DEU NO JORNAL

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

UM PURO AMOR – Anderson Braga Horta

Busque eu num puro amor força e sustento
com que tanta paixão manter nutrida,
para tão longa noite amanhecida
bem cedo ver em canto e luzimento.

Mas viva eu antes de uma esp’rança ardida,
e espere, e sonhe, e já não tenha alento:
que é do amor o primeiro mandamento
morrer de amor, por merecer-lhe a vida.

E alfim, Senhora, aos vossos pés curvado,
vencido e vencedor, possa eu dizer-vos
de meu sofrido amor o fado incerto:

o inferno que sofri por merecer-vos,
tão longe o coração amargurado
quanto o quisera ter aqui bem perto.

Anderson Braga Horta, Carangola-MG, 1934

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Cartola (II)

Continuação da coluna anterior

No início da década de 1960, Cartola foi zelador da Associação das Escolas de Samba, no centro do Rio de Janeiro, que se tornou ponto de encontro de sambistas. Além das rodas de samba, Dona Zica passou a servir uma sopa aos participantes. Estimulado por amigos, resolveram aplicar a fórmula música-comida em um sobrado da rua da Carioca, em 1963 e deram o nome Zicartola. A iniciativa contou com apoio financeiro de empreendedores considerados “mangueirenses de coração”, como o empresário Renato Agostini.

O Zicartola se tornou um marco na história da MPB. Além da boa cozinha comandada por Dona Zica, Cartola era mestre de cerimônias, propiciando o encontro entre sambistas do morro, compositores e músicos de classe média ligados à Bossa Nova, além de poetas-letristas, como Hermínio Bello de Carvalho e jornalistas musicais, como Sérgio Cabral. Velhos sambistas, como Nelson Cavaquinho e Zé Kéti, se juntavam a novos talentos, como Élton Medeiros e Paulinho da Viola. Contava também com presença constante de alguns dos melhores representantes do samba de morro e diferentes gerações de cantoras, como Elizeth Cardoso e Nara Leão.

Naquele ambiente, compôs com Elton Medeiros o samba O Sol Nascerá, que se tornaria um de seus grandes clássicos. Compôs também Alvorada um samba feito a seis mãos. Compusera com Carlos Cachaça a primeira parte, que decidiram mostrar a Hermínio Bello de Carvalho, que escreveu então os versos da segunda parte, que ele musicou na hora. O ambiente virou moda no Rio de Janeiro, inaugurando um gênero de casa noturna que viria a se propagar nas décadas seguintes. No entanto, o bar durou pouco e, mal administrado, fechou as portas após dois anos, seu dono não tinha tino comercial.

Em 1964, Cartola e Zica se casaram oficialmente e na véspera ele compôs Nós Dois para ela. No ano seguinte foi lançado o disco-álbum com as gravações do “Show Opinião”, incluindo O Sol nascerá. Esta gravação tornou Cartola conhecido pelo público classe média da época, projetando-o no mercado do disco. Em 1965 iniciou a construção de uma casa (verde e rosa) ao pé do morro da Mangueira, em terreno doado pelo então Estado da Guanabara. Em seguida participou de dois discos de Elizeth Cardoso, que gravou “Sim”. Em 1966 gravou com Clementina de Jesus Fiz por você o que pude.

Em 1968 participou em duas faixas do LP “Fala, Mangueira”, que reuniu, além dele, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Clementina de Jesus e Odete Amaral. No mesmo ano gravou com Odete Amaral Tempos Idos e com Ciro Monteiro gravou Tive Sim. Em 1970 protagonizou uma série de apresentações promovidas pela UNE-União Nacional dos Estudantes, intituladas Cartola Convida, recebendo grandes nomes do samba. Naquele ano, a Editora Abril Cultural lançou um volume dedicado à sua obra na série História da música popular brasileira, onde interpretou Preconceito. Em 1972 Paulinho da Viola gravou Acontece e Clara Nunes gravou Alvorada. Em 1973, Elza Soares gravou Festa da Vinda.

