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DEU NO JORNAL

É PROIBIDO PEDALAR

Guilherme Fiuza

estatais federais

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad: Correios e Eletrobras pedem socorro ao Tesouro, o que complica ainda mais as contas do governo

Tudo indica que o governo do PT já se esqueceu como foi que Dilma Rousseff perdeu o cargo no Palácio do Planalto – evento que em breve completa uma década. Dez anos é passado remoto para quem confia na amnésia nacional (a espontânea e a induzida).

Talvez por terem passado tempo demais repetindo a versão de que Dilma sofreu um golpe – e não um impeachment legítimo, presidido pela Suprema Corte na pessoa de um aliado político do PT – os partidários de Lula talvez tenham se esquecido do crime de responsabilidade que levou ao afastamento da presidente em 2016. E esse afastamento se deu por irregularidades contábeis – popularmente conhecidas como pedaladas fiscais.

A semântica sempre foi uma aliada dos políticos fisiológicos. Ou pelo menos eles assim a consideram. Caixa dois virou “dinheiro não contabilizado”, por exemplo. De fato, é bem mais simpático. Por que não investir na fraude de boa aparência? Não custa nada passar a chamar vultuosas comissões em negociatas de “pixuleco”. Ou melhor: custar, custa. Mas o bolso alheio está aí pra isso mesmo. Agora, o governo Lula parece estar disposto a um novo investimento nas aparências – o perigoso banho de loja nas contas públicas.

Segundo o Tribunal de Contas da União, o poder Executivo está atuando de forma reiterada para suprimir despesas do quadro contábil. O último lance dessa ação foi a proposta de exclusão de uma quantia da ordem de 10 bilhões de reais – referente a despesas de empresas estatais – do cálculo do resultado primário das contas governamentais.

“A prática reiterada da exclusão de despesas contribui para a elevação do endividamento público, para a redução da transparência das estatísticas fiscais e para a perda da credibilidade das regras fiscais vigentes”, alertou o TCU. De acordo com o Tribunal de Contas, esse tipo de expediente fere os princípios da Lei de Responsabilidade Fiscal. Será que o governo petista acha que o impeachment é como um raio que não cai duas vezes no mesmo lugar?

É um drama visível a olho nu. Essa última cartada foi dada no projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias – ou seja, à luz do dia, para quem quiser ver. O Tesouro Nacional e o Ministério da Fazenda estão discutindo diante de todos se podem injetar recursos públicos no rombo dos Correios, e de onde virão esses recursos. Circula aos olhos de todos um cálculo de 20 bilhões de reais como valor necessário para esse socorro. E é notória a cogitação por parte da equipe econômica da retirada do balanço das estatais do resultado fiscal do governo. Seria a oficialização do que o TCU está chamando de exclusão de despesas.

Em tradução livre, o que o Tribunal de Contas está dizendo ao governo poderia ser fixado numa placa na entrada do Palácio do Planalto: é proibido pedalar. Ou seja: tentar fazer a conta fechar artificialmente, no puxa-estica de balanços, não pode.

Como o grupo político que se encontra hoje no Planalto está cansado de saber disso – inclusive pela experiência dolorosa de 2016 – talvez esteja apostando que a atual onda de indulgência irá se estender ao ciclismo contábil. Quem ousa duvidar?

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MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

OS GÓTICOS DO MEIO DIA

Há histórias que parecem ter sido escritas pela mão caprichosa do destino; outras, pela ironia do universo; e algumas, raras, só podem ter sido compostas por um romancista bêbado que tropeçou nos próprios delírios.

A que vou narrar pertence ao último grupo.

Era meados de 2006, em Arcoverde-PE — esse enclave sertanejo onde o sol não nasce: ele incendeia.

O calor não é uma condição climática; é uma sentença metafísica. Ali, a luz não ilumina: ela interroga.

E foi sob esse holofote solar que ocorreu o mais improvável espetáculo do ultra-romantismo tardio da história brasileira.

Eu, professor de Literatura, recém saído de uma aula sobre o Ultra-Romantismo — essa febre sombria que transformou jovens sensíveis em cadáveres imaginários — caminhava em direção à rua, quando, como numa epifania teatral, a cena se abriu diante de mim.

