JESSIER QUIRINO - DE CUMPADE PRA CUMPADE

DEU NO X

ALEXANDRE GARCIA

A COP 30 SUMIU DO NOTICIÁRIO

Lula e Marina Silva COP 30

Lula com a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, em uma das rodadas de negociação da COP 30

Nesta quarta tivemos mais uma trágica notícia: soubemos que o general Augusto Heleno, 78 anos, uma legenda do exército, terá de cumprir pena de 21 anos e sofre de Alzheimer já há uns sete anos. Alzheimer é uma doença progressiva. Eu conheço o general Heleno há muito tempo, e nunca vi nenhuma manifestação dele que não fosse dentro da lei, da ordem e da Constituição. É um oficial brilhante.

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Agora a ideia é que todos esqueçam o quanto antes o desastre da COP 30

De repente todos pararam de falar na COP 30. Parece até orquestrado, como se viesse uma ordem para ninguém falar mais nada desse desastre que houve em Belém. E vejam só a hipocrisia, ou a ironia, ou o paradoxo: o segundo maior rebanho bovino do Brasil está no Pará, ou seja, o estado é um dos principais produtores de proteínas animais deste país; mas está em primeiro lugar na fome. É o IBGE que diz isso: 44,6% dos domicílios do Pará têm insegurança alimentar, têm problemas sérios de fome.

Na COP, tivemos essa tentativa de exibir uma brilhante Amazônia, mas, a não ser que nossas fontes de informação estejam nos enganando, sabemos – nós já sabíamos, os estrangeiros talvez tenham descoberto agora – que o crime organizado já domina a entrada do Rio Solimões, que depois vira Amazonas, e outras áreas da região. O PCC domina uma parte, o Comando Vermelho manda em outra. Em Jacareacanga (PA), por exemplo, surgiu a foto de um aviso: “Comando Vermelho. Proibido roubar na quebrada”. Os bandidos estão dizendo onde em Jacareacanga não se pode roubar, e a ordem não é da polícia, é do crime organizado.

O que existe, mas não se mostrou, foi a insegurança fundiária de milhares de brasileiros trabalhadores que estão lá produzindo cacau, criando gado, que construíram escolas e igrejas, para de repente vir o governo federal e tirar tudo, queimando as casas, as escolas, as igrejas, e forçando todos a se mudarem. O Incra colocou as pessoas em várias áreas, mas depois inventaram reservas indígena, e aí prevalece a terra para os índios. É a injustiça social na Amazônia.

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Incêndio em Hong Kong mostra importância de pensar em segurança dos edifícios

Eu implico com a altura de prédios onde as pessoas vão morar não só porque, se faltar eletricidade, as pessoas terão de subir ou descer 30 andares, mas também por outros motivos. Um deles é o que aconteceu nesta quarta em Hong Kong, a antiga possessão britânica que voltou a ser chinesa. Um condomínio de oito prédios pegou fogo, os bombeiros ainda estavam tentando apagar o incêndio, e não se sabe quantos morreram – eu calculo, pelo noticiário, uns 300 que ficaram presos lá dentro. Como é que vão todos descer de um prédio de 31 andares?

E vejo que o noticiário de lá também está em decadência, porque fala em “diversos edifícios”. Essa palavrinha não existe em jornalismo, pelo menos quando eu lecionava na PUC e no Ceub. “Vários”, “diversos”, “muitos”, “alguns”, isso não existe em jornalismo; nós contamos para informar o número certo. Pode existir na conversa fiada, mas em jornalismo temos de ser claros e objetivos. “Diversos prédios foram atingidos”… eu sei que há oito prédios ali, de 31 andares, 2 mil apartamentos, onde moram ou moravam quase 5 mil pessoas.

A especulação imobiliária avança em sentido vertical, empilhando todo mundo. Há uma concentração muito grande de demanda de energia elétrica, de esgoto, de consumo de água, de lugar para estacionar, de peso sobre o solo, e também de pessoas que estão contíguas, com o barulho de um atrapalhando o outro. Nunca gostei disso. Em prédio é preciso haver um mínimo de conforto, mas, sobretudo, de segurança. É bom que todo mundo pense nisso, olhando as imagens de Hong Kong.

DEU NO X

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O BRASIL E O LABIRINTO DA POLÍTICA DESUMANA

Há no Brasil uma engrenagem silenciosa, vasta e pegajosa, que gira muito antes da chegada de qualquer governante e continuará girando muito depois da partida de todos eles. Não se trata de esquerda, direita, centro, progressistas, conservadores ou de qualquer rótulo que a polarização histérica insiste em fabricar. Trata-se de algo mais profundo, mais arraigado e mais perverso: um sistema político concebido para sobreviver a despeito do povo — e não por causa dele.

