PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UMA CANTORIA E UM POEMA

Cantoria de improviso com os poetas repentistas Moacir Laurentino e Sebastião da Silva

* * *

O CASAMENTO DOS VELHOS – Louro Branco

Tem certas coisas no mundo
Que eu morro e num acredito
Mas essa eu conto de certo
Dum casamento bonito
De um viúvo e uma viúva
Bodoquinha Papaúva
E Tributino Sibito.

O véio de oitenta ano
Virado num estopô
A véia setenta e nove
Maluca por um amor
Os dois atrás de esquentar
Começaram a namorar
Porque um doido ajeitou.

Um dia o véio comprou
Um corpete pra Bodoquinha
Quando a véia foi vestir
Nem deu certo, coitadinha
De raiva quase se lasca
Que o corpete tinha as casca
Mas os miolo num tinha.

No dia três de abril
Vêi o tocador Zé Bento
Mataram trinta preá
Selaram oitenta jumento
Tributino e Bodoquinha
Sairam de manhazinha
Pra cuidar do casamento.

O veião saiu vexado
Foi se arranchar na cidade
Mandaram chamar depressa
Naquela oportunidade
O veião chegou de choto
Inda deu catorze arroto
Que quase embebeda o padre.

O padre ai perguntô:
Seu Tributino, o que pensa,
Quer receber Bodoquinha
Sua esposa, pela crença?
O veião dixe: eu aceito
Tô tão vexado dum jeito
Chega tô sem paciência.

E perguntô a Bodoquinha:
Se aceitar esclareça
A véia lhe arrespondeu
Dando um jeitim na cabeça
Aceito de coração
Tô cum tanta precisão
Tô doida que já anoiteça.

Casaram, foram pra casa
Comeram de fazer medo
Conversaram duas horas
Uns assuntos duns segredo
E Bodoquinha dixe: agora,
Meu pessoá, vão embora
Que eu quero drumi mais cedo.

O véi vestiu um pijama
Ficou vê uma raposa
A véia de camisola
Dixe: óia aqui sua esposa
Cuma é, vai ou num vai?
O veião dixe: ai, ai, ai
Já tá me dando umas coisa.

A véia dixe me arroche
Cuma se novo nóis fosse
O véio dixe: ê minha véia
Acabou-se o que era doce
A véia dixe: é assim?
Então se vai dar certim
Que aqui também apagou-se.

Inda tomaram uns remédio
Mas num deu jeito ao enguiço
De noite a véia dizia:
Mas meu véi, que diabo é isso?
Vamo vendê essa cama
Nóis sempre demo na lama
Ninguém precisa mais disso.

A véia dixe: isso é triste
Mas esse assunto eu esbarro
Eu já bati o motor
Meu véi estrompou o carro
Ê, meu veião Tributino
Nóis dois só tem um menino
Se a gente fizer de barro.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

Oliveira de Panelas, grande poeta cantador pernambucano da atualidade

* * *

Oliveira de Panelas glosando o mote:

Na porta do cu do dono

Essa rôla antigamente
Vivia caçando briga
Furando pé de barriga
Doidinha pra fazer gente
Mas hoje tá diferente
No mais profundo abandono
Dormindo um eterno sono
Não quer mais saber de nada
Com a cabeça encostada
Na porta do cu do dono.

Já fez muita estripulia
Firme que só bambu
Mais parecia um tatu
Fuçava depois cuspia
Reinava na putaria
O priquito era seu trono
Trepava sem sentir sono
E sem precisar de escada
Mas hoje vive enfadada
Na porta do cu do dono.

Nunca mais desvirginou
Uma mata vaginosa
Há muito tempo não goza
A noite de gala passou
Vive cheia de pudor
Sonolenta e sem abono
Faz da ceroula um quimono
E da cueca uma estufa
Vive hoje à cheirar bufa
Na porta do cu do dono.

* * *

Carlos Severiano Cavalcanti glosando o mote:

Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

Fui ao silo e tirei toda a semente
que restava guardada há mais de um ano
e saí a plantar em solo plano
na esperança de inverno consistente.
O trovão ribombou e de repente
envolvi-me no som da trovoada.
O riacho rosnando na enxurrada,
o meu milho pouquinho semeado.
Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

Trinta dias depois da plantação
eu gostava de ver meu milharal
verdejante, brilhando, colossal,
alegrando meu frágil coração.
Fiz a limpa primeira na intenção
de arrancar todo o mato usando a enxada,
começava a limpar de madrugada
sem contudo sentir-me mais cansado.
Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

O pendão começou a tremular,
quando o sol assumiu a dianteira,
a trocar chão molhado por poeira,
a neblina deixou de borrifar,
a lavoura teimava em não murchar,
mas a haste do milho, já envergada
pendurava a boneca atrofiada
enquanto eu contemplava amargurado.
Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

Perdi tudo o que tinha de semente,
não deixei transformá-la no cuscuz,
carreguei cabisbaixo a minha cruz,
enfrentei a dureza do sol quente,
vejo agora o sofrer da minha gente
sem destino na terra desolada,
transeunte nas margens de uma estrada
indo à toa, sem rumo, em qualquer lado.
Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