A consagração definitiva se deu em 1974, quando finalmente gravou seu primeiro disco solo lançado pelo produtor de discos e publicitário Marcus Pereira. O disco foi considerado um dos melhores daquele ano, e reuniu uma coleção de obras-primas e uma equipe de instrumentistas de primeira. Pouco depois a mesma gravadora lançou o LP História das escolas de samba: Mangueira, no qual interpretou algumas faixas. Animado com o sucesso do primeiro LP, Marcus Pereira lançou o segundo LP, intitulado Cartola (1976). O sucesso do álbum foi puxado por uma de suas mais famosas criações, As Rosas Não Falam. O lançamento elevou-o a um patamar de qualidade musical inédito, que se estendeu por meses em todo o País.

Em meio ao grande sucesso, voltou a desfilar pela Mangueira, após 28 anos de ausência no desfile de carnaval. Em 1977, a Rede Globo apresentou o programa Brasil Especial, dedicado exclusivamente a Cartola, obtendo grande audiência. No mesmo ano excursionou pelas principais cidades brasileiras e gravou seu terceiro disco solo: Verde que te quero rosa, com igual sucesso de público e crítica. Em 1978, em busca de mais sossego, mudou-se para o bairro Jacarepaguá e foi morar numa casa, sua primeira casa própria. Frente a sua porta fizeram uma praça batizada de ’As rosas não falam’.

No mesmo ano estreou seu segundo show individual “Acontece” e em novembro, no septuagésimo aniversário, recebeu uma grande homenagem na quadra da Mangueira. Por essa época participou de um programa na Rádio Eldorado, cantando e contando um pouco de sua vida. Depois a entrevista foi lançada em LP com o nome “Cartola – Documento inédito”. A saúde não ia bem, sofria de um câncer na tireoide e foi operado naquele ano. Enquanto isso pipocavam diversas gravações de sua autoria na voz de grandes intérpretes. Em dezembro de 1978 deu-se sua apresentação no Ópera Cabaré, em São Paulo, gravado ao vivo e lançado em disco. Foi sua última apresentação. A doença progrediu e veio a falecer em 30/11/1980. Na semana anterior, fez um pedido: “Quando for enterrado, quero que Waldemiro toque o bumbo” 3 dias antes, o poeta Carlos Drummond de Andrade ao saber que ele estava doente, prestou-lhe homenagem numa crônica: “Cartola no moinho do mundo” (‘Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando’).

As diversas homenagens que vieram em seguida, confirmam seu nome como um dos maiores da MPB. Em 1982 foi lançado o disco “Ao Vivo” e a Funarte lançou o LP ”Cartola, entre amigos”. Em 1984, em comemoração ao octogésimo aniversário de nascimento, a gravadora Som Livre lançou o LP “Cartola – Bate outra vez”, reunindo a nata da MPB. em 1998, Artur Oliveira e Marília Trindade Barboza publicaram a biografia Cartola, os tempos idos, pela Editora Griphus. Em 2001, a RCA relançou em CD o disco “Verde que te quero Verde” e foi fundado o Centro Cultural Cartola.

Em 2004, estreou no Centro Cultural Banco do Brasil, o musical “Obrigado Cartola”, de Sandra Louzada; em 2007 foi lançado o filme “Cartola – Música para os olhos“, dirigido por Lírio Ferreira e Hilton Lacerda; em 2008, ano de seu centenário, foi homenageado pela Escola de Samba Paraíso do Tuiuti com o enredo “Cartola, o teu cenário é uma beleza”. O selo Biscoito Fino aproveitou a ocasião para gravar o disco “Viva Cartola – 100 anos”; no Carnaval de 2022 foi homenageado pela Mangueira em seu enredo.

DEU NO JORNAL

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

POR QUEM OS SINOS TOCAM?

Os sinos da Igreja

Tivemos a época do pombo-correio. Faz tempo isso!

Tivemos a época da comunicação por tambores (lembrem como, na revista de quadrinhos, Tarzan mandava mensagens e como essas mensagens eram divulgadas; lembrem, também, a forma de comunicação do Fantasma para Lothar e até para chamar Capeto, o cão de estimação).

Era assim, sim!

Foi assim!

Hoje, muita coisa mudou e foi substituída pela tecnologia. Nem sempre eficiente ou absorvida por todos.