O problema do Brasil nunca foi a falta de discursos. Discursos sobram. São abundantes, inflamados, revestidos de boas intenções e embalados na sedução fácil da esperança. O problema é que o discurso político brasileiro é, por natureza, um monumento à desumanidade, porque promete humanidade, mas opera na lógica fria da autopreservação.

O sistema político nacional tornou-se um labirinto onde a verdade perde a voz e a mentira ganha gabinete. A moral é elástica, o interesse público é retórico, e o poder se tornou um fim em si mesmo — não uma ferramenta. Quando a política deixa de servir ao povo para servir aos seus próprios operadores, ela se transforma em uma máquina desumana, indiferente, insensível e voraz.

O Ciclo Vicioso do Nada

O Brasil vive, há décadas, um mesmo ciclo repetitivo:

— escândalo → indignação popular → promessas de mudança → eleição → frustração → novo escândalo.

Este processo circular não é coincidência; é método.

É a prova de que o sistema não se renova: ele apenas se rearranja.

A cada quatro anos, troca-se a paisagem, mas a arquitetura permanece idêntica. São os mesmos vícios, as mesmas estruturas, as mesmas brechas legais, a mesma incapacidade crônica de priorizar o essencial. Políticos mudam; o sistema permanece tão intocado quanto uma rocha, e tão frio quanto ela.

A Política da Aparência

Há uma teatralidade no Brasil que transforma a política em espetáculo. Debates viram arenas de gladiadores, não de ideias. Projetos de lei se tornam armas de marketing. Votações se convertem em palcos. O discurso político se distancia da realidade concreta e se aproxima da dramaturgia:

— atores ensaiados,
— falas decoradas,
— narrativas prontas,
— indignações calculadas.

Enquanto isso, o cotidiano da população se deteriora nos becos, nos corredores dos hospitais, nas salas de aula esquecidas, nas estradas esburacadas.

O país real sangra; o país político posa para fotos.

O Estado Mastodonte

Criamos um Estado tão grande, tão lento, tão pesado e tão burocrático, que ele próprio se tornou incapaz de atender às demandas que promete resolver. A máquina estatal brasileira consome mais energia para manter-se de pé do que para servir. É um organismo que respira por aparelhos, alimentado por impostos que drenam o suor da sociedade para sustentar uma estrutura que raramente devolve na mesma proporção.

O povo financia um colosso que o ignora.

E esse é o ponto: o sistema político brasileiro é desumano porque é indiferente.

A Falácia da Representação

Fala-se muito em “representatividade”. Mas o que significa representar um povo que não participa, não é ouvido, não é considerado? A maior falácia do sistema político brasileiro é dizer que representa o cidadão quando, na prática, representa interesses de grupos, lobbies, alianças, acordos subterrâneos e barganhas eternas.

O cidadão comum é lembrado apenas quando vota — e esquecido imediatamente depois.

A representatividade no Brasil é decorativa.

A democracia existe no papel; no cotidiano, ela é um simulacro.

A Corrupção Não é o Problema — É o Sintoma

A corrupção no Brasil não é um acidente, não é um desvio isolado, não é obra deste ou daquele partido. Ela é o efeito natural de um sistema que cria incentivos para a prática e punições tímidas para quem a comete. Focar apenas na corrupção é focar no sintoma e ignorar a doença: a desumanização da política.
É fácil culpar indivíduos; é difícil encarar estruturas.

O Cansaço Nacional

O brasileiro está cansado.

Cansado de promessas.
Cansado de discursos.
Cansado de indignação seletiva.
Cansado de narrativas que mudam, mas práticas que persistem.
Cansado de ser massa de manobra, combustível eleitoral, estatística ambulante.

Esse cansaço não é apatia; é dor.

É a percepção de que o país poderia ser gigante, mas é mantido no chão por correntes invisíveis.

A Urgência da Humanidade

O que falta ao sistema político brasileiro não é uma ideologia milagrosa.
Não é um salvador da pátria.

Não é uma mudança de cor partidária.

O que falta é humanidade.

É a capacidade de olhar para o outro e reconhecer sua dignidade.
É a coragem de colocar o bem comum acima do cálculo eleitoral.
É a ética como princípio, e não como marketing.

Quando uma política deixa de ser humana, ela deixa de ser política e se torna mera gestão de poder.

O Brasil vive exatamente isso.

Conclusão: o Adjetivo que Condena

Se fosse possível resumir toda a falência moral e estrutural do sistema político brasileiro em um único adjetivo, seria este:

Desumano.

Porque desumano é tudo o que nega o outro, ignora o sofrimento, se alimenta da desigualdade e prospera com a injustiça.

