WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

A CASINHA

Sítio Espinho Branco, Altinho-PE – Foto Almir Altinho

* * *

O pai do pai de papai
Morava nessa casinha.

Mote do Poeta Fifia da Cabeça de Boi

Foi em Mil e Setecento
Quando o meu tataravô
Há muito tempo morô
Aqui nesse apartamento.
A cangalha e o jumento:
Algumas coisas que tinha,
Meia dúzia de galinha,
Um gato e um papagái.
O pai do pai de papai
Morava nessa casinha.

Poeta Fifia da Cabeça de Boi

A casa foi construída
De vara, barro e cipó.
Por minha tataravó
Foi muitas vezes varrida.
A paz viveu escondida
Nesta humilde taperinha
Quando chego à porteirinha
A lágrima no olho cai.
O pai do pai de papai
Morava nessa casinha.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

EM TUDO TEM POESIA…

Em tudo tem poesia
Só precisa olhar direito.

Mote deste colunista

Tem na paixão de verdade
De um amor do passado,
Tem no velhinho cansado
Com o peso da idade.
Tem na palavra saudade,
Na dor sentida no peito,
No casamento desfeito,
Numa orquestra em sinfonia.
Em tudo tem poesia
Só precisa olhar direito.

Severino Damasceno

Tem na benção que mãe dá,
Com sua voz já cansada,
Tem nas notas da toada
Do cantador sabiá,
Tem na fruta do juá,
No trabalhador no eito,
No frade que traz no peito
A devoção por Maria.
Em tudo tem poesia
Só precisa olhar direito.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

NOVOS RUMOS

Não pude mais aturar
Os teus abusos cruéis.

Mote de Zé de França

Eu nasci pra ser alguém
Com luz própria no trajeto
E não pra ser objeto
Pessoal de seu ninguém.
Nunca mais serei refém
Dos teus covardes papéis
E dos teus atos infiéis
Eu prefiro nem lembrar.
Não pude mais aturar
Os teus abusos cruéis.

Zé de França

Você pediu que eu ficasse,
Contra a vontade, fiquei,
Que nem um monge rezei
Pra que tudo suportasse.
Percebi que nosso enlace
Constava só nos papéis
Pode vender os anéis
E a minha parte negar
Não pude mais aturar
Os teus abusos cruéis.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

A FORÇA DA ORAÇÃO

A oração é o elo
Que nos contata ao Divino.

Mote deste colunista

Quando eu quero lhe falar
Entro em transe e oração
Falo pelo coração
Sei que ele vai me escutar
Começo então a rezar
Foi assim desde menino
Ouço voz escuto o sino
No ouvido em paralelo
A oração é o elo
Que nos contata ao Divino.

Cabal Abrantes

Quando faltar esperança,
Quando sobrar desespero,
Reze com fé e esmero,
Peça a Deus-Pai confiança.
Quem é com Ele não cansa,
Tem o vigor de menino…
Proteja, pois, seu destino,
Seja qual for o duelo,
A oração é o elo
Que nos contata ao divino.

Melchior SEZEFREDO Machado

Em silêncio no meu peito
Logo de manhã cedinho
Acordo com passarinho
Falo com Deus do meu jeito.
As vezes nem sei direito
E choro igual menino
Contando os meus “pepino”
Vejo quanto Deus é belo.
A oração é o elo
Que nos contata ao Divino.

Novo Abrantes

Minha mãe me ensinou
A rezar desde pequeno
Eu pedia ao Nazareno
Ele nunca me faltou
E até hoje inda estou
Pedindo pro Deus-Menino
Que proteja o meu destino
Da tristeza do flagelo.
A oração é o elo
Que nos contata ao Divino.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

CANTE POR MIM, PASSARINHO!

