MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O LEVIATÃ TROPICAL E A ARTE DE ARRECADAR SEM ENTREGAR

O Estado brasileiro é uma criatura curiosa. Não é exatamente um Estado moderno, tampouco um Estado arcaico: é um híbrido barroco, exuberante na forma, confuso na função e voraz na arrecadação. Ele não governa — administra o próprio inchaço. Não planeja — reage. Não serve — exige. Seu talento mais refinado não é a eficiência, nem a justiça social, nem o desenvolvimento sustentável. Seu verdadeiro dom é outro, muito mais sofisticado: extrair recursos da sociedade com a elegância de um elefante numa loja de cristais — e depois explicar, com ar professoral, que a culpa é do contexto internacional. O Estado brasileiro gosta de ser grande para arrecadar, mas, é notavelmente pequeno quando chega a hora de entregar. Grande para tributar, miúdo para educar; obeso para cobrar e anêmico para devolver. É um Leviatã tropical que devora impostos com apetite pantagruélico e, ao final, arrota planilhas, discursos e promessas recicladas.

A alquimia fiscal: transformar suor em fumaça

Aqui, o cidadão trabalha como se fosse suíço; paga impostos como se fosse escandinavo, mas recebe serviços como se estivesse num experimento sociológico malsucedido. O dinheiro entra — isso entra.

Entra pelos impostos diretos, indiretos, ocultos, embutidos, disfarçados, empilhados, cumulativos e criativos. Entra no pão, na luz, no remédio, no transporte, no simples ato de existir. Respirar no Brasil é quase um fato gerador. E depois… ele evapora. Evapora em estruturas inchadas, em cargos redundantes, em consultorias etéreas, em programas mal desenhados, em obras eternamente inacabadas — verdadeiros monumentos à procrastinação institucional. Se a física permitisse, o Brasil já teria criado o primeiro buraco negro fiscal, onde tudo entra e nada, absolutamente nada, retorna.

O discurso oficial: a liturgia da desculpa eterna

Quando questionado, o Estado não se constrange. Pelo contrário: ele explica. Explica que:

• o problema é a herança do passado;
• o passado é sempre recente;
• o futuro exige sacrifícios;
• e o sacrifício, curiosamente, nunca é dele.

O cidadão é convocado a compreender, colaborar, contribuir e calar. Afinal, segundo a teologia estatal, o imposto é um ato de fé: você paga hoje acreditando que, um dia, talvez, quem sabe, algo volte — nem que seja sob a forma de um discurso emocionado em cadeia nacional.

Eficiência? Não exageremos.

A ideia de eficiência no Brasil costuma causar certo desconforto institucional, como se fosse um conceito estrangeiro, exótico, quase indecoroso. Aqui, eficiência soa suspeita. Planejamento assusta. Avaliação de resultados ofende. Mérito causa urticária. O Estado prefere o conforto do improviso permanente. Improvisar permite errar sem culpa, gastar sem controle e explicar sem consequências. É o eterno “estamos trabalhando nisso”, frase que no Brasil equivale a um mantra budista: não resolve nada, mas acalma quem diz.

O pacto silencioso (e perverso)

Forma-se então um pacto implícito:

• o Estado finge que governa,
• o cidadão finge que acredita,
• e ambos seguem exaustos.

Só que o cansaço não é simétrico. O Estado engorda; o cidadão emagrece. O Estado acumula poder; o cidadão acumula boletos. O Estado fala em justiça social; o cidadão faz contas no supermercado com uma calculadora emocionalmente devastada.

Conclusão: uma supernova mal resolvida

O problema não é apenas econômico.

É moral, estrutural e civilizacional. Um Estado que cresce sem entregar não é protetor — é parasitário. Um governo que arrecada sem eficiência não é social — é predatório.

E uma sociedade que normaliza isso acaba vivendo num eterno estado de sobrevivência tributária. O Brasil não precisa de mais impostos. Precisa de menos retórica, menos gigantismo, menos fome arrecadatória — e infinitamente mais responsabilidade. Até lá, seguimos: o planeta girando, o Universo indiferente, e o cidadão brasileiro pagando — sempre pagando — para sustentar um Leviatã que confunde grandeza com peso.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

ANO NOVO: O GRANDE FESTIVAL DA PROMESSA IMPROVÁVEL

Chega dezembro ao fim, e com ele essa curiosa suspensão da realidade que acomete a humanidade entre o dia 26 e a primeira ressaca de janeiro. É um período em que pessoas absolutamente normais — algumas até inteligentes — passam a acreditar que a simples troca de um número no calendário tem poderes metafísicos de redenção moral, reorganização existencial e milagres comportamentais instantâneos. O Ano Novo, essa entidade abstrata e injustamente responsabilizada, transforma-se no grande bode expiatório da preguiça acumulada, da falta de disciplina crônica e, sobretudo, da ausência completa de autocrítica ao longo dos últimos doze meses.

De repente, todos vão mudar. É comovente. E profundamente falso.

O sujeito que passou o ano inteiro odiando acordar cedo jura, de taça de espumante na mão, que agora “vai correr todas as manhãs”. Não porque goste de correr, claro — mas porque viu um reel de alguém correndo ao nascer do sol, com legenda motivacional e trilha épica. O corpo continua o mesmo; a ilusão é que ganhou tênis novo. A criatura que nunca abriu um livro que não tivesse capa plastificada promete que “este ano vou ler mais”. Nunca especifica o quê, quando ou por quê. Ler mais virou um conceito metafísico, não uma prática concreta. Um ideal platônico da estante: bonito de longe, intocado de perto.

