PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM GRANDE POETA E UM CORDEL DA COLUNISTA DALINHA CATUNDA

O poeta cearense Geraldo Amâncio, um dos maiores nomes da cantoria de improviso da atualidade

* * *

Alguns improvisos de Geraldo Amâncio:

Quem nasce onde eu nasci
E se cria sem escola,
Andando com pés descalços
Ou corrulepe de sola,
Ou cresce pra ser vaqueiro
Ou cantador de viola.

* * *

Eu sei que Jesus do Céu me conhece,
Gosta do meu verso, dessa propaganda.
Se eu peço um repente, o Cristo me manda,
Me manda ligeiro, pois lá do céu desce.
Depois, na cabeça, o verso aparece,
Me desce pra boca preu pronunciar.
Inda tem um anjo para me ajudar.
E tem uma máquina nesse meu juízo:
Não faz outra coisa, só faz improviso
Nos dez de galope da beira do mar.

* * *

Eu bem novo pensei em me casar
Com uma moça do meu conhecimento
Disse ela: eu aceito o casamento
Se você deixar a arte de cantar
Ela estava esperando no altar
E eu voltei da calçada da matriz
Quebrei todas as juras que lhe fiz
E comecei a cantar dali por diante
Sou feliz porque sou representante
Da cultura mais bela do país.

* * *

O mundo se encontra bastante avançado
A ciência alcança progresso sem soma
Na grande pesquisa que fez do genoma
Todo o corpo humano já foi mapeado
No mapeamento foi tudo contado
Oitenta mil genes se podem contar
A ciência faz chover e molhar
Faz clone de ovelha, faz cópia completa
Duvido a ciência fazer um poeta
Cantando galope na beira do mar.

* * *

Olho a tela do tempo e me torturo
Vejo o filme do meu inconsciente,
Meu passado maior que o meu presente
Meu presente menor que o meu futuro;
Se a velhice é doença eu não me curo,
Que os três males que atacam um ancião:
São carência, desprezo e solidão,
E é difícil escapar dessa trindade;
Se eu pudesse comprava a mocidade
Nem que fosse pagando a prestação.

* * *

A MORENA QUE CALOU O MALANDRO – Dalinha Catunda

Vou contar uma história
Preste atenção, por favor,
Sobre um sujeito malandro
E muito paquerador
Era Don Juan famoso
Elegante bem charmoso
Metido a conquistador.

Toda mulher que ele via,
Corria para cantar,
Dizia paro os amigos:
Mais uma vou conquistar!
E tinha mesmo razão
Pois provocava paixão
Era cantar e ganhar.

Seu reinado durou muito
Ate que se apaixonou
Por uma linda morena
Que o malandro enfeitiçou
Ele fez o que podia
Fez até feitiçaria
Mas a gata não ganhou.

E dizem que fez promessa
Pra pagar no Juazeiro,
Porém a de São Francisco
Ele foi pagar primeiro.
Fez o percurso a pé
Pra pedir em Canindé
Esta graça ao padroeiro.

Foi na igreja de crente,
Foi na macumba também,
Porém nada da morena
Para ele dizer amém.
Aquele que só sorria,
Agora se maldizia
Por não conquistar seu bem.

Foi então que resolveu
A tal morena encarar,
Só faltou uma viola
Para o cabra acompanhar.
E feito o dono do mundo
Ele respirou bem fundo,
Querendo desafiar.

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

DOIS MOTES BEM GLOSADOS E UMA CANTORIA

João Pereira da Luz, o grande Poeta João Paraibano, Princesa Isabel-PB (1952-2014)

* * *

Severino Feitosa e João Paraibano glosando o mote:

Escutar cantoria sem beber
é dormir uma noite e não sonhar.

João Paraibano

O poeta nasceu com tanto brilho,
que um verso que faz, de nada ensaia,
no momento que está levando vaia,
pensa ser nenhum tipo de elogio,
eu na noite que estou cantando frio,
quando um copo tiver para esquentar,
que é mais fácil o poeta se inspirar
no momento do álcool lhe aquecer.
Escutar cantoria sem beber
é dormir uma noite e não sonhar.

