha bem aos mesmos padrões da nobreza europeia do século retrasado, com seus esbanjamentos, luxos e riquezas. Pindorama é excludente, é patética, é insignificante no contexto local e mundial, mas é extremamente eficaz em produzir miséria.

Acostumamo-nos a viver de migalhas, de supostos favores e benesses estatais que não são grátis. Custam caro, e muito caro. Em 2023 d. C. superamos a marca de três trilhões de reais em impostos arrecadados, produziu-se um déficit federal, sem contar os estaduais e municipais de 137 bilhões, e nada se viu de concreto para assegurar o crescimento sustentável do país. O que se viu e se vê é uma estrutura balofa, faminta por dinheiro do contribuinte e que quer mais. Superamos o rei Salomão e o rei João Sem-Terra na fome de atarrachar mais impostos nos chifres do pagador, porém, desses impostos quase nada volta para o pagador, mas vemos nossa nobreza de fancaria se refestelar no fruto desse dinheiro.

Então, volto à pergunta de início e que fiz ao meu amigo: que diferença há entre aquela ilusão do cinema, mas que retratava a realidade da época e a realidade de Pindorama? O drama de Marx está se repetindo como uma farsa grotesca, impiedosa e destrutiva. Se no ancient regime a imobilidade social se dava pela natureza do nascimento, sem possibilidade de ascensão social – ideologia destruída pelo protestantismo calvinista -, em Pindorama a imobilidade ascendente é estruturada e pensada ideologicamente para riqueza só seja concretizada se estiver rodeada de miséria, pedintes e esmoleres estatais.

É dessa forma que se destrói uma nação.

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO X

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TÁ TUDO INVERTIDO

Câmera de segurança captou momento que suspeito atira e derruba o militar - Foto: REPRODUÇÃO/REDES SOCIAIS

Estava em saída temporária do sistema prisional o homem que atirou na cabeça de um sargento da PM, na noite da última sexta-feira (5 de janeiro) no bairro Novo Aarão Reis, na região Norte de Belo Horizonte.

Atingido na cabeça por um tiro, o militar está internado em estado grave no Hospital João XXIII.

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JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

MESA FARTA

A fartura na mesa do seridoense é coisa conhecida aqui, ali e alhures. É próprio do nosso povo uma mesa cheia com diferentes tipos de comidas, doce e salgados postos para uma mesma refeição. Não importa a hora do dia, a mesa do seridoense é feito exército em tempos de guerra, está sempre ali, pronta para ser usada.

Em recente viagem ao Rio de Janeiro, na casa de uma seridoense, aliás, em sua cozinha, eu fui praticamente obrigado a fazer duas refeições em menos de três horas. Ouvi da boca da dona da casa a afirmativa que “no Rio quando chega uma visita, eles fecham a porta da cozinha. O seridoense não! Escancara a dispensa e parece, até, querer matar o visitante pela boca”. Sônia de Chico Velho foi quem me despertou para isso tudo, apesar de eu já saber há tempos da fama das nossas mesas.

Tal fato, das mesas fartas, vem de longe sendo apreciado. Não sei bem quem foi o autor – Chico de Seu Bilé me garante que foi o “doutor” Juvenal Lamartine, em seu livro Velhos Costumes Do Meu Sertão -, mas, ainda na primeira metade do século passado alguém escreveu que a mesa de José Braz do Talhado, o primeiro do nome, era a mais farta do Seridó.

E era! Ainda segundo Chico de Seu Bilé, sobrinho do dono da casa, lá se costumava fazer quatro refeições diárias. O café servido antes das seis e meia, o almoço estava à mesa antes do meio dia, a janta vinha pouco depois das dezesseis horas e, por fim, a ceia por volta das dezenove horas no máximo.

Do mesmo Chico ouvi a história que passo a narrar agora.

Seu Bilé acordou cedo para ir às compras em Currais Novos, cidade onde também fecharia alguns negócios. Combinara com Antônio Marrada essa ida.

O sol ainda, não mostrara a cara e repousava frio quando pegaram a camionete, e arribaram em busca da cidade vizinha.

No meio do caminho Seu Bilé sabendo da mesa sempre posta na casa do cunhado, sem delongas ou falsa etiqueta, resolveu fazer uma visita de surpresa a fim de realizar a primeira refeição ali.

Depois da alegria demonstrada dos donos da propriedade pela visita inesperada, dos cumprimentos e das bênçãos de Seu Zé Braz Velho e Dona Cantídia, sua esposa, ao afilhado Antônio Marrada, as perguntas tradicionais nesses tipos de chegadas foram feitas, respondidas e o grupo seguiu para se sentar no grande alpendre frontal, onde bancos de madeira maciça davam à parede da grande construção as vezes de espaldar.

A casa já se encontrava movimentada, com gente saindo e entrando e, na cozinha, as tapiocas e outras comidas sendo feitas. O cheiro das carnes e de queijo tomando conta do ar.

Uma boa conversa corria solta e os primeiros raios de sol chegavam ao alpendre, quando alguém anunciou na porta que o café estava pronto.

Os donos da casa, gentis, deram passagem para Seu Bilé e Antônio adentrarem pela sala espaçosa cheia de retratos dos velhos antepassados, passando por uma espécie de saleta para irem todos até uma segunda sala grande, onde a mesa estava posta. Seu Bilé e Seu Zé Braz seguiram bem devagar na frente tratando de negócios, conversando sobre chuvas, sobre gado, sobre safra de algodão… assim chegaram e se sentaram à mesa.

Bolos, biscoitos, cuscuz, leite, coalhada, canjica, pamonha e milho, mais café, frutas, sucos, pães, tapiocas, broas, carnes, ovos… e queijos. Queijos de coalho e de manteiga, já fatiados, cada tipo em sua própria travessa.

Todos começaram a se servir. Numa espécie de ritual puseram o café nas xícaras, trouxeram as tapiocas aos pratos, e foram separando cada um a sua comida.

Antônio Marrada esticou-se até o meio da enorme mesa e pegou a travessa do queijo de manteiga. Trouxe para junto do peito e com um garfo foi depositando as fatias em seu prato. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis… a metade!

Já se esticava novamente para devolver a travessa ao seu lugar de origem, quando Seu Zé Braz, vendo o exagero de queijo em seu prato, advertiu o afilhado:

– Antônio, lembre-se que os outros também gostam de queijo.

Nesse momento Antônio já tinha encostado a travessa de volta à mesa, embora não a tivesse largado de tudo. Mas, num impulso, recolheu-a de novo para junto do peito e, empurrando o restante do queijo para o prato, foi respondendo:

– Mais do que eu, eu duvido, padrinho.

Ô medo fila da mãe de ficar sem queijo!