Vejo a barra ao quebrar e fico atento,
para ver se a invernada inda retorna,
entretanto, a manhã já nasce morna,
o que traz para mim um desalento,
desespero ante a dor desse momento,
minha casa sem luz, vive apagada,
o sertão vendo a flora incinerada,
o seu povo sem rumo e flagelado.
Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

Já não ouço o cantar dos rouxinóis,
não escuto o arrulhar das juritis,
raramente ouço poucos bem-te-vis,
saltitantes nos galhos do cipós.
No horizonte tem mais pores de sóis
inundando de luz toda a chapada,
a paisagem cinérea iluminada
quando a lua esparrama o seu dourado.
Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM MOTE BEM GLOSADO E UM DOCUMENTÁRIO

João Paraibano e Severino Feitosa glosando o mote:

Não conheço político que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

João Paraibano:

Vem um tema do nosso José Costa,
seu pedido está mais do que bem feito,
disse a mim que o político quando eleito,
vai fazer só as coisas que ele gosta,
quem escreve pra ele, é sem resposta,
que ao invés de ajudar, faz esquecer,
no começo foi tanto prometer,
mas depois vai faltando a virtude.
Não conheço político que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Severino Feitosa:

O político que ganha a preferência,
se elege com o voto do povão,
o transporte que usa é avião,
e o espaço é a sua residência,
esquecendo até da presidência,
nem ligando se o povo vai sofrer,
inda manda um ministro esconder
todas as verbas pra área de saúde.
Não conheço político que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

João Paraibano:

Se viu Lula pregando pelas ruas,
prometendo enricar trabalhador,
falou tanto do seu antecessor,
garantindo impedir as falcatruas,
para 20 viagens, faltam duas,
e a pobreza é quem paga sem querer,
tanta gente sem ter o que comer,
precisando que o mesmo lhe ajude.
Não conheço político que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Severino Feitosa:

No início ele é muito valente,
não tolera receita e desacato,
vai na frente demais do sindicato,
pra poder defender a nossa gente,
veja aí esse nosso presidente,
que lutou muitas vezes pra vencer,
mas agora só pensa em esquecer
que já foi um torneiro “chei” de grude.
Não conheço político que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

João Paraibano:

Quem não lembra de Lula em Caetés,
um torneiro mecânico em São Bernardo,
convidava a ajudar levar o fardo
desse povo que está andando a pés,
Lula fez de viagem mais de dez,
num jatinho a subir e a descer
e a pobreza deixando a padecer,
sem poder residir na terra rude.
Não conheço político que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

* * *

DOCUMENTÁRIO: LITERATURA DE CORDEL


PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

QUATRO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO

Pedro Malta, pesquisador da cultura popular nordestina

De um lado a dor e a fome
Percorrendo na artéria.
Um guri sem sobrenome,
No apogeu da miséria.
Do outro lado, os verdugos,
Tratando como refugos
Quem vive na letargia…
É triste ver meu pais
Gratificando juiz
Com auxilio moradia.

Hélio Crisanto

O Nordeste tem sido a grande escola
Dos maiores poetas cantadores
Sustentáculos e eternos defensores
Da origem maior que nos consola
Inspirados no ritmo da viola
Nos acordes de arame na madeira
Cantam de improviso a vida inteira
E o que cantam somente Deus ensina
Venham ver a viola nordestina
Defendendo a cultura brasileira.

Sebastião da Silva

Eu não estava dormindo
Apenas dei um cochilo
Sonhei que estava pescando
Nas águas do rio Nilo
Pescando cada traíra
Que a cabeça dava um quilo.

Zé Bernardino do Pajeú

Doutor de cara fechada
Sem conhecer o caminho
Pergunta pra um garotinho
Descalço, roupa rasgada
Me responda se esta estrada
É a que vai pra Orós?
Raciocínio veloz
Diz a criança ao doutor
Num sei não, mas se ela for
Vai fazer falta pra nós.

Geraldo Amâncio

* * *

UM FOLHETO DE MANOEL MONTEIRO

LEANDRO GOMES O REI DO CORDEL

Leandro Gomes de Barros
Nosso amado menestrel
Que em vez de alaúde
Usou caneta e papel,
Tipo, tinta, impressora
Na construção precursora
Do folheto, ou do cordel.

– O cordel, este livrinho,
Escrito em versos rimados
Obedecendo um “tamanho”
Porque são metrificados
Conforme o que se comenta,
Da forma que se apresenta,
Teve aqui os seus primados.

– Trinta e cinco anos antes
De chegar mil novecentos,
Em Pombal, nasceu Leandro
Um dos maiores talentos
Que a poesia já deu,
Diz-se que ele escreveu
De cordéis, mais de quinhentos.

Leandro é da velha cepa,
De Inácio da Catingueira
De Romano da Mãe D’Água
Dos poetas do Teixeira,
De cangaceiro e polícia
Dos quais se deu a notícia
Pelos folhetos de feira.

Continue lendo

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM MOTE BEM GLOSADO

José de Souza Dantas glosando o mote:

Todo dia me sento meia hora
No batente da casa da saudade.