Severino Feitosa

Sem tomar uma dose de cinzano,
licor, dreher, whisky, rum, cachaça,
é ser músico, cantar em qualquer praça
e não ter um teclado e nem piano,
é fazer uma troca com cigano,
e um canudo do curso não levar,
dar um voto a um parlamentar
que não tem liderança no poder.
Escutar cantoria sem beber
é dormir uma noite e não sonhar.

João Paraibano

Eu não bebo só água de cabaça,
que do álcool também sou dependente,
se faltar uma dose de aguardente,
eu começo a tremer no meio da praça
se faltar uma dose de cachaça,
peço duas de whisky lá no bar,
quem está frio, só pensa em se esquentar
e a borracha não vai se encolher
Escutar cantoria sem beber
é dormir uma noite e não sonhar.

Severino Feitosa

O repente na noite divertida,
pra o poeta que pega no instrumento
para mim só terá contentamento,
com direito a um copo de bebida,
mas não tendo eu comparo a sua vida
com um minuto tristonho de azar,
a mulher toda noite se zangar
não querer no seu corpo se aquecer.
Escutar cantoria sem beber
é dormir uma noite e não sonhar.

João Paraibano

Para um repentista de talento,
fazer verso sem ter uma bicada
é partir pra voltar no meio da estrada
é ver cobra esquecendo de São Bento
ou sair pra fazer o casamento,
levar chifre na porta do altar,
pegar sua semente pra plantar
ver o mesma no chão apodrecer.
Escutar cantoria sem beber
é dormir uma noite e não sonhar.

* * *

João Paraibano e Severino Feitosa glosando o mote:

O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

João Paraibano

Cada verso que o repentista faz,
para mim tá presente em toda hora,
no tinido do ferro da espora,
na passada que vem dos animais,
na cor verde que tem nos vegetais
nas estrelas que têm no firmamento,
tá na cruz do espinhaço do jumento,
e no vaqueiro correndo atrás do gado.
O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

Severino Feitosa

O poeta é um gênio que crepita
no espaço azul esmeraldino,
percorrendo as estradas do destino,
sem saber o planeta aonde habita,
sua mente pra o canto é infinita,
cada verso que faz é seu sustento,
é quem sabe cantar o parlamento,
sem ter voto pra ser um deputado.
O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

João Paraibano

Uma vida vivida no sertão,
uma fruta madura já caindo,
um relâmpago na nuvem se abrindo,
um gemido do tiro do trovão,
meia dúzia de amigos no salão,
nem precisa de um piso de cimento,
minha voz, as três cordas do instrumento,
o meu quadro de louco está pintado.
O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

Severino Feitosa

O poeta é um simples mensageiro,
que acaba uma guerra e um conflito,
ele sabe cantar o infinito,
todas pedras que têm no tabuleiro,
a passagem do fim do nevoeiro,
que ultrapassa o azul do firmamento,
que conhece o impulso desse vento,
todas as rosas que enfeitam o nosso prado.
O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

João Paraibano

Foi mamãe que me deu a luz da vida
e me ensinou a viver da humildade,
eu nasci para ter felicidade,
porque toco na lira adquirida,
poesia me serve de bebida,
um concerto me serve de alimento,
uma pedra me serve de assento
e todo rancho de palha é meu reinado.
O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

Severino Feitosa

O poeta é uma criatura
que procura mostrar, no seu caminho,
toda uva do fabrico de vinho,
e toda planta que faz nossa fartura,
é quem sabe cantar a amargura
da pessoa, que está num sofrimento,
é quem sabe cantar o regimento
do quartel, que Jesus é delegado.
O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

* * *

UMA CANTORIA

Moacir Laurentino cantando O VELHINHO DO ROÇADO, de autoria do poeta Expedito Sobrinho

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

NATAL

Vi no úmido chão de um curral
Uma simples cabocla dando a luz,
Uma estrela no céu fazendo jus
N’uma mágica cena de natal.
Um menino, um vaqueiro e um serviçal
De joelhos fazendo uma oração.
A parteira, por dom da profissão
Dando sangue e suor, conforme escrito ,
Dá um tapa na bunda… e escuta um grito
Mais um “Cristo “ que nasce no sertão.

