PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

O TEMA É JUMENTO

LUIZ GONZAGA – APOLOGIA AO JUMENTO

* * *

DISCUSSÃO DE UM JUMENTO COM UMA MOTO – Edson Francisco

Nas quebradas do sertão
Já vi tudo acontecer
Vi homem virar mulher
Gente morta envivecer
Já vi alma frente a frente
Vi matuto presidente
Cabra valente morrer

Quero contar pra você
Um raro acontecimento:
Eu vi uma motocicleta
Discutir com um jumento
Você pode duvidar
Mas queira me escutar
Pra ver se tem cabimento

Vinha naquele momento
A caminho da cidade
Em cima de minha moto
A toda velocidade
Quando, me sentindo mal,
Parei em um matagal
Pra fazer necessidade

Realizada a vontade
Eu ouvi um burburinho
Eram vozes na estrada
Bem no meio do caminho
Pensando que era ladrão
Me deitei ali no chão
E fui ouvindo tudinho:

“Você é um coitadinho”
Ouvi a moto falar.
“Já está ultrapassado
Coloque-se em seu lugar
É bicho sem importância
Símbolo da ignorância
Não serve mais pra montar”.

“Não queira me humilhar”
– Lhe respondeu o jumento –
“Se você é novidade
A atração do momento
Eu também já fiz sucesso
Já carreguei o progresso
E qual foi meu pagamento?

Jogado no esquecimento
Na maior ingratidão
Abandonado de tudo
Nas estradas do sertão
Só me restam as lembranças
De um tempo de bonança
Sem tristeza e humilhação”

“Já cheguei à conclusão
Que seu tempo é o passado
Fase sem tecnologia
Período muito atrasado
Meu sucesso hoje é tanto
Que estou em todo canto
É moto pra todo lado

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES REPENTISTAS

Elísio Felix da Costa, o Canhotinho, Taperoá – PB (1913-1965)

* * *

Elísio Félix da Costa (Canhotinho)

Sei que hei de morrer um dia
isto é que queira quer não,
mas sei que quando partir
os meus versos ficarão,
passando de boca em boca,
meu nome de mão em mão.

Manoel Galdino Bandeira

Manoel Galdino Bandeira
de São José de Piranha,
dá grito no pé da serra,
chega estremece a montanha,
cantador nas minhas unhas
ou corre ou morre ou apanha.

Pinto do Monteiro

Eu como ando em campanha,
no solo paraibano,
se eu pegar sua bandeira,
queimo a haste e rasgo o pano,
que o remendo menor,
pra costurar leva um ano.

João Furiba

Pinto velho do Monteiro,
de anos tem quase cem,
viveu sem juntar dinheiro,
não vai deixar um vintém,
que o povo da terra dele
não dá a mão a ninguém.

Pinto do Monteiro

Eu conheço muito bem
a sua Taquaritinga:
em cima só tem lajedo
e embaixo é só caatinga,
em cima nunca choveu,
no pé da serra não pinga.

Biu Gomes

O sabiá do sertão
faz coisa que me comove:
passa três meses cantando
e sem cantar passa nove,
como que se preparando,
pra só cantar quando chove.

Job Patriota

No jogo do improviso,
sou artista competente,
traço o baralho dos versos
e sei jogar meu repente,
no pife-pafe das rimas,
ninguém bate em minha frente.

Manoel Soares

Eu sou mais experiente
e você se desapruma,
trace o baralho das rimas,
que eu corto em cima, na ruma,
jogo com dois melés,
você não te nenhuma.

Olívio José de Oliveira

Sou o maior repentista
que pisa neste terreno,
pode chegar qualquer um,
rico, alvo ou moreno,
quando chega aqui é grande,
mas quando sai é pequeno.

Pedro Amorim

Todo cantador pequeno,
pensa que é grande e sabido:
sempre conta que venceu,
nunca diz que foi vencido,
acho que com meu colega,
isto tem acontecido.

Odilon Nunes de Sá

Admiro a mocidade
não querer envelhecer,
velho ninguém quer ficar,
moço ninguém quer morrer,
quem morre moço não vive,
bom e ser velho e viver.

Sebastião da Silva

A casa que morei nela,
que fui feliz com meus pais,
só restam teias de aranha,
cupim roendo os frechais,
é um poema de angústias,
de saudades, nada mais…

Valdir Teles

Só restam mesmo os frechais
e a cumeeira pendida,
um fogão velho de lenha,
a mesa velha encardida,
mas pra mim foi a morada
melhor que eu tive na vida.