A correspondência dos Correios já foi feita por pessoas montando cavalos; as contas dos impostos já chegaram nos lombos de animais.

Hoje, basta “baixar” os aplicativos no telefone celular e tudo se resolve.

Garrafas de leite e um saco com pães eram deixados no batente da porta de entrada. Ninguém se atrevia a mexer. Era isso que os pais ensinavam e os filhos, obedientes, aprendiam.

Os jornais também eram colocados por debaixo da porta.

Mas, nunca será tarde nem ofensivo para relembrarmos, nas casas das famílias de maiores posses, como a patroa chamava a empregada: usando um pequeno sino. Ou, como o entregador de leite avisava que estava no portão: por meio de um sino; ou como alguém chamava o atendimento, ao chegar numa residência: tocando o sino afixado ao portão.

Mas, o que mais nos comove e traz boas lembranças, era o sino usado para anunciar o início de mais uma aula nos colégios. Mais alegres ainda, ficávamos, quando o sino tocava para o final das aulas do dia. Tempos bons que não voltam mais.

Nos dias atuais, os sinos estão sumindo até das torres das igrejas. Sino virou relíquia, depois de ser usado por anos e anos.

Alguém lembra o Pregoeiro que vendia “chegadinha” (uma casca doce de trigo torrada que servia também para receber o sorvete) e como ele anunciava o produto vendido de porta em porta em muitos bairros de cidades brasileiras?

Hoje, por quem os sinos tocam?

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

POESIA É ALIMENTO

Cuida, que a poesia
É nossa alimentação!

Mote deste colunista

Já amanheço pensando
No verso que vou fazer
Aí começo escrever
A mente vai clareando
Assim vou me alimentando
Com a métrica e oração
Rima e inspiração
É meu pão de cada dia
Cuida, que a poesia
É nossa alimentação!

Poeta Nascimento

Da manhã é o café
É o almoço e o jantar
É no sonho pra sonhar
Acompanha a mulher
Pro poeta é sem mister
Vem de Deus inspiração
Entrando no coração
Mais parece uma magia
Cuida, que a poesia
É nossa alimentação.

Cabal Abrantes

Vamos plantar sentimentos
Na alma boa de lavra…
Vamos regar a palavra
Com bons e mais suprimentos…
Com olhos sempre atentos,
Plantar os versos no chão
Para colhermos então
O pão da sabedoria:
Cuida, que a poesia
É nossa alimentação!

Melchior SEZEFREDO Machado

Ela é minha vitamina
Minha vitalidade
É arte é vontade
Que a mim contamina
A poesia nos ensina
A espalhar emoção
Nutrindo o coração
Da mas bela fantasia
Cuida, que a poesia
É nossa alimentação!

Leo Brasil

Poesia é alimento,
É o que tem de melhor
Como disse Melchior,
Leo, Cabal e Nascimento.
Eu mesmo só me contento
Quando vem inspiração
Alço voo que nem Falcão
Na selva da fantasia.
Cuida, que a poesia
É nossa alimentação!

Wellington Vicente

DEU NO X

DEU NO JORNAL

A CRIMINALIDADE E A SOCIEDADE DO MEDO

Editorial Gazeta do Povo

Segurança pública

Policiais durante a Operação Contenção, em outubro de 2025: atuação das organizações criminosas faz brasileiros deixarem de usar celular nas ruas e até mesmo sair de casa

“Criminalidade” é uma palavra com definição ampla que incorpora todas as ações e fatos considerados crimes pelas leis do país. A amplitude da palavra, porém, traz o defeito de colocar no mesmo conjunto eventos com efeitos diferentes em termos de gravidade e dano individual ou coletivo. Como exemplo, um mero xingamento contra um político cada vez mais tem sido tipificado como crime (calúnia, injúria ou difamação), assim como é igualmente chamado de crime o ato de assassinar brutalmente uma pessoa (homicídio) para tomar-lhe a carteira, o celular e um relógio (roubo).