No lugar que nasci e fui criado,
Todo dia a saudade me aperta,
Bate forte em meu peito e me alerta
Pra lembrar bons momentos do passado,
Tiro um tempo para ficar sentado
Meditando com mais profundidade,
Confiante sentindo-me à vontade
Vendo o mundo, a paisagem, fauna e flora.
Todo dia me sento meia hora
No batente da casa da saudade.

Toda vez que visito o meu sertão,
Passo uns dias na casa dos meus pais,
A saudade que sinto dói demais
Que não cabe dentro do coração,
Tenho viva toda recordação
De papai na nossa propriedade,
Que partiu para outra eternidade,
Não está entre nós e foi-se embora.
Todo dia me sento meia hora
No batente da casa da saudade.

* * *

Um folheto de Franklin Maxado

A BELA HISTÓRIA DE JACI – A PROSTITUTA VIRGEM E SANTA

Nossa vida, minha gente
É cheia de contradições
As vezes, o que se vê
Em muitas situações
Não é a realidade
São apenas ilusões

Aqui conto um caso desses
Como enganam as aparências
Uma moça que ninguém diz
Olhando suas vivencias
Seja virgem e muito santa
Apesar de experiências

Jaci era uma dessas
Mulheres fáceis da vida
Adotou a profissão
Passando-se por perdida
Para poder sobreviver
Sem depender de acolhida

Feita esta explicação
Vamos contar sua estória
Feita com muito amor
Da derrota fez vitória
E nisso está seu louvor
Na conduta meritória

Continue lendo

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM MOTE BEM GLOSADO

Zé Adalberto glosando o mote:

Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Muitas vezes, sozinho, eu pergunto:
Pra que tanta riqueza, se depois
Que o caixão encostar e couber dois
O amigo melhor não quer ir junto?
Pra que cara fragrância se o defunto
Não exige perfume da “natura”?
Mesmo a alma é cheirosa quando é pura
Mas o cheiro do corpo ainda enjoa.
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que casa cercada por muralha?
Se a cova é cercada pelo pranto.
Se pra Deus, todos têm do mesmo tanto
Tanto faz a fortuna ou a migalha.
Pra que roupa de marca, se a mortalha
Não requer estilista na costura?
Se o cadáver que a veste não procura
Nem saber se a costura ficou boa
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu me esconder detrás de um pão
Se a miséria não bate em minha porta?
Pra que eu me cansar regando horta
Se amanhã ou depois já é verão
Pra que eu confiar no coração
Sem saber quanto tempo à vida dura
Se a ferida da alma não tem cura
Quando é a ganância que a magoa
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Não sou dono de ônibus nem de trem
Mas enquanto eu puder me locomovo
Pra que eu invejar um carro novo
Se o transporte final nem rodas tem?
Nem me avisa dizendo quando vem
Mas só anda na minha captura
Bem abaixo da sua cobertura
Ele tem quatro asas, mas não voa
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu inventar de ser afoito
Se eu não tenho coragem pra vencer?
Pra que eu comprar queijo sem poder
Se na mesa tem pão, ovo e biscoito?
Pra que eu colocar um trinta e oito
Entupido de bala na cintura
Se a razão é a arma mais segura?
Ter sossego é melhor que ter coroa
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu toda hora dar balanço
No que tenho ou andar atrás de bingo?
Pra que tanta hora extra no domingo
Se Deus fez esse dia pro descanso?
Pra que eu trabalhar igual boi manso
Se a chibata do dono me tortura?
Pra que eu reclamar da minha altura
Se o que a mão não alcança, Deus me doa?
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu com dois olhos na barriga
Se os da cara já são suficientes?
Pra que eu invejar os meus parentes
Se já sei que o retorno é uma intriga?
A formiga que evita ser formiga
Cria asas, se torna tanajura
Cresce a bunda demais, cria gordura
Fica muito pesada e cai à toa
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Deus me dando o arroz e o pilão
È preciso que eu saiba despolpá-lo
Pra depois de cozido eu mastigá-lo
Sem roubar o suor do meu irmão.
Eu confesso que vivo na fartura
Se tiver feijão preto e rapadura
Encho tanto a barriga, chega zoa
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu ter mansão no litoral
Se um rancho está bom num pé de serra
Se eu fizer prédio alto aqui na Terra
Lá no Céu, vai faltar material
Meu ensino maior foi o Mobral
Os meus livros têm sido a Escritura.
Pra que eu aprender literatura
Se a palavra de Deus me aperfeiçoa?
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UMA GLOSA

Mote:

João Doido, cacete e rola
Tudo é nome do caralho

Glosa:

Peia, cipó, mandioca
Carabina, prego e talo
Estaca, pica, badalo
Sarrafo, pomba, biloca
Pinto, manjuba, piroca
Vergalhão, também mangalho
Linguiça, cajado, malho
Nervo, trabuco, bilola
João Doido, cacete e rola
Tudo é nome do caralho.

Glosa do poeta pernambucano José Honório, publicada no álbum Indecências, editado em julho de 1990.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS