DISCUSSÃO DE UM JUMENTO COM UMA MOTO – Edson Francisco
Nas quebradas do sertão Já vi tudo acontecer Vi homem virar mulher Gente morta envivecer Já vi alma frente a frente Vi matuto presidente Cabra valente morrer
Quero contar pra você Um raro acontecimento: Eu vi uma motocicleta Discutir com um jumento Você pode duvidar Mas queira me escutar Pra ver se tem cabimento
Vinha naquele momento A caminho da cidade Em cima de minha moto A toda velocidade Quando, me sentindo mal, Parei em um matagal Pra fazer necessidade
Realizada a vontade Eu ouvi um burburinho Eram vozes na estrada Bem no meio do caminho Pensando que era ladrão Me deitei ali no chão E fui ouvindo tudinho:
“Você é um coitadinho” Ouvi a moto falar. “Já está ultrapassado Coloque-se em seu lugar É bicho sem importância Símbolo da ignorância Não serve mais pra montar”.
“Não queira me humilhar” – Lhe respondeu o jumento – “Se você é novidade A atração do momento Eu também já fiz sucesso Já carreguei o progresso E qual foi meu pagamento?
Jogado no esquecimento Na maior ingratidão Abandonado de tudo Nas estradas do sertão Só me restam as lembranças De um tempo de bonança Sem tristeza e humilhação”
“Já cheguei à conclusão Que seu tempo é o passado Fase sem tecnologia Período muito atrasado Meu sucesso hoje é tanto Que estou em todo canto É moto pra todo lado
Elísio Felix da Costa, o Canhotinho, Taperoá – PB (1913-1965)
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Elísio Félix da Costa (Canhotinho)
Sei que hei de morrer um dia isto é que queira quer não, mas sei que quando partir os meus versos ficarão, passando de boca em boca, meu nome de mão em mão.
Manoel Galdino Bandeira
Manoel Galdino Bandeira de São José de Piranha, dá grito no pé da serra, chega estremece a montanha, cantador nas minhas unhas ou corre ou morre ou apanha.
Pinto do Monteiro
Eu como ando em campanha, no solo paraibano, se eu pegar sua bandeira, queimo a haste e rasgo o pano, que o remendo menor, pra costurar leva um ano.
João Furiba
Pinto velho do Monteiro, de anos tem quase cem, viveu sem juntar dinheiro, não vai deixar um vintém, que o povo da terra dele não dá a mão a ninguém.
Pinto do Monteiro
Eu conheço muito bem a sua Taquaritinga: em cima só tem lajedo e embaixo é só caatinga, em cima nunca choveu, no pé da serra não pinga.
Biu Gomes
O sabiá do sertão faz coisa que me comove: passa três meses cantando e sem cantar passa nove, como que se preparando, pra só cantar quando chove.
Job Patriota
No jogo do improviso, sou artista competente, traço o baralho dos versos e sei jogar meu repente, no pife-pafe das rimas, ninguém bate em minha frente.
Manoel Soares
Eu sou mais experiente e você se desapruma, trace o baralho das rimas, que eu corto em cima, na ruma, jogo com dois melés, você não te nenhuma.
Olívio José de Oliveira
Sou o maior repentista que pisa neste terreno, pode chegar qualquer um, rico, alvo ou moreno, quando chega aqui é grande, mas quando sai é pequeno.
Pedro Amorim
Todo cantador pequeno, pensa que é grande e sabido: sempre conta que venceu, nunca diz que foi vencido, acho que com meu colega, isto tem acontecido.
Odilon Nunes de Sá
Admiro a mocidade não querer envelhecer, velho ninguém quer ficar, moço ninguém quer morrer, quem morre moço não vive, bom e ser velho e viver.
Sebastião da Silva
A casa que morei nela, que fui feliz com meus pais, só restam teias de aranha, cupim roendo os frechais, é um poema de angústias, de saudades, nada mais…
Valdir Teles
Só restam mesmo os frechais e a cumeeira pendida, um fogão velho de lenha, a mesa velha encardida, mas pra mim foi a morada melhor que eu tive na vida.