Há também o clássico voto da dieta. Esse é antigo, quase litúrgico. Come-se como um romano decadente até o dia 31 à noite e, à meia-noite, ocorre o milagre da conversão nutricional. A lasanha vira pecado. O pão, um inimigo moral. O açúcar, uma traição à pátria. Tudo isso dura, com sorte, até o dia 7 de janeiro — quando alguém descobre que força de vontade não se fabrica em promoções de fim de ano. Não podemos esquecer o voto financeiro:

“Agora vou me organizar.”

Dito pelo mesmo indivíduo que não sabe onde foi parar o salário de novembro, mas que conhece perfeitamente o limite do cartão. Organização financeira, nesse contexto, significa esperar que o universo colabore.

E há, claro, a promessa mais ambiciosa de todas:

“Este ano vou ser uma pessoa melhor.”

Melhor como?

Mais paciente? Menos arrogante? Mais honesta consigo mesma?

Não importa. O conceito de “pessoa melhor” permanece convenientemente vago, porque vaguidão é o melhor esconderijo para a inércia. Sem critérios, não há fracasso — apenas uma sensação difusa de que “ainda não deu tempo”. O que ninguém admite — porque estraga a festa — é que o problema nunca foi o ano velho. Nem o signo. Nem Mercúrio. Nem a energia do universo. O problema é muito menos místico e muito mais prosaico: mudar dá trabalho, e trabalho exige constância, silêncio, repetição e desconforto — tudo aquilo que não rende postagem bonita. O Ano Novo, no fundo, virou um ritual de autoengano coletivo. Uma missa laica em que se confessa sem arrependimento real, promete-se sem intenção prática e absolve-se antes mesmo do primeiro erro. É uma forma elegante de adiar a responsabilidade para fevereiro, março… ou para “quando as coisas melhorarem”.

Mas há uma verdade inconveniente, dessas que não combinam com fogos de artifício: quem não mudou numa terça-feira qualquer de abril dificilmente mudará num domingo festivo de janeiro.

Mudança real não faz barulho. Não usa roupa branca. Não brinda à meia-noite.

Ela começa num dia comum, sem plateia, sem anúncio, sem promessa grandiosa — e, sobretudo, sem necessidade de justificar-se para ninguém.

Talvez o gesto mais revolucionário deste Ano Novo seja não prometer nada.

Ou melhor: prometer pouco, calado, e cumprir no anonimato.

Isso sim seria verdadeiramente novo.

Mas, claro…

Não fica tão bonito na foto.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O MENINO QUE ACORDAVA AS ESTRELAS

Era 1986.

O mundo parecia grande demais para um garoto de quinze anos, e ainda assim, pequeno diante do céu que se derramava, imenso, sobre a antiga Escola Agro-Técnica Federal de Belo Jardim, no agreste pernambucano. O vento cortava a madrugada com aquele frio seco e mineral que só o interior conhece. A escola dormia, mas ele — não. Porque naquela noite o Universo tinha prometido um encontro.

Maurino acordou antes das três.

O silêncio era tão profundo que parecia escutar a própria pulsação da Terra. Pegou o binóculo simples — era quase infantil diante da vastidão que o aguardava — e saiu devagar, sentindo o cheiro do mato úmido, a respiração da noite e aquela pontada de arrebatamento que só quem tem alma cósmica pode compreender. O céu estava limpo.

De um azul tão escuro que tocava o preto absoluto.

A Via-Láctea atravessava o firmamento como uma estrada de poeira divina, e ali, entre estrelas frias e quentes, entre gigantes azuis e anãs veladas, entre espectros e abismos, ele buscava um viajante antigo, um mensageiro da eternidade: o cometa Halley.

A cada vez que aproximava o binóculo do rosto, era como se abrisse uma porta.
E quando finalmente o viu — tênue, difuso, quase tímido, mas ali — sentiu que algo dentro de si se deslocava. Não era alegria infantil. Não era surpresa de estudante. Era revelação. Era elã. Era o sentimento secreto de quem descobre, de repente, que a própria alma não nasceu para se limitar a um único mundo. Ali, naquele ponto perdido do agreste, um adolescente solitário conversava com um cometa. E o cometa respondeu. Os dias naquela escola não eram fáceis.

A distância da família, a saudade dos pais, o peso silencioso das responsabilidades precoces — tudo se acumulava como poeira no peito. Era um tempo em que crescer doía, e em que sentir demais parecia um tipo de crime silencioso. Havia quem o achasse estranho. E era mesmo — graças a Deus. Enquanto uns se protegiam na normalidade, ele se refugiava no infinito.

Ali, entre provas, dificuldades e medos nunca revelados, duas figuras surgiram como faróis no meio da neblina: Germano, o mestre da Química, sério, meticuloso, íntegro; e Dagmar, o mago da Física, que via nas equações um modo de decifrar a respiração do universo. Eles olharam para aquele garoto magro, introspectivo, apaixonado pelo céu, e viram potencial.

Instigaram. Incentivaram. Abriram portas. Sopram-lhe coragem para ir além do que a vida imediata oferecia. Sugeriram a Física Nuclear — não como obrigação, mas como destino. E ele acreditou. Porque havia, dentro dele, um núcleo ardente, uma vontade de compreender o indizível, de enfrentar o desconhecido, de tocar — nem que fosse com a ponta dos dedos — a textura do Universo. Mas crescer tem seus preços. E a vida, com a sabedoria dura que o tempo impõe, começou a exigir escolhas.