Lima Júnior

No Natal da criança abandonada
Não tem ceia na mesa ou panetone
Nem um copo de suco ou de danone
Pra tirar-lhes da boca uma risada.
Sua cama constrói numa calçada
Seu lençol é a folha de um papel
Sem conforto na rua dorme ao leu
E a chibata da vida dando açoite
Vejo a farsa sorrindo a meia noite
Pendurada no gorro de Noel.

Hélio Crisanto

* * *

João Bosco dos Santos glosando o mote:

Papai Noel tá devendo
Meu presente de natal.

Ele ainda não chegou
Tá vindo devagarinho
Acho que errou o caminho
Ou outra vez não lembrou
O natal que se passou
Ele agiu muito mal,
Não deixou nem sinal
Do presente estupendo
Papai Noel tá devendo
Meu presente de Natal.

São trinta e quatro natais
Que ele não aparece
Acho que de mim esquece
Pois sou pequeno demais,
Só vejo pelos jornais
Ele um velhinho legal,
Mas esse belo ideal
Ficou longe estou dizendo
Papai Noel tá devendo
Meu presente de Natal.

Cadê Noel o presente
Do filho do agricultor,
Do homem que é lavrador,
Que tem um filho inocente.
Pra o filho do penitente
Você trouxe algo legal?
Não iluda o ser mortal
A criança fica sofrendo
Papai Noel tá devendo
Meu presente de Natal.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

QUATRO MESTRES DO IMPROVISO E UM DOCUMENTÁRIO

Sebastião Dias:

Das quatro e meia em diante,
Sinto de Deus o poder,
Um sopro espatifa as nuvens
Para o dia amanhecer,
Deus enfeita o firmamento
E a vassoura do vento
Varre o céu pra o sol nascer.

Otacílio Batista:

Nas brancas areias formosas da praia
Um homem com trinta e seis anos de idade
Chorava com pena dessa humanidade
Que tomba, desmaia, delira e fracassa
Usava um túnica da cor de cambraia
Seus olhos brilhavam sem pestanejar
Nenhuma sereia podia imitar
Sua voz de veludo a Deus dirigida
Eu sou o caminho, a verdade e a vida
Palavras de Cristo na beira do mar.

José Monte:

É bonito se olhar numa represa
A marreca puxando uma ninhada
Com um gesto de mãe tão dedicada
No encontro das águas da represa
Quanto é lindo o arrolho da burguesa
Num conserto de notas musicais
A lagarta com letras naturais
Numa folha escrever fazendo um cheque
E palmeira selvagem abrindo o leque
Espantando o calor que a tarde faz.

Manoel Xudu:

O mar se orgulha por ser vigoroso
Forte e gigantesco que nada lhe imita
Se ergue, se abaixa, se move se agita
Parece um dragão feroz e raivoso
É verde, azulado, sereno, espumoso
Se espalha na terra, quer subir pra o ar
Se sacode todo querendo voar
Retumba, ribomba, peneira e balança
Não sangra, não seca, não para e nem cansa
São esses os fenômenos da beira do mar.

O próprio coqueiro se sente orgulhoso
Porque nasce e cresce na beira da praia
No tronco a areia da cor de cambraia
Seu caule enrugado, nervudo e fibroso
Se o vento não sopra é silencioso
Nem sequer a fronde se vê balançar
Porém se o vento com força soprar
A fronde estremece perde toda calma
As folhas se agitam, tremem e batem palma
Pedindo silêncio na beira do mar

Não há tempestades e nem furacões
Chuvadas de pedras num bosque esquisito
Quedas coriscos ou aerólito
Tiros de granadas de obuses canhões
Juntando os ribombos de muitos trovões
Que tem pipocado na massa do ar
Cascata rugindo serra a desabar
Nuvens mareantes, tremores de terra
Estrondo de bombas, rumores de guerra
Que imite a zoada das águas do mar.