Arnaldo Cipriano de Souza
Esta viola bonita, que eu conduzo em minha frente, do jeito que ela tem boca, se tivesse língua e dente, talvez contasse a metade da dor que meu peito sente.
José Bernardino de Oliveira
O que diz o cidadão, nem mesmo um professor sabe, mesmo este assunto não cabe na minha compreensão, não sei se antes de Adão, esse negócio já vinha, nem sei se antes já tinha, ovo, galinha e poleiro, não sei quem nasceu primeiro, se ovo, galo ou galinha.
Belarmino de França
Andei a primeira vez, de quatro pés e depois comecei a andar de dois, e hoje ando de três, mas assim Deus não me fez, não nasci desta maneira. Uso este pé de madeira, por uma necessidade; oitenta e cinco de idade não é boa brincadeira.
José Vila Nova (Pai de Ivanildo Vila Nova)
O vício da embriaguez em meu feitio não mora, por isso fico de fora, deste sarau de vocês, beber a primeira vez, pra mim é coisa custosa, vou tomar uma gasosa, que nada de mal concebe, aqui só glosa quem bebe, quem não beber nada glosa.
Otacílio Batista Patriota
Fazer o bem é perdido, fazer o mal não convém, entre a maldade e o bem, quem faz o bem é traído. Eu não fui compreendido, quando tive compaixão de quem me estendia a mão, desejando ser feliz: A quem mais favor eu fiz Só me fez ingratidão.
Manoel Belarmino
No meu tempo de criança, ou em casa ou no caminho, quando encontrava um velhinho, estranho ou da vizinhança, com a voz humilde e mansa, dizia “bênção seu Zé”, e ele na boa fé dizia: “Deus te abençoe”, veja o passado o que foi, veja o presente o que é.
Job Patriota
Estes teus seios pulados, que estão me desafiando, são dois carvões faiscando, no fogão dos meus pecados, são dois punhais afiados, que já ferem dois cristãos, para o meus lábios pagãos, são dois sapotis maduros, Quero ver teus seios puros nas conchas de minhas mãos.
Severino Pinto
Vaqueiro é pra tirar couro, espichar, fazer correia, azeitar cabresto e peia, tirar leite e beber soro, visitar o logradouro, curtir couro, fazer sola, pra rabicho e rabichola, ferrar gado e capar bode, Quem é vaqueiro não pode ser cantador de viola.
José Vicente
Só o presente me diz tudo que fiz no passado, caminho certo ou errado, nas caminhadas que fiz, só mesmo o destino quis modificar minha mente, o corpo velho e doente mantém as rugas da cara. A saudade não separa o passado do presente.
José Alves de Mira-Flor
Disse assim o tentador Com Jesus na solidão: Converte pedras em pão, Tentando a Nosso Senhor, O Divino Salvador, Com frases que não se somem, Mostrou que os justos não comem, Repelindo o anjo audaz; Retira-te satanás, Nem só de pão vive o homem!
Manoel Dodô
Na profissão de carreiro, eu faço tudo e não deixo, compro sebo ensebo o eixo, a canga e o tamoeiro, sete palmos de fueiro medidos na minha mão, uma vara de ferrão, dois canzis de mororó: carro de boi e forró faz eu gostar do sertão.
Arnaldo Cipriano
A mulher do meu encanto saiu comigo em passeio, eu guiando um veraneio, de uísque bebi um tanto, chegando no bel-recanto, fomos dar ar no pneu, a câmara de ar encheu, no nono mês estourou: Eu pequei, ela pecou, mas o culpado fui eu.
Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, Assaré-CE (1909-2002)
ROGANDO PRAGAS – Patativa do Assaré
Dizia o velho Agostinho que este mundo é cheio de arte e se encontra em toda parte pedaços de mau caminho um pessoal meu vizinho, sem amor e sem moral, atrás de fazer o mal, para feijão cozinhar, começaram a roubar as varas do meu quintal.
Toda noite e todo dia iam as varas roubando e eu já não suportando aquela grande anarquia pois quem era eu não sabia pra poder denunciar, com aquele grande azar vivia de saco cheio, até que inventei um meio pra do roubo me livrar.
Eu dei a cada freguês, com humildade o perdão e lancei a maldição em quem roubasse outra vez e com muita atividez na minha pena peguei, umas estrofes rimei sobre as linhas de uns papéis rogando pragas cruéis e lá na cerca botei.