Arnaldo Cipriano de Souza

Esta viola bonita,
que eu conduzo em minha frente,
do jeito que ela tem boca,
se tivesse língua e dente,
talvez contasse a metade
da dor que meu peito sente.

José Bernardino de Oliveira

O que diz o cidadão,
nem mesmo um professor sabe,
mesmo este assunto não cabe
na minha compreensão,
não sei se antes de Adão,
esse negócio já vinha,
nem sei se antes já tinha,
ovo, galinha e poleiro,
não sei quem nasceu primeiro,
se ovo, galo ou galinha.

Belarmino de França

Andei a primeira vez,
de quatro pés e depois
comecei a andar de dois,
e hoje ando de três,
mas assim Deus não me fez,
não nasci desta maneira.
Uso este pé de madeira,
por uma necessidade;
oitenta e cinco de idade
não é boa brincadeira.

José Vila Nova (Pai de Ivanildo Vila Nova)

O vício da embriaguez
em meu feitio não mora,
por isso fico de fora,
deste sarau de vocês,
beber a primeira vez,
pra mim é coisa custosa,
vou tomar uma gasosa,
que nada de mal concebe,
aqui só glosa quem bebe,
quem não beber nada glosa.

Otacílio Batista Patriota

Fazer o bem é perdido,
fazer o mal não convém,
entre a maldade e o bem,
quem faz o bem é traído.
Eu não fui compreendido,
quando tive compaixão
de quem me estendia a mão,
desejando ser feliz:
A quem mais favor eu fiz
Só me fez ingratidão.

Manoel Belarmino

No meu tempo de criança,
ou em casa ou no caminho,
quando encontrava um velhinho,
estranho ou da vizinhança,
com a voz humilde e mansa,
dizia “bênção seu Zé”,
e ele na boa fé
dizia: “Deus te abençoe”,
veja o passado o que foi,
veja o presente o que é.

Job Patriota

Estes teus seios pulados,
que estão me desafiando,
são dois carvões faiscando,
no fogão dos meus pecados,
são dois punhais afiados,
que já ferem dois cristãos,
para o meus lábios pagãos,
são dois sapotis maduros,
Quero ver teus seios puros
nas conchas de minhas mãos.

Severino Pinto

Vaqueiro é pra tirar couro,
espichar, fazer correia,
azeitar cabresto e peia,
tirar leite e beber soro,
visitar o logradouro,
curtir couro, fazer sola,
pra rabicho e rabichola,
ferrar gado e capar bode,
Quem é vaqueiro não pode
ser cantador de viola.

José Vicente

Só o presente me diz
tudo que fiz no passado,
caminho certo ou errado,
nas caminhadas que fiz,
só mesmo o destino quis
modificar minha mente,
o corpo velho e doente
mantém as rugas da cara.
A saudade não separa
o passado do presente.

José Alves de Mira-Flor

Disse assim o tentador
Com Jesus na solidão:
Converte pedras em pão,
Tentando a Nosso Senhor,
O Divino Salvador,
Com frases que não se somem,
Mostrou que os justos não comem,
Repelindo o anjo audaz;
Retira-te satanás,
Nem só de pão vive o homem!

Manoel Dodô

Na profissão de carreiro,
eu faço tudo e não deixo,
compro sebo ensebo o eixo,
a canga e o tamoeiro,
sete palmos de fueiro
medidos na minha mão,
uma vara de ferrão,
dois canzis de mororó:
carro de boi e forró
faz eu gostar do sertão.

Arnaldo Cipriano

A mulher do meu encanto
saiu comigo em passeio,
eu guiando um veraneio,
de uísque bebi um tanto,
chegando no bel-recanto,
fomos dar ar no pneu,
a câmara de ar encheu,
no nono mês estourou:
Eu pequei, ela pecou,
mas o culpado fui eu.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

PRAGAS DE PATATIVA DO ASSARÉ E UMA DUPLA EM CANTORIA

Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, Assaré-CE (1909-2002)

ROGANDO PRAGAS – Patativa do Assaré

Dizia o velho Agostinho
que este mundo é cheio de arte
e se encontra em toda parte
pedaços de mau caminho
um pessoal meu vizinho,
sem amor e sem moral,
atrás de fazer o mal,
para feijão cozinhar,
começaram a roubar
as varas do meu quintal.

Toda noite e todo dia
iam as varas roubando
e eu já não suportando
aquela grande anarquia
pois quem era eu não sabia
pra poder denunciar,
com aquele grande azar
vivia de saco cheio,
até que inventei um meio
pra do roubo me livrar.

