GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO DE PELEJA

Chico Nunes glosando o mote:

A saudade é companheira
De quem não tem companhia.

Vivo em eterna agonia
Sem saber o resultado
Deus já me deu o atestado
Pra eu baixar à terra fria.
Em volta só vejo o mal
Deste meio social,
E espero sozinho o dia
De minha hora derradeira…
A saudade é companheira
De quem não tem companhia.

* * *

José Lucas de Barros glosando o mote:

A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

Chico Motta viveu de cantoria,
Imitando as graúnas sertanejas,
Nos ardores de inúmeras pelejas
Que aprendeu a enfrentar com galhardia;
Seu programa, nem bem raiava o dia,
Acordava o sertão alvissareiro,
Mas, depois do seu verso derradeiro,
Que inda está, nas quebradas, ecoando,
A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

* * *

Pinto do Monteiro glosando o mote:

Aquela chuvinha fina
Me faz chorar de saudade.

Me lembro perfeitamente,
Quando em minha idade nova,
O meu pai cavava a cova
E eu plantava a semente.
Eu atrás, ele na frente,
Por ter força e mais idade,
Olhando a fertilidade
Da vastidão da campina,
Aquela chuvinha fina
Me faz chorar de saudade.

* * *

Severino Ferreira glosando o mote:

O Nordeste poético ainda chora
Com saudade de Pinto do Monteiro.

Sei que Pinto deixou como recinto
A Monteiro que é sua cidade
O Nordeste até hoje tem saudade
De um poeta pacato e tão distinto
Outro galo não faz mais outro pinto
Que seja poeta e verdadeiro
Se pegar a galinha no terreiro
E tentar fabricar o ovo “gora”
O Nordeste poético ainda chora
Com saudade de Pinto do Monteiro.

* * *

Waldir Teles glosando o mote:

Quando morre um alguém que a gente adora
Nasce um broto de dor no coração.

Quando morre um parente ou um amigo
Resta só lamentar, ninguém dá jeito
A tristeza se aloja em nosso peito
A angústia se apossa do abrigo
O seu corpo levado pra o jazigo
É seguido por uma multidão
Nem compensa apertar na sua mão
É inútil dizer não vá agora
Quando morre um alguém que a gente adora
Nasce um broto de dor no coração.

* * *

Jó Patriota glosando o mote:

A casa que tem criança
Deus visita todo dia.

Quando a criança adormece
A mãe já fraca do parto
Nos quatro cantos do quarto
Deus em pessoa aparece.
O Santo Espírito desce
Distribuindo alegria
Aquela rede sombria
Tem uma mão que balança
A casa que tem criança
Deus visita todo dia.

* * *

PELEJA DE MANOEL RIACHÃO COM O DIABO – Leandro Gomes de Barros

Riachão estava cantando
Na cidade de Açu
Quando apareceu um negro
Da espécie de urubu,
Tinha a camisa de sola
E as calças de couro cru.

Beiços grossos e virados
Como a sola de um chinelo,
Um olho muito encarnado,
O outro muito amarelo,
Este chamou Riachão
Para cantar um duelo.

Riachão disse: — Eu não canto
Com negro desconhecido
Porque pode ser escravo
E andar por aqui fugido
Isso é dar cauda a nambu
E entrada a negro enxerido.

Negro

— Eu sou livre como o vento
E minha linhagem é nobre
Sou um dos mais ilustrados
Que o sol neste mundo cobre.
Nasci dentro da grandeza
Não sai de raça pobre.

Riachão

— Você nega porque quer
Está conhecido demais
Você anda aqui fugido
Me diga que tempo faz?
Se você não for cativo
Obras desmentem sinais.

Negro

— Seja livre ou seja escravo
Eu quero cantar martelo
Afine a sua viola
Vamos entrar em duelo
Só com a minha presença
O senhor está amarelo.

Riachão

— Vejo um vulto tão pequeno
Que nem o posso enxergar
Julgo que nem é preciso
Nem a viola afinar
Pela ramagem da árvore
Vê-se o fruto que ela dá.

Negro

— Riachão isto é frase
De homem muito atrasado
Porque são vistos fenômenos
Que na terra se têm dado:
Uma cobra tão pequena
Mata um boi agigantado.

