MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

FANÁTICOS

Eric Hoffer foi um filósofo e escritor, premiado com a Medalha Presidencial da Liberdade. Em 1951 Hoffer publicou seu primeiro livro, “O Verdadeiro Crente: Pensamentos sobre a Natureza dos Movimentos de Massa”, onde analisa a questão do fanatismo. As citações destacadas ao longo do texto são dele.

Segundo Hoffer, os movimentos de massa surgem de um sentimento coletivo de frustração. O desespero ou a revolta levam a ações imediatas, ainda que improdutivas; a frustração, por outro lado, acumula-se aos poucos e faz surgir o fanatismo, que não é uma ação em si, mas uma postura ou uma atitude.

“O fanático não é realmente um defensor de princípios. Ele abraça uma causa não por causa de sua justiça ou santidade, mas por causa de sua necessidade desesperada de algo para se apegar.”

“É surpreendente ver como os oprimidos quase invariavelmente se moldam à imagem de seus odiados opressores.”

“É pela sua promessa de um senso de poder que o mal freqüentemente atrai os fracos.”

Embora o livro tenha foco na Europa durante a primeira metade do século 20, as suas conclusões servem como uma luva ao Brasil de hoje; se há coisa que não falta por aqui são motivos para alguém se sentir frustrado. Nunca fomos um país de grandes catástrofes: nem naturais, como terremotos, vulcões ou furacões, nem humanas, como guerras e revoluções. E mesmo sem catástrofes, paira sempre aquela sensação de derrota, de inferioridade, de problemas não solucionados, de situações que não deveriam existir mas existem. Em outras palavras, frustração.

“As pessoas assombradas pela falta de propósito de suas vidas tentam encontrar um novo conteúdo não apenas dedicando-se a uma causa santa, mas também nutrindo uma queixa fanática. Um movimento de massa oferece oportunidades ilimitadas para ambos.”

“A paixão pela igualdade é, em parte, uma paixão pelo anonimato: ser um fio dos muitos que formam uma túnica; um fio não distinguível dos outros. Ninguém pode nos apontar, nos medir contra os outros e expor nossa inferioridade.”

O irônico aqui é que o fanatismo que nasce do sentimento de frustração se torna rapidamente mais uma causa para ela. Como Hoffer explica, o fanático não deseja resolver nenhum problema; deseja apenas transferir a culpa para os outros e livrar-se das responsabilidades e das escolhas. Quanto mais fanáticos na sociedade, menos espaço existe para solucionar qualquer coisa, porque o fanático prefere viver com o problema do que aceitar uma solução que não seja exatamente a que ele defende.

“Fé em uma causa é em grande parte um substituto para a fé perdida em nós mesmos.”

“É mais fácil amar a humanidade como um todo do que amar o próximo. Algumas das piores tiranias de nossos dias se dizem a serviço da humanidade, mas podem funcionar apenas colocando o vizinho contra o vizinho.”

Os vários tipos de fanatismo tendem a se misturar e a se igualar. A religião, por exemplo, cada vez mais é vista como um buffet, onde cada um se serve apenas do que gosta e ignora o resto. A consequência é que as igrejas se transformam em um clubinho de fanáticos, onde não se cultivam a sabedoria e a virtude, mas apenas os sentimentos básicos do fanatismo. Na política, o debate intelectual dá lugar a uma briga de torcida, onde cada lado cultiva o ódio ao adversário acima de tudo. O resultado é sempre o mesmo: o fanático se vê como parte de um grupo que é superior ao restante da humanidade, e se arroga o direito e a sabedoria para “consertar o mundo”.

“A qualidade das idéias parece desempenhar um papel menor na liderança do movimento de massa. O que conta é o gesto arrogante, a total desconsideração da opinião dos outros, o desafio individual do mundo.”

“Para os frustrados, a liberdade da responsabilidade é mais atraente do que a liberdade da restrição. Eles negociam sua independência para aliviar os fardos da vontade, de decidir e ser responsáveis pelo inevitável fracasso. Eles voluntariamente abdicam do direcionamento de suas vidas para aqueles que querem planejar, comandar e arcar com toda a responsabilidade.”

“É duvidoso que os oprimidos lutem pela liberdade. Eles lutam por orgulho e poder – poder para oprimir os outros. Os oprimidos querem acima de tudo imitar seus opressores; eles querem retaliar.”

Segundo Hoffer, o fanatismo nasce com “homens de palavra”, mas se consolida com “homens de ação”. Explicando: os movimentos de massa nascem a partir da retórica de algum bom orador (às vezes até involuntariamente), mas à medida em que crescem, serão usados por líderes que os usarão como instrumentos de poder. Pode-se dizer que a maior parte da história humana foi escrita por pessoas que souberam colocar as massas a seu serviço na busca pelo poder.

“Ao observar os homens de poder em ação, deve-se ter sempre em mente que, quer eles saibam ou não, seu objetivo principal é a eliminação ou neutralização do indivíduo independente – o eleitor independente, consumidor, trabalhador, proprietário, pensador – e que todo dispositivo que eles empregam tem como objetivo transformar os homens em um instrumento de animação manipulável, que é a definição de Aristóteles para um escravo.”