Deus permita que o safado, sem vergonha ignorante, que roubar de agora em diante madeira do meu cercado, se veja um dia atacado com um cancro no toitiço, toda espécie de feitiço e em cima do mesmo caia e em cada dedo lhe saia um olho de panariço.
O santo Deus de Moisés lhe mande bexiga roxa saia carbúnculo na coxa, cravo na sola dos pés, sofra os incômodos cruéis da doença hidropisia icterícia e anemia tuberculose e diarreia e a lepra da morfeia seja a sua companhia.
Deus lhe dê reumatismo com a sinusite crônica a sezão, o impaludismo e os ataques da bubônica, além de quatro picadas de quatro cobras danadas cada qual a mais cruel de veneno fatal a urutu, a coral jararaca e cascavel.
Eu já perdoei bastante o que puderam roubar, para ninguém censurar que sou muito extravagante mas de agora por diante, ninguém será perdoado, Deus queira que cão danado um dia morda na cara de quem roubar uma vara na cerca do meu cercado.
E o que não ouvir o rogo que faço neste momento tomara que tenha aumento como correia ao fogo, dinheiro em mesa de jogo e cana no tabuleiro e no dia derradeiro, a vela pra sua mão, seja um pequeno tição de vara de marmeleiro.
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A grande dupla de poetas repentistas Geraldo Amâncio e Ivanildo Vilanova
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O SERTÃO EM CARNE E ALMA
Ivanildo Vilanova
Uma tarde de inverno no sertão É um grande espetáculo pra quem passa Serra envolta nos tufos de fumaça Água forte rolando pelo chão O estrondo da máquina do trovão Entre as nuvens do céu arroxeado O raio caindo assombra o gado Atolado por entre as lamas pretas Rosna o vento fazendo pirueta Nas espigas de milho do roçado.
Geraldo Amâncio
No sertão quando o chão está molhado Corre água nas veias de um regato Pula a onça da furna corre o gato Um cavalo galopa estropiado Um garrote atravessa o rio de nado Uma cobra se acua com um cancão A cantiga saudosa do carão Faz lembrar o lugar que fui nascido Entre as telas do filme colorido Que Deus fez pra o cinema do sertão.
Qualquer dia do ano se eu puder para o céu eu farei uma jornada como a lua já está desvirginada até posso tomá-la por mulher; e se acaso São Jorge não quiser eu tomo-lhe o cavalo que ele tem e se a lua quiser me amar também dou-lhe um beijo nas tranças do cabelo deixo o santo com dor de cotovelo sem cavalo, sem lua e sem ninguém.
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Expedito de Mocinha
Eu nasci e me criei Aqui nesse pé de serra Sou filho nato da terra Daqui nunca me ausentei Estudei não me formei Porque meu pai não podia Jesus filho de Maria De mim se compadeceu E como presente me deu Um crânio com poesia.
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Firmo Batista
Um dia eu estava olhando a serra Jabitacá conheci que nela está a natureza sonhando o vento passa embalando o corpo robusto dela a nuvem cobrindo ela pingos de orvalho descendo e o Paraíba dizendo a minha mãe é aquela.
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Zé Limeira
Eu briguei com um cabra macho Mas não sei o que se deu: Eu entrei por dentro dele, Ele entrou por dentro deu, E num zuadão daquele Não sei se eu era ele Nem sei se ele era eu.
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Marcos Passos
Aos primeiros sinais da invernada, Logo após longo tempo de estiagem, Lá da serra, do vale e da barragem Escutamos os sons da trovoada. Vislumbrando a campina esverdeada, Sertanejo se anima igual criança. Logo mais, quando o mato se balança E um corisco atravessa o céu nublado, Cai a chuva no colo do roçado, Germinando o pendão da esperança.
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Jó Patriota
Na madrugada esquisita O pescador se aproveita Vendo a praia como se enfeita Vendo o mar como se agita Hora calmo, hora se irrita Como panteras ou pumas Depois se desfaz em brumas Por sobre as duras quebranças Frágeis, fragílimas danças De leves flocos de espumas.