Houve recuos. Houve silêncio. Houve noites de medo. Houve dias de cansaço.

Recuar, porém, nunca foi desistir. Fraquejar? Sim: todos os seres humanos o fazem.

Desistir? Nunca. Isso não estava escrito na alma dele.

Os anos passaram.

Décadas inteiras, como labaredas sopradas pelo vento.

E aquele garoto de 1986 se tornou homem — forte, profundo, intuitivo, sensível e viril. Um homem que olhou o céu por dentro e por fora. Um homem que, mesmo carregando o peso das responsabilidades, preservou dentro de si uma chama antiga: a do menino que conversou com o Halley. Hoje, ao se aproximar dos cinquenta e cinco anos, ele olha para trás não com saudade, mas com reconhecimento.

Porque não perdeu nada.

Porque não desperdiçou nada.

Porque cada dificuldade o moldou.

Cada recuo foi estratégia.

Cada dor o fortaleceu.

Cada madrugada o ensinou que o Universo sempre responde quem ousa chamá-lo pelo nome.

O garoto permanece vivo.

O homem permanece digno.

E a história — a sua história — ainda está longe do fim. Porque alguns homens nascem para caminhar na Terra. Mas outros, poucos, raros… nascem para caminhar entre as estrelas.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A MÃE DO IDIOTA ESTÁ SEMPRE GRÁVIDA

Há frases que, de tão precisas, deveriam ser esculpidas em mármore e colocadas na entrada de todas as repartições públicas, parlamentos, assembleias, escolas, fóruns e — por que não? — nas portas das redes sociais, esse grande manicômio global sem muro nem enfermeiro.

Entre elas, a velha sentença que costuma circular como advertência e lamento:

“A mãe do idiota está sempre grávida.”

O mundo, afinal, parece uma imensa maternidade onde a cada hora nasce mais um cidadão determinado a provar que a ignorância é hereditária, multiplicável e, sobretudo, impávida.

Vivemos numa era em que a burrice deixou de ser um acidente e se tornou carreira, com direito a seguidores, hashtags, discursos inflamados e lives diárias em que o intelecto é frito em óleo grosso.

A Ciência fala — e é vaiada. Os fatos gritam — e são ignorados. Os especialistas alertam — e são chamados de elitistas, conspiradores, globalistas e todas as demais palavras terminadas em “-ista” que os imbecis colecionam como se fossem figurinhas de álbum.

E o mais fascinante: o idiota moderno não é apenas teimoso; ele é missionário.
Quer converter o planeta inteiro à sua gloriosa devoção ao nada.

O Idiota e a Política: Uma História de Amor doentio

Políticos? Ah, esses são apenas o capítulo intermediário da epopeia. A verdadeira genialidade está no eleitor que vota sem ler, sem pensar, sem saber, mas com a convicção fervorosa de um profeta. Ele não escolhe representantes — ele escolhe espelhos. E assim acaba elegendo exatamente aquilo que mais teme: versões ampliadas de si mesmo.

Depois reclama. Protesta. Bate panela. Publica textão. Mas na urna, age com a profundidade de um pires rachado.

O idiota político não deseja debate — deseja barulho. Não quer soluções — quer slogans. Não busca governança — busca guerra, desde que travada em comentários de internet, onde coragem é barata e coerência é supérflua.

O Idiota Anticiência: A Espécie Mais Barulhenta da Criação

Toda geração teve seus tontos, mas a atual tem um diferencial competitivo: Wi-Fi.
A internet deu megafone aos que, outrora, só tinham direito a falar com quem estivesse sentado na mesma mesa de bar e bêbado o bastante para ouvir. Agora os negadores da Ciência florescem como fungo em ambiente úmido.

Eles rejeitam vacinas, mas rezam para curas milagrosas. Negam a esfericidade da Terra, mas confiam no GPS do celular. Chamam pesquisadores de mentirosos, mas acreditam cegamente em vídeos feitos num porão com uma lâmpada queimada. Esses não apenas duvidam da Ciência — eles se ofendem com ela, como se a gravidade fosse um insulto pessoal.

O Fanático: Guardião do Nada com Orgulho

Há também aquele tipo raro, o fanático por bobagens — o gladiador da irrelevância. Ele se apega a detalhes minúsculos, a ídolos de papelão, a querelas medíocres e as defende com a ferocidade de um cão velho guardando um osso já sem gosto. Para esse, o debate não é exercício de razão — é exercício de fé. E fé mal direcionada, como sabemos, produz desastres: alguns históricos, outros apenas cômicos, mas todos igualmente inúteis.

E Enquanto Isso… a Mãe do Idiota Continua em Trabalho de Parto

A Terra gira, o Sol nasce, o Universo expande-se e, pontualmente, mais um idiota vem ao mundo acreditando que traz revelações inéditas, verdades revolucionárias, teorias inéditas que já foram refutadas antes mesmo de ele nascer. E a mãe dele — essa entidade metafórica e eterna — segue grávida, serena, prolífica, garantindo que a espécie continue, que a burrice se renove e que o espetáculo jamais acabe. Afinal, se o mundo fosse habitado apenas por pessoas sensatas, críticas, racionais… — talvez fosse um lugar melhor, sim. Mas, reconheçamos: seria infinitamente menos divertido testemunhar o absurdo cotidiano. E assim continuamos, equilibrando-nos entre a lucidez e a paciência, enquanto a humanidade segue em fila indiana para o berçário universal:

“Próximo! Mais um idiota recém-nascido! Pesa três quilos e já veio com opinião formada.”