Eu dei a cada freguês,
com humildade o perdão
e lancei a maldição
em quem roubasse outra vez
e com muita atividez
na minha pena peguei,
umas estrofes rimei
sobre as linhas de uns papéis
rogando pragas cruéis
e lá na cerca botei.

Deus permita que o safado,
sem vergonha ignorante,
que roubar de agora em diante
madeira do meu cercado,
se veja um dia atacado
com um cancro no toitiço,
toda espécie de feitiço
e em cima do mesmo caia
e em cada dedo lhe saia
um olho de panariço.

O santo Deus de Moisés
lhe mande bexiga roxa
saia carbúnculo na coxa,
cravo na sola dos pés,
sofra os incômodos cruéis
da doença hidropisia
icterícia e anemia
tuberculose e diarreia
e a lepra da morfeia
seja a sua companhia.

Deus lhe dê reumatismo
com a sinusite crônica
a sezão, o impaludismo
e os ataques da bubônica,
além de quatro picadas
de quatro cobras danadas
cada qual a mais cruel
de veneno fatal
a urutu, a coral
jararaca e cascavel.

Eu já perdoei bastante
o que puderam roubar,
para ninguém censurar
que sou muito extravagante
mas de agora por diante,
ninguém será perdoado,
Deus queira que cão danado
um dia morda na cara
de quem roubar uma vara
na cerca do meu cercado.

E o que não ouvir o rogo
que faço neste momento
tomara que tenha aumento
como correia ao fogo,
dinheiro em mesa de jogo
e cana no tabuleiro
e no dia derradeiro,
a vela pra sua mão,
seja um pequeno tição
de vara de marmeleiro.

* * *

A grande dupla de poetas repentistas Geraldo Amâncio e Ivanildo Vilanova

* * *

O SERTÃO EM CARNE E ALMA

Ivanildo Vilanova

Uma tarde de inverno no sertão
É um grande espetáculo pra quem passa
Serra envolta nos tufos de fumaça
Água forte rolando pelo chão
O estrondo da máquina do trovão
Entre as nuvens do céu arroxeado
O raio caindo assombra o gado
Atolado por entre as lamas pretas
Rosna o vento fazendo pirueta
Nas espigas de milho do roçado.

Geraldo Amâncio

No sertão quando o chão está molhado
Corre água nas veias de um regato
Pula a onça da furna corre o gato
Um cavalo galopa estropiado
Um garrote atravessa o rio de nado
Uma cobra se acua com um cancão
A cantiga saudosa do carão
Faz lembrar o lugar que fui nascido
Entre as telas do filme colorido
Que Deus fez pra o cinema do sertão.

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UMA GRANDE CANTORIA

Diniz Vitorino

Qualquer dia do ano se eu puder
para o céu eu farei uma jornada
como a lua já está desvirginada
até posso tomá-la por mulher;
e se acaso São Jorge não quiser
eu tomo-lhe o cavalo que ele tem
e se a lua quiser me amar também
dou-lhe um beijo nas tranças do cabelo
deixo o santo com dor de cotovelo
sem cavalo, sem lua e sem ninguém.

* * *

Expedito de Mocinha

Eu nasci e me criei
Aqui nesse pé de serra
Sou filho nato da terra
Daqui nunca me ausentei
Estudei não me formei
Porque meu pai não podia
Jesus filho de Maria
De mim se compadeceu
E como presente me deu
Um crânio com poesia.

* * *

Firmo Batista

Um dia eu estava olhando
a serra Jabitacá
conheci que nela está
a natureza sonhando
o vento passa embalando
o corpo robusto dela
a nuvem cobrindo ela
pingos de orvalho descendo
e o Paraíba dizendo
a minha mãe é aquela.

* * *

Zé Limeira

Eu briguei com um cabra macho
Mas não sei o que se deu:
Eu entrei por dentro dele,
Ele entrou por dentro deu,
E num zuadão daquele
Não sei se eu era ele
Nem sei se ele era eu.

* * *

Marcos Passos

Aos primeiros sinais da invernada,
Logo após longo tempo de estiagem,
Lá da serra, do vale e da barragem
Escutamos os sons da trovoada.
Vislumbrando a campina esverdeada,
Sertanejo se anima igual criança.
Logo mais, quando o mato se balança
E um corisco atravessa o céu nublado,
Cai a chuva no colo do roçado,
Germinando o pendão da esperança.