Riachão

— Meu riacho pela seca
Dá cheias descomunais
Na correnteza das águas
Descem grandes animais
Jibóias, surucujubas
E jaguares a mais.

Negro

— O jaguar rende-me culto
A serpente aos meus pés morre
No que chegar minha ira
Só um poder o socorre
Eu digo ao rio: “Pare ai!”
A água para e não corre.

Riachão

—Você não é Josué
Que mandou o sol parar
Esse parou três dias
Para a guerra acabar
Nem Moisés que com a vara
Fez o mar também secar.

Negro

— Faço tudo que quiser
Minha força é sem limite
Os feitos por mim obrados
Não vejo homem que os cite
Eu determino uma coisa
Não há força que a evite.

Riachão

— Salomão também fazia
O que queria fazer
Por meio de mágica ou química
Quis segunda vez nascer
Mas em vez do nascimento
Conseguiu ele morrer.

Negro

— Salomão facilitou
Confiado na ciência
Encaminhou tudo bem
Mas faltou-lhe a paciência
Se não fosse aquele erro
Tinha tido outra existência.

Riachão

— Eu necessito saber
Onde é seu natural
Porque não sei se o senhor
Tem nascimento legal
De qual nação é que vem
Se procede bem ou mal.

Negro

— Você vem interrogar-me
Eu lhe interrogo também
Diga para onde vai
E de qual parte é que vem
Se é solteiro ou casado
Diga que profissão tem?

Riachão

— Não tenho superior
Sou filho da liberdade
E não conto minha vida
Pois não há necessidade
Porque não sou foragido
Nem você é autoridade.

Negro

— É preciso advertir-lhe
Fazer-lhe observação
Me trate com muito jeito
Cante com muita atenção
Veja que não se descuide
E passe o pé pela mão.

Riachão

— E para cantar repente
Já estou muito habilitado
Conheço algumas matérias
Sou um pouco adiantado
Tive estudo quatro anos
Me considero letrado.

Negro

— Sou professor de matérias
Que sábio não as conhece
A lei que dito no mundo
O próprio rei obedece
Meus feitos são conhecidos
A fama se estende e cresce.

Riachão

— Você diz que tem ciência
Dê-me uma explicação
Se a Terra faz movimento
De quem é a rotação?
Por que é que em 12 horas
Há uma transformação?

Negro

— O sol não é quem se move
Este é fixo em seu lugar
A Terra está sobre eixos
Os eixos a fazem rodar
Que por essa rotação
Faz a luz do sol faltar.

Riachão

— Descreva o grande mistério
Que entre nós a Terra tem:
De que é formada a chuva
Em que estado ela vem
É criada aqui por perto
Ou em um lugar além?

Negro

— A água em estado líquido
Por meio de abaixamento
Que há na temperatura
E pelo resfriamento
Essa água é condensada
Ajudada pelo vento.

A corrente atmosférica
De uma montanha elevada
Que ajuda a temperatura
Forma nuvem condensada
Do vento movendo as nuvens
É disso a chuva formada.

Que essa chuva depois
Que toda a terra ensopar
Por meio da evaporação
Torna ao espaço voltar
Reproduzindo o processo
Que acabei de lhe tratar.

Riachão

— O senhor conhece bem
Este país brasileiro?

Negro

— Ora, respondeu o negro
Eu conheço o estrangeiro
Desde o córrego mais pequeno
Até o maior ribeiro.
Por exemplo o Amazonas
Que extrema com o Pará
O Pará com o Maranhão
Piauí com o Ceará
E assim todos mais outros
Se alguém duvida é ir lá.

E se qualquer um daqui
Pretendendo viajar
Até o Rio de Janeiro
E não querendo ir por mar
Eu lhe ensino o caminho
Ele vai sem se vexar.

Riachão

— Como fez esta viagem
Onde se encontra caminho?
Lugar de uma só morada
Sem haver mais um vizinho
Tanto que em muitos lugares
Não anda homem sozinho.

Negro

— Pode qualquer um sair
Do Açu ao Mossoró
Querendo pode passar
Na cidade de Caicó
Subir pela margem esquerda
Do rio do Seridó.

Riachão disse consigo
Esse negro’ é um danado!
Esse saiu do inferno
Pelo demônio mandado
E para enganar-me veio
Em um negro transformado.

