LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO X

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETOS AOS PÉS DE DEUS – Afonso Félix de Souza

Eu bato, eu bato, eu bato à tua porta,
bato sem ver que a porta está aberta.
Sem ver-te, sei, tua presença é certa,
e tento orar, mas minha voz é torta.

A luz que vem de ti em dois me corta,,
e do que fui e sou outro desperta.
Não posso, assim, a ti dar-me em oferta,
pois já nem sei que ser meu ser comporta.

Tudo o que busco dás, dás de sobejo,
pois sabes mais do que eu o que desejo,
e estás comigo e em mim, sempre a meu lado.

Comigo estás na paz e nas pelejas.
Por tudo o que me dás louvado sejas,
por tudo o que não dás sejas louvado.

Afonso Félix de Sousa, Jaraguá-GO (1925-2002)

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO X

ALEXANDRE GARCIA

REVELAÇÃO SOBRE CONTRATO

Esta terça-feira foi um dia bombástico. Tivemos a revelação da Malu Gaspar, d’O Globo, do contrato entre o Banco Master e o escritório de advocacia da família de Alexandre de Moraes, que está em nome da mulher dele, da filha e do filho. Um contrato para “serviços advocatícios diversos” por 36 meses, a R$ 3,6 milhões por mês. Advogados amigos meus dizem que nunca viram um valor desses, nem Rui Barbosa cobraria isso. E sem definição, e com prioridade de pagamento. Tinha de pagar de qualquer jeito, a cada mês. Isso já é suficiente para entendermos o que está acontecendo.

Em tempos normais, eu que já tenho 55 anos de jornalismo, isso seria manchete garrafal, com ministro saindo no dia seguinte, entregando o cargo. Isso em outros tempos. Agora, o próprio Supremo recebe ações dos escritórios de familiares. Enterraram a ética, e a ética é a base de tudo. Então não há mais base, não há mais raiz. Isso é incrível, no sentido de que não devia ter acontecido. Assim como a viagem de Dias Toffoli em um jatinho particular onde também estava o advogado de um dos diretores do Master, e dois dias depois Toffoli decreta sigilo absoluto sobre as investigações do Master – talvez por causa desse contrato, ou de outros.

Bem, estamos falando do tribunal onde Lula, depois de ter sido condenado tantas vezes, em tantas instâncias, com tantos juízes, teve seus processos anulados por causa do CEP de Curitiba. Devia ser o CEP de Brasília e São Paulo. Todo juiz de primeira instância sabe que, se o processo está na jurisdição errada, mas está no fim, se já houve condenação, não se mexe mais nele. Não vão anular tudo só porque está em outra instância, em outra cidade.

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Lula volta a ter problemas de popularidade

O STF livrou Lula, ele está aí, mas vemos que ele não está bem, está cada vez pior. Na pesquisa Ipsos/Ipec sobre o governo Lula, temos 40% de ruim e péssimo, 30% de bom e ótimo. Não está bom, ele não está preparado para o ano que vem. Vai gastar muito Bolsa Família, muito benefício, e quem vai bancar somos nós, pagadores de impostos e pagadores de juros, porque o desequilíbrio das contas públicas pressiona a inflação, que faz subir os juros, para segurar os preços.

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Datafolha mede a força dos Bolsonaro contra Lula

O Datafolha quis saber se a indicação de Flávio por Jair Bolsonaro tem algum efeito em relação a Lula. Se Flávio fosse para o segundo turno, Lula ganharia e Flávio faria 36%; Michelle faria 39%; Eduardo teria 35%. Tarcísio de Freitas está melhor, faria 42%. Ratinho Júnior, 41%. O próprio Bolsonaro aparece com 40%. Mas as pessoas sabem que está inelegível; então, Flávio e Eduardo Bolsonaro têm praticamente a mesma cotação dos entrevistados, com Michelle um pouco acima, e Tarcísio e Ratinho aparecendo com o mesmo nível de preferência no Datafolha.

