Semana passada escrevi sobre essa coisa terrível, o suicídio, e amigos queridos que seguiram nessa trilha. Entre eles o confrade, na Academia Brasileira de Letras, Antônio Cícero. Annie, em Gilze (Holanda). Aguinaldo Lyra, em Amsterdam (também Holanda). Ou a mulher do advogado pernambucano Nehemias Gueiros (no Rio). Agora, segue a continuação.
E começo já lembrando que entre as experiências vividas, no escritório que por tempos dividi com o Velho, houve também notícias boas. Cito apenas duas, para não alongar demais o texto. Uma quando empresário sentou na minha frente e disse com (muita) calma, e sem angústias aparentes,
‒ Vou me suicidar, estou consciente das implicações e peço apenas que depois explique por favor, à minha família, o porquê dessa fuga.
Iria perder todo seu patrimônio, muitos dependiam dele, não queria vê-los sofrer, nem tinha mais ânimo para recomeçar. E, pior, é que a culpa do desastre econômico que vivia nem era responsabilidade sua. Respondi
‒ Tenho solução melhor.
‒ Qual?
‒ Salvamos todo seu patrimônio (perdeu apenas um apartamento na Rua dos Navegantes, em Boa Viagem, já então penhorado).
‒ Prefiro!!!
Deu tudo certo e ficou feliz com a solução. Claro! Também…
De outra vez, estávamos numa reunião e notei algo estranho no olhar do cliente. Estávamos todos rindo. Mas foi como um clarão. Não perguntem como, tive a sensação clara de que iria se suicidar. Então olhei para ele, bem nos olhos, e disse
‒ Não é uma boa ideia.
‒ Qual?
‒ Essa em que você está pensando.
Ficou mudo, por algum tempo, depois desabou, e começou a chorar. Mais que isso, a urrar. De dor. E desespero. Ninguém entendeu nada, pedi que saíssem da sala, e ficamos conversando por horas. Em resumo, também deu tudo certo. Graças.
Em frente à nossa casa, na praia de Piedade, já fui em três ocasiões buscar jovens que estavam se afogando. Os dois casos acima relatados, para mim, foram quase afogados que vieram de um outro mar, o de desesperança, para celebrar a vida. Agora, completo esse texto. E já lembro colega de classe que me mandou, sobre o tema, um texto pungente (trechos):
‒ Conheço bem essa dor… é incomensurável. A dor mais profunda de minha existência… Aos 17 anos, perdi meu pai e minha avó materna, num espaço de 6 meses. Ela, em Março; ele, em Setembro. Preferiram abreviar a vida. A família desmoronou diante da tragédia. Quando chegou a notícia de minha avó, já era fato consumado. Meu pai não, depois do tiro que varou seu peito ainda levou 72 horas até partir… Nesses dias, em que sobreviveu, deparou-se com uma segunda luta. Coitado! O ato não lograra o fim imediato como lhe exigira seu intento. Deve ter experimentado um misto de vergonha, de frustração, de incapacidade, por não ter alcançado o que desejava… Nós, filhos de suicidas, passamos, da dor extrema da perda à tristeza profunda, o inconformismo, a revolta, o compadecimento, a culpa, mesmo a raiva…. Paira sempre o medo da genética que pode se reproduzir na descendência. Penso, especialmente, nos meus filhos.
Acredito não haver herança, nesse campo. Seria algo sem sentido. Recordo amigo falando em um sobrinho suíço/alemão que também seguiu por esse caminho. E o Pastor, isso o deixou perplexo, na fala de sua despedida, apresentou a escolha dele como um “dom de Deus, que deu ao homem a capacidade de escolher o seu destino”. Tenho dúvidas sobre isso. Também lembro quando ligou Millôr Fernandes, chorando, e disse:
‒ Ontem caiu um avião, no México, morreram 300 pessoas e nem me incomodei. Mas, hoje, morreu a cozinheira (de morte natural) que estava comigo faz 40 anos e estou devastado.
Após o que concluiu
‒ A vida, meu amigo, é breve e perto.
Não apenas isso, Millôr, completo agora. Para dizer que a dor que dói mais, no fundo, é sempre a derradeira, aquela da qual não dá para esquecer.
E uma dor como esta ocorreu conosco faz pouco, no Recife, com uma amiga de quem todos gostávamos. Ninguém suspeitava de nada. Escrevia e nos mandava, todas as semanas, crônicas em que se qualificava como a Mulher do 7º Andar.