Patativa Golada. Ave que emprestou o nome ao poeta Patativa do Assaré

* * *

Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Mote deste colunista

Assoviar não sei não,
Cantarolar nem um pouco.
Eu já nasci quase rouco
Não sei tocar violão.
Do ritmo, sou um vilão,
Não sei nem mesmo solar,
Mas para lhe acompanhar
Vou ligar o meu radinho.
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Cabal Abrantes

Sem saber tocar violão
O pássaro já vai cantando,
Sua alegria espalhando
Por toda a imensidão.
Não estudou uma lição,
Já eu tive que estudar,
Por não saber imitar
Eu lhe peço com carinho.
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Leo Brasil

Sou muito desafinado,
A minha voz é ruim.
Sou gago, nasci assim
Já estou acostumado.
Meu canário é afinado
Peço pra me auxiliar
Só não pode me ensinar,
Mas, tem vontade, o bichinho!
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Poeta Nascimento

Sempre quis ser um cantor,
Era um sonho de criança,
Trago ainda na lembrança,
Rememoro com rubor.
Cantar a dor e o amor
A mulher e o seu olhar
Uma plateia encantar,
Mas não canto direitinho…
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Raniery Abrantes

Não tenho a capacidade,
Que dirá tanto talento!
Perto de ti, sou rebento,
Menino de pouca idade.
Admiro a liberdade,
Pois no céu podes voar.
Aprendi a te escutar
E por ti nutro carinho.
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Ytalo Mota

Meu passarinho sem medo,
Solto no mundo a voar,
Ah! Se eu pudesse cantar
Pra desfiar meu enredo!
Mas há no canto um segredo,
Que eu não sei desvendar
E pra não desafinar,
Peço com todo carinho:
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Melchior SEZEFREDO Machado

Oh! Canora Patativa
Golada do pé da serra,
Chame o Canário da Terra
Pra comporem uma toada.
Meu Sabiá da estrada,
No dia em que eu passar,
Pode me acompanhar
Cantando pelo caminho.
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

INVERNADA

Foto de Klênio Costa

Cai a chuva no colo do roçado
Germinando o pendão da esperança.

Mote de Vanilson de Souza Silva

Uma prece que chegou ao Pai Eterno
Do roceiro mais contrito do sertão
Faz com que O Divino olhe pro chão
E mande abrir as torneiras do inverno
E o que foi até pouco aquele inferno
Vira logo um recanto de bonança,
Pois a fé quando chega na balança
Pesa mais que o prato do pecado.
Cai a chuva no colo do roçado
Germinando o pendão da esperança.

É daí que a terra entra no cio
Esperando a semente no seu ventre,
A lagoa pede ao sapo que concentre
Mais coaxos no grande desafio,
Os peixinhos desovam pelo rio,
A devota reza mais e não se cansa,
À noitinha, vem a lua e também lança
Um sorriso ao lugar abençoado.
Cai a chuva no colo do roçado
Germinando o pendão da esperança.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

CONSEQUÊNCIAS…

Estou pagando com juros
Tudo o que fiz no passado.

Mote do poeta Asa Branca do Ceará

Já fui moço e já fui belo,
Já esbanjei elegância,
Na areia da arrogância
Edifiquei meu castelo.
Hoje o meu riso amarelo,
Meio nicotinizado,
É o retrato-falado
Dos meus dias obscuros.
Estou pagando com juros
Tudo o que fiz no passado.

Aos conselhos paternais
Eu nunca dei atenção,
Qualquer orientação
Era intromissão demais.
O que fiz com os meus pais
Hoje recebo dobrado:
O meu filho revoltado
Só me traz grandes apuros.
Estou pagando com juros
Tudo o que fiz no passado.

Cada paixão desprezada
Por este meu coração
Transformou-se em tropeção
Que sofro na caminhada.
Espinhosa é minha estrada,
Pois o trajeto traçado
Parece até desenhado
Por promotor de enduros.
Estou pagando com juros
Tudo o que fiz no passado.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

A CHUVA SOBRE O TELHADO

Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Mote deste colunista

Começa com o tico tico
Taco taco chuá chuá
Cai aqui cai acolá
Tingolingo no penico
Que linda orquestra! Diz Chico
E o povo fica encantado
Reza à beira do roçado
Que está de verde vestido
Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Merlanio Maia

Deitado na minha rede
Olhando pra cima eu vejo
Quando dá um relampejo
Meto meu pé na parede.
Me balanço, tenho sede
Abro a boca e o respingado
Cai na rede e eu molhado
Só escuto no ouvido.
Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Cabal Abrantes

Mistério da natureza
E fonte de toda vida,
A água jorra incontida
Num bailado de beleza,
Em fúria ou delicadeza,
Do céu todo acinzentado.
Num dia fresco e molhado,
Afino o meu ouvido…
Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Melchior SEZEFREDO Machado