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Glauber Braga continua causando confusão por onde passa

Terça-feira foi um horror na Câmara. O deputado Glauber Braga, do Psol, vive criando casos, acertou um pontapé em um jornalista na Câmara, depois brigou com a polícia em uma manifestação estudantil no Rio, e agora sentou-se na cadeira do presidente da Câmara, dizendo que não sairia; teve de ser retirado pela Polícia Legislativa à força. Ele queria impedir que votassem o projeto de lei da dosimetria, aquele que tem Paulinho da Força como relator. Ele disse que Bolsonaro ficaria com a pena de dois anos e quatro meses em regime fechado, naquele cubículo de 12 metros quadrados – ele não vai resistir, claro. Para quem não cometeu crime, até um ano, até um dia de prisão é injusto.

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Dino manda retirar advogado da tribuna; o que a OAB dirá?

A Polícia Judiciária teve de agir também para retirar da tribuna o advogado Jeffrey Chiquini. Flávio Dino, presidente da Primeira Turma do STF, mandou retirá-lo porque ele estava exigindo explicações da Procuradoria-Geral da República, que teria incluído documentos e provas no último momento, naquela conclusão final, sem os advogados saberem. Isso é impossível dentro do devido processo legal, mas no Brasil não existe mais devido processo legal. Vão querer o quê? Eu até acho estranho: todo advogado que participa disso, todo réu que aparece lá, está participando de algo ilegal, que não está baseado na Constituição, nos princípios do direito. Vamos ver o que a OAB diz sobre um advogado ser retirado da tribuna do Supremo pela Polícia Judiciária.

DEU NO X

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

RODA DE GLOSAS

Tem o diabo pra tirar
Mas tem Deus pra devolver.

Mote desta colunista

Quem não tem capacidade
Para seguir o seu roteiro,
Pega o dos outros ligeiro,
Dele faz sua verdade.
Com toda sinceridade!
Abro a boca pra dizer,
E se você quer saber,
Segredo não vou guardar:
Tem o diabo pra tirar
Mas tem Deus pra devolver.

Dalinha Catunda

Quem tem coragem na vida
Enfrenta qualquer perigo
Põe pra correr inimigo
Vai com garra para lida
Pela FÉ tá guarnecida
E nada lhe faz temer
Afirmo, pois, com prazer
ninguém vai me derrubar
Tem o diabo pra tirar
Mas, tem Deus pra devolver.

Dulce Esteves

Nessa vida tem de tudo
Gente ruim e gente boa
Tem sol quente e tem garoa
Tem buraco e viaduto
Cabra frouxo e cabra bruto
Tem o cego e o que vê
Tem a noite, o amanhecer
Mas no fim pode anotar
Tem o diabo pra tirar
Mas tem Deus pra devolver

Giovanni Arruda

Fé e força de vontade
Pra enfrentar o problema
Um pouco de estratagema
E sempre usar a verdade,
Pois quem tem idoneidade
Não tem o que se temer,
Mande bem e pra valer
Deixe o demo se lascar:
Tem o diabo pra tirar
Mas tem Deus pra devolver.

Bastinha Job

Quando sou surrupiado
Por alguém sem consciência
Não perco minha decência
Nem me sinto revoltado
Da pena até do coitado
A má ação faz sofrer
Pequeno para entender
Que quem erra vai pagar
Tem o diabo pra tirar
Mas tem Deus pra devolver.

Jairo Vasconcelos

DEU NO JORNAL

A “DEMOCRACIA” ONDE O POVO É UM PERIGO

Editorial Gazeta do Povo

A partir da próxima sexta-feira, dia 12, o plenário do Supremo Tribunal Federal começa a julgar a liminar de Gilmar Mendes que muda drasticamente as regras para a cassação de ministros da corte, limitando ao procurador-geral da República a prerrogativa de oferecer denúncia ao Senado e elevando o número mínimo de senadores necessários para a abertura do processo. A tendência é de que a liminar seja referendada por ampla maioria, mostrando que, para os ministros, o povo – que está na raiz do termo “democracia” – não passa de um inconveniente, ou mesmo um perigo que precisa ser contido.