* * *

DESAFIOS – UM DOCUMENTÁRIO DA TV SENADO

O universo em torno dos cantadores e dos repentistas e a riqueza contida em suas memórias. O documentário reúne uma coletânea de histórias sobre os cantadores de viola nordestinos, homens de raciocínio rápido e língua afiada, que deixaram um rastro de poesia mundo afora.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UMA HOMENAGEM DE ORLANDO TEJO A PINTO DE MONTEIRO E LOURO DO PAJEÚ

Dois ícones da cantoria nordestina de improviso: Lourival Batista, o Louro do Pajeú (1915-1992) e Severino Pinto, o Pinto de Monteiro (1895-1990)

* * *

PINTO E LOURO – Orlando Tejo

Grande saudade hoje sinto
Das cantorias-tesouro
Do gigante que foi Pinto,
Do uirapuru que foi Louro.

Era uma graça, um estouro
Ouvir em qualquer recinto
Os trocadilhos de Louro
Os desconcertos de Pinto.

Tal qual no Bar do Faminto,
Do Pátio do Matadouro,
Quando Louro aceitou Pinto
E Pinto abençoou Louro.

Mas no Bar Rosa de Ouro
Houve um encontro distinto
Pinto elogiando Louro,
Louro chaleirando Pinto.

Jamais ficará extinto
O meu prazer de ouvir Louro
Querendo derrubar Pinto,
Pinto brigando com Louro.

No Bar Casaca-de-Couro
Vi o maior labirinto:
Pinto depenando Louro
E Louro esganando Pinto.

No Mercado, em Rio Tinto,
Um momento imorredouro
com as emboscadas de Pinto
E as escapadas de Louro.

No Beco do Bebedouro
Um desafio ao instinto:
Pinto superava Louro,
Louro desmontava Pinto.

No bar de Moisés Aminto
(À Curva do Varadouro)
Louro acompanhava Pinto,
Pinto fugia de Louro.

Assisti, no Bar Jacinto,
Luta de cristão e mouro
Quando Louro açoitou Pinto,
E Pinto escanteou Louro.

O sol no nascedouro
E haja mel e haja absinto
Nas divagações de Louro,
Nos ultimatos de Pinto.

Num diálogo sucinto
Reverberavam em coro
Iluminuras de Pinto,
Clarividências de Louro.

Essa dupla, sem desdouro,
Reinou do primeiro ao quinto:
Pinto maior do que Louro,
Louro maior do que Pinto.

Duas fivelas num cinto,
Batéis sem ancoradouro,
Assim foram Louro e Pinto,
Assim serão Pinto e Louro.

Penso, reflito, pressinto
Que em todo o tempo vindouro
Ninguém vai superar Pinto,
Nenhum fará sombra a Louro.

Pois não há praga ou agouro
Que manche a paz do recinto
Das glórias que envolvem Louro,
Dos louros que adornam Pinto.

Aqui faço paradouro
(Ir além me não consinto),
Rendido ao gênio que é Louro,
Curvado ao estro de Pinto.

* * *

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

EM TEMPO DE ELEIÇÃO

 QUANDO ACABA A ELEIÇÃO – Merlânio Maia

No período eleitoral
Candidato vira santo
Bota a cara em todo canto
Favela, sítio, hospital,
Tapera, escola, curral,
Velório, igreja, pensão,
Promete o céu e o chão
Jura descaradamente
Mas muda radicalmente
Quando acaba a eleição!

A teta é bem saborosa
Por isso, quem quer deixar?
O salário é um manjar
E a função é poderosa
A mala preta formosa
Enche os cofres e o colchão
Pois é na corrupção
Que o ganho se multiplica
E a politicalha enrica
Quando acaba a eleição!

O pobre eleitor coitado
Detém o real poder
De banir, cobrar, deter,
E excluir o candidato
Mas o político de fato
Encanta e ilude o povão
Como um piolho malsão
Retorna ao poder de novo
Pra sugar o nosso povo
Quando acaba a eleição!

Mau político tem prazer
De enganar quando promete
Setecentas vezes sete
Promete sem se conter
Sabe que vão esquecer
Nunca houve punição
Não há lei que diga não
Quem paga a promessa é o povo
E o peste vai rir de novo
Quando acaba a eleição!