* * *

Jó Patriota

Na madrugada esquisita
O pescador se aproveita
Vendo a praia como se enfeita
Vendo o mar como se agita
Hora calmo, hora se irrita
Como panteras ou pumas
Depois se desfaz em brumas
Por sobre as duras quebranças
Frágeis, fragílimas danças
De leves flocos de espumas.

* * *

A ARTE DA CANTORIA

Dois ícones da poesia nordestina, os cantadores Otacílio Batista e Oliveira de Panelas improvisam em vários estilos.

Sextilhas, Gemedeira, Mourão-de-sete-pés (trocado), Mourão-de-você-cai, Oito-pés-a-quadrão, Dez-pés-a-quadrão, Martelo-alagoano e Galope-à-beira-mar.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES GLOSAS E UM CLÁSSICO DO CORDEL

Poeta cantador cearense Geraldo Amâncio

* * *

Geraldo Amâncio glosando o mote:

O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

Numa tarde de inverno o céu se agita
Uma nuvem pesada esconde o sol
Aparece relâmpago, caracol
A cascata do rio enche e vomita
Desce raio de fogo o trovão grita
Na cabeça de um grande torreão
Passa o vento entoando uma canção
Que o porão do açude se arrepia
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

Na esperança o campônio se agarra
Do fantasma da seca sente medo
Quando chega o natal, acorda cedo
Para ver se aurora trás a barra
Inimiga da seca é a cigarra
Que só canta no tempo do verão
O profeta do inverno é o carão
Quando está pra chover ele anuncia
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

Quando chove na entrada de janeiro
O riacho transborda e soltam roncos
Lambe os galhos do mato, arrastra troncos
De raízes que encontra em todo aceiro
Passam sapos montado no balseiro
Parecendo um chofer de caminhão
Não dirige, mas dá a impressão
Onde tem um perigo ele desvia
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

No inverno os vaqueiros tangem bois
O roceiro na luta mete a cara
Queima a broca o que sobra faz coivara
Deixa arranca de touco pra depois
Corta a terra na baixa de arroz
Faz remonte de cerca aduba o chão
Abre cova semeia e enterra o grão
Tudo quanto plantar a terra cria
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

* * *

Otacilio Pires glosando o mote:

A saudade maltrata mas não mata ,
Só pra ter o prazer de torturar.

A saudade é esta falta sentida,
Quando a distancia se faz presente.
E o tempo passou, foi inclemente,
E esta ausência maior é tão doída.
Saudade é esta dor mais incontida,
Que em nada se pode superar ,
A esperança se faz em esperar
E esta espera parece tão ingrata…
A saudade maltrata, mas não mata,
Só pra ter o prazer de torturar.

* * *

Louro do Pajeú glosando o mote:

Quem casa faz uma cruz
pra morrer cravado nela.

Jesus não morreu tão moço
mas nunca quis companheira,
quis uma cruz de madeira,
porém, não de carne e osso.
Não lhe seduziu o esboço
do perfil da mulher bela,
não deu tais honras a ela,
sabido só foi Jesus.
Quem casa faz uma cruz
pra morrer cravado nela.

* * *

Otacílio Pires glosando o mote:

Tudo o que há de beleza
Deus colocou no Sertão .

Uma flor de açucena,
Uma noite enluarada,
Orvalho da madrugada,
Um som duma cantilena.
A beleza da pele morena
Queimada de insolação.
Leito de rio em rachão
Sertão de muita dureza
Mas no fim a certeza:
Tudo o que há de beleza
Deus colocou no Sertão.

* * *

UMA VIAGEM AO CÉU – Leandro Gomes de Barros

Uma vez eu era pobre
Vivia sempre atrasado
Botei um negócio bom
Porém vendi-o fiado
Um dia até emprestei
O livro do apurado.

Dei a balança de esmola
E fiz lenha do balcão
Desmanchei as prateleiras
Fiz delas um marquezão
Porém roubaram-me a cama
Fiquei dormindo no chão.

Estava pensando na vida
Como havia de passar
Não tinha mais um vintém
Nem jeito de trabalhar
O marinheiro da venda
Não queria mais fiar.

Pus a mão sobre a cabeça
Fiquei pensando na vida
Quando do lado do céu
Chegou uma alma perdida
Perguntou : – Era o senhor
Que aí vendia bebida?

Eu disse que era eu mesmo
E a venda estava quebrada
Mas se queria um pouquinho
Ainda tinha guardada
Obra de uns dois garrafões
De aguardente imaculada.

