CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A DOR DO SUICÍDIO (FINAL)

Semana passada escrevi sobre essa coisa terrível, o suicídio, e amigos queridos que seguiram nessa trilha. Entre eles o confrade, na Academia Brasileira de Letras, Antônio Cícero. Annie, em Gilze (Holanda). Aguinaldo Lyra, em Amsterdam (também Holanda). Ou a mulher do advogado pernambucano Nehemias Gueiros (no Rio). Agora, segue a continuação.

E começo já lembrando que entre as experiências vividas, no escritório que por tempos dividi com o Velho, houve também notícias boas. Cito apenas duas, para não alongar demais o texto. Uma quando empresário sentou na minha frente e disse com (muita) calma, e sem angústias aparentes,

‒ Vou me suicidar, estou consciente das implicações e peço apenas que depois explique por favor, à minha família, o porquê dessa fuga.

Iria perder todo seu patrimônio, muitos dependiam dele, não queria vê-los sofrer, nem tinha mais ânimo para recomeçar. E, pior, é que a culpa do desastre econômico que vivia nem era responsabilidade sua. Respondi

‒ Tenho solução melhor.

‒ Qual?

‒ Salvamos todo seu patrimônio (perdeu apenas um apartamento na Rua dos Navegantes, em Boa Viagem, já então penhorado).

‒ Prefiro!!!

Deu tudo certo e ficou feliz com a solução. Claro! Também…

De outra vez, estávamos numa reunião e notei algo estranho no olhar do cliente. Estávamos todos rindo. Mas foi como um clarão. Não perguntem como, tive a sensação clara de que iria se suicidar. Então olhei para ele, bem nos olhos, e disse

‒ Não é uma boa ideia.

‒ Qual?

‒ Essa em que você está pensando.

Ficou mudo, por algum tempo, depois desabou, e começou a chorar. Mais que isso, a urrar. De dor. E desespero. Ninguém entendeu nada, pedi que saíssem da sala, e ficamos conversando por horas. Em resumo, também deu tudo certo. Graças.

Em frente à nossa casa, na praia de Piedade, já fui em três ocasiões buscar jovens que estavam se afogando. Os dois casos acima relatados, para mim, foram quase afogados que vieram de um outro mar, o de desesperança, para celebrar a vida. Agora, completo esse texto. E já lembro colega de classe que me mandou, sobre o tema, um texto pungente (trechos):

‒ Conheço bem essa dor… é incomensurável. A dor mais profunda de minha existência… Aos 17 anos, perdi meu pai e minha avó materna, num espaço de 6 meses. Ela, em Março; ele, em Setembro. Preferiram abreviar a vida. A família desmoronou diante da tragédia. Quando chegou a notícia de minha avó, já era fato consumado. Meu pai não, depois do tiro que varou seu peito ainda levou 72 horas até partir… Nesses dias, em que sobreviveu, deparou-se com uma segunda luta. Coitado! O ato não lograra o fim imediato como lhe exigira seu intento. Deve ter experimentado um misto de vergonha, de frustração, de incapacidade, por não ter alcançado o que desejava… Nós, filhos de suicidas, passamos, da dor extrema da perda à tristeza profunda, o inconformismo, a revolta, o compadecimento, a culpa, mesmo a raiva…. Paira sempre o medo da genética que pode se reproduzir na descendência. Penso, especialmente, nos meus filhos.

Acredito não haver herança, nesse campo. Seria algo sem sentido. Recordo amigo falando em um sobrinho suíço/alemão que também seguiu por esse caminho. E o Pastor, isso o deixou perplexo, na fala de sua despedida, apresentou a escolha dele como um “dom de Deus, que deu ao homem a capacidade de escolher o seu destino”. Tenho dúvidas sobre isso. Também lembro quando ligou Millôr Fernandes, chorando, e disse:

‒ Ontem caiu um avião, no México, morreram 300 pessoas e nem me incomodei. Mas, hoje, morreu a cozinheira (de morte natural) que estava comigo faz 40 anos e estou devastado.

Após o que concluiu

‒ A vida, meu amigo, é breve e perto.

Não apenas isso, Millôr, completo agora. Para dizer que a dor que dói mais, no fundo, é sempre a derradeira, aquela da qual não dá para esquecer.

E uma dor como esta ocorreu conosco faz pouco, no Recife, com uma amiga de quem todos gostávamos. Ninguém suspeitava de nada. Escrevia e nos mandava, todas as semanas, crônicas em que se qualificava como a Mulher do 7º Andar.