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

OS GÓTICOS DO MEIO DIA

Há histórias que parecem ter sido escritas pela mão caprichosa do destino; outras, pela ironia do universo; e algumas, raras, só podem ter sido compostas por um romancista bêbado que tropeçou nos próprios delírios.

A que vou narrar pertence ao último grupo.

Era meados de 2006, em Arcoverde-PE — esse enclave sertanejo onde o sol não nasce: ele incendeia.

O calor não é uma condição climática; é uma sentença metafísica. Ali, a luz não ilumina: ela interroga.

E foi sob esse holofote solar que ocorreu o mais improvável espetáculo do ultra-romantismo tardio da história brasileira.

Eu, professor de Literatura, recém saído de uma aula sobre o Ultra-Romantismo — essa febre sombria que transformou jovens sensíveis em cadáveres imaginários — caminhava em direção à rua, quando, como numa epifania teatral, a cena se abriu diante de mim.

Dois jovens. Dois espectros.

Dois personagens que pareciam ter emergido diretamente das páginas de Álvares de Azevedo, mas com um detalhe que faria o próprio poeta descer do além para pedir uma explicação:

Eles estavam usando sobretudos pretos no Sertão, ao meio-dia.

Sobretudos, meu amigo. Em Arcoverde. Com o sol derretendo placas tectônicas. E não parava aí: Botas pretas; Camisas pretas; Lábios pretos; Unhas pretas; A pele branca ganhando um brilho quase radioativo sob a luz inclemente. Era como se dois vampiros decaídos tivessem sido deportados para uma penitência tropical.

Quase dava para ouvir o sol rindo deles.

Eu, naturalmente, aproximei-me com o espanto de quem encontra Byron perdido num açude, e perguntei — com toda a simplicidade de quem ainda acredita que o mundo faz algum sentido:

— O que significa isso?

E então veio a resposta.

A resposta que não deveria existir.

A resposta que nenhum escritor ousaria inventar.

A resposta que coloca essa história no panteão das grandes narrativas humanas:

“Somos góticos.
Vamos ao cemitério ouvir música clássica nas sepulturas.”

Meus amigos… ali, naquele exato instante, o Ultra-Romantismo renasceu.

Não nas cortes europeias, não nos salões iluminados por velas, não nos poemas sobre tuberculose e amores impossíveis: mas no coração incandescente de Pernambuco, no bairro mais improvável, sob o sol assassino.

Era o triunfo da contradição.

Era o triunfo da estética sobre a lógica.

Era a celebração da adolescência enquanto teatro absoluto.

E, então, eu senti, uma mistura de espanto, riso, ternura, incredulidade e vontade de dizer:

“Meus filhos, cuidem-se.
Até os mortos suariam nesse calor.”

Mas havia, ali, naquelas botas escaldantes e naquelas caras pintadas de treva em pleno meio-dia, uma beleza estranha — a beleza de quem leva a sério aquilo que não faz o menor sentido. Uma fidelidade à própria fantasia que, de tão absurda, torna-se quase poética. Porque somente o ser humano é capaz dessas façanhas: vestir o imaginário como quem veste uma armadura, desafiar o sol com sobretudo, e transformar um cemitério em sala de concerto.

Somente o homem — esse animal trágico, lírico e ridículo — poderia decidir que a vida será gótica, mesmo que o calor diga o contrário.

E eu testemunhei isso.

Uma cena tão improvável que só se conta depois de anos — e ainda assim com a sensação de que é preciso um pouco de coragem para admitir que, sim, o Sertão já teve seus vampiros solares.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A GRANDE ÓPERA DA FALSIDADE

Uma Denúncia Implacável das Festas de Fim de Ano

Há quem diga que dezembro é o mês da luz, da esperança, da fraternidade. Balela. Dezembro é, na verdade, o grande palco onde a humanidade exibe — com orgulho quase comovente — sua capacidade infinita de fingir. É quando a sociedade, já exausta de suas próprias contradições, resolve maquiar-se com purpurina emocional e interpretar, com a profundidade de uma poça d’água, o papel de “ser humano elevado pelas virtudes do natal”.

Uma pantomima coletiva que faria até os deuses gregos gargalharem de pena.

A súbita conversão dos medíocres

É fascinante observar como, no último mês do ano, os mesmos que passaram janeiro a novembro praticando grosserias, indiferença, veneno social e mesquinharia passam por uma metamorfose tão improvável quanto duvidosa.

Do nada, tornam-se anjos barrocos:

— “Feliz Natal, querido!”
— “Que Deus te abençoe!”
— “O importante é o amor!”

Dezembro transforma canalhas em santos de gesso, e hipócritas em poetas de cartão de shopping.

É a única época do ano em que pessoas tóxicas distribuem abraços — como se o calor humano que negaram durante meses pudesse ser compensado com um tapinha nas costas e um sorriso forçado.

As ceias — templos da falsidade refinada

E lá vão todos, vestidos de branco, como se a cor pudesse purificar suas intenções. Sentam-se à mesa para uma refeição que ninguém quer realmente compartilhar, mas todos fingem apreciar. Convive-se durante essas horas com parentes que se evitou o ano inteiro, respondem-se perguntas idiotas com paciência postiça e ri-se de piadas tão mortas quanto o peru da véspera. É uma liturgia tão teatral que faria Shakespeare pedir arrego.