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRES DO IMPROVISO

João Furiba

Se você quiser ter sorte
na sua mercearia,
coloque uma etiqueta
em cada mercadoria
e ponha meu nome nela
que conquista a freguesia.

Pinto do Monteiro

Triste da mercadoria
que nela tiver seu nome!
Pode vir um guabiru
Com oito dias de fome,
Caga o pão, mija no queijo,
Passa por cima e não come.

* * *

João Paraibano

Os vegetais estremecem
Na hora que o vento espoca,
Um bezerra se alimenta
Na vaca da ponta oca,
Com o leite morno descendo
Pelos dois cantos da boca.

Sebastião Dias

A serra usa uma touca,
De noite, de um modo estranho,
O capim pangola roça
Na barriga do rebanho
E a noite espreme uma nuvem
Pra o morro tomar um banho.

João Paraibano

É aqui que o cabeçalho
machuca um boi preguiçoso;
neste arvoredo canta
um pássaro melodioso
e o arroto de uma vaca
deixa o curral mais cheiroso.

Sebastião Dias

É quando o boi preguiçoso
Vem marchando pros currais,
Lambe o queixo pela frente,
Balança a cauda por trás,
Pra ver se alcança no canto
Dos calos que a canga faz.

* * *

Diniz Vitorino

Eu vou defender a morte
Mas tô conformado ainda
A ida pro túmulo é certa
E é quase impossível a vinda
O que começa termina
Tudo que nasce se finda.

Ivanildo Vilanova

A vida é praia de Olinda
É vagalhão que se agita
A morte é caixão quebrado
É trava e cova esquisita
Bocado que o mundo enjeita
Osso que o mundo vomita.

Diniz Vitorino

Eu sei que a vida é bonita
Mas à morte eu dou cartaz
Que a vida quer ir pra frente
A morte puxa pra trás
A vida quer mais não foge
Dos cercos que a morte faz.

Ivanildo Vilanova

Mesmo a vida ruim demais
De sobressalto e sobrosso
Todos querem morrer velho
Que ninguém quer morrer moço
Com uma bala no crânio
E uma corda no pescoço.

Diniz Vitorino

Pertinho de um calabouço
A vida faz seu império
A morte chega e transforma
Ouro fino em pó funéreo
Roupa rasgada em mortalha
E palacete em cemitério.

Ivanildo Vilanova

Mas a vida tem mistério
Todo mundo quer viver
Um velho de oitenta anos
Tendo riqueza e poder
Contrata os médicos do mundo
Faz força pra não morrer.

Diniz Vitorino

A morte me dá prazer
Que eu a morte já conheço
Tira a fatura dos débitos
Mostra a nota, cobra o preço
No fim o cliente paga
O tributo do começo.

Ivanildo Vilanova

A vida tem tanto apreço
Que quem adoece pende
Vai pra médico e hospital
Gasta, mas não se arrepende
Que só não se compra a morte
Porque ela não se vende.

Diniz Vitorino

Dela ninguém se defende
Que a morte não faz tolice
Se ela não viesse logo
Talvez que o povo sentisse
A morte é muito melhor
Do que a dor da velhice.

Ivanildo Vilanova

A morte tem mais sentidos
Que é perversa demais
Se não existisse morte
Barco não perdia o cais
Não tinha viúva só
Nem filho longe dos pais.

Diniz Vitorino

Neste mundo sem cartaz
Se as raças são pervertidas
Se as gerações futuras
Serão mais desenvolvidas
É justo que haja mortes
Pra que surjam novas vidas.

Ivanildo Vilanova

Vida tem riso e bebida
Embora tenha pecado
Porque se não fosse a morte
Caixão não era comprado
Coveiro não tinha emprego
E cemitério era fechado.

Diniz Vitorino

Pra quem vive sem pecado
A morte não é cruel
Se não morresse Izaias
Balaão, nem Daniel
Não nasceria Jesus
Pra salvação de Israel.

Ivanildo Vilanova

A vida é taça de mel
Que todo mundo aprecia
Porque se não fosse a morte
Não tinha casa vazia
Caneta não tinha preço
Mortalha, a traça comia.

Diniz Vitorino

A morte é mulher liberta
Pra mim tem boas condutas
Se Cleópatra não morresse
Nas presas das cobras brutas
Hoje o Egito seria
Um reino de prostitutas.

Ivanildo Vilanova

A vida tem boas frutas
Baladas, canto e procela
Mesmo se não fosse a morte
Não tinha tristeza nela
Padre não ganhava nota
Cêra não queimava vela.