“O líder personifica a certeza do credo e o desafio e a grandeza do poder. Ele articula e justifica o ressentimento condenado nas almas dos frustrados. Ele acende a visão de um futuro de tirar o fôlego, de modo a justificar o sacrifício de um presente transitório. Ele encena um mundo de faz de conta tão indispensável para a realização do auto-sacrifício e da ação unida.”

“O salvador que quer transformar os homens em anjos é tão inimigo da natureza humana quanto o déspota totalitário que quer transformá-los em marionetes.”

Os elementos fundamentais em qualquer movimento de massa são as certezas absolutas e o inimigo absoluto. Estes elementos tiram dos ombros do fanático o peso de pensar por si mesmo. É muito mais fácil ser adepto de um grupo onde as verdades já estão prontas para serem simplesmente aceitas. É mais fácil odiar alguém do que assumir responsabilidades.

“Todos os movimentos de massa se esforçam para interpor uma tela à prova de fatos entre os fiéis e as realidades do mundo. Eles fazem isso alegando que a verdade absoluta e suprema já está incorporada em sua doutrina e que não há verdade nem certeza fora dela. Os fatos sobre os quais o verdadeiro crente baseia suas conclusões não devem ser derivados de sua experiência ou observação, mas do ato sagrado.”

“O fanático se recusa a acreditar em qualquer notícia desfavorável, e não ficará desiludido ao vê-la com seus próprios olhos. A capacidade do verdadeiro crente de fechar os olhos e tapar os ouvidos aos fatos é a fonte de sua inigualável fortaleza e constância. Ele não se assusta com o perigo, não desanima com obstáculos nem é confundido por contradições, porque nega sua existência.”

“Dê orgulho às pessoas e elas viverão de pão e água, abençoarão seus exploradores e até morrerão por eles.”

“O orgulho nacionalista, como outras variantes de orgulho, pode ser um substituto para o respeito próprio.”

“Os absurdos grosseiros e as verdades sublimes são igualmente potentes em preparar as pessoas para o auto-sacrifício, se forem aceitas como a única e eterna verdade.”

“Movimentos de massa podem se elevar e se espalhar sem um deus, mas nunca sem um demônio.”

“Estamos prontos para morrer por uma opinião, mas não por um fato”

“Há muitos que têm sérios escrúpulos em enganar os outros, mas não se importam em enganar a si mesmos.”

Como combater o fanatismo? Com conhecimento e liberdade. O conhecimento substitui as idéias prontas e o pensamento de manada. A liberdade substitui o medo de pensar por si mesmo e de encarar as consequências das próprias decisões.

“Não pode haver liberdade sem liberdade para errar.”

“A aspiração à liberdade é a mais essencialmente humana de todas as manifestações humanas.”

“Uma minoria dissidente só se sente livre quando pode impor sua vontade à maioria: o que mais abomina é a dissensão da maioria.”

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

DEU NO X

COMENTÁRIO DO LEITOR

ACABANDO COM A SEGURANÇA JURÍDICA

Comentário sobre a postagem GILMAR MENDES FAZ DECLARAÇÃO GRAVÍSSIMA SOBRE ATUAÇÃO DO SUPREMO

José Alves Ferreira:

Qualquer cursinho “ching ling” de Direito ensina que a competência do STF é ser guardião da Constituição e, analisar apenas assuntos a ela relacionados.

Mas, atualmente a “corte” resolveu ser suprema em todas as atividades do país, legislando, passando por cima das normas constitucionais, palpitando sobre qualquer coisa e, pior, acabando com a segurança jurídica, ao sabor de vontades conjuntas ou individuais de seus membros.

O que o Congresso está propondo apenas coloca as coisas em seus devidos lugares, cada qual em seu quadrado.

Simples, assim.

Inté!

DEU NO X

A PALAVRA DO EDITOR

A ÚLTIMA SEXTA-FEIRA DO MÊS

Hoje é a última sexta-feira deste mês de novembro, o penúltimo do ano.

Na próxima sexta-feira já estaremos no primeiro dia de dezembro.

Vamos entrar num final de semana bonito, ensolarado e cheio de esperanças.

Chupicleide já está se rindo-se e preparando-se pra cair na farra no final do expediente, graças à generosidade dos fubânicos que ajudam a manter em dia todas as contas desta gazeta escrota.

Nossa fogosa secretária de redação manda um xêro especial para os leitores Marcelo José di Domizio,  Leonardo Florêncio, Paulo Marques, Paulo Ferreira, Ricardo Lemos e Antônio M. Leão.

E para o colunista alagoano Bernardo, encarregado dos vídeos políticos deste jornaleco, Chupicleide dedica uma tocante composição da autoria de Lourival Passos e interpretada por Luiz Gonzaga, em homenagem à belíssima e acolhedora cidade de Maceió, terra do também colunista Carlito Lima.

Um excelente final de semana pra todos vocês!!!

