PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo , mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo , vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade, Itabira-MG, (1902-1987)

2 pensou em “POEMA DE SETE FACES – Carlos Drummond de Andrade

  1. Drumont questiona e até justifica suas fraquezas sexuais.

    Anjo torto, destes que vivem nas sombras.

    A culpa então é dele?

    O homem atrás do bigode e dos óculos, sério, quase não conversa, é sério, simples e forte. Com certeza a figura do pai, que tudo vê e desaprova atitudes.

    A lua e o conhaque o fizeram enxergar o que a sobriedade não deixa, porque há um personagem que deve ser mantido.

  2. Pingback: ANJO TORTO | JORNAL DA BESTA FUBANA

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