O estudo sobre a criminalidade exige separar e classificar os tipos de crimes segundo seu grau de violência e tamanho dos danos a pessoas, instituções e coisas, como também devem ser separados e classificados os efeitos sobre o conjunto da população e sobre posses, integridade física, direitos e liberdade dos indivíduos. No Brasil, os crimes contra a vida (homicídios, feminicídios, tortura e maus-tratos físicos), somados aos crimes de trânsito, furtos, roubos, destruição de propriedade, corrupção e outros contra o ser humano, a propriedade e os bens públicos ou privados, atingiram o grau de epidemia e tragédia socioeconômica.

Além dos efeitos em termos de dor e sofrimento sobre indivíduos e famílias, a criminalidade impõe custos, perdas, ineficiências e consumo de recursos humanos e financeiros que, de outra forma, seriam usados para produzir bens e serviços destinados à melhoria do bem-estar das pessoas. Essa realidade cria desestímulos que inibem o crescimento econômico e o desenvolvimento social, de forma que a criminalidade de fato responde por enorme parcela da miséria, da pobreza e do atraso. Se a criminalidade fosse menor, equivalente à de países como Bélgica, Dinamarca ou Suécia, a gigantesca soma dos recursos necessários para enfrentar seus efeitos poderia ser alocada em atividades construtivas e enriquecedoras, como educação, saúde, transporte e outros tantos setores que melhoram a vida da população e seriam capazes de proporcionar o crescimento da nação como um todo.

Não é difícil imaginar os custos com os aparatos de policiamento, vigilância, segurança, capturas, processos, julgamentos, punição e manutenção de prisões e estruturas de detenção, e o quanto de dinheiro esse sistema todo custa para os bolsos da população e os cofres públicos. Apesar da difícil mensuração, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgaram estudos recentes informando que os gastos públicos com polícia e sistema prisional, mais custos privados com segurança, seguros e o impacto na produtividade com perdas precoces de vidas e invalidez, atingem 11% do Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, mais de R$ 1 trilhão por ano.

O Brasil se transformou em uma sociedade do medo em larga escala, e essa realidade se tornou uma espécie de doença crônica com a qual a sociedade convive e segue a vida, sem deixar de pagar o elevado preço em termos psicológicos, financeiros e de bem-estar pessoal. O medo se espraiou por várias ramificações da vida: medo de golpes materiais e financeiros, medo de furtos, medo da violência física – incluindo o medo de morrer sob ação de criminosos de várias espécies –, medo de transitar pelas ruas à noite, medo de ter suas residências invadidas, seus bens roubados e suas vidas eliminadas. A lista de medos é grande e está estampada nos muros, nas cercas e na baixa circulação das pessoas pelos parques, ruas e locais públicos principalmente à noite, além dos bairros, vilas e regiões sob o domínio do narcotráfico e do crime organizado. As restrições e os medos são tantos – incluindo o medo de parte da população dentro de seus próprios lares, evidenciado de forma horripilante pelos 1.518 feminicídios ocorridos em 2025 – que, de certo modo, o Brasil é uma prisão.

O Brasil está em sétimo lugar entre os dez países mais violentos do mundo, conforme relatório publicado em 2025 pela ONG ACLED Armed Conflict Event Location and Data Project (Projeto de Localização e Dados de Eventos de Conflito Armado), atrás apenas de países conflagrados como Síria, Palestina e Nigéria, ou onde o crime organizado exerce dominância muito maior, como o México; mas ainda mais violento que nações como o Haiti ou o Paquistão. Este é um vexame político, cultural e civilizacional, que contribui para a pobreza econômica e para certo isolamento do país em setores como o turismo e a atração de investimentos, negócios e eventos internacionais.

As eleições federais e estaduais deste ano são um bom momento para a sociedade recuperar sua capacidade de se indignar e desenvolver a ideia de não aceitar essa tão degradante realidade, exigindo que as lideranças políticas, empresariais e sociais se unam para enfrentar de uma vez por todas essa doença degenerativa da sociedade brasileira. Se o processo de expansão da violência e da criminalidade em sentido geral não for contido, com destaque para o crescimento do crime organizado, o Brasil pode se tornar uma espécie de zona de exclusão, onde a vida normal, a paz e a segurança se tornarão impossíveis.