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

MESTRES DO IMPROVISO

JOSÉ MELQUÍADES E ASSIS ROSENDO: UM DUPLA INDO E VOLTANDO

José Melquíades

Eu namorei uma moça
Que era muito engraçadinha,
Eu da porta da cozinha
Gritava: – filha me ouça!
Mas eu só beijava à força.
Quando ela percebia,
Numa porta ela fugia,
Pela outra eu entrava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

Assis Rosendo

Arranjei um casamento
Com uma moça já idosa,
Que não gostava de prosa,
Mas tinha consentimento,
Aí, naquele momento
Sempre ela me dizia
Que a mim não me queria
E nem também me amava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

José Melquíades

Eu fui dar com Gabriela
Um passeio de avião,
No campo de aviação
Foi peleja minha e dela,
Para entrar eu e ela
O avião não cabia,
Eu ficava e não subia,
Depois ela embarcava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

Assis Rosendo

Arranjei um casamento
Com uma bela menina,
Na cidade de Campina
Ela fez um juramento
Porém naquele momento
Todo mundo já dizia
Que ela não me queria,
Pois a outro ela amava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

José Melquíades

Namorei Aparecida,
Mas mãe não gostava dela,
Eu só namorava ela
Na casa da Margarida,
Minha mãe, muito sabida,
Ia lá pra ver se via,
Por uma porta eu saia,
Por outra mamãe entrava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

Assis Rosendo

Namorei uma menina,
Filha de um pai valente,
O seu nome era Vicente
E morava em Petrolina,
Porém em Araripina
Ela chegou certo dia,
Quando a mãe dela sabia,
O amor ela negava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

José Melquíades

Viajei num trem de feira
Com minha noiva Raimunda,
Quando eu ia de segunda
Ela ia de primeira,
Eu pulava pra terceira,
Pra segunda ela corria,
Quando eu pra primeira ia,
Pra segunda ela voltava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

* * *

Francisco Pessoa

Quando o sol se acocora atrás da serra
E a cortina do céu fecha-se mansa
Mansamente uma inspiração me alcança
E eu me entrego aos segredos desta terra
Acredito que Deus fez e não erra
As montanhas, os vales, manguezais
Fez os mares e as águas fluviais
Fez Adão e fez Eva, um paraíso
E me fez tanto quanto sem juízo
E o que é que Ele falta fazer mais ?!

* * *

José Virgolino de Alencar

Navegando nas águas da poesia
não é eito pra todo canoeiro,
há que ser um exímio timoneiro
pra guiar o seu barco em maestria
seja no mar revolto ou calmaria,
enfrentar indomável tempestade
com coragem e rara habilidade
de manter o seu barco navegando
entre as ondas seguras velejando,
são os poetas, poetas de verdade.

* * *

Dimas Batista Patriota

Pois tudo que existe no mar aproveito,
Na ilha, no cabo, península, estreito,
Estreito, península, no cabo, na ilha,
No barco, na proa, em bússola e milha!
Medindo a distância eu vou viajar,
Não quero, da rota, jamais me afastar,
Porque me afastando o destino saí torto;
Confio em Deus pra avistar o meu porto,
Cantando Galope na beira do mar!

* * *

Minervina Ferreira

O espaço da mulher
se amplia a cada momento
Desde a comerciaria
a que faz medicamento
em relação ao passado,
Ai!, ai!, ui!, ui!…
mudou noventa por cento.

Tem mulher sendo manchete,
corpo lindo e sensual
Tem mulher trabalhadora
dentro da zona rural
Que nem sabe aonde fica,
Ai!, ai!, ui!, ui!…
O Distrito Federal.

No campo policial,
tem delegada e bombeira
A promotora, juíza,
advogada, pedreira
Nosso espaço está abrindo,
Ai!, ai!, ui!, ui!…
Mesmo que o homem não queira.

DEU NO JORNAL

GILMAR MENDES FAZ DECLARAÇÃO GRAVÍSSIMA SOBRE ATUAÇÃO DO SUPREMO

Leandro Ruschel

Percebam a GRAVIDADE da fala do atual decano do Supremo, ministro Gilmar Mendes:

“Este Supremo está preparado para enfrentar, uma vez mais, e caso necessário, as investidas desmedidas e inconstitucionais, agora provenientes do Poder Legislativo.

Recados das ruas chegam a todos nós, dando conta que o projeto aprovado é mal menor, como forma de impedir possíveis reformas ainda mais drásticas ao funcionamento da corte, ou mesmo a instauração de processos de impeachment contra membros desse tribunal.

É preciso altivez para rechaçar esse tipo de ameaça de maneira muito clara: esta casa não é composta por covardes. Cumpre dizê-lo com serenidade, mas com firmeza: esse tribunal não admite intimidações.”

Ora, então é “inconstitucional” o Legislativo… legislar?

É “ilegal” pedir impeachment de ministro, procedimento previsto na Constituição?

Afinal, é o Legislativo que está ameaçando o Supremo?

Não é exatamente o inverso?

DEU NO X