Pobre do povo enganado
Trucidado em sua calma
Vende o voto e perde a alma
Paga caro ter votado
Não verá do combinado
Nem saúde, educação,
Nem infra-estruturação
Nem água, esgoto ou transporte,
Segurança só na sorte
Quando acaba a eleição!

O que se vê todo o dia
É briga pelo poder
Quem já tem mais faz pra ter
E haja dinheiro e folia
A bandidagem alicia
No caos da corrupção
A ética perde a razão
Ser honesto é coisa rara
Falta vergonha na cara,
Quando acaba a eleição!

E a gente sente vergonha
De ver chafurdando em lama
Símbolos que a gente ama
De forma torpe e bisonha
Mas a nação ainda sonha
Botar na grade o ladrão
E sanear a nação
Pra ter sua honra de novo
E o governo ser do povo
Quando acaba a eleição!

* * *

CORDEL CONTRA OS POLÍTICOS CORRUPTOS – Cleber Sardinha

Tava eu aqui pensando
Como pode acontecer
O pobre trabalhador
Que não merece sofrer
Paga imposto todo dia
Dia e noite, noite e dia
Até quando vai morrer.

O país a cada hora
Segue sim sua missão
Os políticos de Brasília
Só vivem metendo a mão
No bolso dos que não tem
Um centavo, um vintém
Nem o dinheiro do pão.

Brasil lindo pátria amada
Povo forte e gente nobre
A corda só arrebenta
Pro lado de quem é pobre
Mas enquanto a gente desce
A roubalheira só cresce
E a máfia política sobe.

Presidente e Deputado
Governo e Senador
Comem o nosso dinheiro
Sem saber qual o valor
De um dia de trabalho
Da coberta de retalhos
Do pobre trabalhador.

O povo já não aguenta
Ser roubado e iludido
Por políticos e corruptos
Que não passam de bandidos
Gente da pior espécie
Que nesse país só cresce
Nem deviam ter nascido.

A TV mostra o retrato
De um Brasil despedaçado
Sem rumo e sem igualdade
E todo desgovernado
Nosso povo todo dia
Vive essa agonia
Vai sendo atropelado.

A promessa de um político
Nem precisamos ouvir
Porque a cada eleição
Volta a se repetir
Prometem melhorar tudo
Na vida de todo mundo
Melhoras que eu nunca vi.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

HINO NACIONAL BRASILEIRO EM CORDEL – Thiago Alves

Ouviram do Ipiranga
Nas margens plácidas se dar
De um povo heroico o brado
Retumbante a ecoar
E o sol da liberdade
Em raios fúlgidos que arde
No céu da pátria a brilhar.

Se conseguiu conquistar
O penhor dessa igualdade
Com o nosso braço forte
Em teu seio ó liberdade
Desafia o nosso peito
Enfrentando esse pleito
A morte em fidelidade.

Ó pátria amada em verdade
Seja sempre Idolatrada
Salve! Salve! Os teus recantos
Ó eterna pátria amada
Salve! Salve teus encantos
Salve os teus valores tantos
Pra sempre serás honrada.

Brasil terra sublimada
Sonho intenso um raio vívido
De amor e de esperança
À terra desce em adívido
Se em teu formoso céu
Risonho em límpido véu
O cruzeiro brilha dívido.

Tu és um gigante ávido
Pela própria natureza
És belo, és forte, impávido
Colosso em tua beleza
E o teu futuro espelha
Nem um outro se assemelha
A ti por essa grandeza.

Terra adorada és alteza
Entre outras tantas mil
Ó pátria amada e querida
És tu o nosso Brasil
E dos filhos deste solo
És sublime mãe gentil
Ó formosa Pátria amada
Terra querida, Brasil!

Sempre deitado e sutil
Em berço esplêndido e fecundo
Ao som do mar espumante
E à luz do céu profundo
Fulguras ó florão da América
Sobre as nações periféricas
Como o sol do novo mundo!

Do que a terra num segundo
A mais garrida em valores
Teus risonhos, lindos campos
Têm sempre mais belas flores
Nossos bosques têm mais vida”
Assim sendo “Nossa vida”
Em teu seio “mais amores”

Ó pátria amada em cores
Seja sempre Idolatrada
Salve! Salve! Os teus valores
Ó eterna pátria amada
Salve! Salve teus encantos
Salve os teus valores tantos
Pra sempre serás honrada.