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A ARTE DA CANTORIA
Dois ícones da poesia nordestina, os cantadores Otacílio Batista e Oliveira de Panelas improvisam em vários estilos.
Sextilhas, Gemedeira, Mourão-de-sete-pés (trocado), Mourão-de-você-cai, Oito-pés-a-quadrão, Dez-pés-a-quadrão, Martelo-alagoano e Galope-à-beira-mar.
O nordeste se enche de alegria Na chegada da chuva no sertão.
Numa tarde de inverno o céu se agita Uma nuvem pesada esconde o sol Aparece relâmpago, caracol A cascata do rio enche e vomita Desce raio de fogo o trovão grita Na cabeça de um grande torreão Passa o vento entoando uma canção Que o porão do açude se arrepia O nordeste se enche de alegria Na chegada da chuva no sertão.
Na esperança o campônio se agarra Do fantasma da seca sente medo Quando chega o natal, acorda cedo Para ver se aurora trás a barra Inimiga da seca é a cigarra Que só canta no tempo do verão O profeta do inverno é o carão Quando está pra chover ele anuncia O nordeste se enche de alegria Na chegada da chuva no sertão.
Quando chove na entrada de janeiro O riacho transborda e soltam roncos Lambe os galhos do mato, arrastra troncos De raízes que encontra em todo aceiro Passam sapos montado no balseiro Parecendo um chofer de caminhão Não dirige, mas dá a impressão Onde tem um perigo ele desvia O nordeste se enche de alegria Na chegada da chuva no sertão.
No inverno os vaqueiros tangem bois O roceiro na luta mete a cara Queima a broca o que sobra faz coivara Deixa arranca de touco pra depois Corta a terra na baixa de arroz Faz remonte de cerca aduba o chão Abre cova semeia e enterra o grão Tudo quanto plantar a terra cria O nordeste se enche de alegria Na chegada da chuva no sertão.
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Otacilio Pires glosando o mote:
A saudade maltrata mas não mata , Só pra ter o prazer de torturar.
A saudade é esta falta sentida, Quando a distancia se faz presente. E o tempo passou, foi inclemente, E esta ausência maior é tão doída. Saudade é esta dor mais incontida, Que em nada se pode superar , A esperança se faz em esperar E esta espera parece tão ingrata… A saudade maltrata, mas não mata, Só pra ter o prazer de torturar.
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Louro do Pajeú glosando o mote:
Quem casa faz uma cruz pra morrer cravado nela.
Jesus não morreu tão moço mas nunca quis companheira, quis uma cruz de madeira, porém, não de carne e osso. Não lhe seduziu o esboço do perfil da mulher bela, não deu tais honras a ela, sabido só foi Jesus. Quem casa faz uma cruz pra morrer cravado nela.
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Otacílio Pires glosando o mote:
Tudo o que há de beleza Deus colocou no Sertão .
Uma flor de açucena, Uma noite enluarada, Orvalho da madrugada, Um som duma cantilena. A beleza da pele morena Queimada de insolação. Leito de rio em rachão Sertão de muita dureza Mas no fim a certeza: Tudo o que há de beleza Deus colocou no Sertão.
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UMA VIAGEM AO CÉU – Leandro Gomes de Barros
Uma vez eu era pobre Vivia sempre atrasado Botei um negócio bom Porém vendi-o fiado Um dia até emprestei O livro do apurado.
Dei a balança de esmola E fiz lenha do balcão Desmanchei as prateleiras Fiz delas um marquezão Porém roubaram-me a cama Fiquei dormindo no chão.
Estava pensando na vida Como havia de passar Não tinha mais um vintém Nem jeito de trabalhar O marinheiro da venda Não queria mais fiar.
Pus a mão sobre a cabeça Fiquei pensando na vida Quando do lado do céu Chegou uma alma perdida Perguntou : – Era o senhor Que aí vendia bebida?
Eu disse que era eu mesmo E a venda estava quebrada Mas se queria um pouquinho Ainda tinha guardada Obra de uns dois garrafões De aguardente imaculada.
Se você quiser ter sorte na sua mercearia, coloque uma etiqueta em cada mercadoria e ponha meu nome nela que conquista a freguesia.