O velho de barba branca — símbolo máximo da alienação sazonal

E no centro desse circo moral está ele: o venerável Papai Noel, uma figura tão logicamente absurda quanto emocionalmente conveniente.

Um velhinho gordo, vestido de lã em pleno calor tropical, que dirige um trenó voador puxado por renas possivelmente alucinadas.

Esse personagem simboliza, com perfeição, o nível de fantasia necessária para sustentar a farsa coletiva.

Afinal, é preciso crer em alguma coisa para justificar toda essa performance artificial — e nada mais apropriado do que um mito importado, descolado de qualquer realidade.

A fé adaptada às conveniências

E como se já não bastasse, o calendário ainda insiste em celebrar um nascimento que — historicamente — não ocorreu no mês celebrado.

Mas aceitar fatos nunca foi o forte dos entusiastas das festas de fim de ano. O importante é a encenação. A aura artificial. O verniz de “espiritualidade”. Não importa que o homenageado provavelmente reprovaria 90% dos excessos cometidos em seu nome.

A verdade incômoda — e inegável

Toda essa farofa emocional serve a um propósito simples: fingir que somos melhores do que realmente somos.

Dezembro é o momento em que a humanidade tenta corrigir, em poucos dias, um ano inteiro de descaso, preguiça moral e egoísmo institucionalizado.

É a estação da hipocrisia em flor. Mas há quem observe tudo isso com a tranquilidade dos que não caem na farsa. Aqueles que preferem a solitude honesta a uma festa ruidosa; o silêncio inteligente a uma conversa vazia; um copo de whisky verdadeiro a um brinde falso. Esses — poucos, raros e lúcidos — sabem que dezembro não é sagrado, iluminado ou transformador. Dezembro é apenas um mês quente demais, barulhento demais, teatral demais e insuportavelmente hipócrita. E que, quando passa, deixa-nos apenas um alívio imenso: o de saber que não precisamos participar do espetáculo grotesco da “bondade temporária” jamais.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O BRASIL E O LABIRINTO DA POLÍTICA DESUMANA

Há no Brasil uma engrenagem silenciosa, vasta e pegajosa, que gira muito antes da chegada de qualquer governante e continuará girando muito depois da partida de todos eles. Não se trata de esquerda, direita, centro, progressistas, conservadores ou de qualquer rótulo que a polarização histérica insiste em fabricar. Trata-se de algo mais profundo, mais arraigado e mais perverso: um sistema político concebido para sobreviver a despeito do povo — e não por causa dele.

O problema do Brasil nunca foi a falta de discursos. Discursos sobram. São abundantes, inflamados, revestidos de boas intenções e embalados na sedução fácil da esperança. O problema é que o discurso político brasileiro é, por natureza, um monumento à desumanidade, porque promete humanidade, mas opera na lógica fria da autopreservação.

O sistema político nacional tornou-se um labirinto onde a verdade perde a voz e a mentira ganha gabinete. A moral é elástica, o interesse público é retórico, e o poder se tornou um fim em si mesmo — não uma ferramenta. Quando a política deixa de servir ao povo para servir aos seus próprios operadores, ela se transforma em uma máquina desumana, indiferente, insensível e voraz.

O Ciclo Vicioso do Nada

O Brasil vive, há décadas, um mesmo ciclo repetitivo:

— escândalo → indignação popular → promessas de mudança → eleição → frustração → novo escândalo.

Este processo circular não é coincidência; é método.

É a prova de que o sistema não se renova: ele apenas se rearranja.

A cada quatro anos, troca-se a paisagem, mas a arquitetura permanece idêntica. São os mesmos vícios, as mesmas estruturas, as mesmas brechas legais, a mesma incapacidade crônica de priorizar o essencial. Políticos mudam; o sistema permanece tão intocado quanto uma rocha, e tão frio quanto ela.

A Política da Aparência

Há uma teatralidade no Brasil que transforma a política em espetáculo. Debates viram arenas de gladiadores, não de ideias. Projetos de lei se tornam armas de marketing. Votações se convertem em palcos. O discurso político se distancia da realidade concreta e se aproxima da dramaturgia:

— atores ensaiados,
— falas decoradas,
— narrativas prontas,
— indignações calculadas.

Enquanto isso, o cotidiano da população se deteriora nos becos, nos corredores dos hospitais, nas salas de aula esquecidas, nas estradas esburacadas.

O país real sangra; o país político posa para fotos.

O Estado Mastodonte

Criamos um Estado tão grande, tão lento, tão pesado e tão burocrático, que ele próprio se tornou incapaz de atender às demandas que promete resolver. A máquina estatal brasileira consome mais energia para manter-se de pé do que para servir. É um organismo que respira por aparelhos, alimentado por impostos que drenam o suor da sociedade para sustentar uma estrutura que raramente devolve na mesma proporção.

O povo financia um colosso que o ignora.

E esse é o ponto: o sistema político brasileiro é desumano porque é indiferente.

A Falácia da Representação

Fala-se muito em “representatividade”. Mas o que significa representar um povo que não participa, não é ouvido, não é considerado? A maior falácia do sistema político brasileiro é dizer que representa o cidadão quando, na prática, representa interesses de grupos, lobbies, alianças, acordos subterrâneos e barganhas eternas.

O cidadão comum é lembrado apenas quando vota — e esquecido imediatamente depois.

A representatividade no Brasil é decorativa.

