JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

SEVERINO DAS PORTEIRAS

A coisa marchou para o brejo faz anos!

Um cabra como eu, na janela do tempo observando a metade da minha vida completada, embora vivendo literalmente os nove minutos de acréscimos do primeiro tempo, com a maturidade lá em cima e já dando mostras de querer despencar, não consigo mais assistir um jornal televisivo. É crise, é violência, é corrupção… e se o bicho for mostrado de trás para frente, dá a mesma coisa. Periga até o sujeito, em meia hora de telespectador, arrumar uma depressão para o resto da vida. No meu caso, para o segundo tempo que começará em vinte e dois de fevereiro.

Nisso eu prefiro ficar pensando no povo bom do meu lugar. Um tipo Seu Severino das Porteiras – mestre nas passagens lhe emprestando o epíteto depois do nome próprio, substituindo inclusive o seu sobrenome de batismo – sendo cabra de pouca paciência, encarnando o melhor do tipo “paciência zero para perguntas bestas”.

Sertanejo alto, magro, amorenado, se foi como um octagenário de olhos acastanhados, limitado no andar, mas voava nas lembranças, na inteligência e na lucidez.

Outrora morador nas terras do Cardeiro, então propriedade do Saudoso Dr. Bezerra, naqueles dias de poucas expectativas Severino acertou de ficar ordenhando também em um sítio vizinho, para tratar um gado pouco e ganhar mais uns trocados.

Daí, um dia o patrão soube da dupla jornada e foi ter com ele para conhecer melhor como era aquilo.

Foi se aproximando de Severino e tacou-lhe e a pergunta:

– Ô Severino, você ‘tá tirando leite em Zé Braz?

– Não, doutor – respondeu em cima da bucha o velho Severino. E completou sem olhar sequer para o patrão: – Nas vacas! Pois, Zé Braz é homem e eu não tiro leite de macho.

Respondeu certinho, foi não?

Já outro dia Severino estava sentado num tronco velho, a parede da frente de sua casa servindo-lhe de espaldar e a ponta desgastada do cabo de vassoura lhe servindo de bengala sendo uma baqueta batendo no espinhaço do chão à sua frente, quando um carrão parou quase sobre os seus pés. Ao volante estava Jurema Lamartine, cordialmente lhe cumprimentando com um sonoro bom dia, naquela voz de besouro que ela tinha; voz grossa, pausada, altamente burocrática pelos cargos que ocupara durante toda sua vida profissional, desde quando a Capital Federal se avizinhava ao Maracanã.

Respondido o cumprimento, ela desceu do veículo e educadamente apertou-lhe a mão se apresentando pelo nome. Depois começou a falar de forma bem explicada, recheada da pompa que sempre lhe foi peculiar, o queixo em meneios apontando para cima e o rosto toda vida muito sério:

– Senhor Severino, eu fiquei muito tempo morando fora e agora voltei. Intenciono residir novamente por aqui e estou sabendo que o senhor é o melhor mestre em porteiras de Acary. Vim lhe encomendar uma para a minha propriedade.

– Pois não – limitou-se em responder Severino.

– Quero saber os preços – questionou Jurema.

– Diga aí as medidas, dona – quis saber o mestre, enquanto socava uma das bengalas no chão de terra batida, entre os dois pés.

– Três metros e meio de cumprimento, por um metro e sessenta de altura – respondeu Jurema franzindo a boca depois.

Severino olhou para o alto fazendo contas de cabeça. É cabra bom na Matemática mais simples. Quando encarou a possível cliente, trazia o valor na ponta da língua.

– Dá para fazer por mile e quinhentos cruzados.

Jurema pensou no valor, comparou com o salário mínimo e indagou:

– Com a madeira do senhor?

– Não! – respondeu Severino demonstrando impaciência. E completou:

– Com a minha madeira de jeito nenhum, dona – disse de forma aborrecida.

– Ela é pequena, fina, roliça e oca no meio. Num segura prego, nem parafuso – finalizou.

Daí que eu não sei se fecharam negócio. Esqueci de lhe perguntar.