Pinto do Monteiro
Triste da mercadoria que nela tiver seu nome! Pode vir um guabiru Com oito dias de fome, Caga o pão, mija no queijo, Passa por cima e não come.
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João Paraibano
Os vegetais estremecem Na hora que o vento espoca, Um bezerra se alimenta Na vaca da ponta oca, Com o leite morno descendo Pelos dois cantos da boca.
Sebastião Dias
A serra usa uma touca, De noite, de um modo estranho, O capim pangola roça Na barriga do rebanho E a noite espreme uma nuvem Pra o morro tomar um banho.
João Paraibano
É aqui que o cabeçalho machuca um boi preguiçoso; neste arvoredo canta um pássaro melodioso e o arroto de uma vaca deixa o curral mais cheiroso.
Sebastião Dias
É quando o boi preguiçoso Vem marchando pros currais, Lambe o queixo pela frente, Balança a cauda por trás, Pra ver se alcança no canto Dos calos que a canga faz.
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Diniz Vitorino
Eu vou defender a morte Mas tô conformado ainda A ida pro túmulo é certa E é quase impossível a vinda O que começa termina Tudo que nasce se finda.
Ivanildo Vilanova
A vida é praia de Olinda É vagalhão que se agita A morte é caixão quebrado É trava e cova esquisita Bocado que o mundo enjeita Osso que o mundo vomita.
Diniz Vitorino
Eu sei que a vida é bonita Mas à morte eu dou cartaz Que a vida quer ir pra frente A morte puxa pra trás A vida quer mais não foge Dos cercos que a morte faz.
Ivanildo Vilanova
Mesmo a vida ruim demais De sobressalto e sobrosso Todos querem morrer velho Que ninguém quer morrer moço Com uma bala no crânio E uma corda no pescoço.
Diniz Vitorino
Pertinho de um calabouço A vida faz seu império A morte chega e transforma Ouro fino em pó funéreo Roupa rasgada em mortalha E palacete em cemitério.
Ivanildo Vilanova
Mas a vida tem mistério Todo mundo quer viver Um velho de oitenta anos Tendo riqueza e poder Contrata os médicos do mundo Faz força pra não morrer.
Diniz Vitorino
A morte me dá prazer Que eu a morte já conheço Tira a fatura dos débitos Mostra a nota, cobra o preço No fim o cliente paga O tributo do começo.
Ivanildo Vilanova
A vida tem tanto apreço Que quem adoece pende Vai pra médico e hospital Gasta, mas não se arrepende Que só não se compra a morte Porque ela não se vende.
Diniz Vitorino
Dela ninguém se defende Que a morte não faz tolice Se ela não viesse logo Talvez que o povo sentisse A morte é muito melhor Do que a dor da velhice.
Ivanildo Vilanova
A morte tem mais sentidos Que é perversa demais Se não existisse morte Barco não perdia o cais Não tinha viúva só Nem filho longe dos pais.
Diniz Vitorino
Neste mundo sem cartaz Se as raças são pervertidas Se as gerações futuras Serão mais desenvolvidas É justo que haja mortes Pra que surjam novas vidas.
Ivanildo Vilanova
Vida tem riso e bebida Embora tenha pecado Porque se não fosse a morte Caixão não era comprado Coveiro não tinha emprego E cemitério era fechado.
Diniz Vitorino
Pra quem vive sem pecado A morte não é cruel Se não morresse Izaias Balaão, nem Daniel Não nasceria Jesus Pra salvação de Israel.
Ivanildo Vilanova
A vida é taça de mel Que todo mundo aprecia Porque se não fosse a morte Não tinha casa vazia Caneta não tinha preço Mortalha, a traça comia.
Diniz Vitorino
A morte é mulher liberta Pra mim tem boas condutas Se Cleópatra não morresse Nas presas das cobras brutas Hoje o Egito seria Um reino de prostitutas.
Ivanildo Vilanova
A vida tem boas frutas Baladas, canto e procela Mesmo se não fosse a morte Não tinha tristeza nela Padre não ganhava nota Cêra não queimava vela.
Diniz Vitorino
A morte não tem preguiça Nem trava lutas perdidas Se Helena rainha falsa Tivesse um milhão de vidas Quantas cidades troianas Não seriam destruídas.
