Valdir Teles, poeta maior do repente, morre aos 64 anos
Ele fazia parte de um pequeno grupo que rreunia a elite da cantoria nordestina
O repentista Valdir Teles, um dos maiores nomes da poesia oral brasileira, teve sua morte anunciadanesse domingo, dia 22, pela filha, a advogada Mariana Teles, em seu perfil no Facebook. A provável causa da morte foi um infarto. O poeta estava com 64 anos, e faleceu no Sítio Serrinha, onde morava, na Zona Rural de São José do Egito (PE), no Sertão pernambucano, sua cidade natal.
Mote de Mariana Teles, filha de Valdir, glosado por Santanna:
Na solidão da latada Lembrando meu cantador.
Precisei me recluir Pois as postagens que via Eram sempre poesia Em homenagem a Valdir Eu não pude prosseguir Pois no meu peito uma dor Mitigava com furor A poesia celebrada Na solidão da latada Lembrando meu Cantador.
Santanna O Cantador
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No painel onde Deus escreve a lista dos poetas maiores deste mundo tem Homero, Virgílio, e mais no fundo, a brilhar, vem o nome do Salmista! No letreiro de Deus um repentista… É mais um, nesta lista de imortais! Entre todos os vates geniais, Valdir Teles figura no caderno deste livro sagrado e sempre eterno da mais pura poesia que Deus faz!
Nonato Freitas
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Partiu uma grande garganta Para o céu onde Deus mora E por lá fará agora Uma cantoria santa. Quando um artista se encanta O céu ganha nova luz Um anjo a introduz Nas miríades do universo Waldir hoje fez seu verso Na presença de Jesus.
Jesus de Ritinha de Miúdo, colunista do JBF
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Todo mundo parava pra lhe ouvir De repente um infarto lhe parou O Nordeste tremeu quando escutou A notícia da morte de Valdir Adorava cantar pra divertir Foi um homem de luz, um ser de paz Transferiu-se pra o lar dos imortais E só deixou pra os mortais exemplos plenos Na calçada da fama um ídolo a menos No exército de Deus um anjo a mais
Nonato Neto
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Não se pode escrever em poesia Como foi importante repentista, Valdir Teles esteve em nossa lista Dos melhores nos shows da cantoria. Só brilhou nas pelejas que fazia Por veloz ser a sua inteligência. Bom na métrica, na rima e na cadência Não deixava ninguém na sua frente Valdir deixa a chorar nosso repente E a viola a cantar a sua ausência.
Ismael Gaião
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Valdir Teles, semana passada, improvisando sobre a crise do coronavírus
Pedro Bandeira e Manoel Xudu: dois grandes cantadores nordestinos
Pedro Bandeira
Colega Manoel Xudu Abra o palco da cortina, Se firme bem na cadeira Erga o peito e se previna, E diga como deixou A cidade de Carpina.
Manoel Xudu
Vai bem minha Planaltina De poetas um viveiro, Situada entre Paudalho Nazaré e Limoeiro, E agora mandou seu vate Vir visitar Juazeiro.
Pedro Bandeira
Mas você não é romeiro Nem comprador de pequi, Nem carola nem turista Ninguém lhe esperava aqui, Sem eu lhe dar carta branca Pra entrar no Cariri.
Manoel Xudu
Eu vim porque conheci Que havia necessidade, De conhecer os colegas Que moram nessa cidade, E saber se o novo príncipe Tem ou não autoridade.
Pedro Bandeira
Saiba que sou majestade No reinado poesia, Você pra cantar comigo Precisa ter fidalguia, Nobreza, brio e respeito Honra e aristocracia.
Manoel Xudu
Há tempo que conhecia A fama do meu amigo, Porém eu sou dos poetas Que nunca teme perigo, Só digo que um cabra canta Depois que cantar comigo.
Pedro Bandeira
Você está no meu abrigo Se não quiser passar fome, Respeite meu auditório Meu cetro e meu cognome, Minha esposa e minha filha Minha plateia e meu nome.