É de assustar, no início;
Logo após, tudo se acalma.
Os pingos tilintam na alma,
Ao amor fico propício;
Do friozinho é o indício,
Da natureza, um recado.
Observo, fico calado.
O som acalenta o ouvido…
Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Ytalo Mota

Escuto no meu ranchinho
A chuva que cai na telha
E do relâmpago a centelha
Que clareia o escurinho
Logo de manhã cedinho
O terreiro tá molhado
Biqueira por todo lado
Vem da mulher o “muído”
Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Poeta Nascimento

A chuva é a mensageira
Da bonança pro roceiro
É o bem mais prazenteiro
Para o povo da ribeira
Que quando olha a biqueira
Colhendo o que foi mandado
Por Deus Pai santificado
Fica muito agradecido
Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

O CORDEIRO IMOLADO

Jesus, O Santo Cordeiro,
Foi imolado por nós.

Mote deste colunista

Após breve julgamento
Em virtude dos seus atos,
Condenado por Pilatos
E um povo virulento,
Crucificou-se o rebento
De Deus, três horas após.
Tendo o povo por algoz,
No seu voto derradeiro,
Jesus, O Santo Cordeiro,
Foi imolado por nós.

Melchior SEZEFREDO Machado

É necessário entender
Que a missão de Jesus
Não foi só morrer na cruz
Nem as curas por dever
Os corpos devem morrer
Deixando a matéria após
A grande missão é a voz
Do Evangelho verdadeiro
Jesus o Santo Cordeiro
Foi imolado por nós.

Merlanio Maia

Lavou as mãos o Pilatos
Após condenar um Santo
Santa Cláudia pediu tanto
Pra evitar os maltratos
Ao Messias, mas seus atos
Vieram de forma atroz
Judas foi o seu algoz
O trocando por dinheiro.
Jesus, O Santo Cordeiro,
Foi imolado por nós.

Leo Brasil

Enviado para salvar
Ele foi crucificado
Não tinha nenhum pecado
A lição foi nos mostrar
Que ia ressuscitar
Da sua morte logo após
Até hoje a sua voz
Ecoa no mundo inteiro
Jesus, O Santo Cordeiro,
Foi imolado por nós.

Cabal Abrantes

Foi levado até a cruz
Para a crucificação
De cada lado um ladrão
Crucificaram Jesus
Mas veio a divina Luz
Ofuscando o seu algoz
E do céu ouviu-se a voz
De Deus, Seu Pai verdadeiro.
Jesus, o Santo Cordeiro,
Foi imolado por nós.

Poeta Nascimento

O profeta Jeremias
Há muito profetizava
Que Deus-Pai já preparava
A chegada d’O Messias.
Foi em suas profecias
Que a verdade teve voz:
Seiscentos anos após
Concretizou-se o roteiro.
Jesus, O Santo Cordeiro,
Foi imolado por nós.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

A FAZENDA DO LETREIRO

Vista aérea da fazenda do meu tio Zezinho Maurício, Sítio Letreiro no município de Altinho-PE 

Hoje tirei a “tramela”
Da porteira da saudade.

Mote deste colunista

Com as porteiras fechadas
Pra não molhar o meu rosto
Senti na boca um gosto
A língua e boca travadas
Com as fotos espalhadas
A mente foi lá na idade
Quando eu tinha mocidade
Do rosto abri a janela
Hoje tirei a “tramela”
Da porteira da saudade.

Cabal Abrantes

A porta estava fechada
Depois que ela foi embora
Resolvi abrir agora
Às duas da madrugada
Uma saudade danada
Mudei até de cidade
Pra ter mais tranquilidade
Mas, vivo pensando nela!
Hoje tirei a “tramela”
Da porteira da saudade.

Poeta Nascimento

Passei um tempo esquecendo
Do meu passado feliz.
Fui eu, de fato, quem quis
Deixar de estar remoendo
E outras coisas fazendo
Viver com tranquilidade.
Passou o tempo, é verdade,
Ficou, porém, a cancela,
Hoje tirei a “tramela”
Da porteira da saudade.

Melchior SEZEFREDO Machado

Meu tio José Maurício,
Foi criador e roceiro,
Chegou ao sítio Letreiro
Para exercer seu ofício.
Com a família Simplício
Fez muito boa amizade,
Tinha como habilidade
Chicote, “macaca” e sela.
Hoje tirei a “tramela”
Da porteira da saudade.

Wellington Vicente