Ivanildo Vilanova
Porém faz coisas erradas Aviso com alegria Se Lampião fosse vivo Com a sua pontaria Muito cabra sem-vergonha Pagava o que me devia.
Diniz Vitorino
Muito prazer eu teria Se a morte desse fim Ao velho Anuar Sadat Fidel Castro, Idi Amin Ivanildo Vilanova Mas esquecesse de mim.
Um cientista profundo perguntou-me certa vez, se eu conhecia os três desmantelos deste mundo. Eu respondi num segundo: Doido, mulher e ladrão. E disse mais a razão: doido não tem paciência, ladrão não tem consciência, mulher não tem coração.
Serra Branca
Limeira meu negro velho, você está em perigo: um homem de sua idade, quando vem cantar comigo, só corta por onde eu risco, só engole o que eu mastigo.
Zé Limeira
Você cantando comigo, o sacrifício é maior: porque não canta improviso nem sabe nada de cor, quanto mais você se apura, mais eu lhe acho pior.
Otávio Pinheiro Filho
Teus olhos acastanhados, tua boca angelical, teu sorriso sensual e teus lábios carminados, teus cabelos ondulados, tudo em perfeita harmonia, tudo teu tem poesia e me provoca o desejo profundo de dar-te um beijo. Deixa beijar-te Maria.
José Alves Sobrinho
Brasil de caracaxá, do quengo, do cacareco, do fole, do reco-reco, do pandeiro, do ganzá, do chibé, do aluá, baião de dois, rubacão, da farofa, do pirão, da tapioca de coco,… Este é Brasil de cabôco, de mãe preta e pai João.
Cantando sempre vivi, o cantar me dá prazer, cantando hei de morrer, porque chorando nasci, chorando sempre perdi, quero cantar até quando Deus quiser, sempre sonhando, sem gemer e sem chorar, Cantando hei de encontrar tudo que perdi chorando.
Dois aniversariantes, em idades diferentes: o pai está entre os adultos, o filho entre os inocentes, o pai mudando os cabelos, o filho mudando os dentes.
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OS SOFRIMENTOS DE JESUS CRISTO – José Pacheco
Oh Jesus meu Redentor dos altos Céus infinitos abençoai meus escritos por vosso divino amor leciona um trovador com divina inspiração para que vossa paixão seja descrita em clamores desde o princípio das dores até a ressurreição.
Dentro do Livro Sagrado São Marcos com perfeição nos faz a revelação de Jesus crucificado foi preso e foi arrastado cuspido pelos judeus por um apóstolo dos seus covardemente vendido viu-se amarrado e ferido nas cordas dos fariseus.
Dantes predisse o Senhor meus discípulos me rodeiam e todos comigo ceiam mas um me é traidor só a mão do pecador meu corpo ao suplício vai porém vos digo que vai do homem que por dinheiro transforma-se traiçoeiro contra o Filho de Deus Pai.
Todos na mesa consigo clamavam em alta voz Senhor, Senhor qual de nós vos trai dos que estão contigo disse Cristo: é quem comigo juntamente molha o pão e todos me deixarão mas São Pedro respondeu mestre garanto que eu não vos deixarei de mão.
A grande dupla de poetas repentistas Ivanildo Vilanova e Valdir Teles (1956-2020)
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Valdir Teles e Ivanildo Vilanova glosando o mote:
Não conheço esquerdista que não mude, quando pega nas rédeas do poder.
Valdir Teles
Logo após ser eleito está mudado, cada um tem direito a secretária, segurança, assessor, estagiária, gabinete com ar condicionado, vai lembrar-se do proletariado, com favela e cortiço pra viver, ou será que não vai se aborrecer, com esgoto, favela, lodo e grude. Não conheço esquerdista que não mude, quando pega nas rédeas do poder.
Ivanildo Vilanova
Pode ser um sujeito agitador, boia-fria, sem terra, piqueteiro, camarada, comuna, companheiro, se um dia tornar-se senador, vindo até se eleger governador, qual será o seu novo proceder, vai mudar, vai mentir ou vai manter as promessas que fez de forma rude. Não conheço esquerdista que não mude, quando pega nas rédeas do poder.