Manoel Xudu
Acho bom que você tome O conselho que lhe dou, Estou no seu auditório Mas seu escravo não sou, Penetre em qualquer terreno Que se eu puder também vou.
Pedro Bandeira
O sangue do meu avô No meu sangue inda evapora, Me dando ideia e talento Entusiasmo e sonora, Pra rebater desaforo De repentista de fora.
Manoel Xudu
Com sua proposta agora, Sei que o jeito que tem, É eu lhe dar um acocho Dos ossos virar xerém, Que canto a vinte e dois anos E nunca perdi pra ninguém.
Pedro Bandeira
Eu nunca perdi também E agora vou lhe provar, Que daqui a meia hora Você começa a chorar, Troca a viola em cachaça E nunca mais fala em cantar.
Manoel Xudu
É mais fácil se esgotar O mar com uma peneira, Bala de aço esmagar-se Em tronco de bananeira, Do que Manoel Xudu Temer a Pedro Bandeira.
Pedro Bandeira
É mais fácil uma caveira Ter nojo dum urubu, Uma cobra de veado Se assombrar com um cururu, Do que o príncipe dos versos Respeitar Manoel Xudu.
Manoel Xudu
É mais fácil um canguçu Correr com medo dum bode, Menino enjeitar bolacha Moleque enjeitar pagode Do que eu correr com medo Dum cantador sem bigode.
Pedro Bandeira
Nós sabemos que Deus pode Manobrar tudo que é seu, Transformar o gelo em fogo Ressuscitar quem morreu, Não pode é criar poeta Pra cantar mais do que eu.
Manoel Xudu
Mas agora apareceu Miguel Alencar Furtado, Que é Juiz e deu um tema Muito bem metrificado, E vamos saber do tema Quem canta mais inspirado.
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Mote:
Vi a noite enlutando o horizonte, Com saudade do dia que morreu.
Pedro Bandeira
Cinco e meio da tarde mais ou menos Resolvi vê de Deus os espetáculos, Transportei-me das baixas aos pináculos Pra poder me inspirar olhando Vênus, Comecei vislumbrar astros pequenos O Cruzeiro do Sul resplandeceu, Quando o rosto da lua apareceu Eu estava na crista de um monte, Vi à noite enlutando o horizonte Com saudade do dia que morreu.
Manoel Xudu
Quando o sino tocava Ave–Maria E o sol se escondia no ocaso, De um voo transportei-me ao Parnaso Num balão que eu fiz de poesia, Uma estrela brilhava o sol morria E a natura chegava ao apogeu, Tive sede e um querubim me deu Água pura tirada duma fonte, Vi à noite enlutando o horizonte Com saudade do dia que morreu.
Pedro Bandeira
Contemplei azul além do mar Vi a treva envolvendo as ondas pardas, As libélulas pousaram nas mostardas E agripinas saíram do pomar, Escutei uma musa solfejar Uma musica crida por Orfeu, Estendi-me nos braços de Morfeu Reclinei no seu busto a minha fronte, Vi à noite enlutando o horizonte Com saudade do dia que morreu.
Manoel Xudu
Eu também me achava esmorecido Numa tarde perdido no deserto, Sem achar um amigo ali por perto Que indicasse por onde eu tinha ido, Quando o bravo leão deu um rugido Que o bosque da serra estremeceu, Mas o manto de Deus se estendeu Parecendo a varanda de uma ponte, Vi à noite enlutando o horizonte Com saudade do dia que morreu.
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Pedro Bandeira
Atendi ao pedido do Juiz Mas a nossa polêmica continua, Pra você minha volta vai ser crua Encomende-se a Deus pra ser feliz, Se é mesmo um poeta como diz Mostre aqui sua personalidade, Se vier com mentira e vaidade Entra grande na luta e sai pequeno, Nunca mais quer entrar no meu terreno Sem primeiro pedir-me a liberdade.
Manoel Xudu
Eu não vim procurar inimizade Com você seus irmãos e outros mais, Mas se quer destruir o meu cartaz É perdida de vez sua vontade, Com poeta de toda qualidade No Nordeste eu tenho combatido, No Brasil o meu nome é conhecido Desde o Norte ao Sul Leste e Oeste, Quem meter-se comigo a fazer teste Leva pau perde o jeito e sai vencido.