Dois jovens. Dois espectros.

Dois personagens que pareciam ter emergido diretamente das páginas de Álvares de Azevedo, mas com um detalhe que faria o próprio poeta descer do além para pedir uma explicação:

Eles estavam usando sobretudos pretos no Sertão, ao meio-dia.

Sobretudos, meu amigo. Em Arcoverde. Com o sol derretendo placas tectônicas. E não parava aí: Botas pretas; Camisas pretas; Lábios pretos; Unhas pretas; A pele branca ganhando um brilho quase radioativo sob a luz inclemente. Era como se dois vampiros decaídos tivessem sido deportados para uma penitência tropical.

Quase dava para ouvir o sol rindo deles.

Eu, naturalmente, aproximei-me com o espanto de quem encontra Byron perdido num açude, e perguntei — com toda a simplicidade de quem ainda acredita que o mundo faz algum sentido:

— O que significa isso?

E então veio a resposta.

A resposta que não deveria existir.

A resposta que nenhum escritor ousaria inventar.

A resposta que coloca essa história no panteão das grandes narrativas humanas:

“Somos góticos.
Vamos ao cemitério ouvir música clássica nas sepulturas.”

Meus amigos… ali, naquele exato instante, o Ultra-Romantismo renasceu.

Não nas cortes europeias, não nos salões iluminados por velas, não nos poemas sobre tuberculose e amores impossíveis: mas no coração incandescente de Pernambuco, no bairro mais improvável, sob o sol assassino.

Era o triunfo da contradição.

Era o triunfo da estética sobre a lógica.

Era a celebração da adolescência enquanto teatro absoluto.

E, então, eu senti, uma mistura de espanto, riso, ternura, incredulidade e vontade de dizer:

“Meus filhos, cuidem-se.
Até os mortos suariam nesse calor.”

Mas havia, ali, naquelas botas escaldantes e naquelas caras pintadas de treva em pleno meio-dia, uma beleza estranha — a beleza de quem leva a sério aquilo que não faz o menor sentido. Uma fidelidade à própria fantasia que, de tão absurda, torna-se quase poética. Porque somente o ser humano é capaz dessas façanhas: vestir o imaginário como quem veste uma armadura, desafiar o sol com sobretudo, e transformar um cemitério em sala de concerto.

Somente o homem — esse animal trágico, lírico e ridículo — poderia decidir que a vida será gótica, mesmo que o calor diga o contrário.

E eu testemunhei isso.

Uma cena tão improvável que só se conta depois de anos — e ainda assim com a sensação de que é preciso um pouco de coragem para admitir que, sim, o Sertão já teve seus vampiros solares.

PENINHA - DICA MUSICAL

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RODRIGO CONSTANTINO

O DILEMA DA DOSIMETRIA

Câmara aprova PL da dosimetria que reduz pena de Bolsonaro

Após meses de impasse, Câmara aprova PL da dosimetria que reduz penas de Bolsonaro e de condenados do 8/1

A Câmara dos Deputados aprovou, na madrugada desta quarta-feira (10), o projeto de lei que reduz as penas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023. O PL da dosimetria recebeu 291 votos favoráveis, 148 contrários e uma abstenção. Os deputados rejeitaram todos os destaques da base do governo que poderiam alterar o projeto.

O texto segue para análise dos senadores. Mais cedo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), garantiu que a proposta será votada ainda neste ano. O deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) destacou a necessidade de se aprovar a proposta da dosimetria para beneficiar as pessoas presas pelo 8 de janeiro. “Temos pressa na aprovação desse projeto, estamos falando da redução do sofrimento das pessoas”, disse.

E esse é o grande dilema que se apresentou para a oposição. Todo brasileiro atento sabe que somente uma anistia ampla, geral e irrestrita faria alguma justiça. Na verdade, o certo mesmo era anular as sentenças absurdas, uma vez que os julgamentos foram políticos e teatrais, sem embasamento ou provas, sobre uma tentativa de golpe inexistente. Mas isso estava fora de questão.