Doutra feita Severino passava pela Praça do Coreto e ouviu o seguinte diálogo de “duas donas”, como ele costuma chamar senhoras de certa idade.

– Vai viajar, mulher? – perguntou a primeira.

– Vou – respondeu secamente a segunda.

– E vai só a passeio? – quis saber a outra.

– Não. Vou botar uma chapa em Natal.

Foi aí que Severino, parou, virou-se com a dificuldade imposta por seus joelhos e entrou na conversa.

– A senhora deve ser muito rica – ponderou com sua voz arrastada.

– Vai colocar uma chapa em Natal. Em Natal! Fico só imaginando o tamanho desses dentes – finalizou.

E saiu se equilibrando sobre as duas madeiras lhe servindo de bengalas.

– Ô, seu Severino, esse ano dá chuva?

– Se não der das nuvens, de ano é que num dá, hum-rum!

E quando não foi melhor sorrir do que chorar?

DEU NO JORNAL

QUANDO O TRAFICANTE VIRA TRABALHADOR E O CRIMINOSO, HERÓI. ONDE VAMOS PARAR!

Thiago Rafael Vieira

rio de janeiro operação policial

Policiais do Rio de Janeiro levam suspeitos presos (ou “trabalhadores megaexplorados”, segundo vereadora porto-alegrense) durante operação contra o Comando Vermelho

Dias após a famosa operação policial no Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho que resultou na morte de 4 policiais e 117 bandidos, conforme informações do governo fluminense, a vereadora Karen Santos (Psol) subiu à tribuna da Câmara de Vereadores de Porto Alegre para oferecer ao país uma tese tão exótica quanto perigosa:

“O álcool é legalizado, o cigarro é legalizado, o açúcar, o café e os medicamentos tarja preta também. Quer acabar com as drogas? Regulamenta. Porque é interessante para o capitalismo explorar essa cadeia produtiva – das pessoas que plantam, das que embalam, das que transportam, até chegar no varejo, na biqueira. São trabalhadores, megaexplorados, sem direitos garantidos, e o setor é bilionário, sem taxação de impostos.”

O discurso parece saído de um panfleto de centro acadêmico cubano dos anos 1970 – e, infelizmente, foi dito por uma parlamentar em pleno exercício do mandato.

A fala da vereadora não é apenas absurda. É perigosa.

Chamar traficante de “trabalhador explorado” não é compaixão, mas a normalização de uma conduta criminosa e altamente prejudicial à sociedade. É classificar o crime como uma categoria social e, quando o crime se torna uma categoria social, o Estado de Direito desaba. A sociedade passa a confundir transgressão com direito e barbárie com empatia. O resultado é um mundo invertido ao estilo de Stranger Things, onde o criminoso é vítima e a lei é o agressor.

Dizer que o tráfico é uma “cadeia produtiva” é tratar o veneno como alimento, o crime como trabalho e o mal como modelo econômico. Isso não é progressismo; muito pelo contrário, é regressão civilizatória. O tráfico não é um setor da economia: é um câncer moral e social, que destrói famílias, mata jovens, corrompe as instituições e dissolve a alma moral da cidade.

Como ensinavam Tomás de Aquino e Agostinho de Hipona, legalizar o mal não o transforma em bem, apenas o institucionaliza. A justiça não nasce da permissividade, mas da coragem de dizer não ao que destrói o ser humano. Combater o crime é defender o bem comum, e justificar o mal em nome da ideologia é se tornar cúmplice da desordem e do caos social. A verdade é que, quando a lei perde o sentido moral, a civilização perde o rumo.

A lista de razões para rejeitar esse delírio da parlamentar Karen Santos é bem longa, mas traremos dez delas:

1. Atenta contra o Estado de Direito

Quando relativizamos o crime e o mal que ele causa, enfraquecemos o princípio substantivo da legalidade. O Estado de Direito existe para garantir que ninguém – nem político, nem criminoso – esteja acima da lei. Chamar o traficante de “trabalhador” é dissolver a fronteira entre o lícito e o ilícito, o legal e o ilegal.