Pedro Bandeira
Vou coser sua boca e um ouvido Dou-lhe um murro na cara estoura os pés, Cantador do seu jeito eu dou em dez Só enquanto mamãe troca um vestido, Fuxiqueiro insultante e desconhecido Atrasado sem luz e sem valor, Decoreba perverso e traidor Beberrão de latada e pé de serra, Volte e digas chorando em sua terra Que agora encontrou superior.
Manoel Xudu
Repentista se enche de pavor Quando ouve meu verso e meu baião, Sente logo tremer o coração Gela o sangue, o rosto muda a cor, Em martelo eu sou raio abrasador Cantador sendo fraco eu dou em cem, A pancada que dou é como o trem Um gigante pra mim inda é pequeno, Cascavel que eu pegar perde o veneno Só me curvo a Deus e a mais ninguém.
Pedro Bandeira
Otacílio Batista canta bem Lourival é o rei do trocadilho, Zé Faustino morreu deixou seu filho Clodomiro não perde pra ninguém, Dr. Dimas um título também tem Pinto velho é o rei do Pajeú, Louro Branco e Moacir no Iguatu Os Irmãos Bernardino se deleitam, Todos esses poetas me respeitam Quanto mais uma égua como tu.
Poetas repentistas Sebastião da Silva e Valdir Teles glosando o mote:
Comparado aos bandidos de hoje em dia, Lampião foi honesto até demais.
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Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré (1909-2002)
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A MULHER QUE MAIS AMEI – Patativa do Assaré
Era um modelo perfeito A mulher que mais amei, Linda e simpática de um jeito Que eu mesmo dizer não sei. Era bela, muito bela; Para comparar com ela, Outra coisa eu não arranjo E por isso tenho dito Que se anjo é mesmo bonito, Era o retrato dum anjo.
Sei que alguém não me acredita, Mas eu digo com razão, Foi a mulher mais bonita De cima de nosso chão; Era mesmo de encomenda E do amor daquela prenda Eu fui o merecedor, Eu era mesmo sozinho Dono de todo carinho Daquele anjo encantador.
Era bem firme a donzela, Só em mim vivia pensando. Quando eu olhava ela, Ela já estava me olhando. Para a gente conversar Quando eu não ia, ela vinha, Um do outro sempre bem perto Nosso amor dava tão certo Quem nem faca na bainha.
E por sorte ou por capricho, Eu tinha prata, ouro e cobre. Dinheiro em mim era lixo Em casa de gente pobre. Nós nunca perdíamos ato De cinema e de teatro De drama e mais diversão, Não faltava coisa alguma, As notas eu tinha de ruma Para nós andar de avião.
Anastácio e Zé Limeira, O Poeta do Absurdo, glosando dois motes.
Primeiro mote:
É lindo queimar-se as flores No santo mês de Maria.
Anastácio
No mês de maio a novena Tem grande veneração, No Brejo, Agreste e Sertão É muito honrada esta cena, Rosedal, rosa e verbena Se vê brotar todo dia… O aroma que a rosa cria Nos faz esquecer as dores… É lindo queimar-se as flores No santo mês de Maria.
Zé Limeira
Você pra mim é menino, Queimo flor uma porção, Boto fogo em barbatão Cercado de arame fino. No pagode do suíno, Quando a poica grita e chia, Corre Mané e Sufia E até os agricultores… É lindo queimar-se as flores No santo mês de Maria.
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Segundo mote:
Você hoje me paga o que tem feito Com os poetas mais fracos do que eu.
Anastácio
Zé Limeira, você cuide em rezar Que é preciso hoje aqui dar-lhe um surrote Apresento as virtudes do meu dote Para você aprender a me honrar: Se você resolver me acompanhar, Diga logo a esse povo que perdeu, Um fantasma chegou, lhe interrompeu, Atraiu sua voz, o verso e o peito… Você hoje me paga o que tem feito Com os poetas mais fracos do que eu.