Última delas, com título A Castanhola Menina, foi como premonição. Estava preocupada com uma castanhola que plantou, na beira do mar da Boa Viagem, ante o risco de ser cortada pelos trabalhadores da Prefeitura na reforma do calçadão. Trechos:

‒ Tomei o maior susto! Lá estava Emília (assim chamava essa árvore), à beira de um precipício… Naquele momento, não estava ali como militante de nenhuma causa ambiental. Queria apenas salvar Emília… Quando eu já for cinzas e estiver junto aos ossos de meus antepassados em Bezerros, minha bisavó, meu pai, gosto de pensar que essa Amendoeira continuará viva, adulta, tronco forte, galhos espalhados com folhas gordas, colorindo o outono de amarelos e alaranjados, sombreando quem volta cansado do banho de mar.

A Mulher do 7º Andar, assim a chamava (usando suas próprias palavras), numa noite sem luar, fez como Chet Baker – o solitário trompetista de só 58 anos que, da janela de seu quarto no Hotel Prins Hendrik (em Amsterdam), voou para o nada. E, hoje, é “cinzas”.

Como escreveu Almada Negreiros, em um bilhete para os amigos sobre o pintor Amadeo de Souza Cardoso, que se foi com apenas 31 anos, “Aos que gritam, a vida cala-os”. Obedecendo à regra de Drummond (Alguma poesia), “A vida, para mim, é a vontade de morrer”. Pena. Para dizer isso em versos escrevi, no estilo dos sonetos portugueses antigos (com as mesmas rimas, repetidas sempre), este

SONETO DA PARTIDA

Se a vida é uma estrada para a morte
A morte é passaporte para a vida
E antes da chegada ou da partida
Nos cabe nesta vida azar ou sorte

Embora falte tempo para a morte
Também não sobra tempo para a vida
Porque desde o momento da partida
O tempo segue sempre a sua sorte

E nesse caminhar que é partida
E é também chegada para a morte
Sem nem saber o mapa dessa vida

Choramos sem sentir a triste sorte
Da morte que é somente o fim da vida
Da vida que é maior que a própria morte.

Como ela própria escreveu, agora está junto ao pai e outros da família, em Bezerros. E sua “Amendoeira” ficará, não se sabe por quanto tempo ainda, mas ficará. Saudades da Mulher do 7º Andar. Para sempre.

Como palavras derradeiras, nos valha o sonho de Mário Quintana (em Esconderijo do tempo), “A vida é um incêndio. Nela dançamos, salamandras mágicas. Que importa restarem cinzas, se a chama foi bela e alta?”.

Seja, então. Cumprindo apenas proclamar que apesar dos pesares, do tempo que passa mais depressa do que deveria, de todas as dores e tristezas, da solidão em nossa porta (salve Carlos Pena Filho) e do desespero, das ilusões perdidas e dos sonhos desfeitos, a vida sempre vale a pena.

DEU NO JORNAL

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O FACÍNORA

Homem temido por todos na aldeia, o facínora não teme ninguém, nem respeita a propriedade alheia.

Quase sempre, o facínora exibe comportamento antissocial, é manipulador, mentiroso e lhe falta empatia no trato para com as pessoas. Desrespeita as leis e o direto dos outros.

As ações de um facínora podem causar danos significativos à sociedade, incluindo violência, injustiça, abuso e violação dos direitos humanos, como sempre se vê.

A sociedade é refém das decisões do facínora, de sua maldade e prepotência. Ai de quem se insurgir contra ele. Chega ao ponto do ser humano achar que contra o facínora, só quem pode é Deus.

Facínoras muitas vezes enfrentam consequências legais por seus atos, pois suas ações podem resultar em danos irreparáveis às vítimas e à comunidade como um todo.

Geralmente, eles exibem comportamentos antissociais, e uma mente doentia, criativa e perigosa. São autossuficientes, megalomaníacos e narcisistas.

O seríssimo tema resultou no filme estadunidense “O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA” (1962), do gênero western, dirigido por John Ford, baseado num conto da escritora Dorothy M. Johnson. É considerado um dos melhores filmes de faroeste de todos os tempos, sendo aclamado tanto pela crítica quanto pelo público.

A obra é frequentemente analisada por sua profundidade temática e pela forma como redefine o gênero western, apresentando uma narrativa que questiona os mitos da fronteira americana (Wikipedia). Explora a transição do Velho Oeste para uma era de lei e ordem, com um elenco estrelado por James Stewart e e John Wayne.