Brasil terra encantada
Eterno símbolo de amor
O lábaro que tu ostentas
Estrela o teu valor
Diga este verde-louro
Dessa flâmula que é tesouro
Que glória e paz conquistou.

Mas, se ergues pra compor
Da justiça a clava forte
Verás que um filho teu
Não foge à luta de porte
Coragem e força ancora
Nem teme, quem te adora
Indo até a própria morte.

Terra adorada e forte
Tu és entre outras mil
Ó eterna pátria amada
A mais bela e varonil
E dos filhos deste solo
És mãe gentil e sem dolo
Ó Pátria amada Brasil!

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

JONAS BEZERRA E ACRÍZIO DE FRANÇA: DOIS REPENTISTAS TALENTOSOS

Acrízio de França

Hoje aqui nesse festim
A viola emociona
Quem chegar aqui na zona
Pra poder nos escutar
Essa arte popular
Vai voar pro exterior
Então vamos cantador
Vamos viajar
Vamos cantador
Pegue a viola e se arrume
Porque já virou costume
Fazer mala e viajar.

Jonas Bezerra

Agora peguei o ritmo
Que manda Acrízio de França
Porque a minha esperança
Aqui não vai apagar
Estilo pode criar
Você é meu professor
Então vamos cantador
Vamos viajar
Vamos cantador
Pegue a viola e se arrume
Porque já virou costume
Fazer mala e viajar.

Acrízio de França

O estilo da cantoria
Vem da minha criação
Se esse estilo é bom ou não
Você é quem vai julgar
Tem você pra me ajudar
E o povo pra dar valor
Então vamos cantador
Vamos viajar
Vamos cantador
Pegue a viola e se arrume
Porque já virou costume
Fazer mala e viajar.

Jonas Bezerra

Respondo a sua pergunta
Eu gostei do seu estilo
Mais parece o rio Nilo
Indo pra dentro do mar
Depois que na terra entrar
Eu rasgo como um trator
Então vamos cantador
Vamos viajar
Vamos cantador
Pegue a viola e se arrume
Porque já virou costume
Fazer mala e viajar .

Acrízio de França

Hoje aqui na grande festa
Dos poetas violeiros
Nós trouxemos os redeiros
Pra poder nos apoiar
Mesmo em cantiga de bar
Esses jovens dão valor
Então vamos cantador
Vamos viajar
Vamos cantador
Pega a viola e se arrume
Porque já virou costume
Fazer mala e viajar.

Jonas Bezerra

Cantando o rio
Chamado rio Piranhas
Eu sou filho das entranhas
Da Paraíba exemplar
Minha homenagem
É pra todos do setor
Então vamos cantador
Vamos viajar
Vamos cantador
Pegue a viola e se arrume
Porque já virou costume
Fazer mala e viajar.

Jonas Bezerra

Voa sabiá
Veja outros horizontes
Passe por cima dos montes
Enxergue cada pomar
Viva feliz
Com os filhotes no seu ninho
Do jeito de um passarinho
Eu também quero voar
“Voa sabiá”.
Do galho da laranjeira
Que a pedra da baladeira
Vem zoando pelo ar “.
“Voa sabiá”.
Do galho da laranjeira
Que a pedra da baladeira
Vem zoando pelo ar”.

Acrízio de França

Ao caçador
Eu peço a partir de agora
Não bote o fogo na flora
Pra ver onde ele pode estar
Também já fui
Caçador de espingarda
Mais hoje em dia eu sou guarda
Pra deter quem for matar
“Voa sabiá”.
Do galho da laranjeira
Que a pedra da baladeira
Vem zoando pelo ar”.
“Voa sabiá”.
Do galho da laranjeira
Que a pedra da baladeira
Vem zoando pelo ar”.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO DE PELEJA

A genial poeta cearense Dalinha Catunda, colunista do Jornal da Besta Fubana

* * *

Dalinha Catunda glosando o mote

Paixão cega e tosse braba
Só vêm pra lascar o peito.