A democracia existe no papel; no cotidiano, ela é um simulacro.

A Corrupção Não é o Problema — É o Sintoma

A corrupção no Brasil não é um acidente, não é um desvio isolado, não é obra deste ou daquele partido. Ela é o efeito natural de um sistema que cria incentivos para a prática e punições tímidas para quem a comete. Focar apenas na corrupção é focar no sintoma e ignorar a doença: a desumanização da política.
É fácil culpar indivíduos; é difícil encarar estruturas.

O Cansaço Nacional

O brasileiro está cansado.

Cansado de promessas.
Cansado de discursos.
Cansado de indignação seletiva.
Cansado de narrativas que mudam, mas práticas que persistem.
Cansado de ser massa de manobra, combustível eleitoral, estatística ambulante.

Esse cansaço não é apatia; é dor.

É a percepção de que o país poderia ser gigante, mas é mantido no chão por correntes invisíveis.

A Urgência da Humanidade

O que falta ao sistema político brasileiro não é uma ideologia milagrosa.
Não é um salvador da pátria.

Não é uma mudança de cor partidária.

O que falta é humanidade.

É a capacidade de olhar para o outro e reconhecer sua dignidade.
É a coragem de colocar o bem comum acima do cálculo eleitoral.
É a ética como princípio, e não como marketing.

Quando uma política deixa de ser humana, ela deixa de ser política e se torna mera gestão de poder.

O Brasil vive exatamente isso.

Conclusão: o Adjetivo que Condena

Se fosse possível resumir toda a falência moral e estrutural do sistema político brasileiro em um único adjetivo, seria este:

Desumano.

Porque desumano é tudo o que nega o outro, ignora o sofrimento, se alimenta da desigualdade e prospera com a injustiça.

E, enquanto não houver um movimento profundo — cultural, ético, estrutural — que recoloque o ser humano no centro da política, o sistema continuará sendo exatamente o que sempre foi: um labirinto sem saída, onde o povo é o único que não encontra a porta.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O HOMEM E O ESPELHO DO ABISMO

Há no homem uma centelha divina e uma sombra abissal. Desde que se ergueu sobre duas pernas e contemplou o firmamento, ele passou a travar uma guerra íntima entre o impulso de criar e o impulso de aniquilar. É o único ser que contempla as estrelas e, ao mesmo tempo, fabrica as armas capazes de apagá-las da memória dos olhos.

Nenhum outro animal concebe a própria destruição com método e cálculo. O tigre mata por instinto; o homem, por argumento. O escorpião fere quando ameaçado; o homem, por ideologia. O instinto natural é breve, o humano é racionalizado. Ele planeja o caos, projeta o colapso e, em nome de uma ideia, arrasta consigo gerações inteiras.

Somos a espécie que descobriu o fogo e, em seguida, construiu o inferno.

A inteligência, esse presente divino, converteu-se em faca de dois gumes. O mesmo engenho que ergueu catedrais, lançou telescópios e decifrou o DNA é aquele que desenhou Auschwitz, Hiroshima e Chernobyl. A mente humana, sedenta de transcendência, muitas vezes se perde na vertigem da onipotência. Queremos ser deuses — e, por isso mesmo, criamos o demônio à nossa imagem.

O abismo não está fora; habita-nos. A cada avanço tecnológico, cresce a sombra do uso que dele faremos. Não há neutralidade nas mãos que tocam o poder. Toda invenção humana é, em si, um espelho: reflete tanto a luz do engenho quanto a escuridão da intenção. A bomba atômica é, talvez, o símbolo supremo dessa dualidade — fruto da mais alta matemática e da mais baixa moralidade.

Somos capazes de criar mundos inteiros dentro de uma tela, mas incapazes de sustentar um olhar compassivo diante da miséria. Criamos redes que unem continentes, mas isolam consciências. A ciência progride em saltos quânticos, e a alma retrocede em abismos morais.

O Homo sapiens tornou-se o Homo contradictorius — sábio e estúpido, criador e verdugo, artista e algoz.

E, no entanto, há algo de sublime nesse conflito.

Porque é justamente nele que reside a possibilidade da redenção.

O horror só é possível porque ainda resta no homem a noção de que há limites — o “embrulho no estômago”, a náusea diante do abismo. Essa reação visceral é o último vestígio de humanidade pura, o sinal de que a consciência não morreu.

Nietzsche alertou: “Quando olhas longamente para o abismo, o abismo olha de volta.” E o homem, fascinado, fixou o olhar. Há séculos fitamos essa escuridão e começamos a reconhecermo-nos nela. Talvez o segredo não seja fugir, mas encará-la com lucidez, reconhecendo o monstro para que ele não nos possua.

A monstruosidade cresce no silêncio da negação; diminui na luz do reconhecimento.

Em cada criação humana pulsa um dilema: servir à vida ou à morte.

A arte é a resposta mais alta à tentação do niilismo. Cada sinfonia é um grito contra o caos; cada poema, uma barricada contra o vazio. A verdadeira ciência é irmã da humildade — quando busca compreender o cosmos, e não dominá-lo. Mas quando o saber se converte em arrogância, o homem deixa de ser criador e passa a ser carcereiro do próprio destino.

Há uma ironia trágica em nossa condição: construímos templos para os deuses e, no mesmo gesto, projetamos a ruína deles. Queremos a eternidade, mas agimos como se o amanhã fosse descartável.

Somos a espécie que inventou o conceito de “futuro” e, paradoxalmente, trabalha para destruí-lo.