A triste realidade é que o sistema venceu essa batalha. A guerra ainda não acabou, mas o poder real está nas mãos do STF – tanto que não houve qualquer chance de sequer votar emendas, e nos bastidores se sabe que foi exigência de Moraes. Uma vez que o regime tinha a faca e o queijo na mão, era dosimetria ou nada. Muitos conservadores optaram pelo aspecto humanitário: reduzir as penas de presos políticos afastados de suas famílias injustamente.

Por isso deputados do Novo e do PL votaram “sim”, mesmo sabendo que são “migalhas” oferecidas pelos que sequestraram esses pobres coitados. Alguns não queriam ceder, o que também é compreensível: agora ficou basicamente inviável falar em anistia, e ao votar pela redução das penas, a direita acabou ajudando a endossar a narrativa oficial do golpe.

Mas o realismo se impõe: não sou eu que vou passar o Natal longe dos pais ou dos filhos. É mais fácil bancar o herói quando não é um familiar nosso “sequestrado”. Bolsonaro recomendou voto favorável, mesmo sabendo que sua redução de pena ainda o levaria ao regime fechado por mais de dois anos. Ele pensou nos demais presos, muitos dos quais serão soltos com a nova regra, se aprovada pelo Senado.

O Brasil vive seu capítulo mais sombrio da “democracia”, e a permanência desses presos políticos é a maior prova dos abusos supremos. O projeto da dosimetria está bem longe do ideal, pode ter enterrado de vez a chance de uma anistia, e alimenta o discurso do STF. Mas paciência: compreendo quem votou pelo projeto pensando única e exclusivamente na soltura de inocentes. É isso o que mais importa nesse momento.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

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MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

O FURTO DA POESIA

Em maio de 2014, nosso editor postou, aqui no Jornal da Besta Fubana, o poema “O Furto da Poesia”, que escrevi em parceria com o defensor público VICENTE ALENCAR RIBEIRO. Na verdade, a iniciativa foi de Vicente, que encaminhou a Berto a curiosa história de um certo Zé Maria de Dão, que havia furtado uma poesia. Ao final de seus versos, Vicente pediu que eu julgasse o caso. Julguei, também em versos.

Mas a página acabou se perdendo, por algum problema técnico no site. Então, resolvi encaminhar o caso para nova publicação. Tenho certeza que muita gente não conhece e vai gostar.

Aproveito a ocasião para renovar as congratulações e o agradecimento ao poeta Vicente Alencar Ribeiro, que me possibilitou participar da criação do poema que ora compartilho.

* * *

O FURTO DA POESIA – INVESTIGAÇÃO E DENÚNCIA – VICENTE ALENCAR RIBEIRO

Certo poeta um dia.
Procurou o delegado,
E com olhar mui sinistro,
Disse ter sido lesado.

E aquela autoridade,
Muito frio perguntou:
“O que fora que o ladrão,
Do vate surrupiou?”

O poeta respondeu,
Do fundo do coração:
“O marginal desalmado,
Levou minha inspiração”.

O delegado sorriu,
E de novo interrogou:
“Como é que algo abstrato,
O tal larápio levou?”

Ao que respondeu o vate,
Submerso em sentimento:
“Caro doutor não percebe,
Minha dor, meu sofrimento?”

“Ledo engano delegado,
Permita-me, autoridade,
Muitas vezes o reencontro,
Rouba de nós a saudade”.

“A felicidade é tudo,
É néctar que extasia,
Quando um amor se vai,
Rouba de nós a alegria.”

“Autoridade, assevero,
De forma calma e dileta,
Dê vazão a sua alma,
Pois ela é coisa concreta.”

“Ele levou minha vida,
A minha joia mais rara,
Das pérolas do meu cordão,
A minha pedra mais cara.”

“Tomou a terna poesia,
Que escrevi pra minha amada,
Versos que jamais mostrei.
Pois que vivia guardada.”

“Vou derrubar, me permita,
Sua conclusão tão crua:
Ele a anda recitando,
Dizendo a todos que é sua.”

“Posto isso autoridade,
Faço um pedido só,
Meu lamento tome a termo,
E autorize um BO.”

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