Não sou mulher de chorar
Por quem não liga pra mim
Eu mando é comer capim
Jamais vou me acabrunhar
Paixão que vem pra lascar
Não acolho e nem respeito
Despacho logo o sujeito
Pois meu encanto se acaba:
Paixão cega e tosse braba
Só vêm pra lascar o peito.

* * *

Chico Nunes glosando o mote:

A saudade é companheira
De quem não tem companhia.

Vivo em eterna agonia
Sem saber o resultado
Deus já me deu o atestado
Pra eu baixar à terra fria.
Em volta só vejo o mal
Deste meio social,
E espero sozinho o dia
De minha hora derradeira…
A saudade é companheira
De quem não tem companhia.

* * *

José Lucas de Barros glosando o mote:

A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

Chico Motta viveu de cantoria,
Imitando as graúnas sertanejas,
Nos ardores de inúmeras pelejas
Que aprendeu a enfrentar com galhardia;
Seu programa, nem bem raiava o dia,
Acordava o sertão alvissareiro,
Mas, depois do seu verso derradeiro,
Que inda está, nas quebradas, ecoando,
A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

* * *

Pinto do Monteiro glosando o mote:

Aquela chuvinha fina
Me faz chorar de saudade.

Me lembro perfeitamente,
Quando em minha idade nova,
O meu pai cavava a cova
E eu plantava a semente.
Eu atrás, ele na frente,
Por ter força e mais idade,
Olhando a fertilidade
Da vastidão da campina,
Aquela chuvinha fina
Me faz chorar de saudade.

* * *

Severino Ferreira glosando o mote:

O Nordeste poético ainda chora
Com saudade de Pinto do Monteiro.

Sei que Pinto deixou como recinto
A Monteiro que é sua cidade
O Nordeste até hoje tem saudade
De um poeta pacato e tão distinto
Outro galo não faz mais outro pinto
Que seja poeta e verdadeiro
Se pegar a galinha no terreiro
E tentar fabricar o ovo “gora”
O Nordeste poético ainda chora
Com saudade de Pinto do Monteiro.

* * *

Waldir Teles glosando o mote:

Quando morre um alguém que a gente adora
Nasce um broto de dor no coração.

Quando morre um parente ou um amigo
Resta só lamentar, ninguém dá jeito
A tristeza se aloja em nosso peito
A angústia se apossa do abrigo
O seu corpo levado pra o jazigo
É seguido por uma multidão
Nem compensa apertar na sua mão
É inútil dizer não vá agora
Quando morre um alguém que a gente adora
Nasce um broto de dor no coração.

* * *

Jó Patriota glosando o mote:

A casa que tem criança
Deus visita todo dia.

Quando a criança adormece
A mãe já fraca do parto
Nos quatro cantos do quarto
Deus em pessoa aparece.
O Santo Espírito desce
Distribuindo alegria
Aquela rede sombria
Tem uma mão que balança
A casa que tem criança
Deus visita todo dia.

* * *

PELEJA DE MANOEL RIACHÃO COM O DIABO – Leandro Gomes de Barros

Riachão estava cantando
Na cidade de Açu
Quando apareceu um negro
Da espécie de urubu,
Tinha a camisa de sola
E as calças de couro cru.

Beiços grossos e virados
Como a sola de um chinelo,
Um olho muito encarnado,
O outro muito amarelo,
Este chamou Riachão
Para cantar um duelo.

Riachão disse: – Eu não canto
Com negro desconhecido
Porque pode ser escravo
E andar por aqui fugido
Isso é dar cauda a nambu
E entrada a negro enxerido.

Negro

Eu sou livre como o vento
E minha linhagem é nobre
Sou um dos mais ilustrados
Que o sol neste mundo cobre.
Nasci dentro da grandeza
Não sai de raça pobre.

Riachão

Você nega porque quer
Está conhecido demais
Você anda aqui fugido
Me diga que tempo faz?
Se você não for cativo
Obras desmentem sinais.