E, enquanto não houver um movimento profundo — cultural, ético, estrutural — que recoloque o ser humano no centro da política, o sistema continuará sendo exatamente o que sempre foi: um labirinto sem saída, onde o povo é o único que não encontra a porta.

PENINHA - DICA MUSICAL

PABLO LOPES - PEIXE NA ÁGUA

O HORROR, O HORROR – A VEZ DO BESSIAS

Sabem aquelas cenas de filmes de terror que, no início, causam grande susto, mas depois de tanto se repetirem anestesiam os espectadores e deixam de espantar? Pois é. Uma nova cena se aproxima, mas, dada a canastrice dos atores e diretor, não surpreende mais ninguém.

Sim, é da indicação de novo ministro do STF que estou falando. A aposentadoria precoce, (deserção?) de Barroso, deu ao presidente a oportunidade de dirigir mais uma cena. O susto da vez é o atual AGU, Jorge Messias, o “Bessias”. Para quem não se lembra, trata-se daquele estafeta que levou o “papel” enviado por Dilma para manter Lula fora do alcance da justiça. Este foi o auge de sua carreira.

Salvo grande surpresa, o senado, que tem a prerrogativa de rejeitar o indicado, deve referendá-lo, e Bessias influenciará o destino dos brasileiros por longos anos, até que complete a idade de aposentadoria compulsória, renuncie ou nos faça a gentileza de se encantar.

Dito isso, o que se pretende tratar aqui é de como a reputação ilibada e notórios saber jurídico saíram de moda para chegarmos à situação em que a principal corte da república foi reduzida a um de mero despachante dos desejos de uma minoria barulhenta, ideológica, quiçá criminosa. Caso este texto cumpra seu objetivo, talvez eu ofereça uma possível explicação. Sigamos.

A infiltração política do supremo tem data de nascimento: 06 de junho de 2005. Foi quando veio à tona o famigerado mensalão, que deu origem à ação penal 470, que julgaria os envolvidos no maior escândalo político do século.

Ocorre que políticos com foro especial jamais cogitaram parar de delinquir; a chegada e permanência de bandidos nos altos cargos da república parece estar no DNA de nossa democracia.

Assim, presidentes; deputados; senadores e outros menos votados perceberam que, a partir dali, cedo ou tarde poderiam acabar no banco dos réus diante de ministros; daqueles com “M” maiúsculo. Melhor então que as togas estivessem recheadas com prepostos; meros cumpridores das vontades dos acusados.

Carmem Lucia inaugurou o mergulho, sendo nomeada por Lula, é claro, em 2006. Daí em diante foi ladeira abaixo, culminando com Flávio Dino. Ao todo, o PT nomeou seis ministros, e chegará à sete com a certa aprovação de Bessias.

Com a eclosão do petrolão, não foi com surpresa que o STF iniciou um processo que, em primeiro lugar, tirou Lula da cadeia, ao mudar entendimento sobre o início do cumprimento da pena a partir da condenação em 2ª instância. Em minha opinião o julgamento foi pautado apenas para beneficiar o então ex-presidente.

Depois iniciou-se o desmonte da lava-jato. Neste ato brilharam Carmem Lucia e Fachim. Ela por mudar o voto que garantia a manutenção da condenação de Lula, sob justificativa de que o Juiz Sérgio Moro havia agido com parcialidade. Ele, por aplicar o conto do CEP e anular o julgamento por incompetência de foro. Estava aberta a porteira da cadeia, todos os bois políticos saíram. Mérito sobretudo de Toffoli. Missão cumprida, o supremo restou desfigurado; deformado e subserviente.

Como tudo pode piorar, os donos do regime perceberam que agora tinham um órgão com poderes quase ilimitados, e passaram a usá-lo contra seus adversários além de tutelar e moldar a sociedade à sua imagem e semelhança.

A cena inaugural desta fase ocorreu na cerimônia de posse de Bolsonaro, quando Carmem Lúcia, em seu discurso falou em ditadura e democracia, dando o mote que seria usado para o que viria a seguir: Cassações, prisões e todo o tipo de perseguição em “defesa da democracia”.

Assim chegamos ao atual estado de coisas e assim permanecerá por muito tempo. Como sair disso? Bem, esta coluna já está longa demais e, se eu disser o que penso sobre como acabar com isso, sou capaz de ser mandado pra Papuda. Melhor encerrar por aqui.

Em tempo: semana passada, enquanto escrevia este texto, recebi a notícia do falecimento de minha mãe; estava bem lúcida aos 93 anos. Ao menos Deus lhe poupou o desgosto de ver a posse do estafeta.

DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

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