Diniz Vitorino

A morte não tem preguiça
Nem trava lutas perdidas
Se Helena rainha falsa
Tivesse um milhão de vidas
Quantas cidades troianas
Não seriam destruídas.

Ivanildo Vilanova

Porém faz coisas erradas
Aviso com alegria
Se Lampião fosse vivo
Com a sua pontaria
Muito cabra sem-vergonha
Pagava o que me devia.

Diniz Vitorino

Muito prazer eu teria
Se a morte desse fim
Ao velho Anuar Sadat
Fidel Castro, Idi Amin
Ivanildo Vilanova
Mas esquecesse de mim.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES POETAS POPULARES E UM CORDEL SOBRE JESUS CRISTO

Lourival Batista Patriota (Louro do Pajeú)

Um cientista profundo
perguntou-me certa vez,
se eu conhecia os três
desmantelos deste mundo.
Eu respondi num segundo:
Doido, mulher e ladrão.
E disse mais a razão:
doido não tem paciência,
ladrão não tem consciência,
mulher não tem coração.

Serra Branca

Limeira meu negro velho,
você está em perigo:
um homem de sua idade,
quando vem cantar comigo,
só corta por onde eu risco,
só engole o que eu mastigo.

Zé Limeira

Você cantando comigo,
o sacrifício é maior:
porque não canta improviso
nem sabe nada de cor,
quanto mais você se apura,
mais eu lhe acho pior.

Otávio Pinheiro Filho

Teus olhos acastanhados,
tua boca angelical,
teu sorriso sensual
e teus lábios carminados,
teus cabelos ondulados,
tudo em perfeita harmonia,
tudo teu tem poesia
e me provoca o desejo
profundo de dar-te um beijo.
Deixa beijar-te Maria.

José Alves Sobrinho

Brasil de caracaxá,
do quengo, do cacareco,
do fole, do reco-reco,
do pandeiro, do ganzá,
do chibé, do aluá,
baião de dois, rubacão,
da farofa, do pirão,
da tapioca de coco,…
Este é Brasil de cabôco,
de mãe preta e pai João.

Cantando sempre vivi,
o cantar me dá prazer,
cantando hei de morrer,
porque chorando nasci,
chorando sempre perdi,
quero cantar até quando
Deus quiser, sempre sonhando,
sem gemer e sem chorar,
Cantando hei de encontrar
tudo que perdi chorando.

Dois aniversariantes,
em idades diferentes:
o pai está entre os adultos,
o filho entre os inocentes,
o pai mudando os cabelos,
o filho mudando os dentes.

* * *

OS SOFRIMENTOS DE JESUS CRISTO – José Pacheco

Oh Jesus meu Redentor
dos altos Céus infinitos
abençoai meus escritos
por vosso divino amor
leciona um trovador
com divina inspiração
para que vossa paixão
seja descrita em clamores
desde o princípio das dores
até a ressurreição.

Dentro do Livro Sagrado
São Marcos com perfeição
nos faz a revelação
de Jesus crucificado
foi preso e foi arrastado
cuspido pelos judeus
por um apóstolo dos seus
covardemente vendido
viu-se amarrado e ferido
nas cordas dos fariseus.

Dantes predisse o Senhor
meus discípulos me rodeiam
e todos comigo ceiam
mas um me é traidor
só a mão do pecador
meu corpo ao suplício vai
porém vos digo que vai
do homem que por dinheiro
transforma-se traiçoeiro
contra o Filho de Deus Pai.

Todos na mesa consigo
clamavam em alta voz
Senhor, Senhor qual de nós
vos trai dos que estão contigo
disse Cristo: é quem comigo
juntamente molha o pão
e todos me deixarão
mas São Pedro respondeu
mestre garanto que eu
não vos deixarei de mão.

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM MOTE BEM GLOSADO E UM CORDEL DE DISCUSSÃO

A grande dupla de poetas repentistas Ivanildo Vilanova e Valdir Teles (1956-2020)

* * *

Valdir Teles e Ivanildo Vilanova glosando o mote:

Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Valdir Teles

Logo após ser eleito está mudado,
cada um tem direito a secretária,
segurança, assessor, estagiária,
gabinete com ar condicionado,
vai lembrar-se do proletariado,
com favela e cortiço pra viver,
ou será que não vai se aborrecer,
com esgoto, favela, lodo e grude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Ivanildo Vilanova