Valdir Teles
No período que um adolescente, quer mudar o planeta e o país, através dos arroubos juvenis, vira líder, orador e dirigente, mas se um dia ele sair presidente, o que foi nunca mais poderá ser, aí diz que o remédio é esquecer as loucuras que fez na juventude. Não conheço esquerdista que não mude, quando pega nas rédeas do poder.
Ivanildo Vilanova
Todo jovem, a princípio é sectário, atuante, grevista, condutor, antagônico, exaltado, pregador, um perfeito revolucionário, cresce, casa e se torna secretário, veja aí o que trata de fazer, leva logo a família a conhecer Disneylândia, Washington e Hollywood. Não conheço esquerdista que não mude, quando pega nas rédeas do poder.
Valdir Teles
Quem vivia de luta e de vigília, invasão, pichamento e barricada, através disso aí fez a escada, pra chegar aos tapetes de Brasília, vai pensar no progresso da família, no que faz pra do posto não descer, nunca falta quem queira se vender, sempre acha covarde que lhe ajude. Não conheço esquerdista que não mude, quando pega nas rédeas do poder.
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DISCUSSÃO DE JOÃO FORMIGA COM FRANCISCO PARAFUSO – Severino Borges da Silva
Estava João Formiga Versejando alegremente Nas terras do Ceará Quando chegou de repente Um cantor do Mato Grosso Quase tonto de aguardente
Chegou na sala e saudou A todo o povo primeiro E disse a João Formiga: – Vá sabendo cavalheiro Sou Francisco Parafuso Dou certo em todo tempero
O dono da casa disse: – Pois então, meu camarada Você canta com Formiga Uma discussão pesada Se ganhar leva o dinheiro Se perder não leva nada
– Porém eu vou dar um tema Com estilos naturais Para Formiga dizer Com bases fundamentais Sem errar nem dar um tombo Nem bebo, nem fumo mais
E Parafuso responde Para se ouvir e ver Defendendo a aguardente Durante enquanto viver E dizer no fim do verso Bebo e fumo até morrer
Formiga
Meu amigo Parafuso Agora vou lhe dizer Deus me livre de beber Fumar eu também não uso Do fumo eu tomei abuso Porque nada bom não traz Pois quando eu era rapaz Quase o fumo me liquida Enquanto Deus der-me vida Nem bebo, nem fumo mais
Parafuso
Você é um inocente Fumar é uma beleza O fumo tira a tristeza Fica a pessoa contente O suco da aguardente Ao homem dá bom prazer Portanto posso dizer Com pensamento profundo Enquanto eu viver no mundo Bebo e fumo até morrer
Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, Três Corações-MG (1940-2022)
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PELÉ – O REI DO FUTEBOL – Joabnascimento
Ele foi o Rei da bola, Nos gramados deu olé, Foi um gênio incomparável, Levando a bola no pé, Edson Arantes do Nascimento, Foi morar no firmamento, Nosso amado “Rei Pelé”.
Nos gramados desfilava, A sua arte refinada, Com o pensamento rápido, Toda zaga era driblada, Dribles extraordinários, Massacraram adversários, Sem poderem fazer nada.
Nasceu em Minas Gerais, Aquele menino arteiro, Sempre ele foi bom de bola, Muito hábil e ligeiro, Nos campos improvisados, Com seus dribles e gingados, Fazia gol, o tempo inteiro.
Ganhou 3 copas do mundo, Todo mundo ele encantou, Recebeu título de Rei, No globo se eternizou, Um ser muito conhecido, Na terra é reconhecido, Por tudo que ele jogou.
Depois qu’ele apareceu, O futebol foi mudado, Depois de 58, No trono foi coroado, Brilhante que nem o sol, Como Rei do futebol, Pelé foi eternizado.
O seu nome virou lenda, É símbolo de qualidade, Quando você vira craque, Em uma especialidade, De Pelé, nós o chamamos, Até o glorificamos, Como grande autoridade.
O cearense Geraldo Amâncio e o paraibano Severino Feitosa, dois dos maiores nomes da cantoria nordestina na atualidade
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Geraldo Amâncio e Severino Feitosa glosando o mote:
Se eu fosse Jesus, o Nazareno, não matava o poeta cantador.