Última delas, com título A Castanhola Menina, foi como premonição. Estava preocupada com uma castanhola que plantou, na beira do mar da Boa Viagem, ante o risco de ser cortada pelos trabalhadores da Prefeitura na reforma do calçadão. Trechos:
‒ Tomei o maior susto! Lá estava Emília (assim chamava essa árvore), à beira de um precipício… Naquele momento, não estava ali como militante de nenhuma causa ambiental. Queria apenas salvar Emília… Quando eu já for cinzas e estiver junto aos ossos de meus antepassados em Bezerros, minha bisavó, meu pai, gosto de pensar que essa Amendoeira continuará viva, adulta, tronco forte, galhos espalhados com folhas gordas, colorindo o outono de amarelos e alaranjados, sombreando quem volta cansado do banho de mar.
A Mulher do 7º Andar, assim a chamava (usando suas próprias palavras), numa noite sem luar, fez como Chet Baker – o solitário trompetista de só 58 anos que, da janela de seu quarto no Hotel Prins Hendrik (em Amsterdam), voou para o nada. E, hoje, é “cinzas”.
Como escreveu Almada Negreiros, em um bilhete para os amigos sobre o pintor Amadeo de Souza Cardoso, que se foi com apenas 31 anos, “Aos que gritam, a vida cala-os”. Obedecendo à regra de Drummond (Alguma poesia), “A vida, para mim, é a vontade de morrer”. Pena. Para dizer isso em versos escrevi, no estilo dos sonetos portugueses antigos (com as mesmas rimas, repetidas sempre), este
SONETO DA PARTIDA
Se a vida é uma estrada para a morte
A morte é passaporte para a vida
E antes da chegada ou da partida
Nos cabe nesta vida azar ou sorte
Embora falte tempo para a morte
Também não sobra tempo para a vida
Porque desde o momento da partida
O tempo segue sempre a sua sorte
E nesse caminhar que é partida
E é também chegada para a morte
Sem nem saber o mapa dessa vida
Choramos sem sentir a triste sorte
Da morte que é somente o fim da vida
Da vida que é maior que a própria morte.
Como ela própria escreveu, agora está junto ao pai e outros da família, em Bezerros. E sua “Amendoeira” ficará, não se sabe por quanto tempo ainda, mas ficará. Saudades da Mulher do 7º Andar. Para sempre.
Como palavras derradeiras, nos valha o sonho de Mário Quintana (em Esconderijo do tempo), “A vida é um incêndio. Nela dançamos, salamandras mágicas. Que importa restarem cinzas, se a chama foi bela e alta?”.
Seja, então. Cumprindo apenas proclamar que apesar dos pesares, do tempo que passa mais depressa do que deveria, de todas as dores e tristezas, da solidão em nossa porta (salve Carlos Pena Filho) e do desespero, das ilusões perdidas e dos sonhos desfeitos, a vida sempre vale a pena.
Meu nobre JuristAcadêmico,
belo texto, como sói acontecer quando de sua lavra, inobstante meu não-afeiçoamento com o tema abordado, como disse semana passada.
Lamento, apenas, que Antônio Cícero, Annie , Aguinaldo e a mulher de Nehemias não tenham tido a mesma sorte que seus dois clientes do escritório, persuadidos a mudar de ideia ante seus argumentos contrários, tão convincentes. Quem sabe a mulher do andar 7 ainda estivesse por lá, apreciando Emília, sua castanhola praieira à beira do precipício, houvesse lhe encontrado no elevador do prédio?
A vida, meu amigo, é breve e perto. Como discordar de Millor?
Por fim, não há como não registrar meu encantamento com o Soneto da Partida, no mais perfeito estilo dos antigos sonetos portugueses. Ignorância minha, desconhecia mais esse talento seu, no campo poético.
Há braços, sempre e mais que nunca.
Xico
Caro Sr. J. Paulo, “A morte é a única certeza da vida”. Velho ditado. Outros incluem os impostos também; hehe.
Abreviar a chegada da morte é talvez o ato mais desesperado de uma pessoa atormentada pela doença da alma que é a depressão profunda. Não tem nada de nobre ou poético nisso.
Minha poetiza favorita, a portuguesa Florbela Espanca, que viveu intensamente, traduziu as emoções em palavras como ninguém, ao final de seus parcos 35 anos de vida tinha na morte um tema recorrente.