O filme, lançado em 1962, conta a história do senador Ransom Stoddard (James Stwart), que retorna à cidade de Shinbone para o funeral de seu amigo Tom Doniphon (John Wayne). Durante sua visita, um repórter o entrevista e Stoddard relembra sua juventude, quando chegou à cidade como um advogado recém-formado, e se deparou com o pistoleiro Liberty Valance (Lee Marvin), que representava a lei do mais forte em um Oeste dominado pela violência. A narrativa é contada em um longo flashback, onde Stoddard tenta usar a lei para combater Valance, enquanto Doniphon acredita que a força é a única solução.

A história começa quando as pessoas estão preparando um funeral. Um senador dos Estados Unidos e sua esposa estão de volta à pequena cidade de Shinbone, num território do Oeste não identificado (provavelmente, o Colorado, com menções ao Rio Picketwire). O senador começa contar a um jornalista a razão de estar ali para o enterro. Na medida em que os fatos são relatados, aparecem as cenas em flashback.

Contando com antigos atores do cinema mudo, foi o último filme da atriz de seriados Helen Gibson, cujo nome não aparece nos créditos. Foi também o último filme do ator de Western Jack Perrim, igualmente não creditado, que atuou, ainda, em algumas séries de televisão. Assim como foi, também, o nome da atriz Doroty Phillips.

Stuart Holmes, outro ator da era muda, que atuava desde 1909, continuaria a trabalhar e fez seu último filme em 1964.

O senador é Ransom Stoddard, na sua juventude um advogado que acreditava na lei e na ordem, mas que se recusava a carregar um revólver. Ele era amigo de Tom Doniphon, um pistoleiro que via nas armas a melhor forma de fazer justiça.

Doniphon e Stoddard mantiveram um tenso relacionamento, pois ambos se interessavam por Hallie. Hallie acabou preferindo Stoddard, para desilusão de Doniphon. (O personagem de John Wayne chamou de “Pilgrim” seu rival amoroso interpretado por James Stewart, cerca de 23 vezes no filme. O termo acabou se tornando característico de Wayne, sendo continuamente imitado, porém só voltou a usá-lo em McLintock).

Quando o fora-da-lei Liberty Valance retornou faminto à cidade, causou desordem nos salões e restaurantes. Valance temia apenas um homem: Tom Doniphon. O bandido roubara e espancara Stoddard quando este chegara à cidade, obrigando-o a trabalhar no restaurante para pagar pela comida e estadia. Quando viu Stoddard, Valance o provocou, mas Tom intercedeu.

Valance continuou a aterrorizar a cidade. Stoddard decidiu fazer alguma coisa e acabou desafiando Valance para um duelo. Completamente desajeitado com uma arma, Stoddard era, porém, presa fácil para o bandoleiro.

Depois que deixou o bar para duelar com Ransom Stoddard, curiosamente Liberty Valance vencera uma rodada de pôquer com um par de “ases” e um par de “oitos”. (Esta é a famosa “Dead man’s hand” (mão do homem morto), chamada assim porque eram essas cartas que estavam na mão de Wild Bill Hickok, quando quando ele foi assassinado por Jack McCall em Deadwood, Dakota do Sul, em 2 de agosto de 1876).

Mas, quando chegou o duelo, coisas misteriosas e surpreendentes aconteceram. Ao final da narrativa para o jornalista Maxwell Scott, Stoddard revelou quem realmente matara Valance, e perguntou: “Vai usar essa história, Mr. Scott?”. A resposta foi a famosa frase: “This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend”. (“Este é o Oeste, senhor. Quando a lenda precede os fatos, publique-se a lenda”).

DEU NO JORNAL

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AMOR ALGÉBRICO – Euclides da Cunha

Acabo de estudar – da ciência fria e vã,
O gelo, o gelo atroz me gela ainda a mente,
Acabo de arrancar a fronte minha ardente
Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.

Bem triste e bem cruel decerto foi o ente
Que este Saara atroz – sem aura, sem manhã,
A Álgebra criou – a mente, a alma mais sã
Nela vacila e cai, sem um sonho virente.

Acabo de estudar e pálido, cansado,
Dumas dez equações os véus hei arrancado,
Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz.

É tempo, é tempo pois de, trêmulo e amoroso,
Ir dela descansar no seio venturoso
E achar do seu olhar o luminoso X.

Euclydes Rodrigues Pimenta da Cunha, Cantagalo-RJ, (1866-1909)

DEU NO JORNAL