Zé Limeira
Sou um nêgo um bocado esbagaçado , Sou o vatis das glória desta terra, Sou a febre que chama berra-berra, Mastigando eu sou cobra de veado, Sou jumento pru fora do cercado, Sou tabefe que dero em seu Lameu… Se tivé bom guardado bote neu, Seu caminho de bonde ruim, estreito… Você hoje me paga o que tem feito Com os poetas mais fracos do que eu.
Anastácio
Cantador sem origem, sem ciência, Miserável, lebrento , pé de peia, És miséria da guerra da Coréia, Seu corrupto, ladrão da consciência. Castigado da santa Providência, Que não honra o que Cristo santo deu, Foste tu, imbecil, o fariseu, Quem é bom dizes tu que tem defeito… Você hoje me paga o que tem feito Com os poetas mais fracos do que eu.
Zé Limeira
Zé Limeira onde canta, todo mundo Vai olhá bem de perto a sua orige, Já cantei no sertão, no Céu da Virge Sou doutô de meisinha , furibundo. Viva o Reis, o Juiz, Pedro Segundo. Sou a cobra que o boi nunca lambeu, Sou tijolo da casa de Pompeu, Peripécia da filha do Prefeito.. Você hoje me paga o que tem feito Com os poetas mais fracos do que eu.
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Zé Limeira e José Alves Sobrinho glosando o mote
Canta, canta, cantador, Que teu destino é cantar.
Zé Limeira
Quando o carão tá cantando É sinal que vem inverno, Eu sou um nego moderno, Foi não foi eu tô pensando. Amanhã tô viajando Pru sertão de Bogotá Tico-tico no fubá, Padre, juiz e doutor, Canta, canta, cantador, Que teu destino é cantar.
José Alves Sobrinho
Minha vida é esta cantiga, Meu amor é esta viola… Deus me botou nesta escola Egrégia, sublime e antiga. Se minha viola amiga, Quiser um dia parar, A dor não vou suportar Porque ordena Nestor: Canta, canta, cantador, Que teu destino é cantar.
Zé Limeira
Numa berada de serra Dom Pedro ficou de coca, Começou tirá taboca Do cabeceira da terra, Veio a febre berra-berra Pru dentro dum caçuá, Comendo o tamanduá Da filha do Promotor, Canta, canta, cantador, Que teu destino é cantar.
José Alves Sobrinho
Este tema deslumbrante Que nos deu Nestor Rolim, Despertou dentro de mim Um sentimento gigante! Por isso eu canto perante O povo deste lugar, Já fazendo despertar A musa do sonhador.. Canta, canta, cantador, Que teu destino é cantar.
Zé Limeira
Se apagou-se a lamparina Prumode o vento assoprou, Me adiscurpe, seu Nestor, Caboco da Palestina. Joguei minha lazarina No tronco do jatobá, Fiz Lampião avuá Na baixa do corredor, Canta, canta, cantador, Que teu destino é cantar.
O cearense Geraldo Amâncio e o paraibano Severino Feitosa, dois dos maiores nomes da cantoria nordestina na atualidade
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Geraldo Amâncio e Severino Feitosa glosando o mote:
Comigo o rojão é quente, canta quem souber cantar.
Geraldo Amâncio
Eu sei que você reclama, que é um repentista antigo, porém pra cantar comigo, acho pouco a sua fama, é muito bom pra o programa, pra todo mundo acordar, pra falar, pra conversar, mas é fraco pra o repente. Comigo o rojão é quente, canta quem souber cantar.
Severino Feitosa
Seus erros ninguém perdoa, porque você é pequeno, sua dose de veneno está pronta em João Pessoa, lhe afogo na lagoa, lhe jogo dentro do mar, e você morre sem voltar pra o Ceará novamente. Comigo o rojão é quente, canta quem souber cantar.
Geraldo Amâncio
No gramado eu sou atleta, hoje aqui em João Pessoa, não faço cantiga à toa, a minha idéia é completa, eu prefiro outro poeta, com quem possa me ocupar, é perdido eu trabalhar com certo tipo de gente. Comigo o rojão é quente, canta quem souber cantar.