Disse o negro: — Meu amigo
Não queira desconfiar
Garanto que o senhor
Não ouviu bem eu cantar
Na altura que eu canto
Outro não pode chegar.

Riachão

— Vá na altura em que for
Riachão lhe respondeu
Remexa todos os livros
Que o senhor aprendeu
Eu não conheço esse ente
Que cante mais do que eu.

Negro

— Você ficará sabendo
O peso de um cantador
Quando me vir outra vez
Me trate de professor
Render-me-á obediência
Conhecerá meu valor.

Riachão

— O senhor diga o seu nome
Eu quero lhe conhecer
Pois só assim posso dar-lhe
O valor que merecer
Em tudo que você diz
Ainda não posso crer.

Negro

— Você sabendo eu quem sou
Talvez que fique assombrado
Superior a você
Comigo tem se espantado
Os grandes de sua terra
Eu tenho subjugado.

Riachão

— Eu canto há dezoito anos
Há vinte toco viola
Sempre encontro cantador
Que só tem fama e parola
Quando canta meio-dia
Cai nos meus pés, no chão rola.

Negro

— Eu já canto há muitos anos
Não vou em toda função
Arranco pontas de touro
Quebro o furor do leão
Nunca achei esse duro
Que para mim tenha ação.

Riachão

—Garanto que de hoje em diante
O senhor tem que encontrar
A força superior
Que o obrigue a se calar
Porque eu boto o cerco
Quem vai não pode voltar.

Negro

— Manoel tu és criança
Só tens mesmo é pabulagem
Vejo que falar é fôlego
Porém obrar é coragem
Juro que de agora em diante
Não contarás mais vantagem.

Riachão

— Meu pai chamava-se Antônio
Seu apelido era Rio
De uma enxurrada que dava
Cobria todo baixio
Secava em tempo de inverno
Enchia em tempo de estio.

Negro

— Conheci muito seu pai
Que vivia de pescar
Sua mãe era tão pobre
Que vivia de um tear
Seu padrinho tomou você
E levou-o para criar.

Riachão

— Onde mora o senhor
Que a meu avô conheceu?
Que eu nem me lembro mais
Do tempo que ele morreu
E você está parecendo
Muito mais moço que eu.

Negro

— Eu sei o dia e da hora
Que nasceu seu bisavô
Chamava-se Ana Mendes
A parteira que o pegou
E conheci muito o frade,
E vi quando o batizou.

Riachão

— Bote sua maca abaixo
Conte sua história direito
Da forma que você conta
Eu não fico satisfeito
Como ver-se um objeto
Antes daquilo ser feito?

Negro

— Seu bisavô se chamava
Apolinário Canção
Era filho de um ferreiro.
Que o chamavam Gavião
Sua bisavó Lourença
Filha de Amaro Assunção.

Riachão

— Mas que idade tem você?
Que me faz admirar?
Conheceu o meu bisavô?
Eu não posso acreditar
Assim nestas condições
Me faz até desconfiar.

Negro

— Seu bisavô e avô
Foram por mim conhecidos
Seu pai, sua mãe e você
Antes de serem nascidos
Já estavam na minha nota
Para serem protegidos.

Riachão

— Que proteção tem você?
Para proteger alguém
Sua pessoa e os trajes
Mostram o que você tem,
A sua cor e aspecto
Esclarecem muito bem.

Negro

— Eu protejo você tanto
Que o defendi de morrer
Você se lembra da onça
Que uma vez quis lhe comer?
Que apareceu um cachorro
E fez a onça correr?

Riachão

— Me lembro perfeitamente
Quando a onça me emboscou
Que já ia marcando o salto
Que um cachorro chegou
A onça correu com medo
Eu não sei quem me salvou.

Negro

— Pois foi este seu criado
Que viu a onça emboscá-lo
Eu chamei por meu cachorro
Para da onça livrá-lo!
Se lembra quando você
Ouviu o canto de um galo?

Riachão

— Eu me lembro disso tudo
Porque assim foi passado
Mas que idade tinha eu
Quando esse caso foi dado?
Eu era tão pequenino
Que meu pai teve cuidado.