Pode ser um sujeito agitador,
boia-fria, sem terra, piqueteiro,
camarada, comuna, companheiro,
se um dia tornar-se senador,
vindo até se eleger governador,
qual será o seu novo proceder,
vai mudar, vai mentir ou vai manter
as promessas que fez de forma rude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Valdir Teles

No período que um adolescente,
quer mudar o planeta e o país,
através dos arroubos juvenis,
vira líder, orador e dirigente,
mas se um dia ele sair presidente,
o que foi nunca mais poderá ser,
aí diz que o remédio é esquecer
as loucuras que fez na juventude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Ivanildo Vilanova

Todo jovem, a princípio é sectário,
atuante, grevista, condutor,
antagônico, exaltado, pregador,
um perfeito revolucionário,
cresce, casa e se torna secretário,
veja aí o que trata de fazer,
leva logo a família a conhecer
Disneylândia, Washington e Hollywood.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Valdir Teles

Quem vivia de luta e de vigília,
invasão, pichamento e barricada,
através disso aí fez a escada,
pra chegar aos tapetes de Brasília,
vai pensar no progresso da família,
no que faz pra do posto não descer,
nunca falta quem queira se vender,
sempre acha covarde que lhe ajude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

* * *

DISCUSSÃO DE JOÃO FORMIGA COM FRANCISCO PARAFUSO – Severino Borges da Silva

Estava João Formiga
Versejando alegremente
Nas terras do Ceará
Quando chegou de repente
Um cantor do Mato Grosso
Quase tonto de aguardente

Chegou na sala e saudou
A todo o povo primeiro
E disse a João Formiga:
– Vá sabendo cavalheiro
Sou Francisco Parafuso
Dou certo em todo tempero

O dono da casa disse:
– Pois então, meu camarada
Você canta com Formiga
Uma discussão pesada
Se ganhar leva o dinheiro
Se perder não leva nada

– Porém eu vou dar um tema
Com estilos naturais
Para Formiga dizer
Com bases fundamentais
Sem errar nem dar um tombo
Nem bebo, nem fumo mais

E Parafuso responde
Para se ouvir e ver
Defendendo a aguardente
Durante enquanto viver
E dizer no fim do verso
Bebo e fumo até morrer

Formiga

Meu amigo Parafuso
Agora vou lhe dizer
Deus me livre de beber
Fumar eu também não uso
Do fumo eu tomei abuso
Porque nada bom não traz
Pois quando eu era rapaz
Quase o fumo me liquida
Enquanto Deus der-me vida
Nem bebo, nem fumo mais

Parafuso

Você é um inocente
Fumar é uma beleza
O fumo tira a tristeza
Fica a pessoa contente
O suco da aguardente
Ao homem dá bom prazer
Portanto posso dizer
Com pensamento profundo
Enquanto eu viver no mundo
Bebo e fumo até morrer

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

HOMENAGEM AO REI PELÉ

Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, Três Corações-MG (1940-2022)

* * *

PELÉ – O REI DO FUTEBOL – Joabnascimento

Ele foi o Rei da bola,
Nos gramados deu olé,
Foi um gênio incomparável,
Levando a bola no pé,
Edson Arantes do Nascimento,
Foi morar no firmamento,
Nosso amado “Rei Pelé”.

Nos gramados desfilava,
A sua arte refinada,
Com o pensamento rápido,
Toda zaga era driblada,
Dribles extraordinários,
Massacraram adversários,
Sem poderem fazer nada.

Nasceu em Minas Gerais,
Aquele menino arteiro,
Sempre ele foi bom de bola,
Muito hábil e ligeiro,
Nos campos improvisados,
Com seus dribles e gingados,
Fazia gol, o tempo inteiro.

Ganhou 3 copas do mundo,
Todo mundo ele encantou,
Recebeu título de Rei,
No globo se eternizou,
Um ser muito conhecido,
Na terra é reconhecido,
Por tudo que ele jogou.

Depois qu’ele apareceu,
O futebol foi mudado,
Depois de 58,
No trono foi coroado,
Brilhante que nem o sol,
Como Rei do futebol,
Pelé foi eternizado.

O seu nome virou lenda,
É símbolo de qualidade,
Quando você vira craque,
Em uma especialidade,
De Pelé, nós o chamamos,
Até o glorificamos,
Como grande autoridade.

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MOTES, GRANDE GLOSAS E UM CORDEL DE DALINHA CATUNDA

O cearense Geraldo Amâncio e o paraibano Severino Feitosa, dois dos maiores nomes da cantoria nordestina na atualidade

* * *

Geraldo Amâncio e Severino Feitosa glosando o mote:

Se eu fosse Jesus, o Nazareno,
não matava o poeta cantador.