E, ainda assim, contra toda evidência, persiste a chama.

Porque, em meio às ruínas, o homem continua criando — e talvez aí resida sua salvação. Criar é negar o nada. É resistir. É afirmar, diante da morte, que ainda há sentido.

Enquanto houver quem compõe uma música, escreve um verso, observa uma estrela, ou acolhe um cão sem dono, o mundo ainda não está perdido.

A destruição é obra de muitos; a criação, de poucos.

Mas é desses poucos que a história se reergue. São eles — os poetas, os sábios, os compassivos — que sustentam o delicado equilíbrio entre o apocalipse e o amanhecer.

O homem é o único animal que chora diante da beleza e, no entanto, empunha a foice contra ela. Mas é também o único que, ao fitar a própria ruína, pode dizer: “basta”. Enquanto houver esse poder — o de interromper o gesto destrutivo e escolher o gesto criador —, há esperança.

A humanidade caminha à beira do abismo.

Mas enquanto houver um olhar capaz de se comover, ainda haverá caminho.

E talvez seja exatamente esse limite — essa náusea ética, esse horror diante do horror — que nos separa do colapso.

A espécie que pode destruir-se por completo é também a única que pode, por decisão moral e consciência, escolher não fazê-lo.

E nisso, paradoxalmente, reside a nossa grandeza.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

COP30: O GRANDE TEATRO DO DESVIO CLIMÁTICO

Veio o grande circo. Palco da esperança ecológica, cartaz publicitário da salvação do planeta — e, no entanto, encenado com luxo, privilégio e inconsistência. A COP30 ergueu-se prometendo salvar a Amazônia, domar o aquecimento global, restaurar a justiça climática. Mas o que vemos, nas entrelinhas da propaganda, é o espetáculo dos desvios — de finalidade, de prioridades, de honestidade.

1. A hipocrisia estrutural

Os delegados chegaram para discutir emissões-zero e descarbonização enquanto as emissões globais continuavam a subir. Os anfitriões brasileiros anunciaram ser “a COP na Amazônia”, símbolo de sustentabilidade — e, simultaneamente, avalizaram leilões de exploração de óleo e expansão de infraestrutura que favorecem o agronegócio e os combustíveis fósseis.

O discurso: “Defender a floresta, proteger o clima”. A prática: reuniões em navios-cruzeiro, hotéis sobrecarregados, taxas de estadia para países pobres maiores que toda a contribuição de alguns para a própria conferência.

2. O custo da exclusão

Uma das grandes piadas desta COP30 é a ideia de “inclusão global”. Mas como incluir quando se exige das delegações diárias de US $ 700 ou mais por noite — enquanto muitos países vulneráveis têm orçamentos reduzidos à míngua?

A cidade-sede, Belém, com 18.000 leitos para estimados 45.000 participantes — problema logístico grave? Sim. Mas grave sobretudo é serem os países mais atingidos pelas mudanças climáticas aqueles que ficam de fora porque “não cabem” no orçamento do espetáculo.

Assim, a salvação do planeta vira convenção de ricos — ou convenção que só incluem aos que podem pagar.

3. Distorção da finalidade: espetáculo versus ação

O que esta COP mais entrega: painéis, discursos, compromissos que soam grandiosos, frases de efeito. Mas onde está a alocação concreta de fundos, a limitação real das emissões, a supervisão eficaz das metas? Os relatórios mostram que apenas 25 países haviam submetido suas novas contribuições nacionais (NDCs) antes da COP30.

Dito de outra forma: chegamos à COP para “salvar o clima”, mas sem que o mecanismo global tenha equilibrado de fato a balança entre promessa e execução. Enquanto isso, a energia predatória segue em ascensão, os combustíveis fósseis seguem financiados, os lucros dos grandes atores permanecem intactos.

4. Luxo, ostentação e descompasso moral

Enquanto o mundo clama por moderação de carbono, se inaugura infraestrutura própria para acomodar delegações: navios-cruzeiro como hotéis temporários, iates e barcos transformados em “soluções de alojamento” — alusão grotesca ao “vamos debater o clima enquanto navegamos no símbolo do luxo”. Para muitos, a COP30 tornou-se o palco do que o comentarista chamou de “climate greenwashing deluxe”, traduzido ao pé da letra como “lavagem verde climática de luxo.”

Não é mero detalhe: é metáfora da falência ética daquilo que deveria ser o mais sério compromisso coletivo da humanidade.

5. O resultado previsível: esperanças perdidas

Há pouco mais que retórica. O cronograma global de US $ 300 bilhões anuais até 2035 foi anunciado no COP29, mas qual o mecanismo concreto para cumprir? Tendências mostram que a ambição falha e que o cronograma será estendido ou recuado.

Enquanto isso, o relógio climático não espera.

Conclusão: O Despertar ou o Acordar Tardio

A COP30 podia ser um monumento de viragem — mas corre o risco de ser apenas mais um símbolo de impotência, com rostos famosos, discursos eloquentes e almoços nababescos, mas sem mudanças reais. A hipocrisia não está nas intenções, nem sequer sempre nos indivíduos. Está na “estrutura”. (Leia-se aqui, o desgoverno). Quando a finalidade original — “reduzir emissões, proteger os vulneráveis, reconstruir a justiça” — se transforma em “login em viagem internacional, encontro de elites, protocolo diplomático”, o resultado não podia ser diferente: espetáculo sem substância.