Severino Feitosa
Geraldo, você recita para a platéia achar graça, em todo canto que passa, tem a cantiga bonita, mas aqui onde visita, é meu reino, é meu lugar, você tem que respeitar, para ser independente. Comigo o rojão é quente, canta quem souber cantar.
Geraldo Amâncio
Muita coisa eu estou vendo e a platéia está notando, é Severino apanhando, pensando que está batendo, é um coitado sofrendo, eu sem querer judiar, quem se acostuma apanhar, morre na peia e não sente. Comigo o rojão é quente, canta quem souber cantar.
Severino Feitosa
Lhe falta a inspiração para seguir os meus passos, estou vendo os seus fracassos, se afracou nesse rojão, se eu lhe der um empurrão, a cabeça vai rodar, esse nariz vai parar da caixa prego pra frente. Comigo o rojão é quente, canta quem souber cantar.
Geraldo Amâncio
Não tem vez esse rapaz, quando está no meu caminho, ele é bem devagarinho, já não sabe o que é que faz, cinqüenta léguas pra trás, doido pra me acompanhar, se acaso você cansar, procure um toco e se sente. Comigo o rojão é quente, canta quem souber cantar.
Severino Feitosa
Sei nadar em qualquer rio, me criei nessa escola, no braço dessa viola, não aprendo cantar frio, me pediram o desafio, e eu quero lhe açoitar, já ouvi alguém gritar, Feitosa a cantiga esquente ! Comigo o rojão é quente, canta quem souber cantar.
Geraldo Amâncio
Nossa cantiga é assim, faz tempo que eu lhe conheço, eu sou manso no começo, que é para bater no fim, você diz que dá em mim, eu começo a duvidar, sabe o povo do lugar, tanto apanha como mente. Comigo o rojão é quente, canta quem souber cantar.
Severino Feitosa
Conheço o interior, que o colega foi nascido, se mete a ser atrevido, não passa de agitador, é pequeno cantador, a sua fama é vulgar quem de você apanhar, não sabe o que é repente. Comigo o rojão é quente, canta quem souber cantar.
Geraldo Amâncio
Eu uso a matéria prima, que nunca saiu à toa, agrada a qualquer pessoa, que de mim se aproxima, Sou a cascavel da rima, quem vier me acompanhar, vou morder seu calcanhar e arranchar em seu batente. Comigo o rojão é quente, canta quem souber cantar.
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A dupla Edmilson Ferreira e Antonio Lisboa improvisando com o mote:
Sou vaqueiro criado no sertão, meu perfume é de casca de madeira
Esta coluna oferece hoje aos seus leitores o folheto O Romance do Pavão Misterioso, um clássico da literatura de cordel nordestina.
O Pavão Misterioso está no noticiário dos últimos dias, por conta da ação de piratas, corruptos e canalhas que querem acabar com a Lava Jato, a maior operação contra a bandidagem de colarinho branco que já foi feita no Brasil.
Gás sarin na estação Atentado às torres gêmeas Casamento entre fêmeas De Dalila a traição Caim que matou o irmão Hitler vil e sanguinário Propina em judiciário Fuzilamento de alguém Satanás quando não vem Ele manda o secretário.
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Zé Limeira glosando o mote
Escrevi o nome dela Com o leve do azul do céu.
A minha poica maluca Brigou com setenta burro, Deu cento e noventa murro Na cara de Zé de Duca. Dei-lhe um bufete na nuca Que derrubei seu chapéu… Vai chegando São Miguel Montado numa cadela… Escrevi o nome dela Com o leve do azul do céu.
Me chamo José Limeira, Cantador do meu sertão, O Sino de Salamão Tocando na laranjeira, Crepusco de fim-de-feira, Museu de São Rafael, O Juiz prendeu o réu, Dispois fechou a cancela… Escrevi o nome dela Com o leve do azul do céu.