O soneto de Florbela Espanca que mais diretamente expressa sua partida e morte é o que conclui com a invocação à Morte como libertadora, em um gesto de desespero e alívio: “Deixai entrar a Morte, a iluminada / A quem vem para mim, pra me levar / Abri todas as portas par em par / Como asas a bater em revoada”.
Quem abrevia a morte, eu acredito, não tem um destino muito melhor do que teria caso procurasse ajuda e enfrentasse seus problemas de frente, como mostram seus exemplos dos que desistiram desta sina, caro Sr. J. Paulo.
Abraço
Cara Schirley, escrevi meu comentário para o nobre colunista Sr. J. Paulo antes de ler o seu.
Lamento pelo que sua filha e v. passaram em função da atitude extrema de seu genro.
Como eu disse abaixo, não de nada de nobre, corajoso ou poético na atitude do suicida; só desespero, doença na alma e depressão profunda.
Acho que fica em nós a culpa de ter feito alguma coisa errada ou não ter percebido isso antes. É o que eu vejo nos casos em que já vivi (nenhum tão próximo como o seu).
O que eu posso dizer é que serve de gatilho para outras pessoas (daí não ser raro ocorrerem fatos próximos). Porém não é contagioso ou transmissível.
Como escapar desta dor? Eu vejo um caminho, a vida espiritual, Orar a Deus pela alma que vai estar atormentada no além e não querer buscar lógica no que aconteceu, pois quem chega ao ponto de abreviar a vida, às vezes não está pensando nos que ficam.
Abraço
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Grata João Francisco.
Nada, absolutamente nada de corajoso, nobre ou poético. Segundo o psiquiatra que tem dado acompanhamento para a Ana no caso dele foi um surto repentino. Não teve tempo de pensar em nada nem em ninguém. Difícil saber qual foi o “gatilho” pois não deixou nada. E aparentemente estava tudo dentro da normalidade. Ana sente uma culpa que não é dela nem de ninguém. Ninguém empurrou ele lá de cima. Foi uma escolha dele. Ela anda buscando médiuns para tentar se comunicar com ele. Não tem o que dizer que amenize as dores todas. A falta. Apenas está disponível com apoio e compreensão quando necessário. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer tão próximo. Perdi um namoradinho de adolescente com 18 anos. Tenho contato com os pais dele até hoje. Perder um filho para o suicídio é indescritível. Perdi uma amiga dois dias antes do casamento do próprio filho. Falei com ela a noite e pela manhã quando outra amiga e eu fomos até lá para entregar o presente de casamento ela não atendeu. Como morava sozinha tinhamos a chave. Entramos e encontramos o corpo. Até hoje não me conformo. Até hoje não esqueço a cena. O suicídio é um assassinato de quem fica. Parte de você morre junto. Nada me faz mudar de ideia. Pra mim é puro egoísmo.
Não tenho e não posso perdoar. Deixo isso pra Deus. Quando a morte é natural ou por acidente já é doloroso demais perder um companheiro. Assim é difícil demais.
Que Deus o perdoe e console os que ficaram. Só ele, no tempo dele para abrandar a dor e o sofrimento.
Mais uma vez obrigada pelo comentário.
A vida segue. Tem que seguir…
Abraços
Cara Schirley, o que lhe falei foi do fundo da alma.
Sujiro que v. e a Ana assistam o filme Oficina do Diabo da BP, que trata do assunto de forma cristã. Se já assistiu, vale a pena revisitar.
Quanto a procurar médiuns, eu entendo que não é uma alternativa, pois sou católico e entendo que não há este poder de comunicação com os mortos. Ademais há muitos casos de charlatanismo neste meio. Rezar pedindo intercessão e ajuda à N. Sra., que é mãe e sempre olha por seus filhos.
No mais, vou rezar por vocês.
Abraço
Temos pouco a comentar, temos muito a admirar. As vezes basta alguém para ouvir. O cara pode até sentar ao lado de uma estátua e falar. Já ajuda bastante, agora se tiver um Zé Paulo, por perto, a chance de mudar é próxima de 100%
Os melhores comentários que já vi, por aqui. É o depoimento de Schirley é tocante. É muito bem escrito. Abraços em todos e cada um. Com o coração, José Paulo.
Abraços e gracias.