2. Viola o bem comum

O tráfico de drogas é a negação máxima do bem comum em uma sociedade. O traficante e toda a sua “cadeia produtiva” lucram com a destruição da pessoa humana e com o caos social. Defendê-los é promover a injustiça como política pública.

3. Destrói a comunidade

A vida comunitária se sustenta na confiança, na gratidão e no senso de justiça. Esse tipo de discurso substitui virtudes por vitimização, e transforma o criminoso em herói. Nossas crianças perdem o referencial do bem e, com o tempo, a comunidade se desintegra.

4. Rompe com a ideia de democracia

A democracia depende de cidadãos livres e responsáveis, não de cúmplices do crime. Legitimar o tráfico é inverter o papel do poder político: de protetor da sociedade para cúmplice da desordem. A democracia deixa de ser instrumento da cidadania para ser instrumentalizada pelo crime.

5. Desmoraliza a justiça e o trabalho honesto

Equiparar traficantes a trabalhadores é insultar quem vive do próprio esforço. O trabalho edifica; o tráfico destrói.

6. Destrói o conceito de ordem

A ordem é o alicerce da paz social e do progresso. Como diz o nosso pavilhão nacional, a bandeira do Brasil, não há progresso sem ordem. Legalizar o crime é transformar a lei em piada e o Estado em cúmplice do caos. É romper com a ordem e impedir o progresso.

7. Fere a dignidade humana e a saúde social

O tráfico mata o corpo e a alma. As drogas corrompem os costumes que dão sentido à vida e, por fim, escravizam seus usuários, que deixam de ter livre arbítrio. Não há vida saudável onde a destruição é celebrada como cultura e categoria social.

8. Corrói a responsabilidade moral

Se com a legalização do mal a ideia é remover a culpa de quem usa e, principalmente, de quem vende e distribui, elimina-se também a possibilidade de arrependimento e de mudança de vida. Sem responsabilidade, não há liberdade – só anarquia disfarçada de empatia.

9. O “aviãozinho” do tráfico não se liberta com legalização, mas com educação

O jovem usado pelo crime não precisa de um CNPJ, mas de escola, oportunidade e propósito. É o conhecimento que liberta, não a transformação artificial do mal em bem.

10. A falácia da “regulamentação resolve”

Comparar drogas ilícitas com álcool e cigarro é intelectualmente desonesto.

O álcool e o tabaco, embora nocivos, não destroem a consciência nem a alma humana como o entorpecente. São vícios tolerados, não modelos de virtude. A droga, ao contrário, aniquila a autonomia da vontade e cria dependência quase total.

Um Estado que regulamenta o tráfico não regula o mal – ele o institucionaliza.

Regular o mal não o domestica; apenas lhe confere forma jurídica. A verdadeira política pública não é transformar o vício em mercado, mas impedir que o vício se torne cultura.

Enquanto o álcool e o cigarro desafiam a saúde, o tráfico desafia a própria ideia de humanidade, porque faz da destruição do outro um modo de vida. Quando o poder público passa a flertar com esse abismo moral, o que cai primeiro não é a lei; é a alma da nação.

Nós não legalizamos o mal. Não romantizamos o crime. Nós o combatemos. Dizemos não às drogas. E você?

DEU NO JORNAL

DEU NO X

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

POEMA DE SETE FACES – Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo , mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo , vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade, Itabira-MG, (1902-1987)

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

A PALAVRA DO EDITOR

DOMINGOU

O domingo amanheceu bonito aqui no Recife.

O sol tá clareando o mundo e embelezando a paisagem.

Desejo um excelente domingo para este magnífico grupo de leitores e colunistas, que moram aqui no fundo do meu coração.

Paz, saúde, felicidade, muito amor e vida longa para todos vocês e seus entes queridos!!!

Um agradecimento especial pelas generosas doações que são feitas pela patota fubânica, nos ajudando a manter nos ares esta gazeta escrota.

E pra abrilhantar este lindo dia, vamos fechar a postagem com uma gostosa roda de choro. 

Instrumental SESC Brasil interpretando Noites Cariocas , de Jacob do Bandolim.

 

DEU NO JORNAL