Negro

— Você tinha nove anos
Foi caçar um novilhote
Se entreteve com umas flores
Que tinha lá no serrote
A onça foi esperá-lo
Para lá soltar-lhe o bote.

Riachão disse consigo:
— De onde veio esse ente
Que de toda minha vida
Conhece perfeitamente?
Esse será o diabo
Que está figurando gente?

Negro

— O senhor pergunta assim
De que parte venho eu
Eu venho de onde não vai
Pensamento como o seu
Eu saí do ideal
Primeiro que apareceu.

Riachão

— Agora acabei de crer
Que tu és o inimigo
Te transformaste em homem
Para vir cantar comigo
Mas eu acredito em Deus
Não posso correr perigo.

Negro

— Ainda não lhe ameacei
Nem pretendo ameaçá-lo
Estou pronto a defendê-lo
Se alguém quiser atacá-lo
Em minha humilde pessoa
Tem um pequeno vassalo.

Riachão

— Não quero saber de ti
Porque tu és traidor
Desobedeceste a Deus
Sendo Ele o Criador
Fizeste traição a Ele
Quanto mais a um pecador.

Negro

— Riachão amas a Deus
Sendo mal recompensado
Deus fez de Paulo um monarca
De Pedro um simples soldado
Fez um com tanta saúde
Outro cego e aleijado.

Riachão

— Se Deus fez de Paulo um rei
Porque Paulo merecia
Se fez de Pedro um soldado
Era o que a Pedro cabia
Se não fosse necessário
O grande Deus não fazia.

Negro

— O teu vizinho e parente
Enricou sem trabalhar
Teu pai trabalhava tanto
E nunca pôde enricar
Não se deitava uma noite
Que deixasse de rezar.

Riachão

— Meu pai morreu na pobreza
Foi fiel a seu Senhor
Executou toda ordem
Que lhe deu o Criador
E foi uma das ovelhas
Que deu mais gosto ao pastor.

Negro

— Arre lá! lhe disse o negro
Você é caso sem jeito!
Eu com tanta paciência
Estou lhe ensinando direito
Você vê que está errado
Faz que não vê o defeito.

Riachão

— É muito feliz o homem
Que com tudo se consola
Posso morrer na pobreza
Me achar pedindo esmola
Deus me dá para passar
Ciência e esta viola.

O negro olhou Riachão
Com os olhos de cão danado
Riachão gritou: — Jesus
Homem Deus Sacramentado!
Valha-me a Virgem Maria
A Mãe do Verbo Encarnado!

O negro soltando um grito
Ali desapareceu
De uma catinga de enxofre
A casa toda se encheu
Os cães uivavam na rua
O chão da casa tremeu.

Riachão ficou cismado
Com o cantor desconhecido
Que quando encontrava um
Tomava logo sentido
O seu primeiro repente
Era a Deus oferecido.

Essa história que escrevi
Não foi por mim inventada
Um velho daquela época
Tem ainda decorada
Minhas aqui só são as rimas
Exceto elas mais nada.

3 pensou em “GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO DE PELEJA

  1. Pedro Malta, sua coluna um primor. Como sempre.
    Hoje especialmente porque relembrou a fígura ímpar de “seu” Zé Lucas, com quem convivi por uma semana inteira. Ele auditor no Banco do Brasil e eu menor aprendiz da agência de Acary.
    Seu Zé Lucas era de uma sensibilidade sem igual.

  2. Voltei, Pedro, para dizer que há uns trinta dias mais ou menos, relembrei com saudades a fantástica figura de “seu” Zé Lucas.
    Naquele momento publiquei em meu Facebook:

    PARA O DIGNO

    Seu José Lucas de Barros
    Hoje acordei com saudade
    De sua inteligência
    De sua simplicidade
    De toda sua sua alegria
    De sua trova e poesia
    De sua boa vontade.

    De sua capacidade
    E de sua mansidão
    De sua voz sempre calma
    Vinda do seu coração
    Do seu sorriso singelo
    Do seu espírito belo
    E de apertar sua mão.

    Onde você estiver, mestre, receba meu abraço.

    (Jesus de Ritinha de Miúdo).

  3. Meu caríssimo poeta,
    Fiquei mais feliz em poder trazer ao destacado amigo a lembrança do inesquecível José Lucas de Barros.
    Fraterno abraço
    Malta

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