Geraldo Amâncio
Vem Geraldo que eu tenho muita fé, me pediu que eu fizesse esses arranjos, conterrâneo de Augusto dos Anjos, que é nascido na terra de Sapé, vem dizer o poeta como é, é pra ele um eterno sonhador, um artista de invejável valor, comunica seu dom nesse terreno. Se eu fosse Jesus, o Nazareno, não matava o poeta cantador.
Severino Feitosa
Se eu tivesse o poder do soberano, não tirava da terra um Oliveira, um Geraldo, um Valdir e um Bandeira, Moacir, nem Raimundo Caetano, Sebastião nem João Paraibano, e muitos outros que têm tanto valor, não tirava a garganta de tenor de quem tem esse seu direito pleno. Se eu fosse Jesus, o Nazareno, não matava o poeta cantador.
Geraldo Amâncio
Sei que um carro virou numa ladeira, já passei para o mundo essa mensagem, pois eu ia também nessa viagem que a morte levou nosso Ferreira, eu me vi na viagem derradeira, eu gritei por sentir a grande dor, foi a morte que fez esse terror, de levar nosso astro, esse moreno. Se eu fosse Jesus, o Nazareno, não matava o poeta cantador.
Severino Feitosa
Se Xudu decantou o santo hino, da maneira que foi Zezé Lulu, não esqueço Louro do Pajeú, Rio Grande, recorda Severino, Pernambuco, também, José Faustino, que foi um repentista de valor, Paraíba não esquece Serrador e Santa Cruz não esquece de Heleno. Se eu fosse Jesus, o Nazareno, não matava o poeta cantador.
Geraldo Amâncio
Quem já foi Juvenal Evangelista, um encanto pra o nosso Ceará, mas morreu encostado ao Amapá e se encontra com os irmãos Batista, desse povo que tem na minha lista, Pinto velho pra mim foi um terror, eu não posso esquecer um Beija-Flor, e Pajeú inda lembra Zé Pequeno. Se eu fosse Jesus, o Nazareno, não matava o poeta cantador.
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Roberto Macena e Zé Vicente glosando o mote:
Velhice, um prêmio divino Que Deus oferece à gente
Roberto Macena
Eu perdi minha beleza, Mas não vou fugir da ética. Que eu mudei a minha estética Por conta da natureza. Mesmo assim, não há tristeza, Que eu não fico decadente: Tô mais é experiente Que com isso, não amofino. Velhice, um prêmio divino Que Deus oferece à gente.
Zé Vicente
Vovô muito me encanta, É meu verdadeiro mestre. Morando em área silvestre, Mas sempre me acalanta. Se eu sofrer da garganta, Ainda canto repente. Meu avô estando presente, Ele é meu otorrino. Velhice, um prêmio divino Que Deus oferece à gente.
Roberto Macena
Não adianta fazer prece Nem usar agilidade, Que, quando passa a idade, Tudo de ruim acontece O que é de nervo amolece, Fica tudo diferente: Dói a perna, dói o dente E o cabra fica mofino. Velhice é um prêmio divino Que Deus oferece à gente.
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Sebastião Dias e Zé Viola glosando o mote:
Existe um dicionário Na mente do cantador
Sebastião Dias
Existe um Deus que controla A mente de um repentista Que nasceu pra ser artista Do oitão da fazendola É o homem da viola Nascido no interior Nem precisa professor Pra ser extraordinário Existe um dicionário Na mente do cantador
Zé Viola
Acumulo cada ano Cantando mares e terra Paz, conflito, briga e guerra Peixe, céu e oceano A viola é o piano O povo é meu instrutor O palco me traz calor E o cachê é meu salário Existe um dicionário Na mente do cantador
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AS HERDEIRAS DE MARIA – Dalinha Catunda
Começa assim a história Do folheto feminino: A mulher com sua manha, Território o nordestino, Com patriarcado vil, Montou-se então um ardil, Pra traçar nosso destino.
Lá pra mil e novecentos, E trinta e oito asseguro, Foi que a mulher editou, E plantou para o futuro, O folheto feminino, Com o nome masculino, Que hoje aqui emolduro.