Quando Abel matou Caim No Rio Grande do Sul, Deu-lhe um quilo de beiju Com as berada de capim. Nisso chegou São Joaquim Que já vinha do quartel Cumode prendê Abel, Dois pedaço de costela… Escrevi o nome dela Com o leve do azul do céu.
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Severino Feitosa glosando o mote:
Eu querendo também faço Igualzinho a Zé Limeira
Confúcio foi na Bahia Pai-de-Santo e curandeiro Anchieta era pedreiro No farol de Alexandria Hitler nasceu na Turquia Vendia manga na feira A Revolução Praieira Degolou Torquato Tasso Eu querendo também faço Igualzinho a Zé Limeira.
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Carlos Severiano Cavalcanti glosando o mote:
Devagar, como fogo de monturo, a saudade invadiu meu coração.
Na fazenda, nasci e me criei, peraltava e fazia escaramuça, morcegava, no campo, a besta ruça, jararaca até mesmo já matei. Não me lembro da vez em que acordei assombrado com tiros de trovão, pinotava da rede para o chão e saía correndo pelo escuro. Devagar, como fogo de monturo, a saudade invadiu meu coração.
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Louro Branco e Zé Cardoso glosando o mote:
Não existe mais respeito Nos namoros de hoje em dia.
Louro Branco:
Não existe mais respeito Nos namoros de hoje em dia Rapaz que tem companheira Não leva Salve Rainha Mas leva uma camisinha Escondida na carteira Tira a roupa da parceira Mama chega o peito esfria Chupa na língua macia Como quem chupa confeito Não existe mais respeito Nos namoros de hoje em dia.
Zé Cardoso:
Vi um casal na calçada Ela com ele abraçado Ele na boca colado Ela na língua enganchada Uma velha admirada Dizia: “Vixe Maria!” E com tristeza dizia: “Eu nunca fiz desse jeito” Não existe mais respeito Nos namoros de hoje em dia.
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Davi Calisto Neto glosando o mote
Pra que tanta ganância e correria Se ninguém veio aqui para ficar?
Se o final é normal pra que correr E se morrer é ruim mais é comum Se o caixão vai leva de um em um Se o dinheiro não pode socorrer… Eu só quero o bastante para comer Para viver para vesti e pra calçar Mesmo sendo pouquim se não faltar Eu só quero esse tanto todo dia Pra que tanta ganância e correria Se ninguém veio aqui para ficar?
Todo homem podendo tem que ter Moradia, saúde e alimento Um pouquinho também de investimento Que um dia ele pode adoecer Necessita também de algum lazer Para o corpo cansado descansar Mais tem gente que pensa em enricar Não descansa de noite nem de dia Pra que tanta ganância e correria Se ninguém veio aqui para ficar?
Pra que tanta ganância por poder Exibir a fortuna adquirida Se o que a gente ganhar durante a vida É preciso deixa quando morrer Se na cova não tem como caber E no caixão ninguém tem como levar Lá no céu não tem banco para guardar O que o morto juntou quando vivia Pra que tanta ganância e correria Se ninguém veio aqui para ficar?
Sei que a vida da gente se encerra E muita gente se esquece com certeza E é por isso pensando na riqueza Que alguns loucos estão fazendo guerra O pior é que brigam pela terra Para depois nela mesma se enterrar Toda essa riqueza vai ficar E só o corpo que vai para a terra fria Pra que tanta ganância e correria Se ninguém veio aqui para ficar?
Pra que tanta ganância e ambição Se essa vida é bastante passageira Tudo finda num monte de poeira Na mortalha, na cova e no caixão Ninguém pode pedir prorrogação Quando o jogo da vida terminar A não ser uma vela pra queimar O destino é partir de mãos vazia Pra que tanta ganância e correria Se ninguém veio aqui para ficar?
A ganância infeliz desenfreada Deixa o mundo sem paz e sem sossego Pois tem gente com mais de um emprego E muita gente morrendo sem ter nada Mais a vida da gente é emprestada E qualquer dia o seu dono vem buscar Qualquer vida que a morte carregar Ninguém pode tirar segunda via Pra que tanta ganância e correria Se ninguém veio aqui para ficar?