Em sua liminar, Gilmar recorreu ao já manjado truque do “controle de constitucionalidade”, instrumento que é uma das atribuições da suprema corte, mas que no Brasil foi desvirtuado há muito tempo. Em vez de ser uma análise técnica a respeito da compatibilidade entre uma certa lei ou prática administrativa e a Constituição, tornou-se a mera imposição das vontades dos ministros a respeito de determinado tema: é assim que os ministros derrubam, reescrevem ou mesmo criam normas legais, ainda que os textos aprovados pelo Congresso em nada violem nem a letra, nem o espírito da Constituição. Foi o que ocorreu agora, com a Lei 1.079/50, que prevê a possibilidade de impeachment de diversas autoridades – incluindo os ministros do Supremo.

E Gilmar Mendes nem sequer esconde suas motivações. O Brasil já cassou dois presidentes da República de acordo com a Lei 1.079/50 – e jamais ocorreu a ambos os mandatários cassados, nem a seus advogados, nem a suas bases de apoio parlamentar, argumentar que a lei era inconstitucional ou teria “caducado” por ter sido promulgada sob a égide da Carta Magna de 1946, e que já foi substituída por outras duas Constituições, em 1967 e 1988. Por que, então, alterá-la neste momento? O ministro respondeu sem o menor pudor, ao participar de um evento em Brasília, na quinta-feira passada: “As pessoas dizem: mas por que liminar? Eu estou lhes dando as razões. Com tantos pedidos de impeachment, com as pessoas anunciando que farão campanhas eleitorais para obter maioria no Senado, dois terços do Senado, para fazer o impeachment”.

Em outras palavras, o ministro treme diante da possibilidade de os “213 milhões de pequenos tiranos” – na infeliz frase de sua colega Cármen Lúcia, muito representativa de como ela enxerga o povo – considerarem importante que o Senado exerça a contento seu papel de contrapeso do STF, a ponto de elegerem senadores dispostos a conter os abusos do Supremo; como a blindagem oferecida pela imprensa e por boa parte da sociedade civil organizada ao longo dos últimos anos está começando a ceder, ainda que muito timidamente, os ministros decidiram agir por conta própria para garantir que permaneçam em seus cargos, não importa o que fizerem. Criar regras muito mais exigentes para o impeachment foi a maneira que Gilmar Mendes encontrou, embora, aparentemente, o melhor para ele seria acabar de vez com a possibilidade, a julgar pelo que escreveu na liminar, chamando de “função atípica e excêntrica” a competência do Senado de “processar e julgar juízes pela prática de crime de responsabilidade”.

Boa parte da liminar é uma defesa de importantes prerrogativas da magistratura, como forma de garantir que juízes decidam com liberdade, sem pressões políticas. São trechos irretocáveis, mas não é isso o que verdadeiramente está em jogo. Nenhuma dessas prerrogativas existe como carta branca para um juiz ou ministro do Supremo fazer o que bem entende, atropelando a Constituição, decidindo contra legem, usando decisões judiciais para promover perseguição política. É isso o que tem ocorrido no Brasil, e é para remediar essa situação que a campanha para o Senado em 2026 ganhou os contornos atuais: não para forçar o Supremo a decidir conforme as preferências político-ideológicas do grupo majoritário de ocasião, mas para ser o contrapeso que freia o abuso e a hipertrofia do Judiciário.

Mas a admissão de Gilmar Mendes desnuda a alma dos ministros: eles querem continuar impondo a própria vontade, acima das leis e da Constituição; perseguindo os críticos da corte, anônimos ou famosos; falando à vontade sobre tudo, fora dos autos; mantendo laços no mínimo questionáveis com investigados ou réus em processos que estão ou podem chegar ao STF; pressionando parlamentares para que aprovem matérias de seu interesse. E, para que isso seja possível, é preciso sufocar a voz da população que considere tudo isso um abuso da autoridade dos ministros. Que eles considerem o povo um perigo que tem de ser combatido é tudo o que precisamos saber sobre a “democracia” que eles tanto dizem estar defendendo.