É hora de exigir que resumam menos, façam mais. Que não se reservem iates e navios-cruzeiro para debater justamente, modo de vida sustentável. Que países vulneráveis tenham assento de verdade, não ingresso de luxo. Que promessa signifique execução, e que metas inalcançáveis deixem de ser promessa de marketing.

Porque se o grande encontro global para “salvar o clima” não for credível, será apenas parte do problema — e não da solução.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A VERGONHA LÚCIDA DOS QUE AINDA AMAM O BRASIL

Há uma vergonha que não vem da covardia, mas da lucidez. Uma vergonha que não é a negação da pátria, e sim o desgosto de quem a enxerga por inteiro — sem filtros, sem slogans, sem o truque sentimental barato do verde-amarelismo de ocasião. É a vergonha de quem ama o Brasil, mas não suporta mais vê-lo desmentir-se todos os dias com a pontualidade de um relógio suíço e a desfaçatez de um carnaval fora de época.

Há uma vergonha que não nasce do ódio, mas do amor.

É a vergonha dos lúcidos, dos que ainda enxergam beleza onde a maioria vê apenas lama. A vergonha de ser brasileiro não é vergonha da terra, do povo, da língua ou da música — é a vergonha de ver um país tão vasto em talento e alma ser conduzido por mentes tão pequenas.

É a vergonha de quem observa, com o olhar cansado, a transformação do discurso público em feira de vaidades, em teatro grotesco, onde se confundem humor e cinismo, simplicidade e ignorância, carisma e demagogia.

Enquanto o Brasil pulsa sob um sol de ouro e música, lá em cima, nos palcos do poder, encena-se a tragédia da mediocridade: o riso fácil, o discurso vulgar, a piada de boteco disfarçada de diplomacia. E quem pensa, quem sente, quem ainda exige grandeza — se recolhe envergonhado, não por ser brasileiro, mas por ser brasileiro demais para suportar o rebaixamento constante do espírito nacional.

Essa vergonha não é covarde; é o contrário. É o eco de um amor não correspondido.

É o grito silencioso dos que sabem que o Brasil podia ser imenso — culturalmente, moralmente, espiritualmente — e, no entanto, insiste em tropeçar nas próprias sandálias, rindo da própria ruína.

Mas há algo de nobre nessa vergonha. Porque ela é o último sinal de que ainda há lucidez, ainda há esperança, ainda há quem queira ver o país de pé — limpo, digno, adulto.

Ter vergonha do Brasil é, paradoxalmente, amar o Brasil de forma mais pura: sem ilusões, sem bandeirinhas, sem slogans, apenas com o desejo de vê-lo enfim tornar-se aquilo que prometeu ser.

Ser brasileiro, hoje, é viver num eterno dilema entre a ternura e o náusea. É amar a música, o idioma, o povo, o céu, e ao mesmo tempo sentir vergonha das criaturas que, por acidente histórico e voto distraído, ocupam o poder. É ver um país de João Gilberto, Guimarães Rosa e Santos Dumont ser representado por bufões que tratam diplomacia como conversa de botequim e tragédias geopolíticas como rodadas de chope.

Vivemos numa república em que a ignorância não é mais um defeito — é um estilo de governo. O populismo tornou-se virtude, a improvisação virou método, e o “deixa comigo que eu resolvo tomando uma cerveja” virou doutrina de Estado. O país parece viver numa crônica de Nelson Rodrigues reescrita por um roteirista da Praça é Nossa.

E o mais espantoso: há quem bata palmas. Há quem chame de “espontaneidade”. Há quem veja genialidade onde há apenas a mais primária das indigências intelectuais.

Não há nada mais trágico do que ver a mediocridade aplaudida de pé.

E nós, que ainda temos a ousadia de pensar, somos tomados por essa vergonha antiga, que é quase amor em estado de desalento. Porque não odiamos o Brasil – odiar seria fácil.

Nós o amamos demais para suportar vê-lo assim, ajoelhado diante de sua própria caricatura.

O brasileiro lúcido é uma figura trágica: ele olha o país e sente, simultaneamente, orgulho e repulsa.

Orgulho pela arte, pela inteligência difusa nas esquinas, pela generosidade do povo anônimo.

Repulsa pelos discursos vulgares, pelas frases de efeito que soam como arrotos de boteco, pelo uso da ignorância como plataforma eleitoral.

É um eterno “sim, mas…” — um amor que se desculpa por existir.

O pior é que o Brasil se acostumou à piada.

A política virou stand-up; a seriedade, ofensa; o pensamento, um luxo supérfluo.

E enquanto os que leem, estudam, refletem e trabalham se recolhem — meio envergonhados, meio exaustos —, o país se diverte com a própria ruína.

Afinal, rir sempre foi o disfarce nacional para o desespero.

Mas há uma elegância silenciosa na vergonha.

Ela é o último resquício da decência.

É a confissão de que ainda há quem espere mais, quem exija mais, quem queira ver o país de pé, limpo, sóbrio e digno.

A vergonha lúcida é, paradoxalmente, o último sinal de esperança — o suspiro dos que não desistiram, mas já não se iludem.

O Brasil é uma promessa que insiste em não cumprir-se.

E nós, os envergonhados, somos os únicos que ainda acreditam que, talvez um dia, ele cumpra.

Até lá, seguimos — com o copo na mão, a ironia nos lábios e a lucidez nos ombros —, brindando àquilo que o Brasil poderia ter sido, se não insistisse tanto em ser apenas o que é atualmente: uma República Banânica.