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

ZÉ LIMEIRA, O POETA DO ABSURDO (III)

Orlando Tejo (1935- 2018), e o seu livro, que já vai na 11ª edição, e foi tema de vários documentários, teses, artigos e estudos

* * *

Frei Henrique de Coimbra
Sacerdote sem preguiça
Rezou a Primeira Missa
Na beira duma cacimba
Um índio passou-lhe a bimba
Ele não quis aceitá
E agora veve a berrá
Detrás dum pau de jureme
O bom pescador não teme
As profundezas do mar.

* * *

No tempo do Padre Eterno
Getúlio já governava
Prantava feijão e fava
Quando tinha bom inverno
Naquele tempo moderno
São João viajou pra cá
Dom Pedro correu pra lá
Escanchado num tratô
Canta, canta, cantadô
Que teu destino é cantá.

* * *

Eu cantei lá no Recife
Dentro do pronto socorro
Ganhei 500 mil réis
Comprei 500 cachorros
Morri no ano passado
Mas neste ano, não morro.

* * *

Frei Henrique descansou
Nas encosta da Bahia
Depois fez a travessia
Pra chegá onde chegou
Pegou a índia, champrou
Ela não pôde falá
Assou carne de jabá
Misturou com querosene
O bom pescador não teme
As profundezas do mar.

* * *

Um General de Brigada
Com quarenta grau de febre
Matou um casal de lebre
Prá comê uma buchada…
Quando fez a panelada
Morreu e não logrou dela
Porco que come em gamela
Prova que não tem fastio
Peixe só presta de rio
Piau de tromba amarela.

* * *

Na corrida de mourão
Quem corre mais é quem ganha
São Thomé vendia banha
Na fogueira de São João
Foi na guerra do Japão
Que se deu essa ingrizia
Camonge quage morria
Da granguena berra-berra
Quem se morre é quem se enterra
Adeus, até outro dia.

* * *

Às tantas da madrugada
O vaqueiro do Prefeito
Corre alegre e satisfeito
Atrás da vaca deitada
Deitada e bem apojada
Com a rabada pelo chão
A desgraça de Sansão
Foi trair Pedro Primeiro
O aboio do vaqueiro
Nas quebradas do Sertão.

* * *

Jesus foi home de fama
Dentro de Cafarnaum
Feliz da mesa que tem
Costela de guaiamum
No sertão do cariri
Vi um casal de siri
Sem compromisso nenhum.

* * *

Jesus ia rezar missa
Na capela de Belém
Chegou Judas Carioca
Que viajava de trem
Trazia trinta macaco
Botou tudo num buraco
Não tinham nenhum vintém.

* * *

Jesus saiu de Belém
Viajando pra o Egito
No seu jumento bonito
Com uma carga de xerém
Mais tarde pegou um trem
Nossa Senhora castiça
De noite Ele rezou Missa
Na casa dum fogueteiro
Gritava um pai-de-chiqueiro:
Viva o Chefe de Puliça!

* * *

São Pedro, na sacristia
Batizou Agamenon
Jesus entrou em Belém
Proibindo o califom
Montado na sua idéia
Nas ruas da Galiléia
Tocou viola e pistom.

* * *

Um professor de francês
Honestamente dizia:
Tempo bom era o moderno
Judas só foi pro inferno
Promode a virgem Maria.

* * *

Minha muié chama Bela
Quando eu vou chegando em casa
O galo canta na brasa,
Cai o texto da panela
Eu fico olhando pra ela
Cheio de contentamento
O satanás num jumento
Pra mordê a Mãe de Deus
Não mordeu ela nem eus
Diz o novo testamento.

* * *

Eu vi numa gavetinha
Da casa de João Moisés
Mais de cem contos de réis
Só de ovo de galinha
Ela comeu uma tinha
Da carcaça de um jumento
Que bicho mais peçonhento
É lacrau e piôi de cobra
Não pode mais fazer obra,
Diz o novo testamento.

* * *

Eu me chamo Zé Limeira
Cantadô qui num é tolo
Sei tirá couro de bode
Sei impaiolá tijolo
Sô o cantado milhó
Qui a Paraiba criou-lo.

* * *

POETA MERLÂNIO MELO FALA SOBRE ZÉ LIMEIRA