Geraldo Amâncio

Vem Geraldo que eu tenho muita fé,
me pediu que eu fizesse esses arranjos,
conterrâneo de Augusto dos Anjos,
que é nascido na terra de Sapé,
vem dizer o poeta como é,
é pra ele um eterno sonhador,
um artista de invejável valor,
comunica seu dom nesse terreno.
Se eu fosse Jesus, o Nazareno,
não matava o poeta cantador.

Severino Feitosa

Se eu tivesse o poder do soberano,
não tirava da terra um Oliveira,
um Geraldo, um Valdir e um Bandeira,
Moacir, nem Raimundo Caetano,
Sebastião nem João Paraibano,
e muitos outros que têm tanto valor,
não tirava a garganta de tenor
de quem tem esse seu direito pleno.
Se eu fosse Jesus, o Nazareno,
não matava o poeta cantador.

Geraldo Amâncio

Sei que um carro virou numa ladeira,
já passei para o mundo essa mensagem,
pois eu ia também nessa viagem
que a morte levou nosso Ferreira,
eu me vi na viagem derradeira,
eu gritei por sentir a grande dor,
foi a morte que fez esse terror,
de levar nosso astro, esse moreno.
Se eu fosse Jesus, o Nazareno,
não matava o poeta cantador.

Severino Feitosa

Se Xudu decantou o santo hino,
da maneira que foi Zezé Lulu,
não esqueço Louro do Pajeú,
Rio Grande, recorda Severino,
Pernambuco, também, José Faustino,
que foi um repentista de valor,
Paraíba não esquece Serrador
e Santa Cruz não esquece de Heleno.
Se eu fosse Jesus, o Nazareno,
não matava o poeta cantador.

Geraldo Amâncio

Quem já foi Juvenal Evangelista,
um encanto pra o nosso Ceará,
mas morreu encostado ao Amapá
e se encontra com os irmãos Batista,
desse povo que tem na minha lista,
Pinto velho pra mim foi um terror,
eu não posso esquecer um Beija-Flor,
e Pajeú inda lembra Zé Pequeno.
Se eu fosse Jesus, o Nazareno,
não matava o poeta cantador.

* * *

Roberto Macena e Zé Vicente glosando o mote:

Velhice, um prêmio divino
Que Deus oferece à gente

Roberto Macena

Eu perdi minha beleza,
Mas não vou fugir da ética.
Que eu mudei a minha estética
Por conta da natureza.
Mesmo assim, não há tristeza,
Que eu não fico decadente:
Tô mais é experiente
Que com isso, não amofino.
Velhice, um prêmio divino
Que Deus oferece à gente.

Zé Vicente

Vovô muito me encanta,
É meu verdadeiro mestre.
Morando em área silvestre,
Mas sempre me acalanta.
Se eu sofrer da garganta,
Ainda canto repente.
Meu avô estando presente,
Ele é meu otorrino.
Velhice, um prêmio divino
Que Deus oferece à gente.

Roberto Macena

Não adianta fazer prece
Nem usar agilidade,
Que, quando passa a idade,
Tudo de ruim acontece
O que é de nervo amolece,
Fica tudo diferente:
Dói a perna, dói o dente
E o cabra fica mofino.
Velhice é um prêmio divino
Que Deus oferece à gente.

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Sebastião Dias e Zé Viola glosando o mote:

Existe um dicionário
Na mente do cantador

Sebastião Dias

Existe um Deus que controla
A mente de um repentista
Que nasceu pra ser artista
Do oitão da fazendola
É o homem da viola
Nascido no interior
Nem precisa professor
Pra ser extraordinário
Existe um dicionário
Na mente do cantador

Zé Viola

Acumulo cada ano
Cantando mares e terra
Paz, conflito, briga e guerra
Peixe, céu e oceano
A viola é o piano
O povo é meu instrutor
O palco me traz calor
E o cachê é meu salário
Existe um dicionário
Na mente do cantador

* * *

AS HERDEIRAS DE MARIA – Dalinha Catunda

Começa assim a história
Do folheto feminino:
A mulher com sua manha,
Território o nordestino,
Com patriarcado vil,
Montou-se então um ardil,
Pra traçar nosso destino.

Lá pra mil e novecentos,
E trinta e oito asseguro,
Foi que a mulher editou,
E plantou para o futuro,
O folheto feminino,
Com o nome masculino,
Que hoje aqui emolduro.

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